Ellen White Era Contra a Bateria na Música Sacra? – Uma Resposta – Parte 06

O Uso da Percussão na Igreja Adventista desde 1900

O Uso da Percussão na Igreja Adventista desde 1900

Que a igreja repudiou por completo a heresia da Carne Santa, não há dúvidas. Mas qual foi a resposta da igreja em relação aos instrumentos musicais mencionados por Ellen White em sua visão, especialmente os tambores? Será que a Igreja Adventista baniu instrumentos de percussão depois da campal de Indiana em 1901 e só mais recentemente é que estes têm ressurgido na forma da bateria, em “desobediência” ao conselho divino?

Uma busca por referências à palavra “drums” nas publicações oficiais da igreja desde 1901 no Adventist Archives produz centenas de menções a percussão, tambores, címbalos, tímpanos e inclusive bateria, o que mostra que estes continuaram a fazer parte da música sacra de instituições, escolas e orquestras adventistas. Cito aqui alguns exemplos da União do Lago, onde floresceu a Carne Santa:

No Emmanuel Missionary College, atual Andrews University, os alunos tocavam tambores já em 1915, num culto de gratidão pela Lei Seca Americana.[lxxii] Orquestras rítmicas com címbalos, tambores, bateria, triângulos e castanholas também eram comuns em escolas adventistas de Michigan já na década de 1920-30.[lxxiii] Os tímpanos de orquestra que vimos acima são utilizados pelas orquestras de escolas adventistas na adoração desde o início da nossa obra educacional.

A Review and Herald tinha uma banda composta por funcionários que era usada em campanhas evangelísticas, cultos e concertos de música sacra e nacionalista desde o início do século.[lxxiv] O infame surdo, idêntico ao da Carne Santa, levava o nome Review and Herald Band (veja foto). O surdo também tem sido parte das fanfarras dos Desbravadores desde seu início em 1926, representando a juventude adventista em passeatas e marchas comemorativas.

O Uso da Percussão na Igreja Adventista desde 1900

Uma vez que o contexto desta discussão é a utilização da bateria nos cultos de adoração, notamos que o autor não realizou nos arquivos históricos da Igreja Adventista (24) a pesquisa que deveria ter sido realizada para o embasamento de seu ponto de vista, ou seja, uma busca a textos em que a palavra “drums” (tambores) esteja associada, de alguma forma, com a palavra “worship” (adoração). Quando fazemos esta associação, notamos que as referências são sempre desfavoráveis. Além disso, quando esta pesquisa associativa é feita aos arquivos do catálogo virtual do Ellen G. White Estate (05), vemos que as citações sempre estão no contexto da adoração pagã no tempo de Israel ou das manifestações carismáticas como de Indiana.

De qualquer forma, já havíamos afirmado acima que o problema não é o instrumento em si mas, principalmente, o estilo musical no qual esta classe de instrumentos é imprescindível e o efeito deletério causado sobre os adoradores (e, conseqüentemente, a própria adoração) através do uso deturpado dele. Qualquer exagero é condenável, inclusive o elevado volume da voz humana, e EGW se refere a isso (Evangelismo, pp. 507 e 508; Obreiros Evangélicos p. 357).

Além disso, já havíamos discutido que, no texto que estamos analisando, apesar de o tambor ser o único instrumento (ou classe de instrumentos, os membranofones) citado nominalmente, E. G. White estava advertindo contra um conjunto de coisas, que causava uma “balbúrdia de ruído“, uma “confusão de ruído e multidão de sons“, a qual “choca os sentidos e perverte aquilo que, se devidamente dirigido, seria uma bênção.” Portanto, o real problema é o estilo musical e o efeito deste conjunto de sons sobre os adoradores. Este ponto foi defendido anteriormente pelo articulista, com o qual concordamos, com nossas ressalvas que o tambor foi destacado pela própria E. G. White como peça chave desta manifestação. Aparentemente, este tipo de música deixou de ocorrer em nosso meio, já que E. G. White não volta a este tema.

