“Eu Sou Yahweh”

Especial Liturgia — 24 de outubro de 2013 3:00 am

por: Víctor M. Armenteros

Lembro-me de que se tratava de uma frase especial; raramente usada, mas, quando isso acontecia, era revestida de solenidade total. Hoje, quase não é utilizada, mas era comum em minha infância: “Palavra de honra!” Se alguém pretendia estabelecer um compromisso estável, quer fosse no intercâmbio de algum objeto, ou com o objetivo de fortalecer um relacionamento, perguntava: “Palavra de honra?” A resposta era dada com suprema transcendência: “Palavra de honra!” É que existem frases que são perfeitas para concluir uma ideia, um diálogo ou exposição. Quem nunca ficou em profundo silêncio quando um dos pais terminava a reprimenda dizendo: “Não se fala mais nisso!”? Quem nunca sentiu admiração quando um brilhante acadêmico terminou sua exposição com um rotundo: “Tenho dito!”? Quem nunca vibra, até a medula, quando um pregador cheio do Espírito Santo termina o sermão, dizendo: “Amém!”?

Há muitas expressões semelhantes que nos vêm à mente; porém, estou certo de que há uma que a todas supera. Inicialmente, quero explicar como a descobri e o que ela implica. Não faz muito tempo, estávamos com alunos do doutorado em Antigo Testamento, na aula de Crítica Textual. Eu havia pedido a eles que preparassem uma análise das notas massoréticas das perícopes que iam servir de base para as respectivas teses. Um deles trabalhava com Levítico 20, e outro com Ezequiel 20. Para minha surpresa, uma mesma informação massorética aparece nos dois capítulos (Levítico 20:7; Ezequiel 20:5,20): “Esta expressão aparece 24 vezes no fim de versículos”, dizia a nota. Uma pergunta surgiu em minha mente: Por que era importante para o escriba que essa frase aparecesse ou não no fim de um versículo? Se ele havia contado as ocasiões em que ela estava registrada ou não, certamente não deve ter sido por mero impulso estatístico. Que mensagem ele queria transmitir para nós?

Esta é a frase: “Eu sou o Senhor (Yahweh), o Deus de vocês.” Aparece 34 vezes em 33 versos do Antigo Testamento. E, como dizia a nota massorética, 24 vezes no fim do verso. No início, aparece em Levítico 11:44; 25:38; 26:13; Números 15:41; Juízes 6:10; Ezequiel 20:19; Joel 3:17. No meio do verso, em Êxodo 6:7; Levítico 19:36; 20:24. No fim, em Êxodo 16:12; Levítico 18:2,4,30; 19:2-4,10,25,31,34; 20:7; 23:22,43; 24:22; 25:17,55; 26:1; Números 10:10; 15:41; Deuteronômio 29:5; Ezequiel 20:5,7,20.

Frase especial

Diferentemente de outros idiomas, na língua hebraica existem orações sem verbo explícito. São as chamadas orações nominais. No original, a frase que estamos considerando diz algo como: “Eu, Yahweh, seu Deus”. As orações nominais têm várias funções, entre as quais estão as seguintes: 1) identificar e 2) mostrar as qualidades de alguém. Observe a referida frase. Primeiramente, ela mostra a identificação: “Eu sou Yahweh”; depois, algo que O qualifica: “Sou o seu Deus.”

Yahweh é Deus com nome próprio. E que nome! A raiz da qual é derivado está relacionada com “ser”, “existir” ou “estar”. Ou seja, Deus é. Representa a essência do Universo. Tudo gira ao redor de Sua natureza, que é amor. Cada pequeno detalhe na rota dos astros, no desabrochar de uma flor, no voo da mariposa, nos fala de Sua essência. Deus existe. É um Deus vivo!

Há muitos deuses sem vida. As figuras de pedra ou madeira que representavam os panteões da antiguidade eram simplesmente pedra ou madeira, nada mais que isso. Os deuses da atualidade, de níquel ou plástico que parecem ter plenitude continuam sendo, à semelhança daqueles, níquel e plástico. Então, adorar a Moloque-Baal podia implicar a morte do primogênito. Hoje, adorar a Mamom pode implicar morte existencial da família. Porém, com Yahweh é diferente. A confiança nEle produz alegria, vida, segurança, plenitude. Somente recebemos e, em troca, não sacrificamos ninguém.

Deus está. Os deuses do Mediterrâneo viviam além das nuvens, afastados da companhia humana. Em contraste, Yahweh aprecia estar ao nosso lado. A História comprova: Ele abriu as águas do Mar Vermelho, em uma nuvem guiou Seu povo durante o dia, no deserto, e numa coluna de fogo, durante a noite fria. Venceu inimigos, realizou maravilhas. Deus está e estará. Digo “estará” porque a maneira pela qual o nome Yahweh é escrito implica que essa natureza não cessou, mas continua e continuará. Yahweh estará sempre conosco e, por isso, temos identidade, temos vida. Ele jamais faltará.

