Igrejas que Estão Perdendo o Foco

(Falsas) Estratégias de Crescimento para a Igreja — 8 de novembro de 2012 5:20 pm

por: Pr. Araúna dos Santos

A recomendação bíblica, sintetizada pelo apóstolo Paulo, quando escreveu sua carta aos cristãos de Roma, é simples: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação de suas mentes, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:2). Através dos séculos de revelação bíblica, a Palavra de Deus a Israel e à Igreja foi sempre esta: “Olhai para mim, e sereis salvos …” (Isaías 45:22).

Todavia, a tendência à aculturação tem estado presente no cotidiano do povo de Deus, na história. Profetas do passado e pregadores do presente têm sido vocacionados por Deus para alertar israelitas e cristãos sobre o cuidado necessário no relacionamento sociocultural. O escritor da carta aos hebreus cristãos enfatizou: “Deixando todo embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia, corramos com paciência a carreira que nos está proposta, olhando para Jesus, autor e consumador da fé” (Hebreus 12:1). E o profeta Jeremias já havia proclamado: “Não aprendais o caminho das nações…” (Jeremias 10:2). E explicado: “Os costumes religiosos das nações são inúteis.” (Jeremias 10:3). Viver com sabedoria o aqui e o agora, para não se afastar do propósito de Deus e firmar-se na realização plena da vontade do Senhor são os grandes desafios da fé bíblica, da fé cristã.

O processo de contextualização requerido por muitos entre o povo de Deus é perigoso, visto que, em sua atualização da fé, o cristão, a igreja, pode perder Jesus de vista, o Jesus de Nazaré, o Cristo da fé. A ação iconoclasta, destruidora de tradições, pode ir além dos costumes passageiros, destruindo também princípios bíblicos fundamentais e supraculturais.

Uma vez, John Stott advertiu pregadores evangélicos para “não sacrificar a revelação no altar da relevância”. No desejo de ser relevante para a cultura, muito sutilmente, o cristão sucumbe a esta pressão. O.S. Hawkins, que pastoreou, por longos anos, três das maiores igrejas batistas norteamericanas, escreveu categórico: “Há uma nova tendência evangélica, propagada por alguns pastores, que não seria reconhecida por nossos pais apostólicos que foram mordomos do Novo Testamento” (The Pastor’s Prime – pág. 41). O autor estava se referindo à contextualização do Evangelho levada a extremos em que os costumes das culturas humanas falam mais alto do que os princípios da fé, segundo a revelação bíblica. E esclarece: “O evangelho do Novo Testamento ensina a autonegação. A nova tendência “gospel” esposa a autoestima, autorealização. O Evangelho do Novo Testamento está focalizado em Cristo e seu plano de redenção. A nova tendência “gospel” está focalizada no homem e em seu desejo de felicidade na vida. Essa nova tendência evangélica tem uma antropologia defeituosa. Ela tende a ver o homem como alguém, basicamente, bom e amigo de Deus e que, simplesmente, se afastou da igreja em razão de seus métodos inadequados e ultrapassados”. Há cristãos que buscam uma igreja segundo os seus próprios critérios.

É famoso nos meios teológicos o livro de Richard Niebhur – Cristo e Cultura – que discute cinco posições da igreja na dinâmica da fé em sociedade. Sem dúvida o tema precisa de considerações firmadas em bases razoáveis do tratamento adequado do texto bíblico – que se construiu num período, mais ou menos aceito, de dezesseis séculos de revelações de Deus – e também de uma compreensão da cultura, em sua dimensão psicossocial, política e econômica e suas manifestações sob a influência da natureza humana contaminada pelo pecado, com forte atuação satânica – “O mundo todo está sob o poder do Maligno” (I João 5:19). Niebhur levanta questões e as responde com o testemunho de pensadores bíblicos e históricos, buscando um entendimento de Cristo e também de Cultura, mas sempre valorizando a supremacia daquele sobre esta.

