Minha Voz Fica Estranha Quando é Gravada!

Musicalização, Percepção Musical, Sonorização, Técnica Vocal e Fisiologia — 7 de agosto de 2013 11:29 am

por: Levi de Paula Tavares

Você já ouviu sua voz gravada em algum vídeo ou no telefone e se assustou com a diferença? Achou que nem era você?

Há muitas razões pelas quais a nossa voz soa diferente quando é gravada. O ponto mais importante é que os sons alcançam nossos ouvidos internos de duas maneiras diferentes. Uma delas é a forma como ouvimos a nossa própria voz e outra é a maneira como ouvimos todos os outros sons. Isto afeta a nossa percepção acerca de nossa própria voz, em comparação à forma como outras pessoas percebem a nossa voz.

Quando falamos, o som viaja de nossas cordas vocais e outras estruturas, diretamente para ouvido interno, e as partes moles da nossa cabeça como os tecidos, líquidos e o próprio cérebro atenuam as frequencias mais agudas, enquanto os ossos reforçam as frequencias graves. Essas vibrações se misturam com as ondas sonoras que viajam por via aérea externa da boca para o tímpano, dando à nossa voz sua qualidade em geral – um timbre mais profundo, mais encorpado – que ninguém mais ouve. Então, a voz que ouvimos quando falamos é a combinação de um som produzido ao longo de dois caminhos: vibrações internas e externas.

Quando ouvimos uma gravação de nós mesmos falando, a condução por via óssea, que é parte daquilo que consideramos como nossa voz “normal”, é eliminada, estamos ouvindo a nossa voz apenas através do ar, sem a interferência dos ossos, tecidos, líquidos, etc. É um som mais agudo, mais infantil, um timbre completamente diferente daquilo que estamos acostumados a ouvir como a “nossa voz”. Porém, é essa nossa voz real, a voz que os outros reconhecem como nossa. Por isso, para nós a voz parece diferente, mas para os outros, a nossa voz continua igual. É possível experimentar o efeito inverso, tampando os ouvidos para ouvir apenas as vibrações produzidas internamente nos ossos e outras estruturas.

“O som que estamos acostumados a ouvir tem uma frequência mais grave por causa da vibração dos ossos”, diz o professor de audiologia da Universidade de Vanderbilt, Bem Hornsby. “Nós gostamos disso porque soa rico e completo. Muitas pessoas se assustam com o som da reprodução, porque o nosso cérebro precisa fazer um esforço para aceitar que esta voz estranha é a nossa própria”.

Outra razão pode ser o caminho pelo qual o som passa ao ser gravado. A voz vai soar diferente, porque está passando por vários equipamentos como microfones, pré-amplificadores, mídias de gravação e dispositivos de reprodução. Alguns microfones são projetados para reproduzirem exatamente o que é ouvido pelo ouvido humano, enquanto outros não são. Isso pode estar relacionado com o preço, mas também com o tipo de utilização para o qual o microfone foi projetado. Só porque um microfone custa 3.000 dólares, isso não significa que foi feito para reproduzir de forma exata a voz humana, mas existem microfones de 20 dólares que possuem tecnologia sofisticada o bastante para produzir este efeito.

A gravação em um volume muito alto também poderá causar distorções e a voz será reproduzida de forma estranha. É sempre muito mais fácil aumentar o volume de um som depois de gravado, e muito difícil eliminar a distorção de um som captado incorretamente depois que a gravação está feita. A maioria dos pré-amplificadores ou softwares de gravação possuem mostradores com uma linha vermelha ou uma barra de luzes que ajudam a manter o nível de ganho durante a gravação em cerca de 75% deste limite, o que permite uma certa folga.

Microfones também captam o som do ambiente. Se a sala possui muitas superfícies que podem vibrar em ressonância ou refletir sons, esses sons também serão captados. Essas superfícies incluem mobiliário, paredes, outras pessoas, ou seja, qualquer coisa que possa refletir sons.

A voz vai soar diferente se estamos muito perto ou muito longe do microfone. Quando estamos muito perto do microfone ocorre o chamado efeito de proximidade, que aumenta e distorce o som. Além disso, ao falarmos determinadas consoantes, produzimos uma corrente de ar que se desloca rapidamente, e pode causar um estalo no microfone, quando estamos gravando. Este é o chamado efeito “puff” ou “pop”. Filtros especiais e técnicas de dicção podem ser usados para minimizar isso.

Todas estas questões explicam por que a nossa voz soa tão estranha em uma gravação, como se fosse a voz de outra pessoa. Devemos levar em conta que o timbre da nossa voz, que ouvimos todos os dias através da nossa própria cabeça, é nosso velho conhecido e considerado como normal para nós. Porém, essa mesma voz, com um timbre diferente, é normal para as outras pessoas que estão acostumadas a ouvirem a nossa voz apenas através do ar.

Estamos tão acostumados a um timbre familiar para nós que, quando uma gravação é tomada, uma percepção distorcida de nossa própria voz é retratada. Nossa “voz normal” é removida e ouvimos nossa voz da mesma maneira que os outros a ouvem. É possível que não gostemos do som real da nossa voz, porque é muito diferente do som com o qual estamos familiarizados. Embora a entonação esteja certa, o timbre é completamente estranho para nós; porém, as outras pessoas reconhecem imediatamente aquela voz como sendo nossa.

A maioria das pessoas acredita que todos tratam e sentem certos assuntos da mesma forma que elas, uma vez que todos nós somos ensinados mais ou menos da mesma maneira, até certo ponto. Porém, se formos capazes de aprender como as outras pessoas usam seus sentidos com relação a nós mesmos, podemos identificar muitas diferenças. Essas diferenças contribuem para a nossa diversidade de personalidades e pensamentos. Somos todos diferentes uns dos outros, ao utilizar nossos sentidos de maneiras únicas como, por exemplo, na interpretação de sons.

Quando ouvimos a gravação da nossa voz, a normalidade com a qual estávamos acostumados é eliminada e olhamos para a nossa voz a partir de uma perspectiva diferente. Se pudéssemos olhar para as situações a partir de um ponto de vista diferente, seríamos mais capazes de adaptar-nos e aprender. Aprender que a nossa voz realmente soa de uma maneira diferente demonstra como nosso mundo pode avançar em direção a um futuro promissor, tendo abordagens diferentes para situações difíceis.


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