Hinário Pra Quê Mesmo?

Artigos sobre Hinos e Hinologia — 5 de junho de 2015 5:00 am

por: Annik Catunda

Calma!

Se você acabou de ler o título acima, nada de tirar conclusões precipitadas.

Talvez aqueles mais conservadores já devam estar pensando: “Ihhh, lá vem outro jovem querendo menosprezar ou diminuir a importância do hinário, ou quem sabe até forçar goela abaixo argumentos a favor do uso do CD Jovem. Esses jovens! Sempre querendo inovar as coisas em nossos cultos, mudar nossa liturgia, deixar tudo mais animado…”.

Bom, já adianto que não estou aqui para fazer nem um e nem outro, nem acusar o primeiro e nem defender o segundo, mas quem sabe estimular.

Imagine nosso tradicional (em algumas igrejas não mais tão tradicional assim) culto de sábado de manhã. As pessoas chegam, iniciam-se os momentos de cânticos e os dirigentes pedem para abrirmos (aqueles que possuem e ainda os levam para a igreja) nossos hinários em hinos previamente escolhidos. Alguns cantam juntamente com os dirigentes, outros nem sequer se dão ao trabalho, afinal com a mídia sendo projetada e o CD tocando muitos devem pensar que sua voz não é assim tão necessária e nada têm a contribuir para essa parte do culto. Essa cena tem sido cada vez mais comum em nossa realidade.

Tem crescido cada vez mais a quantidade de jovens que renegam ou até mesmo menosprezam o uso do hinário em nossos cultos. Muitos são por vezes influenciados ou apoiados pelos líderes das igrejas. Mal sabem eles que ao evitar e esquivarem-se de cantar nossos hinos estão deixando de lado uma importante parte da história adventista, e se um povo não conhece sua história facilmente perde sua identidade. Para George Knight “quando um movimento cristão começa a tomar forma definida, em geral, desenvolve o próprio hinário. É claro que hinos e hinários nunca são neutros. Eles refletem a mensagem mais importante para aqueles que escrevem os cânticos e os compilam. (Meditação Matinal 2015, Para Não Esquecer, p. 92)”. Nossos pioneiros sabiam da importância doutrinária que a música pode trazer para benefício da igreja, por isso não mediram esforços para, ao longo do tempo, compilarem e comporem hinos que fossem fiéis à mensagem adventista.

Para alguns, hinário é sinônimo de música velha, chata e monótona. Inclusive, muitas igrejas diminuíram, e outras quase excluíram, o uso de hinos em sua liturgia, pois precisavam dar mais “ânimo” ao culto e fazer com que os jovens participassem mais. Logo, o bom e velho hinário foi trocado por coletâneas de músicas “contemporâneas” e que estão em alta na mídia adventista. “Contemporâneas” entre aspas sim, pois para muitos crentes o hinário adventista é feito apenas de músicas arcaicas do século passado. Bom, não é preciso ser um grande entendedor de teoria musical para saber-se que música contemporânea é aquela produzida nos séculos XX e XXI, ou aquelas cujo compositor se encontra ainda vivo na época do locutor. Nem é preciso dizer que o atual Hinário Adventista está repleto de músicas contemporâneas, tanto pela época em que foram compostas como também pela quantidade de autores vivos (Lineu Soares, Jader Santos, Ênio Monteiro, Costa Jr…). (#pontoprohinário)

Aliás, isso de música contemporânea ou não é apenas uma desculpa esfarrapada para aqueles mais ansiosos por implantar um pouco de pimenta musical nas igrejas, afinal o mesmo Espírito que inspirou os músicos de séculos passados não mudou e muito menos alterou seu gosto musical (Tiago 1:17).

“Esta comichão do desejo de dar origem a algo de novo nunca deu coisa boa em música sacra porque, para os caçadores de novidade, o Espírito Santo já é velho e ultrapassado por ter inspirado alguém há 50, 100 ou 200 anos.” (Dario Pires de Araújo, Música, Adventista e Eternidade, p. 53)

O povo de Deus, em todas as épocas, sempre utilizou uma coletânea de cânticos no formato de hinários para serem utilizados tanto em seus cultos de adoração como na vida devocional particular. Como exemplo bíblico, temos o livro de Salmos amplamente utilizado pelo povo de Israel bem como pelos apóstolos na era cristã (I Coríntios 14:26; Efésios 5:19; Colossenses 3:16). Ou seja, mesmo que não vivessem mais no sob o sistema judaico ainda assim os cristãos primitivos utilizavam os antigos salmos judaicos em sua adoração. Além deles, os primeiros reformadores também se esforçaram por criar e compor cânticos e melodias para que toda a congregação cantasse, sendo Martinho Lutero o principal nessa área. Deus jamais deixou Seu povo sem luz, inclusive sobre o tipo de música a ser utilizada em adoração a Ele.

