Música na Igreja

por: Paulo Hamel

O homem percebe instintivamente o valor da música em seu esforço de glorificar a Deus, e tornou-a parte de sua adoração, a partir da Criação. Declarou um escritor: “A música da igreja é o meio peculiar, dado por Deus a seus filhos para Lhe devolverem louvor e adoração de uma forma que tem sido característica marcante da comunidade que oferece culto, e isto desde os primeiros tempos em que o povo se ajuntava para adorar a Deus”.[1] O Cristão necessita do amparo poético dos hinos e a exaltação que a música proporciona, que tornam o cristianismo vivo e esplendoroso. Quem, por exemplo, não sentiu as profundas emoções evocadas pelas lindas músicas religiosas do Natal? As boas-novas de vida, morte, ressurreição, e a prometida volta de nosso Senhor encontram sua mais solene expressão na gloriosa música e nos hinos de gratidão que se cantam em nossa igreja.

A música exerce um poder comunicativo que supera o do discurso. É possível certamente comunicar desejos, anseios, esperança, crenças, gozo, tristeza, e uma porção de outros sentimentos unicamente por palavras. Falar, porém, profusamente no que range às próprias emoções pessoais não é fácil ao homem, daí porque ele se volve para a música, pois quase sempre ela lhe dá uma liberdade emocional que não se realiza facilmente de outra maneira. Porque ela modifica a natural limitação do homem, ela o torna mais receptivo às mensagens do Espírito Santo.

O papel da música na vida religiosa é ajudar o homem a fazer descobertas sobre o sentido da vida, e comunicá-las. Do ponto de vista humano, a música abre uma avenida para a verdade. Deus, também, tem um propósito para a arte da música. “É encontrar o homem e trazê-lo de volta para Si mesmo”.[2] O compositor, o executante, o ouvinte, cada um tem a responsabilidade de descobrir e revelar o significado e a verdade que há na música. Quanto mais rica é a música, mais adequadamente transmite a verdade.

“Que a mensagem de Cristo em toda a sua riqueza, viva no coração de vocês”, – escreve Paulo aos Colossenses. “Ensinem e instruam uns aos outros com toda a sabedoria. Cantem salmos, hinos, e canções sagradas. Louvem a Deus com os corações agradecidos”.[3]

Que é um Hino?

Como se pode definir um hino, e por mais critérios devem ser avaliados? Agostinho, em seu comentário do salmo 148, escreveu: “Sabeis o que é um hino? É o cantar para louvar a Deus. Se louvais a Deus e não cantais também não expressais hino algum. Se louvais alguma coisa não relacionada com o louvor a Deus, também não expressais hino algum”.[4]

Hino cristão é um poema lírico, concebido com reverência e devoção, destinado a ser cantado e que expressa a atitude do adorador para com Deus, ou os propósitos de Deus na vida humana. O hino deve ser simples e métrico quanto à forma, genuinamente emocional, poético e literário no estilo, espiritual na qualidade, e em seus conceitos tão direto e manifesto para unificar uma congregação enquanto o canta.[5]

Os seis critérios que seguem baseiam-se neste conceito de hino, desenvolvidos por Willian Reynolds em seu livro “A Survey of Christian Hymnody“. Esses princípios normativos num hino referem-se à letra.[6]

  1. O hino deve ser fiel às Escrituras. Hinos baseados em textos bíblicos não devem distorcer o sentido ou inserir idéias contrárias ao conteúdo do texto. Hinos não baseados diretamente nas Escrituras, mas na experiência cristã, devem evitar encaixe de idéias que não estejam em harmonia com o conteúdo escriturístico.
  2. O hino deve ser reverente e devocional. O estilo e caráter do hino devem ser majestosos, em harmonia com o decoro litúrgico, e condizentes com a adoração pública. Devem evitar-se cuidadosamente a trivialidade e a banalidade.
  3. O hino deve ser uma expressão poética e lírica. Hino é um poema e as mais requintadas qualidades de expressão poética devem tornar-se evidentes. Deve ser simples na forma, com naturalidade e suavidade no movimento. As idéias devem antes ser bem evidentes do que sutilmente oculta em divagações e complexidade.
  4. O hino deve expressar significado espiritual. O hino deve abordar experiências da vida cristã significativas a pessoa. O vigor e a energia da vida cristã devem ser fortalecidos pelas expressões do hino, e se constituírem em constante estimulo ao crescimento e desenvolvimento cristãos. Sentimentos débeis, triviais ou enfermiços em nada contribuem neste sentido.
  5. O hino deve ter solidez estrutural. Os versos e as estrofes do hino devem ter uma unidade orgânica.
  6. O hino deve ser baseado em experiências comuns. Para ser apropriado ao uso congregacional, deve o hino basear-se em experiências ou em idéias comuns a toda a congregação.. Expressões relacionadas a uma experiência extraordinária, peculiar a uma pessoa, embora verdadeira, são inapropriadas para o uso congregacional.

