O Culto – Capítulo 13

por: Rev. Onézio Figueiredo [1]

Liturgia cristã, herança judaica

01 – Liturgia do sacrifício:

O ponto de convergência do culto templário em Israel era o sacrifício. Sem ele não se adorava a Deus, não se lhe demonstravam contrição, gratidão e submissão; não se lhe confessavam os pecados, não se recebia o perdão. Enfim, sem sacrifício não havia serviço litúrgico (pulchan).

No Novo Testamento, de igual maneira, o culto centraliza-se no sacrifício de Cristo reconstituído memorativamente no rito eucarístico, na proclamação da palavra salvadora e na confissão de pecados. O culto, por sua natureza, é cristocêntrico, mas de um cristocentrismo fundamentado exclusivamente da Palavra de Deus; Cristo segundo a revelação bíblica; não o das “revelações” extrabíblicas; não o transubstanciado (sacramentado) nos altares por ordenação sacerdotal.

02 – Ordem do culto sacerdotal:

A ordem natural do culto sacerdotal em Israel era:

a. Reconhecimento da presença real de Deus.
b. Consciência de que Deus realmente perdoa os pecados confessados.
c. Confissão de pecados com as mãos do confessando sobre a cabeça do vítima oferecida.
d. Morte da vítima, simbolicamente carregando os pecados confessados.
e. Declaração de perdão por meio do sacerdote.
f. Ação de graças pela misericórdia do perdão.

O sacrifício da vítima em lugar do pecador era imprescindível, pois “sem derramamento de sangue não há remissão de pecados”.

Hoje Cristo é o sacrifício em lugar do pecador, mas também é o ressurreto por ele. O que acontecia em Israel, acontece, no essencial, na Igreja: Nossos pecados são depositados aos pés da cruz de Cristo em confissão, para que seu perdão eterno tenha poder dinâmico e restaurador na continuidade da existência do escolhido. A confissão, portanto, é central e essencial no culto cristão. A Igreja que confessa seus pecados e se humilha: Louva, adora e serve ao Salvador. No Velho Testamento o pecador era sacrificado simbolicamente na vítima que oferecia em holocausto. No Novo Testamento o pecador é realmente morto e ressurreto em Cristo, ao mesmo tempo, Cordeiro e Sacerdote. A Igreja é, pois, confessional no testemunho e confessante no culto.

03 – Herança sinagogal:

Não lhe sendo permitido o sacrifício, a Sinagoga centralizou o culto no ensino (limud), especialmente o da Torah e dos profetas bem como na confissão individual e coletiva de pecados e culpas, na esperança de merecimento do perdão anual no grande dia da expiação. A “didaquê” e o “kerygma” originaram-se da liturgia sinagogal, isto é, lá estão suas raízes. Ênfases do Culto Sinagogal: Ensino, confissão, pregação.

A sinagoga usava o saltério, compunha cânticos, seguindo a tradição salterial, e produzia hinos novos, sempre conforme as linhas mestras da poesia e da melodia dos salmos. O que caracterizava seu “cântico espiritual” não eram as “inspirações” sentimentais e místicas, mas a fidelidade melódica e textual às Sagradas Escrituras e à hinodia salterial. Desse modo, o culto se preservava da invasão das “novidades” litúrgicas do paganismo reinante, muito influente e atraente, sobretudo no que se referia às adorações de divindades ligadas ao sortilégio e à fertilidade; evitava também as influências profanas das orgias, seculares ou sacralizadas, das bacanais.

E não se deve esquecer que os cânticos, hinológicos ou não, podiam causar a contaminação do altar pelos ritmos percutidores acompnhados de coreografias e danças sensuais dos cultos da prostituição sagrada em que o sensualismo e o sexualismo eram confundidos com espiritualidade. O orgasmo marcava a “entrada” do espírito da divindade pagã no corpo do sacerdote em coito “sagrado” com a sacerdotisa. Não se permitia também a intromissão das “canções de harém”, que as mulheres e odaliscas entoavam ao sultão, macho que representava o “reprodutor sagrado”, o deus da reprodução e das ressurreições estacionais. Tais canções românticas visavam mais o erotismo que o agapismo, e carregavam-se de gemidos e suspiros sensuais. O harém, com seu ritualismo sensorial, é herdeiro dos cultos da fertilidade nos quais as sacerdotisas, também profetisas, prostituiam-se sacramentalmente com o sacerdote por meio do qual a divindade pagã fecundava o mundo. O falo (phalos) era o símbolo sagrado da fecundidade, o deus da reprodução.

Canções eróticas provenientes dos cultos da fertilidade ou dos sensualismos de haréns jamais penetraram os cultos do templo e da sinagoga, mesmo esta estando inserida no mundo gentílico. Na verdade, a sinagoga foi o baluarte firme do judaísmo na dispersão, o sustentáculo da fé judaica, a força mantenedora das tradições mosaicas; e isto por seu culto fundamentado no ensino, na confissão, na esperança de perdão e na proclamação da lei e dos profetas, além de preservar o cântico salterial. São inestimáveis os papéis do templo e da sinagoga, com seus respectivos cultos, na formação, estruturação, normatização, propagação e conservação dos valores culturais da fé de Israel, mantidos até hoje. O mesmo papel tem o culto reformado. Desvirtuá-lo é destruir os monumentos da Reforma, rasgar os nossos riquíssimos anais, esquecendo-se de que os passos do fim da jornada dependem dos que foram dados no início.

