Como Usar o Hinário

por: José Newton da Silva Júnior [1]

De todos os livros existentes no mundo, dois se destacam: a Bíblia e o hinário. Disse alguém que a Bíblia é a maneira como Deus nos fala e o hinário é a maneira como falamos a Deus [imaginem a solenidade e responsabilidade incutidas nesta comparação! Como deve ser o nosso cantar se comparado com as grandiosas palavras escritas na Bíblia? Será que estamos cantando palavras e sons à altura do Deus que fala na Bíblia? Pensemos com contrição e oração a este respeito].

Assim como a Bíblia, o hinário também é um livro que abrange vários assuntos:

  • É um livro de música. Uma coleção de peças musicais rica em variedade e de interesse universal.
  • É um livro de poesia. Contém algumas poesias sacras das maiores no gênero.
  • É um livro de Teologia. Ainda que o hinário não seja formal quanto a axiomas teológicos ou exposição de doutrinas, jamais pode ser considerado um livro de teologia superficial. Muitas pessoas são capazes de mencionar, de memória, mais linhas de hinos do que versos bíblicos. Isso atesta o alto poder do hinário como veículo de teologia cristã [mais um componente de imensa responsabilidade! Os hinos que cantamos devem ser expressões de máximo rigor e conteúdo teológico, não depósitos de letras pobres e de fraca mensagem teológica].
  • É um livro devocional. Em suas páginas se encontram hinos que se constituem numa fonte inesgotável de socorro espiritual, que pode sustentar o cristão em suas lutas diárias[2].

Algumas compram um bem, um imóvel, ou um eletrodoméstico e passam a vida toda sem saber ou sem usufruir todos os benefícios que esse bem pode oferecer. Como isso poderia ser também verdade em relação ao hinário, a idéia deste artigo é dar algumas sugestões quanto ao uso do hinário nas várias atividades da nossa vida cristã.

No lar

A) No culto pessoal

Antes de pensarmos no beneficio do hinário no culto em família, deveríamos pensar nos benefícios que ele pode trazer-nos individualmente.

Como fonte de meditação. Leia-se a poesia (conhecendo-se ou não a música) e medite-se nas suas palavras. Permita-se demorar em cada frase e em cada palavra. “A leitura individual e meditativa da mensagem dos grandes hinos é o que torna o cântico em conjunto de valor[3].” Nos momentos em que nos dedicamos à nossa devoção particular, as palavras de um hino cantadas com o coração e a alma, podem fazer muito no sentido de elevar-nos para mais perto do Senhor. Quando se canta sozinho, na sua hora tranqüila, no seu culto pessoal, cada palavra toma um novo significado.

B) No culto familiar

É provável que muito poucas coisas sejam de maior valor para a experiência de um cristão do que a lembrança dos momentos em que junto à sua família, em tenra idade, reuniam-se e entoavam hinos de louvor e cânticos inspiradores. As palavras desses cânticos, por certo, hão de acompanhar essa pessoa por toda a sua carreira cristã. Nos momentos de crise, encruzilhadas, dúvidas e temores, as palavras dos cânticos vindas à sua mente hão de surtir um efeito a ser revelado apenas na eternidade. E ainda que as palavras não sejam lembradas textualmente, elas estão ali, no subconsciente, tornando-o um cristão mais forte e mais propenso para o bem. “Nos lares onde o hinário é fonte constante da música em família, as crianças desenvolvem normalmente o amor às vésperas religiosas, os jovens são sustentados no seu jornadear[4]“. Deixe que os filhos tenham direito de escolher um hino, talvez o seu favorito, ainda que não seja o que mais se adapte à ocasião.

  • Complemente o estudo da lição da Escola Sabatina com um hino previamente escolhido. Será certamente um fator muito importante na fixação da mensagem na mente dos membros da família.
  • Cante um hino à hora de dormir. Sem dúvida que muitas crianças terão impressão permanente da terna confiança em seus primeiros anos ligada a estes hinos[5].

Na escola

“Haja canto na escola, e os alunos serão levados para mais perto de Deus, dos professores e uns dos outros[6]“.

Tenho ouvido professores experientes atestarem do poder que um hino cantado no início das aulas pode ter sobre o ambiente, tornando-o mais favorável a essa troca de experiências, a que chamamos de educação.

Sendo que a música é um dos meios mais eficazes de fixar as palavras na mente e no coração, as verdades apresentadas por nossos hinos hão de permanecer na mente dos alunos, tornando-os cristãos valorosos, possuidores de caráter firme, de tal maneira a resistir às tempestades da vida.

Alguns alunos que estão em nossas escolas jamais terão outro contato com o evangelho. Ao lado dos ensinamentos dos dedicados mestres, os hinos que aprenderem hão de acompanhá-los pelo resto da vida. Sendo assim, os hinos se tornam em sementes, que um dia sob a graça de Deus, poderão germinar, dando frutos para o Seu reino. [Para que o fruto seja bom, é necessário que a semente seja boa. Que tipo de hinos temos cantado em nossas escolas? Hinos carregados de verdades teológicas e princípios bíblicos? Ou cânticos pobres (com letras repetitivas) e meramente adaptados ao gosto dos jovens de hoje?].

Na igreja

Esse talvez seja o uso mais comum que fazemos do hinário; no entanto, há também aqui um campo mais vasto a ser explorado.

Os hinos comumente usados em nossos cultos e demais reuniões, muitas vezes entoados rotineira e monotonamente, podem ganhar um novo significado quando os entoamos com espírito e entendimento.

