Uma Análise do Livro “Uma Vida Com Propósitos” – Dia Um

por: Scott Mooney

Tudo Começa Com Deus[*]

Este livro tem um bom começo. Os três primeiros parágrafos contém uma promessa que grandes coisas virão. Somos instados a considerar a Deus em primeiro lugar sobre todas as coisas, pois Ele é o Criador de todas as coisas. Foi precisamente neste ponto onde Calvino começou suas Institutas da Religião Cristã, destacando que enquanto o auto-conhecimento e o conhecimento de Deus parecem envolver um ao outro, certamente que o verdadeiro auto-conhecimento depende do verdadeiro conhecimento de Deus. Prosseguindo, Warren elabora dois possíveis métodos para se alcançar o verdadeiro auto-conhecimento: especulação e revelação. Nisto também ele faz eco com os argumentos de Calvino. Corretamente, ele rejeita a especulação. Uma vez que não somos o Criador, não podemos, portanto, nos pronunciar autoritariamente sobre o significado da criação. Corretamente ele encoraja a revelação, e corretamente identifica a revelação como sendo a Palavra de Deus; a Bíblia. Através de Sua fala, o Criador define a realidade criada. Nosso conhecimento de nós mesmos, e de toda a criação, é verdadeiro se estiver fundamentado na revelação.

Contudo, no que se segue, a grande promessa da introdução é destruída. Warren se afasta de Calvino e da sabedoria bíblica saudável [1]. Em suas Institutas, Calvino segue adiante com a elaboração do impedimento do pecado, e da verdadeira doutrina da Revelação Bíblica. Warren escamoteia o assunto do pecado totalmente. Assim, uma questão crucial não é abordada, e portanto, não é respondida: se nós somos a criação de Deus, então porque há dificuldade em conhecer isto, e em compreendermos a nós mesmos, e a realidade corretamente? Tendo simplesmente pulado toda essa questão, Warren não se preocupa em elaborar uma Doutrina da Revelação. Esse afastamento da sabedoria Bíblica leva a muitos problemas, alguns dos quais são abordados no decorrer do primeiro dia.

Apesar de haver enfatizado a “revelação” sobre a especulação, ele repetidamente fala do verdadeiro auto-conhecimento como algo que possamos “descobrir” (pp.18, 19, 20). Nossa “descoberta”, é dito que viria “através de um relacionamento com Jesus Cristo” (p.20). Porém, sem uma idéia clara do pecado em vista, esta idéia do “descobrimento” não pode ser retratada de modo relevante como envolvida na Redenção. Este problema sugere um refinamento da questão acima: se sou uma criação de Deus, porque eu não deveria ter uma relação com Jesus Cristo? De fato, é possível a alguma criatura viver apartada de seu Criador? No entanto, não há qualquer indício de consideração destas questões. Ao invés disso, há apenas a garantia de que depende de nossa própria iniciativa e força começarmos tal relacionamento. Como ele coloca, “Se você não tem esse relacionamento, explicarei mais adiante como iniciá-lo.” (p.20). Isto, por sua vez, sugere outras questões; por exemplo, se Deus é o Criador de todas as coisas, e assim determina o significado e objetivo das coisas, então como podemos falar de relacionamento entre Deus e criatura que dependa de iniciativa e poder da criatura? Warren não nos fornece uma explicação.

De fato, se eu “descubro” meu significado e objetivo através de uma iniciativa que eu exercito para iniciar um relacionamento com Jesus Cristo, então o que realmente resta de um “Criador” ou qualquer “revelação” que consista de Sua palavra? Como a Bíblia é essencialmente diferente do Corão, do Talmud, do Upanishads, do Bhagavad Gita, do Vedas, do I-Ching, do Ovid, etc? Como a Bíblia é essencialmente diferente dos pensamentos de minha própria mente? Warren encerra o primeiro dia com o que supostamente seria uma estória inspiradora de um romancista russo e ateu, que estava dominado por grande desespero. E então, “De repente, uma frase apareceu por si só: Sem Deus a vida não faz sentido.” (p.21). Como a Bíblia é essencialmente diferente de “subitamente, por si só, uma frase surgiu”? Pode-se sugerir que a experiência do ateu russo é um exemplo da “revelação geral” da natureza. De fato, a ortodoxia bíblica sustenta que os homens são criaturas de Deus, e feitos à Sua imagem; portanto é de sua natureza conhecer este fato e conhecer a Ele, embora que, por causa do pecado, procuram fugir dEle. Mas Warren não promove a discussão, comparando e contrastando a revelação “geral” da natureza, e a revelação especial da Bíblia. O ateu russo é apresentado como que chegando à fé verdadeira através de pensamentos que afloram de sua mente.

