Ellen G. White: Autoridade em Música?

por: Samuel Krähenbühl [1]

A música na igreja deve ser diferente da do mundo.

Por que algumas desconfiam da autoridade musical de Ellen G. White? Será porque tinha pouco conhecimento da música em si? De fato, é verdade. Na família White, somente o pai de Tiago, que fora professor de canto, e dois de seus filhos, Henry e Edson, possuíam um conhecimento em música[2] . E Ellen, que não possuía, pelo que sabemos, conhecimento prático da música – são válidas suas palavras a respeito do assunto?

Antes de tudo, vamos entender o momento histórico musical.

Ellen White nasceu no mesmo ano em que morreu Beethoven, um ano após morte de Weber e um ano antes da morte de Schubert. Foi um período de grandes perdas musicais. Viveu, porém, no período culminante da música Romântica, que compreende principalmente o período de 1827 às proximidades do século XX. Época em que a música sofria grandes mudanças em sua forma, melodia harmonia. A ópera e o Lieder alcançavam seu apogeu, bem como as sinfonias e os concertos. Tais atrações eram apresentadas nos melhores teatros. Era o que chamamos de “música popular” da época.

Já o jazz nasceu em 1880, entre os negros de Luisiana, e suas raízes estão no Ragtime[3] . Do jazz e do blues nasceu o negro spiritual. Provavelmente tenha sido a maior influência que a igreja sofreu. Sobre as influências desse tipo, Ellen escreveu: “As coisas descrevestes como tendo lugar em Indiana o Senhor revelou-me que haviam de ocorrer imediatamente antes da terminação da graça. (…) Haverá gritos de tambores, música e dança… balbúrdia de ruídos”. – Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 36.

Agora que tivemos um rápido vislumbre histórico musical da época, vamos refletir sobre a autoridade profética musical de Ellen White.

O argumento de que seus conselhos não são válidos porque ela não conhecia música, não é válido, pois ela também possuía pouco conhecimento em outras áreas como medicina, educação, administração, etc. Hoje, porém, seus conselhos têm aprovação científica de que são genuínos, e surgiram muito antes de serem conhecidos pela ciência da época. Rejeitá-la seria rejeitar uma das principais características da igreja remanescente, que é o Dom de Profecia, e também rejeitar a própria voz de Deus, conforme Lucas 10:16: “Quem vos der ouvidos ouve-Me a Mim; e quem vos rejeitar a Mim Me rejeita”.

Algumas pessoas podem afirmar em tom irônico que Ellen não nos deixou partituras. Mas reflitamos: seus conselhos foram em sua maioria de cunho filosófico. Entretanto, a Música Filosófica está intimamente relacionada com a Música Notação. Comprovando isto, veja o que diz Eduard Hanslick:

“Uma melodia de Mozart ou de Beethoven é tão inconfundível quanto um verso de Goethe, um dito de Lessing, uma estátua de Thowaldsen, um quadro de Overbeck. Os pensamentos musicais independentes (melodia) têm a precisão de uma sentença e a plasticidade de uma pintura; são individuais, pessoais, eternos[4] “.

Concordo, Ellen não nos deixou partituras; entretanto, pelas suas filosofias e conselhos, podemos imaginar uma. Vejamos algumas dessas características (tiradas da compilação de Arthur White – “Conselhos Sobre a Música“):

Canto dominado e melodioso” – A importância da melodia.

Canto de óperas não agrada os anjos” – Ser tradicional não significa ser lírico.

Impróprias as vozes agudas, estridentes” – Embora cada pessoa possua um certo tipo de som, ela pode desenvolver vários timbres diferentes.

Sem algaravia e dissonância” – Não é o uso da dissonância que está em jogo aqui, mas o uso que dela se faz. Não existe música sem dissonância. A diferença se faz na resolução da mesma. Dissonâncias não resolvidas se fazem indesejáveis na música sacra – são uma característica da música popular.

Melodias alegras, todavia solenes” – Emoção acompanhada da razão.

Melodias dançantes e músicas ritmadas” – Tornam-se objetáveis para um momento de culto.

Existem muito mais características. Podemos com estas proporcionar um louvor mais genuíno, não nos esquecendo de que tudo deve partir do coração.

Há hoje um pensamento que nos permeia, de que devemos “moldar” a música de tal forma que possa atrair pessoas a Cristo. Tais pessoas deveriam estar mais atentas às palavras de Ellen White, que diz exatamente o contrário: “Há pessoas que estão prontas para fazer uso de qualquer coisa estranha, que possam apresentar como surpresa ao povo. (…) Nunca devemos rebaixar o nível da verdade, a fim de obter conversos, mas precisamos procurar elevar o pecador corrupto à alta norma da lei de Deus”. – Evangelismo, págs 136-7.

Devemos levar em conta outro fato. Ellen não nos exorta a viver num casulo, numa cola de cristal, longe a música secular (desde que não entre em choque com os princípios divinos). Seus conselhos começaram quando a música secular passou a fazer parte da música litúrgica na igreja, através de influências, fazendo com que a pessoa central da adoração, Cristo, fosse desfocada. A música na igreja deve ser diferente da do mundo, e não uma continuação do mesmo.

É Ellen G. White autoridade em música? Sim, e rejeitar seus conselhos significa rejeitar os conselhos divinos. Devemos dar maior atenção à música na igreja. Ela é tão importante quanto o ministério de um pastor.


Notas:

[1] Samuel Krähenbühl, formado no curso Técnico em Música e aluno de Música/Composição, na Unicamp.

[2] Márcio Dias Guarda. “Vida musical de Ellen G. White”. In: Revista Adventista, novembro de 1981, pág 38.

[3] Christian Bellest e Lucien Malson. Jazz. 1 ed. Campinas, SP, Editora Papirus, 1998. Pág 09.

[4] Eduard Hanslick. Do belo musical. 2 ed. Campinas, SP, Unicamp, 1992.


Fonte: Revista Adventista, março 1999, pág 11.