Que Meu Poema Lhe Seja Agradável

por: Eliel Vieira

Os salmos são especiais dentro dos livros que compõem a Bíblia. Quem nunca se maravilhou com algum salmo em especial? Eu, por exemplo, fico extasiado toda vez que leio o salmo 139, por toda a profundidade da grandeza de Deus narrada de forma apaixonada pelo autor. A verdade é que todo cristão aprecia algum (ou alguns) salmo específico, seja por se identificar com ele, seja por simplesmente achá-lo belo.

O destaque dos salmos dentre os livros da Bíblia está na característica textual deles. Os salmos foram escritos como poemas e reflexões por pessoas simples, nada mais. Por definição, os salmos são simples.

Além da simplicidade, os salmos foram escritos exclusivamente no intuito de louvor a Deus. Os salmistas se derramavam em arrependimento e em louvor quando escreviam a Deus. Esta, talvez, seja a característica mais marcante dos salmos em relação aos demais livros da Bíblia: eles foram escritos com o objetivo específico de louvar a Deus.

Nem todos os livros da Bíblia são assim. Todos os livros da Bíblia (exceto os salmos) tiveram como objetivo principal outra coisa além de louvar a Deus. Alguns destes objetivos foram: contar a história do povo hebreu (Juízes, Samuel, Reis, etc.), trazer advertência ao povo (livros dos profetas), mencionar as delícias do amor sexual entre um casal (Cantares de Salomão), refletir sobre a existência (Eclesiastes, Jó e Lamentações), contar a história de Jesus Cristo (Mateus, Marcos, Lucas e João), a história da igreja primitiva (Atos) e transmitir a doutrina cristã às igrejas antigas (cartas dos apóstolos).

Os salmos são diferentes. O objetivo principal deles é louvar a Deus de forma poética. É interessante observar que as palavras dos salmistas sempre fazem menção ao sol, à lua, às flores e também são carregados de antropomorfismos como “olhos de Deus” e “ouvidos de Deus”. Tudo no intuito de deixar o louvor a Deus mais poético.

Os salmistas não apenas queriam se manifestar em louvor a Deus, mas queriam se manifestar da forma mais bela possível. Percebe-se, porém, em alguns salmos, que os autores estavam tão preocupados em se derramar em arrependimento diante de Deus que pouco se preocuparam em usar palavras belas ou pomposas. Veja o salmo 51, por exemplo. Nele, Davi confessa a Deus seu arrependimento pelo mal que fez a Betseba e a Urias. Contudo, mesmo os salmos pouco “trabalhados” ainda encantam seus leitores pela sinceridade do autor.

Os salmos, portanto, são escritos diferentes e especiais dentro da Bíblia. São eles os únicos textos cujo objetivo principal é o louvor a Deus, seja de forma poética, seja de forma simples e sincera. Se há algum lugar onde devemos extrair as diretrizes que devem conduzir nosso louvor a Deus, portanto, este lugar é a leitura dos salmos.

Não sabe como louvar a Deus? Passe a ler os salmos.

Aliás, como seria agradável se os grupos de louvor desejassem fervorosamente que suas composições se assemelhassem mais com os salmos, não? Como seria bom se sinceridade, beleza e simplicidade regessem os compositores evangélicos atuais. Como seria bom se os músicos cristãos tratassem suas composições como louvor sincero a Deus, e não como mercadoria que se pode maquiar para vender com mais facilidade.

Em um de seus mais famosos e sinceros textos, o pastor Ricardo Gondim manifesta seu desencanto com a falta de beleza e sinceridade nas atuais músicas produzidas pelos músicos evangélicos:

Canso com a falta de beleza artística dos evangélicos. Há pouco compareci a um show de música evangélica só para sair arrasado. A musicalidade era medíocre, a poesia sofrível e, pior, percebia-se o interesse comercial por trás do evento. Quão diferente do dia em que me sentei na Sala São Paulo para ouvir a música que Johann Sebastian Bach (1685-1750) compôs sobre os últimos capítulos do Evangelho de São João. Sob a batuta do maestro, subimos o Gólgota. A sala se encheu de um encanto mágico já nos primeiros acordes; fechei os olhos e me senti em um templo. O maestro era um sacerdote e nós, a platéia, uma assembléia de adoradores. Não consegui conter minhas lágrimas nos movimentos dos violinos, dos oboés e das trompas. Aquela beleza não era deste mundo. Envoltos em mistério, transcendíamos a mecânica da vida e nos transportávamos para onde Deus habita. Minhas lágrimas naquele momento também vinham com pesar pelo distanciamento estético da atual cultura evangélica, contente com tão pouca beleza. (Fonte)