Assim, parece-nos que a trilha argumentativa enveredada pelo articulista neste trecho do debate tem como finalidade específica demonstrar àqueles que consideram os tambores como pecaminosos e demoníacos “per se” que esta não é a visão da igreja como um todo. Esta linha argumentativa é fraca e sem sentido por, pelo menos, três razões:

Primeiro, este não é o ponto de vista de praticamente a totalidade daquelas pessoas que tenham uma postura no sentido de não aceitar a mistura do sagrado com o profano na adoração. As restrições oferecidas ao uso de membranofones na adoração têm a ver, basicamente, com: a) o estilo musical normalmente utilizado pelos instrumentistas, b) com a associação destes instrumentos a diversões mundanas e c) ao espírito normalmente incitado pela música resultante de sua utilização.

Segundo, nos pareceu que o debate tratava da postura de Ellen G. White sobre os tambores, conforme ela havia delineado em seus escritos, e não das práticas da igreja nos diversos países do mundo. Qual é, na verdade, o nosso modelo? Não seria a Bíblia, a Palavra de Deus acima de tudo; depois os escritos de Ellen G, White, esclarecendo e aplicando o conteúdo bíblico? Deveríamos passar a utilizar as práticas da igreja em outras culturas como modelo? Não seria isto uma total inversão de valores?

Terceiro, o fato de que publicações a igreja citem que esta classe de instrumentos foi utilizada no passado não é argumento válido para o estabelecimento de práticas na adoração na igreja Adventista. De outra forma, teríamos argumentos muito mais fortes, uma vez que são oriundos da própria Bíblia, para o estabelecimento da poligamia, da vingança de sangue, da disciplina eclesiástica envolvendo punições físicas – até mesmo a morte – do ofensor. Obviamente, é necessário compreender o contexto da citação e sua aplicação no “tempo e lugar“, ou seja, voltamos ao assunto da “exegese” e “eisegese”. Faremos abaixo uma análise dos textos citados como referência pelo articulista.

Existem duas questões que realmente precisam ser analisadas à luz do que temos discutido até aqui e são as seguintes: 1 – Que tipo de música os grupos citados pelo articulista faziam, utilizando-se destes instrumentos de percussão e qual seu efeito sobre os ouvintes? 2 – Estes grupos musicais utilizavam seus instrumentos de percussão na igreja, nos momentos do culto de adoração?

Porém, precisamos delimitar o período de tempo que será analisado, tendo em vista não apenas o desenvolvimento musical secular nos EUA como também a adoção, em décadas mais recentes, destes estilos seculares em nossas igrejas e instituições, em claro descompasso com os conselhos de Ellen G. White. Portanto, estamos considerando nesta análise o período desde 1900, ano da campal em Indiana, que é o foco deste debate, até o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Este evento bélico foi o catalisador de enormes mudanças sociológicas e filosóficas, as quais afetaram definitivamente a nossa cosmovisão, como igreja. Parece-nos que esta delimitação de período está de acordo também com os exemplos citados pelo articulista.

Com relação ao primeiro item, não obtivemos acesso a materiais de pesquisa específicos e detalhados sobre este grupo, que respondam definitivamente à questão do estilo musical, mas certamente é possível inferir alguns pressupostos com bastante segurança.

Deve ser notado que o Rock and Roll e seus estilos correlatos e derivados ainda não haviam surgido no cenário musical, o que ocorreria apenas na década de 1950. O jazz teve seus inícios a partir da década de 1920, mas certamente não adentrou em nossos templos, nem fez parte do repertório dos grupos de nossas instituições, a não ser muito mais tarde. Isto foi devido a dois fatores fundamentais: primeiro a visão histórica da igreja, ordenada por Deus para o Seu povo, de separação entre o sagrado e o profano, conforme podemos ver nos textos abaixo:

A conformidade aos costumes mundanos converte a igreja ao mundo; jamais converte o mundo a Cristo” (O Grande Conflito, p.509).

