Salmos, Hinos e Cânticos – Parte 1

por: Rolando de Nassau [1]

Contextualização Histórica

Na igreja cristã primitiva eram usados, no canto, salmos, hinos e cânticos (Epístola de Paulo aos Efésios, 5:19, e aos Colossenses, 3:16).

O Livro dos Salmos foi herdado do culto judaico. Até o ano 60 da Era Cristã, os primeiros cristãos freqüentavam o Templo de Jerusalém; depois, espalhando-se pela Palestina e outras províncias do Império Romano, passaram a freqüentar as sinagogas; nelas ainda recebiam a influência do culto judaico. O Saltério contém indicações técnicas, à maneira oriental, que servem para descrever a natureza de cada salmo, orientar a sua execução, selecionar os executantes, agrupar as peças, recordar eventos históricos ou biográficos, escolher as melodias (adequando-as aos ritos) e os instrumentos musicais.

O canto nas sinagogas consistia principalmente na entoação do Pentateuco e do Saltério; a cantilação desses textos bíblicos era baseada em fórmulas melódicas (ver: IDELSOHN, Abraham Z., Jewish Music. New York: 1929; WERNER, Eric, The Sacred Bridge, New York: 1970; NASSAU, Rolando de, O Jornal Batista, 11 maio 80).

O canto e a recitação de salmos continuou nas igrejas durante a época apostólica. Os cristãos primitivos praticavam três tipos de salmodia: a antifonal, a responsiva e a direta; um quarto tipo era uma combinação de antífona e responsório. Com o apoio de Inácio de Antioquia, os salmos eram o canto cristão tradicional.

No princípio do século III, Clemente de Alexandria escreveu o primeiro hino cristão. Mais tarde, o Sínodo de Antioquia encorajou o uso da hinodia pelas congregações. No século IV, Silvestre I criou, em Roma, uma escola com a incumbência de executar salmos numa boa parte do canto litúrgico.

Os heréticos (Bardesanes e seu filho Harmônio) possuíam sua hinodia própria, baseada em melodias folclóricas. Por sua vez, Efraim da Síria desenvolveu uma hinodia ortodoxa. Basílio de Cesaréia e João Crisóstomo discordavam: Basílio apoiava a salmodia, João, a hinodia. Essa controvérsia perdurou durante dois séculos. Em parte, o problema das heresias contribuiu para o abandono da hinodia.

A partir do século VI, Gregório I começou a organizar definitivamente o canto salmódico e unificar as liturgias ocidentais (romana, milanesa e mozarabe), diminuindo a participação do povo no canto congregacional.

Francisco de Assis, no século XIII, quando já entrava em decadência o Canto Gregoriano, pretendendo renovar a vida eclesiástica, escreveu “laudi spirituali” (cânticos espirituais), poesias religiosas não-litúrgicas, que não observavam as normas consagradas pela Igreja Católica. Esses cânticos não eram cantados nos templos, mas nos lares e nas procissões.

A Reforma Protestante, liderada por Lutero no século XVI, prestigiou a hinodia (na forma do coral alemão) e o canto congregacional, mas os evangélicos (batistas, congregacionalistas, metodistas e presbiterianos) apegaram-se, durante quase dois séculos, à salmodia.

No século XVII, o culto católico ocidental (romano e anglicano) usava bastante os textos do Velho Testamento: Pentateuco, Saltério, Livros Históricos e Proféticos (ver: MARTIMORT, Aimé-Georges, L?Église en Prière. Paris: Desclée, 1965).

No princípio do século XVIII, os evangélicos, aos poucos, foram aceitando a hinodia, que chegou ao clímax de seu prestígio no Século XIX (ver: JULIAN, John, A Dictionary of Hymnology, New York: Dover, 1957).

Na década 50 do século XX, no Brasil começaram a surgir nas igrejas evangélicas fundadas por missionários norte-americanos, excetuadas as igrejas luteranas e anglicanas de origem alemã e inglesa, os cânticos (conhecidos então como “corinhos”), que até hoje disputam com os hinos a preferência das congregações. Os neo-pentecostais são os maiores incentivadores dos cânticos, que eles impropriamente chamam de “gospel”. Isso é matéria a ser estudada na “Corinhologia”.


Nota:

[1] Destacamos que o autor do presente artigo tem origem denominacional Batista, deste modo, acontecerão nesta série de artigos algumas referências a esta denominação religiosa. Contudo, os autores do Música Sacra e Adoração consideram de suma importância as noções filosóficas contidas nos artigos para as nossas congregações Adventistas do Sétimo Dia.


Fonte: Publicado em “O Jornal Batista”, 04 fev 2002, p. 5. Também disponível em: http://www.nassau.mus.br/.


Próxima Parte