Adoração – Parte 1

A Adoração — 30 de outubro de 2012 8:35 am

por: S. Júlio Schwantes

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim O adorem. Deus é espírito, e importa que os que O adoram O adorem em espírito e em verdade.” S. João 4:23, 24.

Este texto apresenta a importante verdade de que um elemento vital da religião cristã é a adoração; pois nosso Pai se compraz naqueles que O adoram em espírito e em verdade. Em geral julgamos que o essencial na religião é a salvação de nossa alma. Mas nos esquecemos de que antes que houvesse necessidade do plano da redenção já as cortes angelicais adoravam Aquele que é desde toda a eternidade; e que após haver-se encerrado o grande drama do pecado, os remidos de todos os tempos de contínuo derramarão seus louvores diante do trono da Majestade Santa.

Mesmo no atual estado de pecado a adoração constitui a mais elevada atitude do coração humano. É a atitude mais natural da criatura diante do Criador. Compenetrada de sua própria indignidade a criatura adora Aquele que lhe doou o ser. Cônscia de seu próprio imerecimento, louva ao Deus que “faz que o Seu Sol se levante sobre maus e bons”, ao Doador “de toda boa dádiva e todo o dom perfeito”.

Verdade é que há uma adoração na qual nosso Deus não Se compraz. É a adoração partida de corações insinceros. Lembramo-nos do texto: “Este povo honra-Me com os seus lábios, mas o seu coração está longe de Mim. Mas em vão Me adoram ensinando doutrinas, que são preceitos dos homens.” S. Mateus 15:8, 9. De acordo com esta passagem a verdadeira adoração implica na conformidade da vida e dos ensinos com a norma divina. A verdadeira adoração é incompatível com o pecado e o erro. Não consiste numa forma de palavras, mas no espírito de uma vida renovada pela graça divina.

A adoração não é uma formalidade, não é um ritual para ser visto pelos homens. É uma atitude da alma, um fruto do coração. Nosso Pai “não vê como vê o homem. O Senhor olha para o coração”. Ele sabe se nosso coração está longe. Conhece os motivos secretos da alma. Em vão Lhe ocultam os homens seus caminhos. O Senhor sabe se nossa adoração brota de corações palpitantes de amor e gratidão, ou só dos lábios, maquinalmente. Bem fazemos em insistir que em vão adora a Deus a pessoa que persiste em transgredir Seus mandamentos e que rejeita abertamente a luz de Sua verdade. A desobediência contumaz transforma o culto em abominação, degenera a religião em hipocrisia.

Cuidemos, porém, de não incidir no perigo oposto de pregar apenas uma religião de movimento e não de recolhimento, só de ação e nada de devoção. Tal é a ênfase que pomos no lado ativo da vida cristã que, falando de nossa fé, nunca nos referimos à religião adventista, mas sim ao movimento adventista; raramente dizemos a igreja adventista, mas quase sempre a obra adventista. É mais consoante com nossos hábitos mentais associar nossa fé não com uma atitude de profunda reverência e piedosa meditação em algum templo dedicado ao culto divino, mas com o trabalho abnegado em algum campo missionário. Quando, porém, os adventistas deixarem de constituir uma igreja para serem apenas um movimento, será escrito em seu frontispício “Icabod” — foi-se a glória de Israel.

Como uma organização religiosa deve caracterizar-nos incansável atividade missionária, pois a palavra de comando é: “Ide, ensinai todas as nações”. Individualmente, porém, além do zelo missionário deve imbuir-nos um espírito de profunda piedade e inquestionável reverência pelas coisas sagradas. Apagai a vida devocional dos membros e anulareis o trabalho de evangelização da igreja. Cesse a hora da devoção, privem-se os crentes do culto doméstico em casa e da adoração pública nas igrejas, e ver-se-á onde fica o zelo missionário.

Inútil, porém, é falar em adoração se não nos possui um senso vivo da presença divina. Tivéssemos a consciência de que onde dois ou três reunidos estão em nome de Jesus, Êle aí está no meio deles, desnecessária seria a exortação que ora faço para maior reverência. Espontaneamente subiriam de nosso coração louvores e preces fervorosas para que nossa comunhão com os céus não fosse interrompida por preocupações terrenas, antes dela auferíssemos bênçãos tais que nos sustentassem em nossa peregrinação neste vale de pecado.

Oremos por. um senso da presença de Deus como possuía Elias, o tesbita. Vede I Reis 18:15. Para Elias a presença de Deus era um fato real e constante. Ele podia dizer com o salmista: “Cercas o meu andar e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos.” Salmos 139:3. E lembremo-nos de que Elias foi um tipo do Remanescente. “Eis que Eu vos envio o profeta Elias, antes que venha o dia grande e terrível do Senhor”. Malaquias 4:5. Se havemos de possuir o poder de Elias, se nossas orações hão de ser atendidas como foram as do profeta, nossa convicção de que nosso Deus é um Deus bem presente não deve ser menos realista do que a sua.

Cientes na hora de culto de que o Senhor está em nosso meio, pois invocamos Sua presença, nossa atitude será naturalmente de temor, reverência e adoração. Vejamos como o salmista, no Salmo 99, apresenta estas três gradações no culto divino:

I Temor pela Majestade e Poder. Vers. 1-3. Atitude mental de temor inspirada por:

a) Domínio universal de Deus. Vers. 1 e 2.

1. Também nós somos Seus súditos.

b) Sua majestade e glória. Dan. 7:9, 10.

O senso de nossa insignificância e pecaminosidade ante um Deus poderoso e santo deveria fazer-nos tremer.

II Reverência por Sua Justiça. Vers. 4 e 5. Atitude física inspirada por:

a) Seu caráter que é justo. Vers. 4.

b) Suas obras, que são justas. Salmos 145:17.

Mais do que todo-poderoso, nosso Deus é um Deus de justiça. Não é o déspota absoluto como o retratam os pagãos, mas um Soberano que ama a eqüidade. Podemos nEle confiar. O senso de nossa culpabilidade e indignidade leva-nos a velar o rosto e curvarmo-nos humildemente. Isaías 6:1-3.

III Adoração por Sua Misericórdia. Vers. 6-9. Expressão de reconhecimento inspirada pelo

a) Fato de ouvir nossas orações. Vers. 6.

b) Fato de perdoar nossos pecados. Vers. 8

Que o nosso Deus é um Deus misericordioso é a concepção mais elevada que podemos fazer da Divindade. Não só onipotente e onipresente, não só justo e eqüitativo, mas longânimo e piedoso. É Seu amor paternal que nos atrai sobretudo, e nos inspira à mais alta adoração. Vers. 9.


Fonte: Revista Adventista, fevereiro de 1945, pp. 4 e 5 – Disponível em http://www.revistaadventista.com.br


Veja também a segunda parte deste artigo.

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