A Influência da Música Sobre o Comportamento

por: Adrian North

Entrevista ao programa The Science Show – Radio National – EUA
(uma rádio da rede ABC)

Apresentado por Robyn Williams

Robyn Williams: Antes de perguntarmos o que a música significa, que efeito ela está exercendo em nosso estado de espírito? Ela te faria trabalhar melhor ou mais rápido? Poderia ser usada em lojas para te fazer comprar mais? – provavelmente não. Adrian North, um psicólogo em Leicester, fez um estudo sobre todas essas questões, com resultados interessantes.

Adrian North: O que descobrimos, particularmente, é um ponto bastante óbvio, é que é absolutamente crucial que as pessoas ouçam a música que gostam enquanto trabalham. Se você toca para as pessoas uma música que elas não gostam ou simplesmente impõe a elas uma música em particular, então é possível causar muitos problemas. De forma semelhante, se as pessoas estão acostumadas a ouvir música e você simplesmente tira esta música, isto também causa problemas. Mas se você faz isso de uma forma realmente democrática, os trabalhadores respondem de forma muito favorável.

Agora, também descobrimos que a música pode influenciar a produtividade no local de trabalho. Isto quer dizer que, se você está fazendo um trabalho repetitivo simples, descobrimos que a música rápida pode melhorar a moral da força de trabalho e realmente aumentar a produtividade em até, em alguns casos, 20%.

Robyn Williams: E se você estiver tocando em meu escritório uma música que eu realmente goste, eu não iria me deixar levar por ela e não ser capaz de me concentrar em meu trabalho?

Adrian North: Se você está fazendo algo que exige concentração, você sabe, a última coisa que precisamos neste trabalho é de distração. Mas se você está fazendo alguma coisa que é muito, muito mecânica, como empacotar caixas ou algo assim, então a música pode ser uma ajuda muito real.

Robyn Williams: Antigamente, algumas empresas costumavam proibir a música.

Adrian North: Você está certo, o que acontece é que diferentes empresas têm, cada uma, a sua própria política em relação a isto. Algumas, como você disse, simplesmente proíbem completamente a música, principalmente porque ela pode ser muito polêmica. Outras, contudo, fazem propositalmente uma pesquisa com os funcionários sobre qual música deveria ser tocada. Como, por exemplo, em uma empresa que estive, na qual é feita mensalmente uma pesquisa entre os empregados a respeito de qual estação de rádio seria a melhor para ser ouvida neste mês, e eles fazem isso e os trabalhadores parecem apreciar.

Robyn Williams: Quando se trata de aumentar a velocidade de trabalho dos empregados, existe um limite razoável ou você pode fazer com eles como Charles Chaplin, até ficar fora de controle?

Adrian North: Certamente que não. Como você disse, existem restrições bastante limitadas. Quero dizer que é importante termos em mente que é extremamente improvável que esta técnica funcione se as pessoas estão sendo pagas por peça; se você está recebendo uma quantia de dinheiro por X unidades de produção, a música provavelmente não te afetará de forma alguma, porque você já estará trabalhando o mais rápido possível

Robyn Williams: Chega de local de trabalho. E as lojas – como a coisa é feita nestes locais?

Adrian North: Bem, a música pode ter uma ampla gama de influências em ambientes comerciais como lojas ou restaurantes. Ela pode influenciar a velocidade com a qual as pessoas fazem as coisas; Por exemplo, música rápida fará com que as pessoas comam mais rápido em um restaurante. Ela pode influenciar os produtos que as pessoas irão comprar. Se você tocar, por exemplo, música francesa em um supermercado, as pessoas comprarão vinho francês; toque música alemã e as pessoas comprarão vinho alemão.

Robyn Williams: Oh, realmente?

Adrian North: Com certeza. Sim, você pode influenciar diretamente a escolha do produto – somente que, novamente, dentro de certos limites. A música vai funcionar quando as pessoas estão em um estado de indecisão; ela dá um empurrão em uma ou em outra direção.

Robyn Williams: Eles têm consciência disto se você lhes perguntar?

Adrian North: Se você perguntar para as pessoas da forma como foi dito, “você tem consciência deste tipo de efeito”, as pessoas, genericamente falando, dirão que não. Agora, existem duas conclusões que você pode tirar deste fato. Uma, é que talvez estes efeitos são, de alguma forma, subliminares. Porém, o que eu acho, mais provavelmente, é o caso de que as pessoas não querem se arriscar a parecerem estúpidas. Se eu me aproximasse de alguém na rua e perguntasse, “Você foi influenciado pela música que tocava naquela loja?”, todos vão dizer que “Não, é claro que não, é claro que eu não sou conduzido pela música que está sendo tocada.”

As pessoas, contudo, estão perfeitamente conscientes de que a razão pela qual as lojas tocam música é porque alguém, em algum lugar naquela organização, pensa que isto vai fazer com que eles ganhem mais dinheiro e as pessoas estão bem conscientes disso. Eu só acho que as pessoas se sentem pouco à vontade para falar sobre isso com pesquisadores acadêmicos, o que é compreensível.