“A viagem a Jerusalém, daquela maneira simples, patriarcal, por entre as belezas da primavera, o esplendor do verão, ou a glória de um outono amadurecido, era um deleite. Com ofertas de gratidão vinham eles, desde o homem de cabelos brancos até a criancinha, a fim de se encontrar com Deus em Sua santa habitação. Enquanto viajavam, as experiências do passado, as histórias que tanto idosos como jovens ainda amam tanto, eram de novo contadas às crianças hebreias. Eram entoados os cânticos que os haviam encorajado na peregrinação no deserto. Os mandamentos de Deus eram recitados em cantochão e, em combinação com as abençoadas influências da natureza e da cordial amizade, fixavam-se para sempre na memória das crianças e dos jovens.” (Educação, 42).

No hinário encontramos uma riqueza de conteúdo tanto musical quanto cultural. Ali podem ser encontradas melodias judaicas, alemãs, irlandesas e etc. Também se podem verificar autores desde Bethoveen a Bill Gather. Isso sem falar na riqueza de suas letras e melodias que, quando bem produzidas e cantadas com entendimento, nos fazem experimentar um pouco da realidade celestial aqui na Terra. Para os mais curiosos, um hinário sempre será fonte de aprendizado linguístico e bíblico, pois ali se faz referência a termos como “jubileu” (HASD, 135), “ditosa” (HASD, 91), “fenece” (HASD, 443), e outras diversas palavras e verbetes que fazem com que nosso vocabulário possa ser expandido e melhorado. (#pontoprohinário)

Além disso, seus hinos nada têm de meras e vãs repetições presentes em muitos corinhos atuais, alguns dos quais mais me parecem mais com mantras de tanto que repetem. Muitas das letras de um hinário são belas poesias (HASD, Eis que as Estrelas Vêm, 443) e cada estrofe é diferente da outra, repetindo apenas o coro. E nada, em suas letras ou ritmo, nos lembra dos atuais estilos mundanos condenados por Deus na Bíblia ou pela Sua mensageira, pois sua música é sacra e divinamente inspirada. Suas músicas chamam atenção pela riqueza de conteúdo doutrinário e beleza das letras, e não pelo ritmo agitado, letras vazias de significado (“restaura minha desilusão”, oi!?) ou melodias simplórias. (#pontoprohinário)

Seu repertório é o mais sacro possível, com letras escritas por autores que mantinham uma constante comunhão com Deus. Ali podemos encontrar músicas para as mais diversas ocasiões e sobre os mais diversos assuntos bíblicos. Em suas melodias encontramos paz, conforto, segurança, alívio, mas, acima de tudo, achamos o conhecimento necessário para seguir em nossa caminhada cristã. Quando cantamos um hino com alegria estamos dizendo a todos ao nosso redor que apreciamos aquilo que Deus separou para nós. Também estamos dando real valor àqueles que tanto se esforçaram por nos deixar um legado musical digno de ser entoado. (#pontoprohinário)

Talvez a razão de muitos jovens hoje não apreciarem o hinário seja porque não o conhecem. Não conhecem sua história, não conhecem a história de seus autores, não conhecem a história por trás de muitos dos hinos, não conhecem a história do hinário em questão ou até mesmo nem sequer conheçam o significado de um hinário. E a verdade é que ninguém ama aquilo que não conhece. Logo, se procurassem saber mais sobre suas músicas ou o porquê de termos um hinário sua compreensão e desejo por cantar seus hinos aumentariam em grande medida. Muitas vezes, por cantarmos os hinos de forma indiferente ao que diz a letra perdemos as bênçãos que poderiam advir caso cantássemos com interesse e devoção, além de impedirmos que anjos cantem através de nós e conosco. “Não é suficiente ter noções elementares do canto, mas com o entendimento, com o conhecimento, deve-se ter tal ligação com o Céu que os anjos possam cantar por nosso intermédio.” (Música – Sua Influência na Vida do Cristão, p. 32).

