Quando o Hino é “Próprio”?

por: E. Margaret Clarkson [1]

(O presente artigo é uma adaptação de um ensaio da autora, redigido pela Revista Adventista)

Escrever um hino é olhar na face de Deus, acolher Sua vontade e cantar Sua graça.

Os hinos são uma expressão do culto. São o feliz e grato reconhecimento do homem a um Deus digno de ser adorado, um Deus Todo-Poderoso, a sua confissão de que reconhece a Deus como seu Criador, e de curvar-se diante de um Deus transcendente. Os hinos são ainda uma celebração daquilo que Deus é, e daquilo que Ele tem feito: cânticos de louvor, de agradecimento, e de alegria em Deus. Os cristãos cantam hinos porque Deus é digno de ser louvado.

Se um hino é uma expressão do culto digno a Deus, uma afirmação da fé cristã, um significado de ensino da verdade bíblica e ainda mais um testemunho da experiência cristã pessoal, segue-se que a letra de um hino é da maior importância. São as palavras de um hino que decidem seu valor. A música é meramente a moldura em que as palavras deverão ser experimentadas; seu propósito é fortalecer e permitir a mensagem das palavras. O melhor tono de um hino é o que melhor ilumine o seu contexto. Com este entendimento em vista, vamos sugerir seis características de um “bom hino”.

1. Bons hinos são centralizados em Deus, não no homem. O bom hino reverencia a eterna Divindade pelo que ela é; adora a Deus por Sua santidade, sabedoria, poder, justiça, bondade, misericórdia e verdade. Louva-O por Seus poderosos atos – pela criação, preservação, redenção; por Sua guia, provisão, proteção; pela esperança da glória. O hino apropriado oferece a súplica adequada a seu tema. O bom hino é livre de introspecção; focaliza-se em Deus, não no homem. Quando o homem entra em seu contexto é para reconhecer as trevas de sua pecaminosa natureza à luz de tão excelso Deus, e assim buscar Sua misericórdia, e maravilhar-se e rejubilar-se em Sua graça redentora.

2. Bons hinos são fiéis à verdade teológica. Muitos hinos em uso comum hoje contêm inverdades teológicas, embora sejam cantados por congregações que facilmente descobririam tais erros no sermão do pregador. Por exemplo, a carga sentimental que acompanha determinados hinos que falam da cruz, jamais salvará alguém; nossa fé deve estar no Cristo da cruz em Sua morte, ressurreição, exaltação e atual ministério em nosso favor – e nossos hinos devem dizê-lo. A igreja deve estar mais atenta a isto. Erik Routley, em Himns Today and Tomorrow, editado em 1964, diz que um hino é uma coisa persuasiva; ele nos faz sentir que o que diz é o que nós pensamos, e não apenas o que pensa o autor do hino. Diz ele:

“A disposição da congregação para com a correta fé ou para se afastar desta fé correta é sutilmente influenciada pelo habitual uso de hinos. Nenhuma influência em culto público pode tão seguramente conduzir a congregação ao desencanto consigo mesma, à busca de tolos derivativos, a perversões religiosas, como hinos escolhidos sem reflexão. Uma congregação, ao cantar, fica isenta de crítica, mas é importante o que ela canta, pois acaba por crer em seus hinos. Erros doutrinários em pregação poderiam ser notados, mas em hinos poderiam vir a ser cridos”.

Deveríamos examinar detidamente, com sobriedade, o teor teológico de nossos cânticos e hinos, e passar a usar somente aqueles que são fiéis às Escrituras. Existem em abundância hinos teologicamente saudáveis.

3. Bons hinos são doutrinários em seu conteúdo. O verdadeiro culto é tão inseparável das verdades fundamentais de nossa fé que muitos hinos, pelo menos até certo ponto, são exponenciais em sua natureza. E isto é bom.

Alguns pregadores são evangelistas ou pastores antes que expositores ou ensinadores; alguns insistem em determinadas doutrinas e negligenciam outras. Mas a congregação reunida em culto, servindo-se de hinos bons e próprios, pode ser constantemente instruída e beneficiada ao ter diante de si no conteúdo desses hinos que expõem as grandes verdades de nossa fé, renovado conhecimento dessas grandes verdades.

