Aplausos Para os Deuses Tortos

por: Marco Aurelio Brasil Lima

Enquanto estamos aqui, uma pequena multidão faz vigília em frente a um hospital argentino que abriga em sua UTI uma das pessoas mais famosas do mundo.

Isso me fez recordar o estranhamento que experimentei ao descobrir que o craque Diego Armando Maradona é tratado por alguns veículos da imprensa de seu país e por muitos argentinos em conversas informais como “Diós”. Assim mesmo, com letra maiúscula. Talvez o apelido se tenha popularizado depois do célebre gol de mão que ele fez em uma partida de Copa do Mundo, que ele explicou afirmando que a mão de Deus havia ajudado à Argentina. Existe por lá até mesmo uma “Igreja Maradoniana”, que afirma ter milhares de fiéis.

Mas a Bíblia diz que o nome de Deus não deve ser empregado em vão e é curioso ver que entre os argentinos ele é aplicado a uma personalidade tão controversa quanto Maradona. Todos sabem que ele teve diversos problemas com drogas, chegando a afirmar que havia desistido de lutar contra o vício, e que ele protagonizou um sem número de encrencas, brigas com jornalistas, discussões acaloradas com autoridades e tantas outras coisas.

Entretanto, Maradona, como ninguém mais, fez bem ao combalido ego de um povo todo; através dele, toda uma nação sentiu-se genial e sua fama representou um alento para os argentinos. Então, retribuem chamando-o “Deus”.

Isso não é fruto de nenhuma característica específica dos argentinos, mas da propensão natural que todos temos de adorar a qualquer coisa que nos dê algo em troca. Vendemos nossa adoração por muito pouco, dispomo-nos a louvar ao que não merece. Você e eu somos assim e bem faríamos em prestar atenção aos nossos objetos de adoração.

Não adoramos apenas ao que chamamos “Deus” e é freqüente não adorarmos de verdade ao que chamamos “Deus”. Em verdade, quando não prestamos um culto consciente ao Único Digno de ser adorado, estamos adorando deuses tortos, prestando culto ao que não nos dá vida, e o triste é que o que não nos dá vida perpetua nossa morte.

Nota.: – Este texto foi escrito em 23-04-04