Deus nos tem dado, como um povo, advertências, reprovações e alerta por todos os lados, a fim de conduzir-nos para longe dos costumes e processos mundanos. Ele requer de nós que sejamos peculiares na fé e no caráter, a fim de alcançarmos uma norma mais avançada do que a dos que pertencem ao mundo.” (Conselhos Sobre Educação, p. 84)

Não imagineis poder misturar o santo e o profano. Isto tem sido feito no passado de modo tão constante que o discernimento espiritual dos professores ficou obscurecido, e eles não logram discernir entre o que é sagrado e o que é comum. Eles têm utilizado o fogo comum e têm-no apreciado, exaltado e louvado, e o Senhor tem-Se afastado com desgosto. Professores, não seria melhor fazer plena consagração de vós mesmos a Deus? Arriscaríeis vossa salvação num serviço dividido?” (Conselhos Sobre Educação, p. 145).

Segundo, devido à existência de um forte preconceito contra os estilos musicais característicos dos negros norte-americanos. Não podemos esquecer que estamos falando de um país que possuía uma legislação segregacionista, a qual esteve em vigor até 1963.

Também deve ser lembrado que a amplificação sonora estava em seus primórdios e muito poucas igrejas contavam com algum sistema de som. Portanto, qual seria o estilo musical adotado pela Heview and Herald Band, citada pelo articulista e qual seria o efeito desta apresentação sobre os ouvintes?

Pelas fotos que tivemos acesso através do site dos arquivos históricos da Igreja Adventista (24), o grupo em questão era formado principalmente de metais, possuindo ainda alguns poucos instrumentos do naipe das madeiras (algumas clarinetas e um saxofone) um bumbo e uma caixa militar. Pode ser notado, na foto abaixo, que todos os instrumentos do naipe de metais permitem a execução de melodias cromáticas, uma vez que possuem chaves (clique na foto para ampliar).

Tendo em vista que a banda pertencia a uma instituição eclesiástica, podemos pressupor que hinos fizessem parte de seu repertório. O fato da possibilidade de executar escalas cromáticas favorece este pressuposto, pois permitiria executar com facilidade as melodias e harmonias características dos hinos da época. Mas será que esta banda tinha o objetivo principal de tocar nos cultos de adoração? Vejamos a foto abaixo (clique na foto para ampliar):

A legenda da foto diz: “A vida não era apenas trabalho para os empregados da Review, que desfrutavam de atividades de recreação, tais como a Review and Herald Band à esquerda e o piquenique anual [do feriado] de Quatro de Julho, abaixo (foto omitida). Ambas as fotos foram tiradas antes da Primeira Guerra Mundial [que se iniciou em 1914]”. (Review and Herald – Vol. 152 – No. 51 – 1975)

Além da festividade retratada acima, existem ainda relatos de um piquenique, em 1893, realizado para os funcionários e pacientes do Sanatório de Battle Creek às margens de um lago, onde a refeição foi servida ao som da Review and Herald Band. O relato, encontrado no órgão oficial da União do Lago detalha que “até mesmo o Dr. J. H. Kellogg foi até lá de bicicleta, para desfrutar de momentos de sociabilidade.” (The Lake Union Herald – Official Organ of the Lake Union Conference of Seventh-Day Adventists – July 6, 1976, p. 3)

Portanto, a atividade na banda era claramente vista como entretenimento ou recreação. A participação em piqueniques, festividades nacionais e outros eventos sociais parece ser a característica deste grupo. Assim, podemos afirmar com relativa segurança que o repertório principal deste grupo consistia de músicas folclóricas, marchas militares populares e outras canções leves, não sendo o seu objetivo principal a participação em cultos de adoração, embora esta fosse uma possibilidade.

Obviamente, a foto acima também foi conseguida por nós nos arquivos históricos da Igreja Adventista (24), os quais foram consultados pelo articulista, conforme informado por ele. Por que, então, ele não apresentou em seu artigo a segunda foto, com sua respectiva legenda?