Igualmente importante na avaliação dos hinos é a música para a qual se fez a letra. Ao nos referirmos à qualidade da melodia, observamos que algumas são musicalmente superiores a outras. Há nos hinários melodias que são verdadeiras obras de arte, enquanto outras carecem de profundidade musical.

O Tempo Muda os critérios de Apreciação

À medida que amadurecemos altera-se nossa apreciação pela literatura e pela música. A poesia que aprendemos na escola elementar, conquanto ainda possa ser apreciada, de não nos produz a satisfação de outrora. A mente adulta requer o estímulo de literatura com significado mais profundo do que possa ser entendido por uma criança, e o mesmo ocorre na música. Uma área que nos trouxe muita satisfação na infância não é mais um estimulante musical, a menos talvez que, por associação de idéias, nos traga à mente felizes recordações. À medida que o cristão cresce em idade e em sensibilidade espiritual, seu crescimento se refletirá nos hinos e melodias que vier a escolher. Por exemplo, “Rocha Eterna-Proteção sem par” [H.A. 377] satisfaz mais ao cristão adulto do que o “Jesus me Ama” favorito das crianças.

Por outro lado, não seria de bom alvitre cancelar todos os hinos que não tenham superior musicalidade. Raramente o povo ouve hinos somente com atenção na música, por que há muitas lembranças envolvidas neles. Quando eu tinha seis anos, “Firme nas Promessas” [H.A. 274] era meu hino predileto. Desde que nossa família se achou geograficamente isolada de outros adventistas, nossa Escola Sabatina era realizada numa sala de visitas, com duas ou três curtas e retas filas cadeiras servindo de bancos. Nessas reuniões eu freqüentemente pedia a meus pais para cantarmos meu hino predileto. Esses cultos feitos no lar ligaram-se à minha memória. Havia preciosos momentos em que minha família se reunia especialmente, e como juntos desfrutávamos os dias de sábado. Devido a essa associação, “Firme nas promessas” ainda permanece como um de meus hinos favoritos. Mesmo agora que, como músico, reconheço que a melodia é inferior a muitas outras, contudo, ao ouvi-la, ou mesmo quando ela me vem à mente, experimento uma emoção, inestimável para mim.

Um padre católico, que quando jovem deixara sua igreja protestante, falou-me de sua apreciação por determinado hino, “No Jardim” [H.A. 426]. disse: “Pode ser este hino boa música, pode ser música má, não sei. Tudo o que sei é de que é o primeiro hino de que me lembro quando criança: foi o hino cantado nos funerais de meu irmão, de minha mãe, e de meu pai”.[7] Todos deveríamos tratar com carinho certos hinos que tem significado especial para nós. isto não quer dizer, porém, que não devemos ter boa vontade e desejo de aprender novos hinos, enquanto se processa nosso crescimento e maturação.

O cantar de hinos deve ser um ato naturalmente feliz. A Bíblia tem muito a dizer sobre a verdadeira felicidade. “O coração alegre é o melhor remédio”.[8] eis um provérbio que precisa ter constante aplicação a cada situação diária. É significativo que a maior parte das referências bíblicas a música são em termos de alegria, regozijo, vitória e louvor, embora haja também na vida do cristão o cântico triste e solene. Repetidas vezes o salmista nos exorta a cantarmos com júbilo, em voz alta, de maneira vitoriosa. “Que os santos se rejubilem (…) cantem em voz alta”[9]. “Entoai-Lhe novo cântico, tangei com arte e com júbilo”.[10] “Aclamai a Deus toda a Terra, Salmodiai a glória do Seu nome, dai glória ao Seu louvor”[11].

