O Que o Evangelismo Não É

(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja — 4 de fevereiro de 2014 3:00 am

por: Mark Dever e Paul Alexander

Evangelismo não é entretenimento [1]

Muitas igrejas nos Estados Unidos têm usado métodos de evangelização fundamentados em entretenimento — alguns tem chamado isso de “teotretenimento” — para compartilhar o evangelho tanto a adultos como a crianças. No caso dos adultos, o método geralmente envolve uma forma de pesquisa do público-alvo e a criação de um culto evangelístico em que tudo, desde a música até ao sermão, é estruturado com o propósito de fazer com que as pessoas se sintam bem — uma abordagem do tipo “sente-se e aprecie o show”. No caso das crianças, o método assume a forma de grupos ou de Escola Dominical que gastam maior parte do tempo pensando em atividades engraçadas que introduzirão disfarçadamente o evangelho.

Não há nenhuma razão para argumentarmos contra a comunicação do evangelho de um modo compreensível, criativo e provocativo. Mas a evangelização que assume a forma de entretenimento tem algumas conseqüências perigosas. Lembre-se: aquilo com o que você ganha as pessoas é aquilo para o que você as ganha. Se as ganha com entretenimento, elas serão ganhas para o show, e não para a mensagem; e isso aumenta a probabilidade de falsas conversões. No entanto, ainda que elas não sejam ganhas para o show, métodos de evangelização fundamentadas em entretenimento tornam o arrependimento quase impossível. Não somos desafiados a abandonar nosso pecado quando nossos sentimentos são afagados e nossas preferências, estimuladas. O evangelho é inerente e irredutivelmente confrontador. Ele ataca a nossa justiça própria e nossa auto-suficiência, exigindo que abandonemos o pecado que amamos e creiamos em Alguém outro para nos justificar. Portanto, o entretenimento é um instrumento problemático de comunicação do evangelho, porque ele quase sempre obscurece os aspectos mais difíceis do evangelho — o preço do arrependimento, a cruz do discipulado, a estreiteza do caminho. Alguns discordarão, argumentando que a dramatização pode dar aos incrédulos uma imagem visual do evangelho. Mas já possuímos essas imagens. São as ordenanças do batismo e da Ceia do Senhor e as vidas transformadas de irmãos e irmãs em Cristo.

Isso não significa que temos de abafar toda a criatividade nos empreendimentos evangelísticos. Desejamos encorajar a criatividade em descobrir maneiras de compartilhar o evangelho. Isso significa que devemos ter cautela contra a dependência do entretenimento para a “eficiência” da evangelização, especialmente quando a evangelização acontece em nossas reuniões semanais para adoração.

As igrejas são mais saudáveis quando o evangelho é apresentado com mais clareza; e o evangelho é apresentado com mais clareza quando nossos métodos de evangelização são mais nítidos.

Evangelismo não é manipulação [2]

Muitos pastores bem intencionados nunca pretendem manipular qualquer pessoa, para que ela se arrependa e creia. Mas alguns dos métodos que usamos em compartilhar o evangelho podem ser sutilmente manipuladores, quer os percebamos assim, quer não. Às vezes, os pastores usam a música de maneira que despertam as emoções, especialmente música suave durante um convite ou uma oração que atrai as afeições dos ouvintes e estimula erroneamente uma decisão por Cristo baseada em sentimentos. Por outro lado, há pastores que usam músicas tão estimulantes, que acabam levando os ouvintes a um frenesi de expressividade que não é necessariamente espiritual. Outros pastores fazem pressão social cantando diversas vezes a mesma estrofe de um hino, visando que pessoas façam uma oração ou venham à frente, até que alguém finalmente se renda. Alguns outros até usam táticas de linguagem agressiva a fim de pressionar as pessoas a fazerem a oração de salvação.

Não devemos querer que nossas apresentações ou convites do evangelho sejam moldados por aquilo que pensamos que “consumará a venda”. Se nossa apresentação do evangelho for moldada desta forma, isso revelará que entendemos a conversão como algo que podemos orquestrar; e tal entendimento não corresponde à verdade. Em vez de usarmos toda a nossa capacidade para convencer e mudar o pecador, mantendo Deus em segundo plano, como um homem cordial que esperando tranquilamente que o cadáver espiritual, seu inimigo espiritual declarado, O convide a entrar em seu coração, devemos pregar o evangelho como pessoas amáveis que tentam persuadir, mas sabem que não podem converter. Fiquemos em segundo plano enquanto Deus usa todo o seu poder para convencer, converter e mudar o pecador. Então, veremos com clareza quem possui o poder de vivificar os mortos.

Evangelismo não é centralizado no homem [3]

Algumas estratégias de evangelização procuram tornar o evangelho mais atraente aos incrédulos por apresentar todos os benefícios e deixar o custo para depois. Eles prometem que você experimentará mais satisfação, menos estresse, um melhor senso de comunidade e um senso crescente de significado na vida — e estará preparado para a eternidade! — se apenas fizer a decisão por Cristo agora mesmo. Todas essas coisas podem estar bem próximas do ouvinte incrédulo. Mas, o que essa “evangelização benéfica” faz com o evangelho bíblico? Faz que o evangelho bíblico pareça concentrar-se em mim, em melhorar a minha vida e tornar-me mais feliz. É verdade que somos os beneficiários e Deus, o benfeitor. Não somos aqueles que “fazem um favor a Deus”, por tornarmo-nos cristãos. Contudo, o evangelho não se concentra em mim. O evangelho é Deus revelando a sua santidade e misericórdia soberana. O evangelho é a glória de Deus e sua obra de reunir adoradores para Si mesmo, pessoas que O adorarão em espírito e em verdade. O evangelho se focaliza na satisfação da santidade de Deus, por fazer Cristo morrer em favor dos pecados de todos os que se arrependem e crêem. A essência do evangelho é Deus criando um nome para Si, por reunir um povo e separá-lo para Si mesmo, a fim de espalhar sua fama entre as nações.

A “evangelização benéfica” enche nossas igrejas com pessoas que são ensinadas a esperar que tudo ocorrerá como elas querem, tão-somente porque se tornaram cristãs. Mas Jesus prometeu perseguição para aqueles que O seguem; Ele não prometeu privilégios mundanos (João 15:18 a 16:4; cf. II Timóteo 3:12). Queremos edificar igrejas e cristãos que perseveram em meio à aflição, que estão dispostos a sofrer, serem perseguidos e morrerem por causa do evangelho de Cristo, porque valorizam a glória de Deus mais do que os benefícios temporais da conversão. Não queremos que as pessoas se tornem cristãs porque isso lhes reduzirá o estresse. Desejamos que se tornem cristãs porque sabem que precisam se arrepender de seus pecados, crer em Jesus Cristo, tomar com alegria a sua cruz e segui-Lo para a glória de Deus.

Há realmente benefícios maravilhosos na vida cristã. No entanto, ser teocêntrico na evangelização, focalizando menos os benefícios temporais e mais o caráter e o plano de Deus, contribui para que mais cristãos estejam dispostos a sofrer e mais igrejas sejam motivadas pela glória de Deus.


Fonte: Texto retirado do livro Deliberadamente Igreja  (Editora FIEL), capítulo 3 “Evangelização com Responsabilidade", pp. 67 a 70.

Tradução: Francisco Wellington Ferreira

Este conteúdo foi postado no espaço virtual Voltemos ao Evangelho, originalmente numa série de 3 posts, no links abaixo:

1Evangelismo não é entretenimento

2Evangelismo não é manipulação

3Evangelismo não é centralizado no homem


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