Adoração e Louvor: Tendências

A Forma da Adoração, Sonorização — 2 de janeiro de 2014 3:00 am

por: Jabes Nogueira Filho

Não faz muito tempo, agendei num domingo à tarde para ir dar assistência a uma pequena congregação que nossa igreja mantém aqui perto de Aracaju. Lá não tinha pastor e aproveitaria para celebrar a Ceia do Senhor com os irmãos. A reunião estava marcada para as 15h. Cheguei um pouco antes. Saudei a irmã que estava na entrada do salão de culto. Fui até os primeiros bancos. Sentei e aguardei o início dos trabalhos.

Dali a pouco chegou o evangelista. Cumprimentou-me com alegria pela presença do pastor e pediu que aguardasse que logo o culto começaria. Ele foi à frente e começou a ajustar o equipamento de som que seria usado naquela tarde. Sem ver o que acontecia atrás de mim – continuei sentado bem na frente – aguardei. Tentando chegar a um mínimo aceitável de qualidade, o evangelista continuou pelejando com a caixa de som. E o início de culto teve que esperar.

Até que, já beirando à meia hora de atraso, finalmente o culto começou – e eu sentado no mesmo lugar. Depois de alguns cânticos não muito afinados, mas cantados com empolgação, e uma oração, a palavra me foi entregue. Eu me levantei, dei não mais que dois ou três passos, olhei o salão de frente, e só então me dei conta do que estivera acontecendo naquela tarde: O culto atrasou meia hora a fim de que o microfone fosse ligado para um auditório de oito pessoas: eu, um diácono que me acompanhava, o evangelista, sua esposa e mais quatro irmãos – dois adolescentes e duas senhoras.

Entendi que ali eles queriam oferecer o melhor para Deus. Mas o inusitado da situação trouxe-me à mente algumas questões: o que a igreja tem feito consigo mesma e com o seu louvor? Qual o nosso paradigma? E o nosso diferencial? Por que hoje celebramos culto deste jeito? Por que chamamos isso de adoração e louvor? Temas como estes têm ocupado minha agenda pastoral e teológica e entendo que não há respostas definitivas para todas as questões. Mas tenho sugestões. E é isso que eu quero fazer aqui: tentar apontar algumas tendências que me parecem claras no louvor e na adoração da igreja no Brasil hoje.

Antes de continuar, deixe-me fazer duas colocações como quem quer marcar posição. Primeiro: adoração e louvor não são necessariamente sinônimos de música – é bem mais que isso – mas a associação é quase inevitável. Então quando aponto para um, respingo no outro. Segundo: citar tendência atual não equivale a fazer juízo de valor. Não é por ser moderno que é bom ou ruim. Bem, vamos às tendências. Vou sugerir aqui sete delas que me parecem suficientemente abrangentes, três sobre postura e quatro sobre conteúdo. Cada uma delas mereceria aprofundamentos melhores, mas vou por hora apenas propor um início de conversa.

A chegada do século XXI popularizou os chamados shows gospel (eita expressão esquisita!). E esta me parece uma tendência inevitável. A adoração pública deixou o ambiente eclesiástico e ganhou às praças. Virou show e teatro, apresentação e entretenimento. Como tudo na vida, tem seu lado bom e ruim. Se por um lado, tanto livrou as igrejas dos marqueteiros (será?) como contribuiu para divulgar a fé, o que não deixa de ser positivo (considero Filipenses 1:18); por outro transformou os fiéis em plateia e dissociou adoração e louvor da piedade pessoal.

Outra tendência, quase como extensão desta primeira, é a profissionalização dos adoradores e louvadores (existe esta palavra?). Para se fazer eventos de qualidade é necessário que pessoas se ocupem e esmerem em fazê-los. E isto exige tempo, habilidade e dedicação – daí a presença de profissionais. Lembro que Davi profissionalizou o culto em Jerusalém mil anos antes de Cristo, o que deu um fantástico ganho de qualidade à adoração em Israel, daí que ter profissionais no louvor não é necessariamente ruim. Mas também é verdade que quem trabalha para Deus apenas por dinheiro, logo se venderá ao Diabo se ele pagar melhor!

E como estes profissionais da fé precisam ser sustentados (está na Bíblia em I Timóteo 5:18), passou-se a criar uma rede de sustentação para tais: gravações, shows, cachês, clips, contratos, e por aí vai… E isso, sem falar nas rádios e TVs evangélicas que divulgam estes trabalhos, mas que têm também que se virar com a concorrência. Ou seja, hoje temos a tendência da adoração de apelo midiático (palavra bem pós-moderna!). É bom ter emissoras cristãs, mas ouvir gospel music (que mania de inglês!) dedicada à “prima da sogra do meu irmão que está ouvindo e gosta deste cantor” é o fim…

E quanto ao conteúdo da adoração e do louvor, que tendências posso detectar? Até que ponto a forma influencia o conteúdo? Acompanhe mais um pouco comigo. Quanto ao conteúdo, o que mais tem me chamado à atenção é a tendência marcante de canções, mensagens e orações centralizados na primeira pessoa: eu. Não é de hoje que se canta assim, minha avó já louvava declarando: “vivo feliz, pois sou de Jesus” (notadamente em primeira pessoa), mas a ênfase estava no “rende-lhe sempre ardente louvor” (o mais importante deveria ser ele – o Senhor).

Hoje eu canto, eu adoro, eu declaro, eu louvo, eu me prostro, eu sei, eu levanto minhas mãos, eu me alegro, eu tomo posse, eu… eu… eu… E até parece que Cristo é apenas um apêndice nisto tudo. Mas, além desta adoração autocentralizada, três outros temas parecem dominar as canções de louvor e adoração, e elas completam as tendências que cito aqui.

Já perceberam quanto se faz citação do AT? E em língua hebraica? Também não estou dizendo que é um erro, é uma tendência. Claro que os textos antigos são de maneira igual parte de nossa herança de fé e não posso esquecê-los. Mas até parece que se tem saudade da antiga aliança e já nem lembramos que ela foi superada em Cristo (o texto aos Hebreus no NT é exuberante em expor isto).

Também uma tendência bem marcante hoje é centralizar nossa fé, nossa esperança, e por isso nosso louvor, nas bênçãos temporais de Deus – afinal nos está prometido o melhor desta terra! Concordo que nenhum cristão sincero nega a esperança no porvir, mas já não se repete com tanto entusiasmo: “com Cristo vou morar no lindo céu”!

E como última tendência que pretendo apontar, está a de se reportar às nossas batalhas diárias com os mesmos elementos citados acima – uma coisa leva a outra. Se minha teologia ainda está no Antigo Testamento, eu me vingo do meu inimigo e não o amo, nem oro por ele, muito menos lhe ofereço água (*). Se minha conquista já deve se revelar por agora, o vinde bendito do meu Pai passa a ser apenas discurso, e não esperança que move a vida.

Bem, como disse lá em cima, são apenas alguns apontes sobre o louvor e a adoração na igreja brasileira hoje e suas tendências – sugestões para início de conversa. Espero em Cristo que outros possam topar o bate-papo e prosseguir no diálogo. Creio que será produtivo para o Reino de Deus.

Sim, quanto ao culto na congregação: aproveitei a oportunidade para, dispensando o microfone, celebrar a Ceia do Senhor lembrando os primeiros cristãos que o faziam adicionando à memória a comunhão. Foi uma tarde abençoada para a glória de Deus.


Jabes Nogueira Filho é pastor e colaborador de O Jornal Batista


Fonte: O Jornal Batista, 24/11/13, pág. 4


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