Realmente falta beleza nas músicas cristãs de atualmente. As músicas que conseguem demonstrar alguma espécie de beleza e originalidade são abafadas pela propaganda mercadológica que se cria em cima dela. Recentemente, por exemplo, um cantor compôs uma música baseada na passagem bíblica de Zaqueu e a árvore. A música contém uma letra, confesso, até bonita (retirando alguns excessos e apelos psicológicos presentes ela soaria a mim perfeitamente agradável). Porém, quem não consegue enxergar o forte apelo mercadológico desta canção? Ela é tocada em igrejas evangélicas até boates, bailes funk e centros de espiritismo. Até que ponto o autor da música a compôs de forma sincera sem pensar em “como ela vai vender?”.

Algumas pessoas podem dizer que eu me detendo demais em detalhes supérfluos ocorrentes no meio evangélico. Porém, que mal há em desejar que as composições evangélicas sejam ao menos sinceras (não precisam ser belas nem originais, apenas sinceras) como os salmos são?

O salmo 104 traz uma passagem muito bela onde o salmista exclama:

“Cantarei ao Senhor enquanto eu viver, louvarei o meu Deus enquanto eu existir. Que meu poema lhe seja agradável; quanto a mim, eu me alegro com o Senhor”.

Achei muito interessante nesta passagem a preocupação do salmista com relação à sua reflexão. Para ter feito esta oração, o salmista certamente compôs o melhor que podia. Ou seja, ele elaborou o melhor que pôde para Deus e ainda se preocupou em pedir a Deus que se agrade do que foi composto.

Será que os compositores atuais dão o seu melhor ao compor músicas que – teoricamente – foram criadas para o louvor a Deus? Ou será que é a preocupação com as vendas que dita as regras durante as composições evangélicas? Voltando estas perguntas a nós mesmos e a nosso louvor: Será que nos preocupamos em tributar o melhor a Deus quando vamos louvá-Lo? Ou será que cantamos o que cantamos apenas por cantar?

Já a alguns meses estas questões me perturbam e, então, eu fiz um pacto com Deus. Partiu de mim, ninguém me incentivou. Combinei com Deus que não cantaria mais músicas que mencionam as palavras “milagres”, “promessa”, “chuva” e “prosperidade”. Eu sei que simplesmente não cantaria as músicas com menções a estas palavras com um coração sincero e em louvor.

Durante os cultos qualquer pessoa pode observar que boa parte dos membros cantam as músicas simplesmente por cantar, como se estivesse cumprindo não mais que uma obrigação. Uns cantam olhando para o teto, outros procurando caneta na bolsa, outros lendo a Bíblia, outros olhando para o relógio, outros fazendo cara de mal cerrando fortemente os olhos, como se estivesse brigando consigo mesmo para acreditar que aquilo que está sendo cantado é verdadeiro, enfim, pessoas que cantam por cantar existem aos montes em todos os cultos.

Decidi então que durante o período de louvor seria muito mais proveitoso à minha vida espiritual – e seria um louvor muito mais verdadeiro a Deus – refletir comigo mesmo sobre a mensagem da canção e como anda minha vida. Ao invés de mentir cantando que sou apaixonado por Deus, penso que é muito mais proveitoso refletir comigo mesmo sobre como isso pode ser realidade em minha vida. Ao invés de mentir dizendo que não há bens maiores que Deus em minha vida, acho que louvo a Deus muito mais refletindo sobre quais coisas devo abandonar para que Deus possa, de fato, tornar o centro de minha vida.

Enfim, acho que refletir sobre a profundidade de louvar a Deus, é louvá-lo com muito mais carinho e sinceridade.

Que Deus considere esta reflexão agradável.

A Ele todo o louvor!


Fonte: Publicado originalmente em: http://www.elielvieira.org/2009/07/que-meu-poema-lhe-seja-agradavel.html