Neste ponto o leitor pode estar se perguntando qual seria a relação entre esta banda e o tema principal deste artigo, ou entre a maneira de utilização da percussão no contexto desta e a pretendida utilização da percussão, através da bateria, em nossos cultos de adoração na atualidade.

Estaria o articulista sugerindo que os que defendem o uso da bateria na igreja deveriam defender a sua utilização apenas e tão somente para executar estilos musicais festivos em eventos sociais, de maneira similar ao que estes grupos faziam naqueles tempos? Se este fosse o caso, esta polêmica provavelmente estaria encerrada; contudo, o que se constata é que não é isso o que ocorre.

Fanfarras e bandas, como aquelas utilizadas pelos clubes de Desbravadores, utilizam os tambores para estimular e induzir o ritmo da marcha nos desfiles. A marcha – ou seja, uma manifestação puramente física – é o objetivo; por isso o uso de tambores é apropriado. Porém, é evidente a qualquer pessoa que opte por utilizar a sua capacidade de discernimento, que esta situação é diametralmente oposta a uma situação de culto.

Tambores também são mencionados nos cultos vibrantes de missões adventistas na África.

[lxxv] Na Conferência Geral de 1966, o relatório da Divisão Transafricana foi introduzido pelo hino “Ó Cristãos, Avante!” ao som do órgão e tambores tocados pelo secretário daquela divisão.

[lxxvi] Tambores tem sido usados nas Conferências Gerais nos relatórios das missões africanas e outras regiões desde os primórdios

Tambores também são mencionados nos cultos vibrantes de missões adventistas na África.

Evidentemente o espaço aqui não permite uma análise detalhada das questões culturais e como estas influenciam a expressão da adoração durante o culto. Para uma análise abrangente, recomendamos o excelente volume intitulado “O Cristão e a Cultura” de Michael S. Horton, editado pela Editora Cultura Cristã.

Porém, salta aos olhos a falácia de tentar aplicar usos a costumes de outras culturas à nossa, como se isto servisse de justificativa para qualquer coisa.

Façamos então um exercício desta aplicação, utilizando uma realidade bastante próxima a nós. Os índios Carajás, Adventistas do Sétimo Dia, quando estão em suas aldeias, comparecem ao culto vestindo apenas shorts ou bermudas, com o corpo pintado e usando adereços de penas. Deve ser ressaltado que isto não se trata de uma conjectura, pois conhecemos pessoalmente esta realidade. Porém, isto justificaria que nós, em nosso próprio contexto sócio-cultural nos apresentássemos assim diante de Deus em nossos cultos coletivos?  Fica evidente que não, ainda mais considerando o fato de que estes mesmos indígenas, quando estão em uma cidade, comparecem aos cultos vestidos de maneira social, sem as pinturas e sem os ornamentos.

Como deveríamos interpretar isto? Deus não é um só? Portanto, o que seria apropriado aos Seus olhos não seria uma manifestação única? Por que, então o indígena altera a sua apresentação pessoal, dependendo do contexto cultural em que ele se insere?

Sim, Deus é um só, mas nós somos muitos. Uma vez que a adoração é uma reação pessoal a Deus, ela pode se manifestar de maneira diversa. Deus vê o coração e conhece o espírito de adoração de cada um. Além disso, a adoração coletiva envolve dois aspectos: o vertical (homem – Deus) e o horizontal (homem – homem). No aspecto vertical, a cultura não importa, mas no aspecto horizontal, a cultura é um fator fundamental. Quando estamos em nosso culto pessoal, o aspecto horizontal desaparece, pois estamos sozinhos diante de Deus, não existe a interação homem – homem. Mas conforme o número de adoradores cresce, assim também cresce a complexidade da organização requerida para que a adoração possa ser proveitosa e edificante para todos. Isso é necessário, não há como ser diferente.