O conteúdo doutrinário de bons hinos deve ser fiel à experiência cristã bem como às Escrituras. Não devem descrever certas experiências emocionais que são hoje em dia lugar comum e que ocorrem, raramente, embora, a muitos cristãos. Bons hinos expressam os pensamentos e sentimentos da média dos crentes, e não os sentimentos de alguns super santos. Sua doutrina não é apenas bíblica, mas adequada aos que vivem na Terra, isto é, são práticas, e ajudando os adoradores a viver como devem viver os cristãos.

Os bons hinos não são míopes, mas têm correta visão. Bons hinos missionários, pois, abrangem todo o espectro do evangelismo, não se contentando em apenas “apresentar” este evangelismo, ou “levar a luz”, ou reconvocar os débeis porém necessários labores do homem. Antes, eles abarcam todo o grande propósito redentor de Deus, e se entregam a plena cooperação com Aquele que, Ele unicamente, pode edificar a igreja. Também o bom hino sobre oração não deve como que se derramar sobre a suavidade da hora, mas pôr em destaque a verdadeira natureza da oração e encorajar o adorador a se sacrificar em dedicado trabalho quando isto é requerido.

4. Os bons hinos têm palavras de beleza, dignidade, reverência e simplicidade. Quer se trate de suave exultação ou de singela declaração de confiança, o bom hino deve ser decoroso, preciso, e amorável em suas proferições. Sua linguagem é clara e concisa. Tais hinos jamais são chulos, ou pastosos, ou extravagantes ou sentimentais; eles são sempre fiéis. Falam de modo belo, sensível, impelente, e se atêm às coisas de Deus, nunca transpondo os limites do bom gosto.

Bons hinos são adultos nas palavras e no tono. Não insultam nossa inteligência pedindo-nos que cantemos verdades imortais de modo infantil ou irresponsável na expressão. Eles nada contêm que desvie ou dificulte o entendimento de um não crente, mas lhe falam com uma experiência profunda e sincera e vital em relação a Deus. Embora suas figuras de linguagem tenham significado para o adorador contemporâneo, estarão em harmonia com o dignificante culto divino.

5. Bons hinos revelam precisão e finura de expressão técnica e poética. Tais hinos, considerados bons, têm tema singelo e unidade orgânica. A poesia parte de um ousado ataque na linha de abertura, para definida progressão de pensamento até alcançar um clímax claro e decisivo. Rimas e ritmos são interessantes, originais e corretos. A métrica pode variar, mas será suficientemente conservadora de modo que possa ser musicada em tono singelo e adequado. A união entre palavras e música será acurada. Bons hinos serão breves o bastante para que possam ser cantados por inteiro, de modo que o ímpeto final de seqüência não se perca. Devem ser isentos de estribilhos irrelevantes ou chulos.

6. Bons hinos conduzem na direção do Céu. Hinos dignos promovem o júbilo da união dos crentes e comunhão dos santos. Os melhores autores de hinos têm reconhecido muito mais do que nós mesmos o reconhecemos, isto é, que o povo de Deus é uno. Eles encontram o seu lugar com a igreja universal, sofredora e militante, prontamente se identificando tanto com os santos do passado como com os de nossos dias. Hinos que revelam este teor falam muitas vezes ao íntimo da alma.

Em conclusão, bons hinos não são o resultado de desejos ou ambições, mas são o produto acabado da vida espiritual. São baseados não em sentimentos, mas em verdades eternas, centralizadas não no homem, mas em Deus.

Escrever um hino é fazer mais do que simplesmente usar determinadas técnicas. É olhar na face de Deus, adorar em Sua presença, acatar toda a Sua vontade, aceitar Sua cruz e viver diariamente sob Sua obediência; e então, havendo aprendido a disciplina de escrever corretamente, cantar a graça de Deus. Os verdadeiros escritores de hinos não têm antes de tudo procurado escrever hinos, mas antes conhecer a Deus. E uma vez tendo-O conhecido, não poderão senão cantar-Lhe louvores. Deles são os hinos que têm sobrevivido ao longo dos séculos e continuarão a viver no futuro. Precisamos de hinos desta espécie hoje, se nossa geração quiser contribuir de algum modo para o tesouro de cânticos e louvores da igreja na dignidade de seu culto.


Nota:

[1]Agradecemos à Loide Simon por esta contribuição ao Música Sacra e Adoração.


Fonte: Revista Adventista, Abril, 1981, pp.07-08.