A Reforma, sem dúvida, restaurou o patrimônio cultural do “kerygma” e da liturgia sinagogal, enquanto o romanismo preservava a ritualística cerimonial e sacramental do templo judaico, sem levar em conta a sua substituição em Cristo Jesus, o novo templo de Deus no mundo. Uma atenta leitura de Hebreus faria bem aos ritualistas sacrificiais, ainda apegados a sacrifícios incruentos, conservando holocaustos e altares em seus templos onde Cristo é, “literalmente sacrificado” incruentamente em favor do penitente, segundo o ritual da missa.

Falta a nós cultura litúrgica, que Israel tinha de sobra. A Igreja que não esquece o caminho por onde passou, saberá, com certeza, onde está e para onde vai.

No templo, o acesso dos gentios estava vedado, mas na sinagoga, com objetivos catequéticos, permitia-se-lhes o ingresso, mas não lhes dava todos os direitos próprios dos judeus. Isto, supomos, contribuiu para o surgimento, na Igreja primitiva, de duas liturgias distintas: A da Palavra, didática e querigmática, e a do Aposento Alto, sacramental e restrita aos membros. O hermetismo litúrtico dos primeiros tempos da Igreja é também atribuído às perseguições e às delações de crentes fracos ou falsos.

A sinagoga celebrava a liturgia da palavra; o templo, a dos sacrifícios. Lembremos que a Igreja romana continua com a dos sacrifícios, pois em cada missa o Cristo é sacrificado na hóstia incruentamente para que seu “munus” vicário seja eficiente na expiação do pecado venial. O altar, no qual se conserva o sacrário, ocupa o lugar central do culto, sendo o oficiante indispensável como “mediador” da graça salvadora. É uma liturgia sacramentalista.

Grande parte da reforma manteve a dicotomia judaica dos dois cultos, um dos sacrifícios, agora substituído pela Santa Ceia, antiga cerimônia do Aposento Alto, e o da Palavra, destinado aos catecúmenos e às pessoas não incluídas na membrezia da Igreja.

Calvino eliminou tal dicotomia ao estabelecer a unidade e universalidade da liturgia na bipolaridade: Palavra – eucaristia. Defendeu a tese de que a Santa Ceia deveria estar presente, como parte essencial, em todo culto e, mesmo ausente, sua teologia haveria de permanecer na intenção e na proclamação do pacto assim como no reavivamento da esperança escatológica: “Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha” (I Co 11.26).

A história da redenção sumariza-se e se atualiza no culto pela presença de Jesus Cristo sem a qual não se realiza de fato. A Ceia do Senhor reatualiza a aliança e, em conseqüência, viabiliza a Igreja e aprofunda-lhe a esperança escatológica, força que a mantém no caminho do êxodo cristão.

No sistema episcopal de culto, sacramentalista, o púlpito fica relegado ao segundo plano, enquanto a mesa eucarística, equivalente ao altar, toma o lugar central do “debhir” do templo, pois o sacramento é mais importante que a palavra. Na liturgia calvinista, o púlpito, altar da palavra, de onde se pronuncia o oráculo profético, isto é, a mensagem bíblica, tanto quanto a mesa eucarística, onde se celebra a Ceia do Senhor, rememorização do Calvário, renovação do pacto da graça, retrovisão dos grandes feitos redentores de Cristo Jesus, antevisão dos eventos escatológicos, estão no centro do culto, no mesmo grau de importância, de proeminência, de simbolismo, de significado; porém, a palavra antecede, na estrutura lítúrgica, a eucaristia.

Eis uma herança sinagogal reabilitada pela Reforma e que deve ser conservada na Igreja. O arranjo do espaço reservado ao serviço litúrgico do templo deve clarificar isto ao entendimento e ao sentimento dos fiéis. Eles precisam saber que no culto ouvirão a palavra de Deus e comungarão, pela Santa Ceia, com o Redentor e com seus irmãos redimidos. As demais partes da liturgia decorrem destas e as reforçam e confirmam. A Palavra de Deus, lida e proclamada, e a celebração da Ceia do Senhor, são as duas colunas sobre as quais constrói-se a liturgia cristã.

No entanto, na mente dos leigos e na “praxe” da Igreja a pregação e a Ceia ficam fora da ordem litúrgica. Frases como estas são comuníssimas: “Eu dirijo a liturgia e o senhor prega”. “Depois do culto o senhor fica com a palavra para celebrar a Ceia”. Calvino coraria de “santa indignação” com tal compreensão do culto, colocando o secundário no lugar do principal.

Reiteremos: A Palavra de Deus e a Ceia do Senhor são a essência e o fundamento do culto, da liturgia.


Notas:

[1] O presente texto foi escrito por um Reverendo da Igreja Presbiteriana. Por este motivo, o leitor encontrará algumas referências relacionadas ao culto de domingo, ou ainda alguns temas diretamente vinculados a esta denominação religiosa. Apesar deste detalhe, os editores do Música Sacra e Adoração compreendem que a leitura do texto do Reverendo Onézio Figueiredo é de suma importância para o contexto da adoração e do culto a Deus na Igreja Adventista do Sétimo Dia, justificando assim esta publicação.


Fonte: www.monergismo.com


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