Agora, leia o seguinte relato abaixo:

“Eles têm um grande bumbo, dois tamborins, um contrabaixo, dois pequenos violinos, uma flauta e duas cornetas. Seu livro de músicas é ‘Garden of Spices’ e tocam músicas dançantes com letra sagrada. Nunca usam nosso próprio hinário, exceto quando os irmãos Breed ou Haskell pregam, então eles iniciam e terminam com um hino do nosso hinário, mas todos os outros hinos são do outro livro. Eles gritam ‘Amém’, ‘Louvado seja o Senhor’ e ‘Glória a Deus’, como acontece nos cultos do Exército de Salvação. Isso causa aflição. As doutrinas pregadas correspondem ao resto. O pobre rebanho está verdadeiramente confuso. — Relatorio de S. N. Haskell a Sara McEnterfer, 12 de Setembro de 1900.”

O relato acima chegou até o conhecimento de Ellen White e se refere a uma reunião campal de Indiana em 1900. Alguns outros relatos foram escritos, e maiores detalhes sobre o assunto podem ser encontrados no livro Mensagens Escolhidas 2:31-39. O mais interessante no relato acima é que nele o sr. Haskell está se referindo a um contexto ruim e confuso e dentro do mesmo está o fato de as pessoas não usarem os hinos do hinário utilizado na época, mas sim uma outra coletânea que possuía “músicas dançantes com letras sagradas”. Alguma semelhança com nossos dias!? Fato é que a resposta de Ellen White sobre tal evento foi:

Esses acontecimentos do passado hão de ocorrer novamente no futuro. Satanás fará da musica uma armadilha pela maneira como é dirigida. Deus convida Seu povo, que tem a luz diante de si na Palavra e nos Testemunhos, a ler, considerar e colocar em prática. Instruções claras e definidas têm sido dadas a fim de todos entenderem. Mas a comichão do desejo de dar origem a algo de novo dá em resultado doutrinas estranhas, e destrói largamente a influência dos que seriam uma força para o bem, caso mantivessem firme o princípio de sua confiança na verdade que o Senhor lhes dera.” (Mensagens Escolhidas v. 2, p.37, 38).

Ellen White considera tudo o que foi relatado como sendo contrário à vontade de Deus, não apenas as músicas, instrumentos e danças, mas também o fato de não serem utilizadas as músicas do “nosso próprio hinário”. A questão é: será que seus ensinos e conselhos ainda são válidos em nossos dias? (#pensenisso)

Alguns já podem estar indagando com certa irritação: “Ah, então quer dizer que só podemos cantar música que for do hinário e nenhuma outra serve!?”. Claro que não, mas devemos ser muitos mais seletivos com aquelas que não estão nele. Toda e qualquer música deve passar pelo crivo da Palavra de Deus e dos Testemunhos (Isaías 8:20), e devemos sempre nos questionar: essa música me eleva espiritualmente, me ensina a Lei do Senhor, me transmite os valores e princípios bíblicos? Ao final deste artigo, serão adicionadas dicas de leitura para aqueles que quiserem saber mais sobre que música é aceitável para Deus. Faça suas perguntas porque Deus jamais deixará você sem resposta.

Meu objetivo aqui está longe de dizer que apenas as músicas do hinário são próprias para uso em nossos cultos. Esse artigo é apenas o desabafo de alguém que está vendo as preciosas pérolas musicais de nossa igreja serem esquecidas e negligenciadas rapidamente. Nosso Hinário Adventista não pode ser substituído e jamais deve ser rejeitado. Se as igrejas, com seus líderes e pastores, investirem mais em seus músicos, ensinando-lhes sobre o real valor da música, nossos cânticos e hinos não seriam monótonos e nossos cultos seriam mais vivos, racionais e edificantes.

Que tal neste exato instante você abrir aquele hinário, que talvez esteja gasto e empoeirado por falta de uso, ou quem sabe até mesmo baixar o aplicativo para seu tablet ou celular, e cantar um belo hino de que você goste!? Tenho certeza que Deus falará com você através dele. E não se esqueça de no próximo culto cantar os hinos com alegria e entendimento. Lembrem-se: Hinário Adventista é Cooltura Adventista!

A seguir, um breve vídeo que nos ajudará a ter noção da importância dos hinos em nossas vidas.



Fonte: Cooltura Adventista.


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