Atribui-se a Karl Barth, teólogo protestante da primeira metade do século XX, uma afirmação que sugere a importância da leitura do jornal diário ao lado da Bíblia, para as devidas aplicações no púlpito. Mas, o que se tem visto e ouvido vai além dessa informação necessária. Há uma tendência de amoldar-se ao mundo, à cultura, aos costumes. Cristãos e igrejas sofrem a pressão, e sucumbem à tentação, de repetir e assumir comportamentos e padrões de pensamentos que significam a forte influência secular na expressão da “fé” – que parece não objetivar o Jesus de Nazaré nem o Cristo da fé, mas um personagem aculturado – O Cristo contemporâneo, a Igreja pós-moderna, o Evangelho Gospel. John MacArthur, o pastor e escritor norteamericano, em seu livro “The Truth War” (A Guerra da Verdade) chama a atenção de seus leitores para essa tendência em que a Igreja perde o foco do Jesus Cristo – “autor e consumador de nossa fé” – para criar seu próprio Cristo e seu próprio Evangelho atualizado, mais afinado com a filosofia pós-moderna, herdeira do humanismo não cristão, que cultua o prazer, a superficialidade, as incertezas, o consumismo, a rapidez, o entretenimento e o vazio, principalmente do Deus pessoal da Bíblia que fala, expõe sua vontade,além de ouvir nossas preces e nos “coroar de bênçãos”, como desejam os “gospels”.

O foco da Igreja deve ser Jesus – o revelado pela Bíblia – e não os homens e seus modelos. Através de séculos de história, não foi difícil para cristãos e igrejas se enganarem com “as astutas ciladas do Diabo”. O acessório acabou sendo o principal, e o desnecessário tomou o lugar do essencial. Em sua oração pelos crentes e pela igreja em Colossos, Paulo, o apóstolo, assim se expressou: “Por essa razão, desde o dia em que o ouvimos, não deixamos de orar por vocês e de pedir que sejam cheios do conhecimento da vontade de Deus, com toda a sabedoria e entendimento espiritual. E isso para que vocês vivam de maneira digna do Senhor e em tudo possam agradá-lo, frutificando em toda boa obra, crescendo no conhecimento de Deus e sendo fortalecidos com todo o poder, de acordo com a força de sua glória, para que tenham toda a perseverança e paciência, com alegria…” (Colossenses 1:9-11 ). O alvo dessa oração é o essencial para a igreja.

Igrejas e seus pastores, especialmente estes, que são seus líderes espirituais, precisam refletir sobre a pergunta sugerida por Paul McKaughan: “A quem estou seguindo?” (in Mensagem da Cruz – nº 154). Ele explica a importância da liderança. “Os líderes são os que influenciam, dando o exemplo aos olhos de todos. Os líderes se tornam pessoas especiais. Eles podem contribuir para que coisas muito boas ocorram”. Também, James Hunter, autor do livro “Como tornar-se um líder servidor”, assim conceitua liderança: “Habilidade de influenciar pessoas para trabalharem, entusiasticamente, visando atingir objetivos comuns, inspirando confiança por meio da força de caráter”. Ele acrescenta: “Liderar significa conquistar as pessoas, envolvê-las de forma que coloquem seus corações, mentes, espíritos, criatividades e excelências a serviço de um objetivo”. O que caracteriza bem a palavra liderança é a capacidade de influenciar outros para o bem (ou para o mal), de acordo com um objetivo comum. Assim, pastores e líderes nas igrejas precisam saber para onde estão conduzindo o povo de Deus. Se estão com o foco em Jesus Cristo – cabeça da Igreja – e Sua Palavra revelada, ou se estão se deixando levar por modismos, contextualizações secularizadas e, igualmente, se perdendo nesse emaranhado de novidades “gospels”, trazendo o mundo (a cultura deste século) para a igreja ao invés de penetrar o mundo com a mensagem do verdadeiro Evangelho – a significativa contracultura cristã.

Que o Senhor da Luz nos ilumine, nos esclareça!


Fonte: O Jornal Batista, 28 de Outubro de 2012, p. 6

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