Analisemos a qualidade que O torna vivencial: “Sou o seu Deus”. Caso não houvesse dito “seu”, que diferença faria? É indubitável que é Deus, transcendente. Porém, ao dizer “seu Deus”, Ele nos torna possuidores dEle. Podemos possuir Deus? Evidentemente, não no sentido de tê-Lo sob controle. Contudo, podemos ter com Ele uma relação “nossa”. Ele aprecia relacionamentos. No Antigo Testamento, em 117 ocasiões é mencionada a expressão “o seu Deus” e, 267 vezes, a expressão “teu Deus”. É simples explicar: Deus Se alegra de que tenhamos relacionamento com Ele. Por essa razão, talvez, a metáfora que mais aproxima o vínculo de Yahweh com Seu povo seja o casamento. Além disso, é também um relacionamento individual – “teu Deus” – que gera relacionamento coletivo – “o Deus de vocês”.

“Eu sou Yahweh, o seu Deus” é uma frase estupenda que fala de grandeza e proximidade, de poder e carinho, de identidade e fraternidade. Devemos ter isso em mente porque, como cristãos, às vezes, temos crises individuais e coletivas.

Na História

Viver no deserto tem suas dificuldades. Os israelitas perceberam isso em sua trajetória pela península do Sinai e, por isso, murmuraram. Eles desejaram as panelas egípcias com carne e pão. Êxodo 16 registra esse momento de maneira sintética, mas bem descritiva. Em meio ao fragor das queixas, Deus lhes prometeu que teriam o alimento que desejavam. Assim, cumpria Seu compromisso implícito na frase: “Eu sou Yahweh, o seu Deus”. No dia seguinte, o povo teve codornizes para comer, algo incomum, mas não extraordinário; e uma substância fina, algo impensado e sumamente extraordinário. O maná acompanhou o povo durante 40 anos (Êxodo 16:35). Yahweh Se encarregou de realizar um milagre cada dia da semana, durante décadas, porque era seu Deus, não um Deus alheio nem ausente em relação às necessidades do Seu povo.

Yahweh participa da história deste mundo. Sua transcendência não está em conflito com a proximidade. Ele não desvia de nós o olhar nem nos abandona ao léu da própria sorte. Está presente na trajetória da vida, como a bússola que nos guia à meta da redenção, como a força que nos impulsiona a cada instante, apesar dos perigos deste mundo cheio de adversidades. O êxodo se transformou em um marco para os filhos de Israel e não deixa de ser um símbolo da humanidade. Andamos errantes, até mesmo queixosos, porém não andamos sozinhos, porque Yahweh é nosso Deus. Muitas vezes perguntaremos: “O que é isto [maná]”? Ele nos responderá: “Prove-o.” Então, compreenderemos que Ele aprecia compensar, com dulçor, a amargura deste mundo caído, que nos presenteia coisas preciosas, apesar das nossas imperfeições.

Nas festas

Os capítulos 18-20 de Levítico são espetaculares. Eles falam de santificação e selam cada bloco com a frase: “Eu sou Yahweh, o seu Deus”. Levítico foge da sacralidade, do mágico e totêmico, e ensina santidade, o vivencial e relacional. Não pretende que apenas os levitas fossem santos, mas cada um dos integrantes desse povo. Esse processo de fazer com que todos formem um povo escolhido, com uma missão de glória, mescla princípios e normas, liturgia e cotidianidade. Para Yahweh, o atemporal e universal (princípios) convive com o temporal e contextualizado (normas). Todo momento da vida deve ser santo. Não é muito fácil entender por que nossa mentalidade helênica costuma separar tempos e espaços. Porém, temos que compreender que não há momentos religiosos e momentos profanos. Cada piscada de olhos, a respiração, o pensamento e a ação perfazem um todo. Não devem existir dissonâncias.

Nesses capítulos, as cadeias de mandatos e promessas terminam com muitos: “Eu sou Yahweh, o seu Deus.” O povo era espiritualmente analfabeto e precisava com frequência ser lembrado de que o segredo está no relacionamento com Deus, que superava até mesmo os relacionamentos mais íntimos da vida humana. Frequentemente os textos relembram que o povo devia ser santo, porque Deus é santo. O relacionamento dEle com Seu povo não estanca, mas existe em transferência; ou seja, somos veículos de comunicação. Somos especiais porque nosso Deus é especial.