A escolha dos diáconos da igreja primitiva, relatada em Atos 6:1-8 é significativa para a compreensão deste fato. O relato começa dizendo: “Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos…” Vemos então que a necessidade de organização, da criação de regras, da escolha de pessoas que sejam responsáveis pelo bom andamento das diversas atividades é, não apenas fundamental, mas tem amplo respaldo bíblico (Romanos 12:4-5; 13:1; I Coríntios 12:4-12; 14:40; Efésios 4:11-15). Assim, quanto maior o número de adoradores, mais abrimos mão de nossa individualidade (e, conseqüentemente, de aspectos culturais que possam ser vistos como estranhos ao contexto em que estamos inseridos) em favor da unidade na adoração.

Para maiores detalhes sobre estes aspectos do culto veja Dra. Eurydice V. Osterman – “O Que Deus Diz Sobre a Música” (Unaspress – Engenheiro Coelho – SP).

É digno de nota o fato de que a passagem dos tambores foi usada pela primeira vez fora de seu “tempo e lugar” na Review and Herald de dezembro de 1936 pelo seu editor F. D. Nichols. Veja que ele não aplica a visão à igreja Adventista e sim a movimentos carismáticos da época. Porém, esse primeiro uso descontextualizado da passagem numa revista Adventista parece ter dado origem a outros décadas mais tarde, em 1970[lxxvii] e 1974[lxxviii] e mais recentemente no livro Eventos Finais p. 159[lxxix], que começaram a ser aplicados para a igreja Adventista numa aparente tentativa de conter o uso da percussão. Mais uma vez a tradição de interpretação de uma certa passagem não significa necessariamente que seja a correta, como vimos acima.[lxxx]

Os poucos exemplos acima do uso da percussão na música adventista desde 1901 mostram que a igreja não interpretou a mensagem à Carne Santa como uma proibição universal a nenhum instrumento musical ou à percussão. Tampouco tem havido por parte da liderança da Igreja como um todo a proibição da percussão, seja no Manual da Igreja ou em qualquer outro voto da Associação Geral desde 1900. No Brasil, as gravadoras adventistas usam a percussão e bateria há décadas sem que a igreja tenha se tornado um movimento pentecostal ou carismático. Pelo contrário, o uso da percussão na música adventista não tem impedido que o Brasil continue a ser o país mais adventista no mundo.

Esta linha argumentativa concorda implicitamente com nossas afirmações anteriores, de que a igreja Adventista não utilizou, durante muitos anos, a percussão em seus cultos, por compreender que, devido aos problemas inerentes desta classe de instrumentos, ela seria prejudicial ao espírito de solenidade e sacralidade que devem caracterizar nossos cultos. Exatamente por este motivo Ellen G. White escreveu muito pouco sobre o assunto, conforme o articulista constatou em suas pesquisas; simplesmente este não era um problema para a igreja.

Além disso, também concorda, ainda de maneira implícita, com o nosso ponto de vista de que a posição histórica da igreja foi de oposição à utilização desta classe de instrumentos em nossos cultos. A utilização deste texto, com a interpretação que damos a ele no livro Eventos Finais é uma prova disso. E isto não é questão de tradição, mas de posicionamento histórico, mantido desde o período em que Ellen G. White, autora do texto em questão, estava viva.

A lógica da seqüência de eventos – conforme delineada no texto inspirado – é bastante clara: na década de 1850-60 houve manifestações carismáticas no seio do adventismo (“coisas do passado“); no tempo presente da Sra. White estas manifestações se repetiram e, “antes da terminação da graça“, viria a demonstração derradeira dessas manifestações, onde “haverá gritos com tambores, música e dança“. Ou seja, trata-se de uma sucessão de movimentos atentando contra o culto, e seria de esperar, logicamente, que o ataque final seria mais intenso, mais disseminado e que sua implantação seria mais sutil, como já se vê.

Esse texto de Ellen G. White ficou evidentemente semi esquecido durante todo o tempo em que sua advertência não foi necessária. E naturalmente, só voltaria a ser lembrado quando manifestações na mesma linha surgissem dentro da igreja.

