Entendendo a Velocidade do Ar e Aprendendo a Dominar a Afinação

Técnica Instrumental — 8 de agosto de 2012 1:26 pm

por: Marcos Kiehl

Quando alteramos a intensidade do som na flauta, por exemplo nos diminuendos e crescendos, notamos que a afinação tende a variar também, caindo à medida que a intensidade do som diminui, e subindo quando a intensidade do som aumenta. Por que será que este efeito indesejável acontece? Já pensou a respeito?

Para poder entender melhor é importante em primeiro lugar conhecer alguns aspectos da produção do som na flauta. Podemos começar analisando que a intensidade do som é diretamente proporcional ao volume de ar que entra na flauta, ou seja, quanto mais ar é assoprado para dentro do instrumento, maior será a intensidade do som. A afinação por sua vez, tem uma relação diretamente proporcional à velocidade do ar (a velocidade com que o ar atinge o orifício do bocal), ou seja, quanto mais rápido assopramos mais alta ficará a afinação de uma nota, e vice-versa. Mas quando assopramos mais ar na flauta para fazer um som mais forte (como no caso de um crescendo) involuntariamente fazemos com que a velocidade deste ar também aumente, isto porque a abertura por onde este ar está passando não se alterou na mesma proporção que nosso volume de ar aumentou. Da mesma forma, num diminuendo assopramos menos ar, o que faz com que a velocidade do ar também diminua.

Está confuso? Vamos exemplificar de uma outra forma: a física (hidráulica) nos ensina que quando aumentamos a quantidade de água (ou ar) que percorre um tubo sua velocidade também aumenta, e quando diminuímos, sua velocidade diminui. Para que a velocidade se mantivesse constante — e portanto a afinação —, precisaríamos que o tubo tivesse medidas proporcionais ao volume de ar que assopramos. Podemos confirmar esta afirmação com uma mangueira de jardim: quando apertamos a extremidade da mangueira provocamos um aumento na velocidade da água, fazendo com que esta atinja distancias maiores sem no entanto alterarmos a pressão da água que vem do encanamento. Quando fazemos isto, notamos também que o volume de água que sai da mangueira diminui, embora sua velocidade tenha aumentado.

Se você alguma vez já assoprou numa flauta-doce então também já notou que as variações de dinâmica na flauta-doce são extremamente limitadas, isto porque até mesmo pequenas variações na intensidade da coluna de ar acarretam grandes variações na afinação (se ainda não experimentou, vale a pena conferir!). Isto se dá porque na flauta-doce o canal por onde assopramos o ar possui uma medida fixa, que não pode ser alterada (e também porque o ângulo que este ar atinge o bisel — aquela lâmina que tem no bocal da flauta-doce ou na parede oposta ao orifício, no caso da flauta transversal — é também fixo, não podendo ser alterado pelo instrumentista).

É por isto que na flauta-doce a afinação varia tanto: uma vez que o canal por onde assopramos tem uma medida fixa, não há como compensar uma diminuição do volume de ar com uma diminuição na mangueira ou tubo que conduz o ar, então a velocidade também diminui. Se pudéssemos variar aquele canal por onde assopramos semelhantemente ao que fazemos com a mangueira de jardim, poderíamos controlar melhor a afinação.

Mas na flauta transversal ISTO É POSSÍVEL! Podemos facilmente variar a extremidade do tubo que conduz o ar, compensando para evitar estas variações na afinação. Como o ar que assopramos passa entre o céu da boca e a língua, e também entre os lábios, então quando fechamos mais a boca (e conseqüentemente os lábios) estamos estreitando a passagem do ar e causando um aumento em sua velocidade (como fazemos com a mangueira de jardim), e quando a abrimos, estamos alargando esta passagem e diminuindo sua velocidade. O posicionamento da língua dentro da boca é portanto de fundamental importância para o controle da sonoridade da flauta!

O que precisamos fazer é sempre compensar uma variação de volume de ar com uma variação na abertura por onde assopramos o ar, de forma que um efeito anule o outro.

Ou seja, quando realizamos um crescendo estamos assoprando cada vez mais ar, o que por sua vez tende a fazer com que a velocidade do ar aumente, levando a afinação a subir também. Então devemos abrir a boca progressivamente para que este aumento do volume de ar seja compensado pelo alargamento da passagem na boca de forma a não alterar a velocidade do ar, e conseqüentemente, a afinação. Num diminuendo, devemos proceder de forma oposta, ou seja, à medida que vamos assoprando menos ar para diminuir o som (o que tende a causar uma queda na afinação) devemos compensar fechando mais a boca para que a velocidade do ar não diminua e a afinação não caia.

