Calvino e a Música de Igreja

por: Rolando de Nassau

Jean Calvin (1509-1564), um dos três Reformadores da igreja cristã, nasceu em Noyon (França), no dia 10 de julho de 1509. Em 1523, foi residir em Paris, onde estudou latim, humanidades e teologia. Em 1528 iniciou estudos jurídicos e da língua grega. Converteu-se à fé evangélica e lançou o movimento reformista na Suíça e na Alsácia. Em 1533, sugeriu ao reitor da universidade pronunciar um discurso favorável às teses de Martin Luther (1483-1546). Em seguida ao escândalo, Calvino fugiu para Basiléia (Suíça).

Em 1535, escreveu o prefácio do Novo Testamento, traduzido para o francês por Robert Olivétan. No ano seguinte, fez imprimir, em latim, a primeira edição de “Institution de la religion chrétienne”, que contém sua tomada-de-posição face ao canto eclesiástico, à música e à língua vernácula no culto. Calvino conheceu o canto de salmos rimados provavelmente na França, antes de começar sua obra de organização litúrgica e musical da Igreja Reformada (ver: Walter Blankenburg, Calvin.Die Musik in Geschichte und Gegenwart, vol.II, 1952).

Pouco tempo depois, Guillaume Farel (1489-1565) o convenceu a ir para Genebra (Suíça) a fim de organizar a Igreja Reformada e sua liturgia; foram expulsos em 1538. Exilado, então foi para Estrasburgo (Alsácia), onde exerceu o magistério teológico e o ministério pastoral entre os refugiados franceses (ver: Jean Rillet, Calvin.Paris: Fayard, 1963; Jean Boisset, Calvin. Paris: Seghers, 1964; Williston Walker, História da Igreja Cristã. São Paulo: ASTE, 1967).

Estrasburgo desempenhou considerável influência na hinodia reformada em língua francesa e tornou-se refúgio para os reformados perseguidos.

Calvino, que fazia restrições ao aspecto sacrificial da missa romana, baseou a ordem de culto da Igreja Reformada na liturgia de Estrasburgo, elaborada por Martin Bucer (ver: Bard Thompson, Liturgies of the Western Church. Philadelphia: Fortress Press, 1961).

Em Estrasburgo, ficou impressionado com o canto congregacional e coral alemão. Na Alemanha e em regiões de língua alemã (onde explodiu a Reforma luterana), cultivou-se a hinodia. Na França e na Suíça de fala francesa (onde teve origem a Reforma calvinista) foi dada preferência à salmodia. A partir de 1538, Calvino estimulou a criação de cânticos para a congregação, aproveitando material literário da época (“Deutsch Kirchenamt”, 1525; “Psalmen, Gebett und Kirchenübung”, 1526). Os Reformados da Alsácia começaram com “Aulcuns Psaumes et Cantiques mys en chant”, 1539, contendo seis salmos versificados por Calvino e 13 por Clément Marot (1496-1544), editados em Estrasburgo.

Calvino não era músico, mas apreciava e prestigiava os músicos.

Convidou grandes compositores do seu tempo (Marot, Bourgeois, Goudimel, Le Jeune) para compor melodias do Saltério de Estrasburgo (ver: Frank Gaebelein, The Pattern of God’s Truth. New York: Oxford Press, 1954).

Em 1541, retornou a Genebra; durante 14 anos enfrentou as autoridades civís e algumas famílias influentes de Genebra. Promoveu a paráfrase francesa dos Salmos, versificada, rimada e apresentada em estrofes. O salmo protestante é uma paráfrase em língua vernacular (não em hebraico ou em latim). Por sugestão de Calvino, foi composto por Marot o saltério “oficial” da Igreja Reformada, numa sutil tentativa de penetração do Calvinismo entre a nobreza da França. A segunda coleção, sob influência direta de Calvino, foi publicada em 1542, com 39 cânticos, sendo dois (Salmo 113 e o Credo) por Calvino e 32 por Marot.

Em 1543, Calvino expôs suas idéias sobre a música e o canto na liturgia, por meio de observações introduzidas em comentários bíblicos e homilias (ver: Edith Weber, La Musique Protestante de langue française. Paris: Honoré Champion, 1979).

No prefácio do Saltério, escreveu que “a música tem um poder secreto para mover os corações, por isso devemos ser mais diligentes em regulá-la”.

A edição de 1551, contendo 49 cânticos de Marot e 34 de Theodore de Béze (1519-1605), musicados por Louis Bourgeois (1510-1557), especialmente autorizada por Calvino, foi publicada em Genebra.

A parte literária do Saltério de Genebra completou-se em 1562. Essa edição foi um evento importante na história da salmodia protestante e do canto congregacional calvinista (ver: Pierre Pidoux, Le psautier huguenot du XVIè. siècle.Melodies et documents. Bâle: Barenreiter, 1969).

O padrão musical do Saltério foi confirmado na participação de Pierre Dagues, que elaborou as melodias para os remanescentes salmos versificados por Béze. Na edição de 1562, o Saltério continha 150 paráfrases, em língua franceas, dotadas de melodias. A partir de 1562, surgiram composições polifônicas destinadas a servir na luta contra a influência das composições profanas. Bourgeois estivera entre os compositores que procuravam a pureza da música religiosa (ver: Bernard Gagnepain, La musique française du Moyen-Age et de La Renaissance. Paris: Presses Universitaires de France, 1961).