A ortodoxia Bíblica sustenta, de um lado, que a revelação geral da natureza é suficiente para que todo homem conheça a Deus, e conheça seu dever para com Deus, e por isso, estamos “inescusáveis” em nossos pecados (Romanos 1:18-23); por outro lado, que somente a revelação especial da Bíblia é suficiente para a regeneração do homem na fé (Romanos 10:6-17). “Revelação” significa que Deus nos revela algo que não poderíamos saber se Ele não nos falasse. Isto é o que diferencia a Bíblia dos demais “textos sagrados”. A Bíblia é a palavra do Criador de toda a realidade. Outros textos são palavras de homens. O verdadeiro objetivo cristão é manter uma clara e profunda distinção entre o Criador e a criatura – entre o Deus que define e determina toda a realidade, e o homem que habita, experimenta e é limitado por esta realidade. A autoridade da Bíblia nos pensamentos e vidas dos homens está alicerçada sobre esta distinção. Apartados desta distinção, a mente e os pensamentos de “Deus” não podem ser separados da mente e dos pensamentos dos homens. Neste caso, não haveria distinção significativa entre a Bíblia e quaisquer outras palavras que possamos encontrar.

A mensagem de Warren até então parece ser: 1) O homem é uma criatura de Deus, mas 2) de algum modo a “criatura” pode existir sem relação com o “Criador”; 3) Embora isso possa ser problemático para a criatura, entretanto, ele pode exercitar sua força e iniciativa para entrar em um relacionamento com o Criador; 4) algo que nós temos o hábito de nos referir como “revelação” será, de algum modo, envolvido nesta “descoberta” do significado e objetivo da vida. Os conceitos de Warren para “Deus”, “homem”, “revelação” e “descoberta” são um tanto quanto nebulosos. Portanto, nestes termos, uma transformação do homem sem significado e sem propósitos para o homem com significado e propósitos é um processo mal definido; a criatura, de algum modo, se transforma naquilo que o Criador o criou para ser. Conforme Warren coloca, trata-se de “se tornar o que Deus pretendia fazer de você ao criá-lo.” (p.19).

Em contraste com isso, uma mensagem biblicamente ortodoxa defende que 1) é da natureza da criatura se relacionar com o criador – que nada pode existir apartado desta relação (Colossenses 1:17); 2) que o problema do homem não consiste de uma  dificuldade metafísica pela qual carecemos desta relação, mas da dificuldade moral de ser um pecador, que quebrou as leis de Deus e portanto é culpado perante Ele; ou seja, ele não está sem relação com Deus, mas ostenta a relação de um pecador perante seu juiz ao invés de uma relação de um filho perante seu pai; 3) que, portanto, a necessidade do homem não é “iniciar um relacionamento com Jesus”, mas encontrar um remédio para o seu pecado; 4) e que a evidência da natureza é suficiente para condenar todo homem que recusa a curvar-se perante seu Criador, mas somente a Palavra autorizada do Criador, que é O único que determina e interpreta toda a realidade, é suficiente para nos ensinar as verdades sobre quem somos, nossos reais pecados, e o remédio provido por Deus em Cristo.

Embora Warren tenha iniciado seu tratado com a promessa de uma “distinção entre Criador/criatura”, sua promessa não foi cumprida. Apesar dele anunciar a rejeição da “especulação”, no final a visão que ele construiu não poderia ser mais especulativa. Sua caracterização da verdade de Deus como uma “descoberta” humana implica em correlação, não em distinção, do “Criador” e da “criatura”. Neste caso, o que o “Criador” e a “criatura” realmente significam? Ou o homem é um pecador que deve se humilhar perante seu Criador para aprender de Sua palavra a verdade sobre o Criador e a criatura, ou então ele é um investigador moralmente “neutro”, que deve permanecer livre para determinar o significado de “criador” e “criatura” por si mesmo. Warren deixou o pecado completamente fora desta discussão, ao passo que apartados da verdadeira “distinção entre Criador/criatura” não pode haver idéia realmente bíblica sobre o pecado. Sem uma idéia bíblica sobre o pecado, Warren é forçado a uma assumir posição de defesa da especulação que ele disse rejeitar. Não possuindo uma idéia correta quanto ao problema básico do homem, ele é impedido de sugerir um remédio adequado. Sua solução tem tudo a haver com “relacionamento” e nada a haver com “Redenção”. Ainda assim, seus parágrafos iniciais apresentam uma centelha de verdade. Nós devemos manter as esperanças que esta centelha possa ainda arder e que as estas deficiências possam ser superadas nos próximos dias.


[*] Nota dos editores do Música Sacra e Adoração: Todas as indicações de páginas referem-se à edição original, em inglês

[1] – O autor é calvinista, o que justifica a citação a Calvino e algumas citações posteriores a documentos do Calvinismo. Todavia, os autores do Música Sacra e Adoração consideram o conteúdo geral do artigo de grande valor para a compreensão de conceitos básicos da adoração a Deus, justificando assim sua publicação neste espaço virtual.


Fonte: http://purposejourney.blogspot.com

Traduzido por Renato Tavares em abril/2008, mediante autorização expressa do autor


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