Na flauta transversal ainda é possível um outro controle que também não existe na flauta-doce como visto anteriormente: a variação do ângulo com que o ar atinge a flauta (mais precisamente o bisel). E isto é muito importante, pois quando mudamos este ângulo também provocamos uma variação na afinação que pode ser muito útil para compensar e evitar variações na afinação. Esta mudança de ângulo pode ser conseguida através de um movimento dos lábios, do queixo ou mesmo da cabeça, sendo que se o ar for dirigido mais para baixo (mais verticalmente) a afinação irá abaixar, enquanto que dirigindo o ar mais para cima fará a afinação subir. Se combinarmos este movimento de inclinação da cabeça com aquele movimento de abrir e fechar a passagem do ar na

boca, então teremos total controle da afinação na flauta, para não desafinar nos crescendos e diminuendos, por exemplo.

Parece complicado, mas na verdade este controle se torna “automático” com um pouco de prática. Então vamos a ela: para adquirir esta técnica é necessário treinar cada um destes mecanismos separadamente. Comece assoprando ar na sua mão e experimentando com diferentes aberturas da boca, e diferentes posições da língua, iniciando com a língua na posição de falar “ô” e à medida que assopra mova a língua para a posição “i” (isto deverá produzir um aumento na velocidade do ar), e depois retorne ao “o”. Depois de exercitar bastante, pegue a flauta e tente tocar a nota si da primeira oitava com a língua na posição “ô”, e sem assoprar mais ar vá mudando para a posição “i”, e veja se consegue emitir o si da oitava acima:

Mas atenção, não vale assoprar mais forte! Lembre do exemplo da mangueira de jardim: você não precisa abrir mais a torneira para fazer a água alcançar mais longe, basta apertar a ponta da mangueira. Da mesma forma, não é necessário assoprar mais ar para fazer intervalos, podemos fechar mais a boca. Você saberá que está fazendo corretamente o exercício quando sentir que:

  • seu som não cresce na oitava de cima
  • você não faz nenhum esforço para conseguir o intervalo
  • a oitava de cima vem suavemente e quase como num “portamento”

Repita muitas vezes e treine com outras notas: sol, sol#, lá, lá#, do e dó#.

O passo seguinte é treinar as variações de ângulo: toque o mesmo si do exercício anterior e inclinando sua cabeça para baixo faça com que o si natural abaixe até aproximadamente um si bemol (você pode abrir um pouco a boca à medida que abaixa a cabeça para ajudar a abaixar a afinação). Respire, volte a cabeça à posição inicial e tocando um si bemol faça o mesmo movimento com a cabeça para fazer o si bemol“descer” até um lá natural. Continue desta forma até o dó grave da flauta. Repita várias vezes, e depois faça o oposto: com a cabeça inclinada para baixo (e agora com a boca mais aberta), dedilhe um dó grave e levantando a cabeça (e fechando levemente a boca)

faça sua afinação subir meio-tom. Respire, dedilhe dó# e faça o mesmo, e assim por diante. Procure dominar bastante esta mecânica.

O flautista Keith Underwood (meu professor e que me ensinou estas técnicas) costumava demonstrar que é possível abaixar ou subir uma nota até um intervalo de terça menor!

Agora tente combinar todas estas coisas ao mesmo tempo: toque aquele si mais uma vez em piano (assoprando pouco, deixe a boca mais fechada e a cabeça ligeiramente levantada). Vá aumentando a intensidade da nota lentamente, crescendo até forte à medida que abre mais a boca e inclina mais a cabeça para baixo, tentando fazer com que a afinação da nota não mude, e depois reduza novamente para piano retornando à posição inicial. Repita várias vezes e tente também com outras notas.

Este é um assunto bastante complexo que merece um estudo cuidadoso de nossa parte.

Embora pareça difícil, tenho certeza de que quase todo flautista tem ao menos uma noção destes mecanismos, mesmo que intuitiva. Usando estes recursos a seu favor e de forma racional, você verá que fica muito mais fácil controlar diminuendos, crescendos e fortepianos, assim como corrigir a afinação daquelas notas que são imperfeitas na escala da flauta, conseguindo uma maior uniformidade de timbre e afinação em toda a extensão do instrumento.

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