Se unirmos esse conceito a Números 10:10: “Também em seus dias festivos, nas festas fixas e no primeiro dia de cada mês, vocês deverão tocar as cornetas por ocasião dos seus holocaustos e das suas ofertas de comunhão, e elas serão um memorial em favor de vocês perante o seu Deus. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês”, concluiremos que Deus deseja esse relacionamento na intensidade dos momentos excepcionais e coletivos, assim como na calma das ocasiões rotineiras e individuais. Há festas para ser santificadas. Trilhar o caminho da plenitude deve ser uma verdadeira festa.

O pós-modernismo nos dá uma oportunidade: relacionamentos. O mundo globalizou-se e cada dia existem maiores conexões. As pessoas desejam relacionamentos verdadeiros, relacionamentos pessoais que preencham seu vazio. Hoje, Yahweh novamente repete que é nosso Deus, que deseja nos tornar especiais, que Sua ligação não é interrompida; está sempre em sintonia. Devemos voltar a compreender que o chamado à santidade não é apenas para alguns (levitas ou profissionais da religião), mas para todos e cada um dos seres deste mundo. Nós somos agentes dessa mensagem de desejos a ser satisfeitos. Devemos lembrar que Deus assina Seus documentos circulares e pessoais com um afetuoso: “Eu sou Yahweh, o Deus de vocês.”

Lembranças do passado

Ezequiel 20:5,7,19,20 retoma a frase, porque é costume dos profetas escritores voltar ao Pentateuco e ver os marcos que assinalam o caminho da religiosidade. A lembrança das lições do passado envolve dimensionalidade (Yahweh participou da História e Se oferece para continuar fazendo isso no futuro), permanência (o relacionamento com Yahweh não é pontual, mas contínuo) e perspectiva (o vínculo com Yahweh é progressivo, não estático).

Nesses textos, assegura-se essa lembrança com a afirmação dos sábados. No dia de encontro, outros encontros são lembrados e são desejados novos encontros, porque Deus Se compraz em Se encontrar com o homem. Desde os passeios pelo Éden, Ele caminha conosco. É suficiente recordarmos as idas e vindas de Abraão, a jornada no deserto, a peregrinação dos profetas, os itinerários de Jesus. Yahweh é um Deus dinâmico e apenas devemos exercitar a memória para perceber isso.

As mensagens do cotidiano e do excepcional se misturam para fortalecer uma ideia: Não há tempo sem Yahweh e tempo com Yahweh. Todo o tempo pertence a Ele. Vivemos em uma época de dissonância entre o “religioso” e o “secular”. Temos dividido os espaços, designando o particular a um e o público a outro; porém essa não é a realidade bíblica. Não existe “às vezes” no “Eu sou Yahweh, o Deus de vocês”. Talvez, necessitemos um dia entre sete para ter consciência disso, para desfrutar Sua presença, de tal maneira que desejemos viver continuamente nesse estado de santidade.

Cordão azul

Uma das mais curiosas normas do Pentateuco é a santidade e está relacionada a uma marca de roupa. Hoje, no fascínio pelo esporte, vê-se multidões vestindo as cores de suas equipes. São as cores dessas multidões, as da tribo que assimilam. Em Números 15:37-41, Deus Se adiantou a qualquer tendência da moda e propôs que Seu povo colocasse borlas e um cordão azul nas extremidades de suas roupas. O objetivo era simbólico, ou seja, o de lembrar quem eram e não se detivessem para olhar ou pensar em nada que os separasse do relacionamento com Yahweh. Não precisamos colocar tal adorno em nossa roupa, mas precisamos de pedacinhos do Céu em nossa vida. Devemos lembrar quem somos e não nos determos a olhar nem pensar sobre o que é inútil, e que nos afasta da existência plena.

O texto termina de maneira magistral: “Eu sou o Senhor, o seu Deus, que os trouxe do Egito para ser o Deus de vocês. Eu sou o Senhor, o seu Deus.” Esse é um cordão púrpura para todo cristão. Deus começa conosco. Participa das histórias de nossa vida, libertando-nos de todo tipo de escravidão porque é nosso Deus. Ele termina conosco. Quem é como Ele? Aonde podemos encontrar tanto interesse, carinho, compromisso, tanta vida? Tenho bem claro o fato de que, se eu tivesse sido um massoreta, teria escrito que cada um desses versos esconde uma fascinante mensagem vivificante, santificadora.

Estou mais do que seguro de que, caso Deus nos estivesse propondo esta reflexão, olharia em nossos olhos e sussurraria com um sorriso: “Eu sou Yahweh, o Deus de vocês.”


Víctor M. Armenteros é vice-reitor acadêmico da Universidade Adventista del Plata, Argentina


Fonte: Revista Ministério, julho/agosto 2013, pp. 12-14


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