O articulista, convenientemente, deixa de mencionar (pois não duvidamos que tenha pleno conhecimento do fato) de que a Associação Geral tomou, no momento oportuno, um voto contra os estilos musicais em que a bateria é fundamental. Conforme já dissemos, o Rock and Roll surgiu em meados da década de 1950, tendo-se disseminado amplamente durante os anos 1960. Em 1972, no concílio outonal da Conferência Geral, foi votado um documento intitulado “Diretrizes Relativas a uma Filosofia de Música da Igreja Adventista do Sétimo Dia” ou, como ficou mais amplamente conhecido, “Filosofia Adventista de Música“. Este documento está disponível, na íntegra,aqui (25).

Ao mencionar o uso da música no evangelismo de jovens, este documento dá a seguinte orientação:

O desejo de alcançar a juventude com o evangelho de Cristo onde ela se encontra, leva, às vezes ao emprego de estilos musicais questionáveis. Em todos estes estilos, o elemento que traz maiores problemas é o ritmo, ou ‘batida’.

De todos os elementos musicais é o ritmo que provoca a mais forte reação física. Os maiores êxitos de Satanás são freqüentemente obtidos pelo seu apelo à natureza física. Demonstrando atilado conhecimento dos perigos que há neste apelo à juventude, Ellen G. White afirmou: “Eles têm um ouvido aguçado para a música e Satanás sabe qual órgão excitar, incitar, absorver e fascina a mente de modo que Cristo não seja desejado. Desvanecem-se os anseios espirituais da alma por conhecimento divino, por crescimento em graça.” – Testemunhos para a Igreja, Vol. 1, p. 497. Esta é uma forte indicação da maneira pela qual a música pode ser usada em direta oposição ao plano de Deus. Os já mencionados estilos de “jazz”, “rock” e outras formas híbridas semelhantes são notórios em criar reações sensuais nas multidões. (“Filosofia Adventista de Música” – Conferência Geral – 1972) (25)

É importante destacar que este documento não cita, em momento algum, a bateria. E nem deveria, visto que já esclarecemos que não é este o foco do problema. Mas também é importante destacar que o documento adverte fortemente contra o problema da ênfase rítmica, inclusive citando nominalmente estilos musicais onde são notórios problemas nesta área.

Ora, sabendo isto, e sabendo também que a única contribuição que a bateria pode oferecer aos elementos musicais é a ênfase rítmica, seria correto afirmar que este documento dá um aval implícito às restrições defendidas por nós com relação a este instrumento, bem como a outros instrumentos que possam causar esta distorção (do ponto de vista litúrgico) na execução musical.

Em apoio a este ponto de vista e demonstrando que esta é a posição oficial da IASD, o Manual da Igreja, cita textualmente o seguinte:

Grande cuidado deve ser exercido na escolha da música. Toda melodia que pertença à categoria do “jazz”, “rock” ou formas correlatas, e toda expressão de linguagem que se refira a sentimentos tolos ou triviais, serão evitadas. Usemos apenas a boa música, em casa, nas reuniões sociais, na escola e na igreja. (Manual da Igreja (rev. 2005), p. 180)

Em outro trecho, falando sobre o uso da música secular, a Filosofia Adventista de Música faz a seguinte declaração:

[O cristão] considerará músicas como “blues”, “jazz”, o estilo “rock” e formas similares como inimigas do desenvolvimento do caráter cristão, porque abrem a mente a pensamentos impuros a levam ao comportamento não santificado. Tais tipos de música têm uma direta relação com o “comportamento permissivo” da sociedade contemporânea. A distorção do ritmo, da melodia, e da harmonia como empregados nestes gêneros de música e sua excessiva amplificação, embotam a sensibilidade e finalmente destroem a apreciação por aquilo que é bom e santo. (“Filosofia Adventista de Música” – Conferência Geral – 1972) (25)

Não vamos entrar aqui no mérito de todas as questões envolvidas com este estilo musical. O leitor interessado em conhecer mais sobre este assunto, poderá encontrar abundante material na página “Música Rock e seu Impacto na Vida Cristã(26).

