O Hinário e Sua Importância Espiritual

por: Tércio Sarli [1]

Depois da Bíblia, o hinário ocupa o lugar mais importante na vida cristã de cada crente, bem como nas cerimônias de adoração e louvor da igreja. O hinário não é um livro independente da bíblia: é a própria mensagem bíblica, em seus mais variados aspectos, apresentada em forma artística, bonita, agradável, como recurso da música e da poesia. Quantos membros de nossas igrejas tiveram sua conversão ligada à letra e música de um hino! A experiência cristã de cada seguidor de Jesus é enriquecida e fortalecida pelos hinos e cânticos, além de apelarem para a razão, apelam também para o coração.

Ao folhearmos o novo hinário (o Hinário Adventista do Sétimo Dia), vamos encontrar no alto das paginas informações e nomes das mais variadas nacionalidades e épocas, denotando estilos, origens e datas diferentes, desde vários séculos atrás até os dias atuais. Ilustremos um pouco: O hino “Ao Deus de Abrão Louvai”, nº. 11 de nosso hinário, é melodia judaica do ano 1400, aproximadamente, tendo recebido arranjo e letra cristã, em 1770; “A Deus Supremo Criador” [nr. 581], que cantamos na doxologia dos cultos, vem do Saltério Genovês, de 1551; “Castelo Forte”, o grande hino de Martinho Lutero [nr. 33], é de 1529. E há um grande número de hinos de autores e épocas mais recentes, e alguns deles até de músicos conhecidos pela maioria de nossas igrejas, pertencentes ao rol de nossos membros.

Um breve esboço dessa herança musical sacra pode apresentar o seguinte quadro:

1. A era bíblica – cerca de 2000 a.C. até 100 d.C.
2. A era do cristianismo primitivo – 130 até 1500.
3. A era do protestantismo histórico – 1500 até 1700.
4. A idade áurea da história evangélica – 1700 a 1800.
5. A era moderna e contemporânea – de 1800 até nossos dias.

Os hinos do hinário constituem, pois, uma rica herança da cristandade; e nessa herança, incluímos a era bíblica porque, até hoje, cânticos espirituais da bíblia, em especial os Salmos, fazem parte do louvor e adoração do povo de Deus, mesmo porque eles têm constituído fonte de inspiração para muitos de nossos hinos.

Na verdade, o livro de Salmos foi o primeiro conjunto de cânticos espirituais usados na Igreja Cristã. Já no antigo Israel os Salmos constituíam o grande e glorioso hinário do povo de Deus usado em todas as importantes cerimônias do templo, bem como nas peregrinações anuais rumo a Jerusalém, por ocasiões das grandes festas nacionais. E a Igreja Cristã passou a fazer uso dos Salmos para manifestar o seu louvor a Deus. Com o passar dos tempos, o uso da música sacra, dos cânticos religiosos, foi tomando formas diversas, num desenvolvimento lento, uma vez que se tinha preocupação em evitar as aparências com o uso da música nas cerimônias pagãs. Mas foi com Martinho Lutero, na reforma do século XVI, que o uso da música e dos cânticos começou a ocupar papel de relevo nos cultos e na vida particular de cada crente. Por toda a parte – afirmam os historiadores – cantavam-se os hinos contendo a mensagem da bíblia: nas igrejas, nas casas, no trabalho, nas ruas. Em todo lugar! Lutero deu liberdade a uma grande criatividade no que se referia à música e cânticos espirituais, o que incentivou o uso do cântico na vida dos fiéis. Já João Calvino, contemporâneo de Lutero, reformador francês, defendia uma posição rígida no que se referia ao louvor na igreja. Acreditava que apenas o que tivesse vindo diretamente de Deus, através da Bíblia, deveria ser usado ao louvor. Permitia apenas o uso dos Salmos bíblicos, com pouquíssima musicalização, e era completamente proibido o uso de qualquer instrumento. O louvor quase que consistia inteiramente de leituras responsivas ou em uníssono.

Tempos depois, os Quakers, nos Estados Unidos, chegaram ao ponto de rejeitar qualquer uso de música nos cultos, como se fosse costume profano e impróprio. Unicamente leitura bíblica era permitida.

Mas foi no século XVII, principalmente com João e Carlos Wesley, e Isaac Watts, que o uso de hinos nas cerimônias religiosas, e na vida cristã em geral, alcançou o seu auge. Esse século é chamado a Idade Áurea da hinodia cristã-evangélica. Tanto na Igreja Metodista, liderada por Wesley, como em outras denominações evangélicas, grandes movimentos de reavivamento espiritual e de evangelização tinham nos cânticos a base de propagação da mensagem de Deus. Carlos Wesley, por exemplo, produziu mais de seis mil hinos (muitos deles constam no novo hinário), e promoveu incansavelmente o uso dos cânticos espirituais entre os convertidos.