Geralmente se pensa em hinos como cânticos de louvor a Deus, e através deles os cristãos honram e exaltam o nome de Deus Há, porém outra espécie de hino também significativa e importante na experiência religiosa. O cântico evangélico é comparado a uma reunião de testemunhos na qual as provações e vitórias comuns sobre tentações são partilhadas com outros para o encorajamento de todos. Exemplo típico é o hino “Volto ao Lar” [H.A. 517].

O Mérito da Música Evangélica

Entre os músicos da igreja há muito se desenvolve uma controvérsia concernente aos relativos méritos da música evangélica, ou música sacra, comparada aos hinos. Na música da igreja há um lugar para o testemunho de cânticos evangélicos bem como para as mais sublimes expressões contidas em hinos. Há, contudo, certos problemas na seleção de cânticos evangélicos. Desde que muitos cânticos evangélicos requerem pouca ou nenhuma entrega, descrevem sem muito discernimento ou se entoam sem tocar no intimo da verdade, o uso exclusivo deles tende a ser uma substituição de algumas das mais elevadas graças de uma vida de adoração, e pode conduzir a normas eclesiásticas sem rumo.[12]

A despeito dessas fraquezas, muita coisa boa se tem feito para Deus através da música evangélica. Diz Roberto Stenvenson:

A hinodia evangélica tem sido um arado que cava fundo na endurecida superfície de mentes fechadas. Sua própria evidência tem sido sua força. Onde a delicadeza e a dignidade não produzem impressões, a hinologia evangélica ergue-se triunfante. (…) As canções de Sankey são as legitimas músicas populares do povo. Dan Emmit e Stephen Foster apenas fizeram na música secular o que Ira D Sankey e P. P. Blis fizeram tão válida e eficientemente na música sacra.[13]

De acordo com Havard Dictionary of Music, “a música folclórica pode ser definida como o repertório musical e a tradição das comunidades. (…) Ela desenvolve-se, de maneira animada, geralmente entre as classes mais baixas, justamente com poemas simples e ingênuos que tratam das várias fases da vida diária”.[14] Quando toma um tema religioso, torna-se música religiosa folclórica.

A Eficácia da Música Religiosa Fólclórica

Se foi possível usar-se com eficácia a música folclórica no século dezenove, com “arado que cava a superfície endurecida de mentes fechadas”, não poderia então ser possível – alguém poderia indagar – usar-se com igual eficácia a música religiosa folclórica da presente década do século vinte? Não se pode ignorar o fato de que o linguajar folclórico está sendo usado em muitas igrejas adventistas[*], e que ele possui força e validade como estilo musical, como reflexo de poderosas correntes de pensamento na vida contemporânea. O problema é se é licito à igreja o uso indiscriminado desses estilos, e podemos ter orientação a respeito? O encontro de uma resposta complica-se com a necessidade de se considerar e avaliar música e letra, na análise do problema.

Indagam alguns se a música de estilo folclórico, que no momento se introduz em reuniões da igreja, é na verdade música religiosa folclórica. Propagam ativamente a idéia de que músicas folclóricas usadas no culto brotam espontaneamente do povo, e constituem, portanto autêntica expressão de experiência religiosa do homem comum. Uma análise da maioria das músicas folclóricas recentemente editadas, revelam que essas canções não são produzidas pelo povo, mas sim por bem pagos escritores que procuram torná-las em estilo folclórico no interesse do aumento de vendas.

Há os que indicam, e corretamente, que Martinho Lutero usava melodias folclóricas para muitos hinos. Constitui isto justificativa bastante para o amplo uso de canções em estilo folclórico hoje em dia nos cultos? Foi intenção de Lutero que os cristãos cantassem – uma nova experiência para a maioria deles – desde que saíram do catolicismo, que não estimulava o canto congregacional. O emprego de melodias seculares familiares (embora Lutero as aprimorasse com novas harmonizações) facilitou os cristãos outrora silenciosos a cantarem. Talvez exista hoje situação semelhante, e alguns de nossos hinos comumente usados mas substituí-los por músicos amadores que ainda se gabam de possuírem pouca ou nenhuma formação musical?

