A Música nas Concentrações Evangelísticas de Spurgeon

Rolando de Nassau [1]

Três batistas lideraram movimentos evangelísticos de grande porte; no século 19, Spurgeon e Moody; no século 20, Graham. Com o objetivo de promover o despertamento espiritual de ímpios e crentes, o canto e a execução musical tiveram parte importante em concentrações, campanhas e cruzadas evangelísticas.[2]

O pastor batista inglês Charles Haddon Spurgeon (1834-1892) tornou-se famoso em 1854 no púlpito da capela da New Park Street, em Londres.

Permaneceu como pastor numa única igreja, tendo pregado, em 34 anos de atividade, para 10 milhões de pessoas. Escritor prolífico (começou com um sermão por semana), da tribuna sacra no Tabernáculo Metropolitano lia seus sermões, que foram publicados em milhões de exemplares. Os sermões de Spurgeon, ouvidos ou lidos, exerceram enorme influência na Grã-Bretanha e na América para a conversão de milhares de pessoas.

Em 4 de janeiro de 1859, no Exeter Hall, Spurgeon falou para 2.500 pessoas sobre a necessidade de um avivamento espiritual. Ainda naquele ano, surgiu um despertamento nas igrejas da Irlanda do Norte e do País de Gales, que se propagou desde a Irlanda até a Escócia, chegando à Inglaterra. No Surrey Music Hall, depois de ter percorrido a Escócia, a Irlanda e a Inglaterra, Spurgeon, em 11 de dezembro de 1859 reconheceu ter havido um avivamento em sua igreja.

Além de possuir o talento literário, Spurgeon era homem de bom gosto musical. Em sua igreja, no Surrey Music Hall e no Crystal Palace, eram cantados pela congregação hinos mais tarde incluídos na coletânea “Hymns Ancient and Modern”, organizada por Henry Williams Baker e William Monk.

Homem sincero e franco em suas opiniões, Spurgeon possuía cópia de uma alegoria de Benjamin Keach (1640-1704), a respeito da qual teria declarado: “Quanto menos for dito sobre a poesia de Keach, tanto melhor”.

Simpatizando com os oprimidos, Spurgeon convidou, na década de 70, o “Jubilee Singers”, coro de ex-escravos negros, procedentes da Fisk University, de Nashville, Tennessee (USA), para cantar no Tabernáculo Metropolitano, em Londres; Spurgeon opinou: “As melodias foram executadas de maneira especial, nunca ouvida”. A música, de origem folclórica, atraiu multidões, mas Spurgeon, como sempre, teve o cuidado de não permitir que suas concentrações evangelísticas se convertessem em espetáculos. Sabia que, abandonando a salmodia ou a hinodia tradicional, e aproveitando os cânticos exóticos ou contemporâneos, seria expulsa da Igreja a música de culto e seria dada guarida à música de entretenimento.

De que dependia a afluência de multidões às reuniões de Spurgeon?

Propaganda? Apresentações musicais? Não! No fim de sua vida, observando um declínio das doutrinas fundamentais, comentou: “Tem havido uma crescente tendência para o sensualismo”.

Convicto de que a fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus, Spurgeon, há mais de 100 anos, escreveu:

“O demônio raramente fez algo tão engenhoso quanto insinuar à Igreja que parte de sua missão é prover entretenimento para o povo, visando a alcançá-lo. (…) a Igreja, gradualmente, baixou o tom do seu testemunho e também tolerou e desculpou as leviandades da época. Depois, ela as consentiu em suas fronteiras. Agora, ela as adota sob o pretexto de alcançar as massas.

Meu primeiro argumento é que prover entretenimento ao povo, em nenhum lugar das Escrituras é mencionado como uma função da Igreja. Se fosse obrigação da Igreja, por que Cristo não falaria dela?

Numa passagem encontramos: “E Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres” (Efésios 4:11). Onde entram os animadores?

Os profetas foram perseguidos por agradar as pessoas, ou por se oporem a elas?

Em segundo lugar, prover distração está em direto antagonismo com o ensino e a vida de Cristo e Seus apóstolos. Qual era a posição da Igreja para com o mundo? – “Vós sois o sal da terra”, não o doce açúcar – algo que o mundo irá cuspir, não engolir. (…) Cristo poderia ter sido mais popular, se tivesse introduzido mais brilho e elementos agradáveis em Sua missão. Porém, eu não O escuto dizer: “Corra atrás deste povo, Pedro, e diga-lhes que teremos um estilo diferente de culto amanhã: algo curto e atrativo, com uma pregação bem pequena. Teremos uma noite agradável para eles. Diga-lhes que, por certo, gostarão. Seja rápido, Pedro: nós devemos alcançá-los de qualquer jeito!”.

Jesus compadeceu-se dos pecadores, lamentou e chorou por eles, mas nunca pretendeu entretê-los”.

É o caso de indagar: a música e os métodos evangelísticos contemporâneos têm enriquecido ou empobrecido a Igreja?


Rolando de Nassau é organizador do “Dicionário de Música Evangélica” e tem sido, por vários anos, colunista de O Jornal Batista, atuando como um perspicaz comentarista dos rumos que a música evangélica tem tomado. Informações mais detalhadas sobre o autor poderão ser encontradas em http://www.nassau.mus.br/


Notas:

[1] Os editores do Música Sacra e Adoração não publicam neste espaço virtual qualquer artigo que contenha citações pessoais ou que incitem debates sobre personalidades; nosso trabalho procura destacar princípios bíblicos sobre a música e a adoração no contexto Adventista do Sétimo Dia. Todavia, a análise de Nassáu sobre as opiniões de Spurgeon nos pareceram bastante importantes para o contexto atual da adoração e do uso da música nos cultos Adventistas. (Nota dos editores do Música Sacra e Adoração).


Fonte: O presente artigo foi publicado no periódico “O Jornal Batista“, em 04 de setembro de 2005. Os editores do Música Sacra e Adoração agradecem ao autor pela contribuição.