Robyn Williams: Eu ouvi falar que eles estão até usando a música de várias maneiras, de forma que você tem uma seção com uma música e outra seção com outro tipo de música, de forma que se pode criar seções temáticas na loja.

Adrian North: Certamente. Quer dizer, uma coisa que é importante lembrar é que as compras, de forma particular, estão se tornando cada vez mais uma atividade de lazer, e as pessoas não querem mais, necessariamente, apenas entrar em uma loja, comprar as suas coisas e ir para casa. Elas querem aproveitar o momento. Uma forma que você pode fazer isso é através da música e se as pessoas estão felizes com isso, então que seja assim.

Robyn Williams: Acho que isso é chamado de “terapia de compras”, não é isso?

Agora, voltando à questão de se as pessoas estão conscientes disso, você realizou estudos sobre as letras, para descobrir se as pessoas estão realmente entendendo o que está sendo dito pela música, sendo que esta letra, supostamente, deveria transmitir uma mensagem em particular.

Adrian North: É muito interessante. Como eu digo, todos tem essa idéia de que isso é quase como o efeito de um tipo de agulha hipodérmica. Você sabe, as letras são produzidas pelo compositor, são gravadas, são tocadas no rádio e elas entram direto na cabeça das pessoas exatamente como se pretendia. O estudo que foi realmente feito sobre isso, o qual foi realizado em shows na América, demonstra que este não é realmente o caso. O que foi feito é que o pesquisador procurava em antigas edições de revistas que creio que eram da Rolling Stone Magazine, entrevistas com pessoas como Bob Dylan, e procurava por evidências diretas daquilo que, por exemplo, Bob Dylan estava querendo dizer com aquela música sobre determinado assunto. O que o pesquisador fazia então era que ele dava às pessoas um questionário de múltipla escolha. Eles tinham quatro opções. Então tocavam a música e as pessoas podiam dizer que esta música era sobre A, B C ou D, e uma delas era a resposta correta. De fato, o que foi encontrado é que as pessoas tinham a tendência de acertar em apenas 25% das ocasiões. Em outras palavras, é perfeitamente um nível de acerto por probabilidade, e nada mais do que isso.

Robyn Williams: Sim, mas por outro lado, Bob Dylan pode ser um pouco tendente a erro, um pouco obscuro – quem pensaria que a música “Tambourine Man” fosse algo a respeito de um traficante de drogas ou algo assim?

Adrian North: Certamente, como você disse, existem vários graus de abstrações e metáforas e, como você disse, o que se pode esperar de uma canção se torna mais obvio em termos de letra, e então é mais provável que ela seja entendida. Mas este não é sempre o caso. As pessoas, muito freqüentemente, ouvem música por uma razão. Você sabe, podemos ouvir música para se alegrar, para se acalmar, ou qualquer outro objetivo. A assim, as pessoas sempre irão interpretar a música. Não é como uma agulha hipodérmica. Você sabe, as pessoas acrescentam seu próprio ponto de vista a isso.

Robyn Williams: E a respeito do lado manipulador da música? Obviamente a Musak está crescendo [*]. As pessoas estão ficando mais espertas neste tipo de coisa?

Adrian North: Elas estão ficando muito mais profissionais acerca da maneira pela qual a música é escolhida. Por exemplo, existem muitos supermercados e lojas de discos que efetivamente operam a sua política interna de música como uma estação de rádio, uma estação de rádio comercial. O que também está acontecendo é que a conscientização disto está crescendo, e a razão para esta crescente sofisticação, é que as pessoas sabem perfeitamente bem, ou estas empresas sabem, que se as pessoas não gostarem, elas vão parar de vir e se elas pararem de vir, você não poderá ganhar o dinheiro delas. Então, é freqüente existir este estereótipo de que a música comercial é horrível, e em alguns aspectos isso está certo, mas isso é porque ela é feita de maneira horrível e esse é o tipo de empresa que irá desaparecer. Aqueles que fazem isso de forma correta são os que permanecerão e penso que as pessoas vão se opor muito menos a isso.

Robyn Williams: Eles também se opõe com firmeza a estarem sendo manipulados?

Adrian North: Eu não acho que é o caso de manipulação. O Flautista de Hamelin é um conto de fadas e é precisamente isso. E você não pode fazer com que alguém faça alguma coisa contra a sua vontade, somente por causa da música que está sendo tocada. A música tende a funcionar bem quando estamos lidando com situações do tipo 49 versus 51. Ela pode determinar qual lado tem alguma predominância, de uma forma ou de outra. Mas, como eu disse, você não vai levar as pessoas a fazerem coisas que elas não querem fazer. Você não vai fazer as pessoas comprar uma coisa que não querem simplesmente tocando uma música para elas – isso não acontece.


Convidado neste programa:
Adrian North
Grupo de Pesquisa de Psicologia da Música
Escola de Psicologia
Universidade de Leicester


[*] Nota do Tradutor: Muzak ( http://www.muzak.com/ ) é uma empresa, líder no mercado americano, especializada em criar música ambiente para finalidades específicas, objetivando resultados definidos.


Fonte: http://www.abc.net.au

Traduzido por Levi de Paula Tavares em Março de 2006