De todos os hinos usados por Lutero só os de maior nível sobreviveram. Da mesma forma, apenas as melhores das novas melodias que agora se introduzem entre nós sobreviverão. Torna-se difícil, nesta época, determinar quais das novas melodias são musicalmente eficazes para continuar sendo usadas pelas sucessivas gerações mas, segundo razoável suposição, serão bem poucas. Rejeitar, porém, toda música de estilo folclórico seria tão insensato como aceitá-la indiscriminadamente. Deveríamos estar dispostos a aceitar os melhores dos mais recentes cânticos que parecem falar com eloquência e comunicatividade a muito jovens. Ao mesmo tempo, dos que têm estado a usar hinos nos antigos padrões, por décadas, não se pode nem se deve esperar que abandonem repentinamente algo que lhes tem sido significativo no crescimento cristão.

Desde que a média dos hinos de estilo folclórico hoje parece apresentar aproximadamente igual importância da letra com a música, o violão, como parte quase implícita na música evangélica de estilo folclórico, não pode ser passado por alto. O violão, como seus predecessores, ocupa lugar de honra na história da música. Muitos dos mais famosos compositores do mundo escreveram músicas para violão, e o instrumento tem servido tanto para expressar os sentimentos do homem comum, como para interpretar profunda música clássica. Aceitar o violão, pois, não significa que haverá rejeição de outras espécies de música ou exceção. Há séria dúvida de que o violão possa algum vez substituir a majestade do órgão no culto de adoração, mas outros estilos de música podem ser apropriados à adoração, devendo-se reconhecer a variedade de níveis culturais de uma congregação. Como judiciosamente observou alguém, “do adorador cujo conceito da elevada arte musical está nas músicas populares não se espera que reaja a um Bach ou outro grande compositor”[15].

Deve-se observar que o assunto do Salmo 150 é que todos os instrumentos musicais podem ser usados para louvar ao Senhor. Contudo, o sentido do ambiente para o instrumento apresenta um problema para alguns adoradores. Minha opinião pessoal sobre violões num culto corresponde aproximadamente a uma opinião expressa na revista Church Music, de orientação luterana:

“Em meu próprio caso, grandes obras como a Paixão Segundo Mateus anunciam o evangelho mais viva e profundamente do que uma porção de palavras proferidas. Em prova do que digo, os números musicais de violão, muito em voga nesta época, não me dizem muito e, ao contrário, transmitem sensações que barateiam quando não distorcem a mensagem do evangelho. No entanto, aqui entramos na área do gosto, da tradição, do condicionamento, nível de idade e outros fatores. Parece-me ser uma das mais difíceis tarefas do músico da igreja conhecer aqueles a quem deve servir, de modo que, como os apóstolos no dia do Pentecostes, possa falar muitas línguas (musicais), e a cada um na sua própria língua. Nossos pais tiveram de aprender que o inglês leva o peso do evangelho da mesma forma como o alemão. Temos de aprender que a música do violão pode levar o pelo do evangelho da mesma maneira que as formas tradicionais”.[16]


Notas:

[*] Refere-se a “negro-spirituals” e estilos semelhantes.

[1] R.C. Pankow, “The Role of Church Music”, The Hymn, outubro de 1968, p. 104.

[2] Carl Halter, God and Man in Music, p. 69

[3] Colossenses 3:16, NT na Linguagem de Hoje.

[4] Carl F price, “What is a Hymnh?” Papers of the Hymn Society, VI, 1937, p3.

[5] Ibid., p8.

[6] W. J. Reynolds, A Survey Of Christian Hymnody1 pp. 130, 131.

[7] D. Francis, Our Sunday Visitor, outubro de 1964, p.3

[8] Provérbios 17:22.

[9] Salmo 149:5

[10] Salmo 33:3

[11] Salmo 66:1,2

[12] Ver James L Sullivan, “Music and Religious Education”, the Church Musician, fevereiro de 1965, p. 5.

[13] R. M. Stenvenson, Patterns of protestant Church Music, p. 162

[14] Willi Apel, Havard Dictionary of Music, p. 274

[15] P. E. Elbin, “Fanny Crosby and Willian H. Doane Have Had Tehir Day”, The Hymn, janeiro de 1970, p.16

[16] John Strietelmeir, “The Layman, Church Music and the Musicians”, Church Music, No. 2, 1970, p.37.


Fonte: Revista Adventista, maio de 1974, pp. 8,9,10.