A Secularização da Fé

Pr. Douglas Reis

Quando ativistas cristãos alertam sobre a secularização de setores da sociedade, a tendência dos cristãos é se mobilizarem, imaginando ter que fazer alguma coisa externa, em diferentes níveis: séries evangelísticas visando a alcançar os “perdidos”, seminários para melhor compreensão dos desafios à mensagem evangélica, eventos de entretenimento “gospel”, engajamento político, etc. Poucos se preocupam em notar os efeitos do fenômeno da secularização em suas respectivas congregações; entretanto, dificilmente os crentes poderão causar impacto na sociedade com sua mensagem característica, caso se encontrem debilitados em razão dos efeitos do que vem acontecendo com a religião no século 21. Apresentamos três resultantes da secularização e uma possível resolução para reverter esse processo:

1) A compartimentalização da experiência religiosa. Ao ser disseminada a filosofia naturalista e com o advento dos valores da modernidade, a espiritualidade ficou desvinculada da rotina das pessoas; assuntos ligados à religião foram relegados a uma esfera à parte.

Com isso, muitos cristãos vivem semelhantemente às demais pessoas em seu trabalho, no ambiente acadêmico, na esfera social e até mesmo no seio familiar. O momento de reflexão religiosa se restringe, muitas vezes, ao ato de assistir ao culto (um novo paradigma em relação à antiga postura, que exigia a participação no culto, e não somente como mera reflexão).

A devoção pessoal, quando tem lugar na vivência, é vista como reflexão desconexa das decisões diárias no mundo prático, ou seja, trata-se de uma obrigação religiosa. Simplesmente, a mensagem da fé não possui relevância no mundo real.

2) A espetacularização da experiência religiosa. Na tentativa de proporcionar uma renovação da dinâmica do culto, novas alternativas têm despontado no cenário religioso, entre as quais cultos em que a música religiosa recebe maior ênfase; vale dizer que essa música possui caráter próximo das canções populares, além de letras simples, facilmente memorizáveis, ainda mais se levando em conta o caráter repetitivo das melodias.

Todavia, para além do aspecto formal das músicas, a própria liturgia dá espaço para a interação, que ocorre quando o membro realiza coreografias, ou manifestações corporais espontâneas, como gesticulação, levantar de mãos, bater de palmas, pulos, gritos intercalados, síncopes, glossolalia (falar sons desconexos), êxtase místico, etc. Alguns pontos são mais enfatizados do que outros, de acordo com a orientação denominacional.

A figura principal nesses cultos costuma ser a do líder religioso, que atinge o auditório através de uma atuação performática, usando recursos teatrais, carisma pessoal e se impondo como autoridade religiosa possuidora da unção divina.

Tudo isso, fora o caráter numioso[*] frequente em grande parte dos movimentos místicos, que recebe uma “injeção” de modernidade, com inserção de psicologia popular e promessas de “vitória” no campo material.

3) A automatização da experiência religiosa. O uso extensivo de recursos tecnológicos, como áudiovisual, play-backs nos momentos musicais e projeção de vídeos durante as preleções, têm um aspecto dúbio. Por um lado, o emprego de novas tecnologias torna atraente a apresentação do Evangelho, empregando uma abordagem mais didática e atualizada. No entanto, não há dúvida de que a participação de indivíduos acaba suprimida por testemunhos gravados, hinos projetados, vídeoconferências, entre outros. Assim, surge uma realidade em que o membro mais assiste do que atua propriamente no culto (conforme já havíamos mencionado).

A transmissão de cultos (ao vivo ou editados) por algum tipo de mídia contribui para que a pessoa se torne um espectador descompromissado, atraído pelo alto nível da programação, qualidade que se torna um substituto para a frequência aos cultos, considerados menos atrativos.

Em grande parte, a secularização consiste em fazer uma releitura crítica do cristianismo ocidental, banindo elementos religiosos anteriores, embora tencione conservar os benefícios gerais trazidos pela religião cristã. O antídoto para isso é caminhar na direção inversa: endossar os aspectos geradores das estruturas religiosas (e até sociais) através da base bíblica.

Um efeito colateral inevitável será a reformulação de doutrinas das diversas tradições cristãs que não coadunam com preceitos bíblicos. Nenhum cristão deveria se intimidar diante dessa perspectiva, uma vez que determinada denominação ou tradição teológica não pode suplantar a importância dos documentos bíblicos quanto à formação de uma visão de mundo.

Outrossim, as Escrituras forneceram a base para expandir a experiência religiosa, tornando-a fonte de direcionamento para todas as áreas da vida; também nas Escrituras a simplicidade do culto, não preocupado com cerimônias ou sensacionalismo, fornece referência para eventos cúlticos atuais; finalmente, a teologia bíblica dos dons favorece a participação comunitária, em lugar do mecanicismo impessoal (o que não significa total descarte do aparato tecnológico).

Quando o Cristianismo redescobrir seu livro-texto, a Bíblia, aplicando-a às áreas em que se mostra deficiente, terá condições de superá-las, vencendo a própria secularização em seu campo. Expandindo a metáfora (baseada nos campeonatos de futebol), faltará aos cristãos conquistar outra vitória “fora de casa” contra o secularismo: a batalha na sociedade pós-moderna.


[*] Em 1937 Jung escreveu sobre o numinoso (do latim “numen”, divindade) como “uma instância ou efeito dinâmicos não causados por um ato arbitrário da vontade. Pelo contrário, ele arrebata e controla o sujeito humano, que é sempre antes sua vítima que seu criador. O numinoso – indiferentemente quanto a que causa possa ter – é uma experiência do sujeito independentemente de sua vontade. … O numinoso é tanto uma qualidade pertinente a um objeto visível como a influência de uma presença invisível que causa uma peculiar alteração da consciência” (CW 11, parág. 6). (voltar)


Fonte: Publicado originalmente no blog Outra Leitura