A Igreja Adventista, desde seu inicio, deu grande valor ao uso dos hinos de louvor, nos cultos e nas reuniões religiosas em geral, bem como nas escolas e nos lares. A mensageira do Senhor, Ellen White, escreveu a respeito: “Como parte do culto, o canto é um ato de adoração tanto quanto a oração. Assim como os filhos de Israel, jornadeando pelo deserto, suavizavam pela música de cânticos sagrados a sua viagem, Deus ordena a Seus filhos hoje que alegrem a sua vida peregrina. Poucos meios há mais eficientes para fixar Suas palavras na memória do que repeti-los em cânticos. E tal cântico tem maravilhoso poder. Tem poder para subjugar as naturezas rudes e incultas; poder para suscitar pensamentos e despertar simpatia, para promover a harmonia de ação e banir a tristeza e os maus pressentimentos, os quais destroem o ânimo e debilitam o esforço. É um dos meios mais eficazes para impressionar o coração com as verdades espirituais. Quantas vezes, à alma oprimida duramente e pronta a despertar, vêm à mente algumas das palavras de Deus – as de um estribilho, há muito esquecido, de um hino da infância – e as tentações perdem o seu poder, a vida assume nova significação e novo propósito, e o ânimo e a alegria se comunicam a outras almas!” – Educação, pág. 167.

O hinário deveria ter como objetivo ampliar mais e mais o uso dos hinos e cânticos nas igrejas, nos cultos familiares, nos encontros jovens e na devoção particular. Não é para ser usado somente na congregação. A igreja deve cantar em todas as ocasiões. E quando dizemos igreja, referimo-nos a seus membros, crianças, jovens, adultos e idosos. Não apenas nos cultos principais, mas em todas as oportunidades, em reuniões [da igreja ou nos cultos familiares e particulares]. (…)

As seções em que é dividido o hinário contém hinos inspiradores abrangendo toda a mensagem bíblica pregada pela Igreja, e um conjunto de belos hinos de ajuda espiritual e fortalecimento da fé. Teve-se o máximo cuidado de se evitarem expressões que pudessem trazer confusão teológica e doutrinária. Além de tudo, algumas medidas estão sendo tomadas no sentido de se ajudar as igrejas, e principalmente os lideres musicais delas, no ensino dos hinos, a fim de que o hinário possa ser usado na sua plenitude. Estão sendo gravados no sistema de CD todos os hinos do hinário, com parte vocal instrumental, com objetivo didático e inspiracional (…). 

[Os CDs estão hoje amplamente disponíveis para todas as igrejas, abrangendo a totalidade do hinário. Infelizmente, tal procedimento, apesar de importante para comunidades carentes de músicos que possam ensinar à congregação a cantar novos hinos, tem substituído a formação desses mesmos músicos. O CD, planejado apenas para ajudar a congregação, tem substituído a congregação em muitas igrejas pelas quais temos passado. Ao invés de ser um acompanhamento do elemento principal, ou seja, a congregação, a tem substituído, em forma de mensagem musical ou tocado em volumes altíssimos durante o momento do cântico congregacional, de forma que o adorador não se ouve cantando e, portanto, sente-se inibido no cantar. Publicamos este artigo com o intuito de promover o uso do hinário nas mais diversas ocasiões da igreja, mas não deixamos de tecer uma crítica e um convite urgente: o CD não deve substituir o músico, o qual deveria ser incentivado, seja pela Associação, seja pela igreja local. E mais: o CD não deve, nunca, substituir a adoração da congregação, sendo apenas um acompanhamento.] (…)

Nossa prece é que Deus abençoe o hinário para que seja um veículo de louvor e adoração, e de ânimo e encorajamento ao povo de Deus em sua peregrinação rumo a Canaã celestial. E fazemos nossas as palavras do apóstolo: “Enchei-vos do Espírito, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor, com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a Nosso Pai, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.” (Efésios 5:18-20).


Nota:

[1] O espaço virtual Música Sacra e Adoração agradece à Loide Simon por esta contribuição. Avisamos ao leitor que os trechos entre [colchetes] são adições dos editores deste espaço virtual, e não constam do original da Revista Adventista. As reticências entre parêntesis “(…)” correspondem a trechos que foram retirados do original pelos editores do Música Sacra e Adoração.


Fonte: Revista Adventista, Setembro, 1995. Pp. 10-11.