Considerando-se o caráter deletério e prejudicial para a espiritualidade deste estilo musical e suas variações, o seu crescimento, desenvolvimento e disseminação – bem como a sua assimilação por alguns músicos adventistas – tornou necessário que a liderança lançasse firmes advertências contra ele. Estas advertências invariavelmente iriam envolver ataques à bateria, uma vez que para estes estilos musicais, a bateria é fundamental.

O articulista cita neste trecho, de forma bastante crítica, várias publicações oficiais da IASD, como se todos os líderes da época estivessem interpretando erroneamente as instruções de Ellen G. White e somente ele fosse o detentor da verdade para o povo de Deus, em posição contrária a esta liderança.

Mas devemos dar graças a Deus pelo fato de ainda existirem sábios que se debruçam sobre as veredas antigas (Jeremias 6:16; 18:15), pesquisando as revelações de Deus para Seu povo e aplicando-as no momento de necessidade, como foi o caso da “Filosofia Adventista de Música(25).

Porém, sabemos – por termos vivenciado este período – que este documento, apesar de ser um voto oficial da Conferência Geral da IASD, foi relegado ao esquecimento. Durante os anos 1980 e 1990 pouco se mencionou sobre ele. Mesmo os músicos que o conheciam demonstravam, por sua prática, que não lhe davam a importância devida (mais uma vez, sem entrar no mérito dos motivos e intenções de cada um). E isto nos leva à questão do uso da percussão por nossas gravadoras, conforme mencionado pelo articulista.

No Brasil, exatamente pelo fato de gravadoras adventistas terem adotado abertamente um estilo de instrumentação no qual a bateria é fundamental, é notório a todos os que acompanham o desenrolar destes eventos, que ocorre um movimento de “carismatização” dentro da Igreja Adventista do 7º. Dia.

É necessário reconhecermos o óbvio: muitos membros (e principalmente músicos) vivem hoje uma realidade carismática dentro da igreja adventista. Muitos pastores mostram uma tendência clara em direção a esta linha, devido ao seu apelo fácil e resultado imediato. Devido a vários motivos que não nos compete analisar aqui, mas principalmente pela aproximação com metodologias absorvidas das mega-igrejas americanas (tendo seu expoente máximo no conhecido líder Rick Warren), estamos nos tornando uma “igreja de resultados” e isto nos aproxima perigosamente das manifestações carismáticas.

Em algumas igrejas esta tendência é mais explícita, em outras é mais velada, mas é uma tendência que não pode ser negada. Há coreografias, há levantar de mãos, há incentivo explícito para a utilização de palmas no culto e outras manifestações que seriam impensáveis há duas décadas atrás.

Em algumas cidades (não gostaríamos de citar nomes) temos notícias de congregações inteiras que adotaram abertamente práticas carismáticas – sendo inclusive, disciplinadas pela IASD. Nos cultos dessas congregações “adventistas”, o traço mais forte é o louvor ritmado, com mãos para o alto, pessoas chorando, e algumas gritando “Aleluia, Louvado seja Deus!”. Ou seja, é um culto carismático em sua essência, onde os aspectos físicos e emocionais têm a supremacia, em detrimento do culto racional, conforme somos instruídos em Romanos 12:1-2.

Outra pergunta cabível aqui é um questionamento à afirmação que “o Brasil seria o país mais adventista do mundo” (sic). Como seria medido isso? Em número de batismos? Será que esse é o mesmo critério de Deus, quanto ao povo escolhido? Ou será que um crescimento numérico, fomentado e excitado por um estilo de culto popular, baseado fortemente em músicas ritmadas, poderia não significar, necessariamente, um crescimento espiritual equivalente de seus membros? Cabe ao cada leitor chegar a suas conclusões sobre esse ponto.


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Parte 05 – A Bateria e o Fim dos Tempos

Parte 07 – Um Convite ao Equilíbrio