Seguem aqui algumas sugestões para tornar o serviço do canto mais atraente, fervoroso, caloroso e participativo.

  • Instituir um serviço de cânticos organizado, pensando previamente, ensaiado e dirigido por alguém habilitado. O poder do cântico será potencializado se forem hinos que tratem do mesmo assunto a ser apresentado pelo pregador. Algumas igrejas o têm instituído dentro da liturgia do Culto Divino. Pode receber um nome tal como Louvor Congregacional, Momento de Louvor.
  • Dar breve nota hinológica a respeito da composição do hino, antes de entoá-lo. O período no qual tenha vivido o autor ou o compositor, as circunstâncias que instigaram sua composição, ou outros dados relevantes. Um pouco de pesquisa revelará a abundância de material disponível a esse respeito[7].
  • Estabelecer o hino da semana, que poderá ser usado durante as reuniões do ciclo semanal, tendo o dirigente a oportunidade de aperfeiçoá-lo, corrigindo-lhe os vícios, se já conhecido, ou ensiná-lo corretamente se for novo.
  • Toda a congregação, cantar em vozes. Talvez o dirigente possa fazer acertos com o pastor para usar alguns momentos dentro do programa semanal para esse “ensaio”. O coral pode servir de um excelente apoio tanto para o dirigente que ensina, quanto para a congregação que aprende.
  • Buscar enriquecer o acompanhamento com outros instrumentos além do piano e/ou órgão. Estimulando-se os membros quanto ao aprendizado de instrumentos que possam contribuir para um louvor mais rico e abençoado.
  • Uma das estrofes pode ser interpretada por um instrumento solista, e a congregação permanece em silêncio, acompanhado as palavras no hinário, e novamente tornando a participar, no estribilho.
  • Uma das estrofes, cantando “a capella”, ou seja, sem o acompanhamento instrumental.
  • Usar a forma antifonal, onde vários grupos alternam-se nas estrofes ou parte delas, unindo-se no estribilho. (Ex.: homens/mulheres, coral/congregação, solista/congregação, adultos/crianças, lado direito/esquerdo, etc).
  • Uma vez que muitos hinos são verdadeiras orações, vez por outra toda congregação poderia ler reverentemente em voz audível as palavras de uma ou mais estrofes de um hino, ao invés de uma só pessoa dirigir a oração; ou mesmo fazer de tal hino uma oração cantada.
  • Escolher um hino que toda a congregação entoe enquanto deixa o templo ao fim do culto.

Haverá igrejas, principalmente nos grandes centros, onde os solistas, duetos, trios, quartetos, corais infantis, conjuntos e corais adultos terão fonte abundante de músicas para o seu repertório. No entanto, haverá igrejas onde o hinário será a mais abundante, ou mesmo única fonte de partituras. Alguns hinos foram incluídos no hinário com esse objetivo.

Nas seções dos anexos você irá encontrar, além das leituras responsivas, as palavras de segurança, chamando à adoração, ofertórios que, acrescentados ao serviço do culto, no momento adequado, darão ao serviço de louvor um dinamismo e um novo colorido. Muitas das sugestões relativas aos hinos poderão ser aplicadas, dentro do contexto devido, às leituras responsivas.

Vão citadas neste artigo algumas sugestões quanto ao uso do hinário; no entanto, as possibilidades para com o seu uso podem ser ilimitadas. Com oração, interesse, pesquisa e boa vontade você descobrirá novas maneiras de usar o seu hinário, de forma que possa usufruir de todos os benefícios oferecidos por seus hinos, com suas mensagens e seus valores – valores que podem fazer de você um cristão autêntico, um servo leal, enfim, um verdadeiro filho de Deus.


Notas:

[1] O presente artigo, datado de novembro de 1995, com o título de “Como Usar o Novo Hinário” tratou do uso do novo hinário, o Hinário Adventista, que hoje está nas mãos dos adoradores Adventistas do Sétimo Dia, em substituição ao antigo “Cantai ao Senhor”. Todavia, para que as orientações aqui oferecidas não perdessem sua validade, os editores do Música Sacra e Adoração tentaram editar o artigo como uma orientação atemporal no uso de todo e qualquer hinário. Para que tal fosse possível, os editores do referido espaço virtual incluíram notas de rodapé e expressões entre [colchetes] que não fizeram parte da edição original da Revista Adventista (todos os [colchetes] são de autoria dos editores do Música Sacra e Adoração; as notas não existentes no original, caso houverem, serão indicadas). As frases e expressões que se relacionavam diretamente ao novo hinário e não puderam passar por modificações, foram retiradas, contudo com muito cuidado, para que o contexto do artigo original não fosse deturpado. Os editores do Música Sacra e Adoração agradecem à Loide Simon pela indicação deste artigo.

[2] McEltrath, Hugh T. Você e Seu Hinário. Rio de Janeiro: JUERP (Junta de Educação Religiosa e Publicações), 1976, pp. 13-15.

[3] Idem, Ibidem. p. 15.

[4] Idem, pág. 57 e 58.

[5] Idem, pág. 58.

[6] Ellen G. White, Educação, pág. 17.

[7] O espaço virtual Música Sacra e Adoração tem uma seção dedicada exclusivamente à história dos hinos: “Histórias de Hinos do Hinário Adventista” (nota dos editores do Música Sacra e Adoração).


Fonte: Revista Adventista, Novembro, 1995. pp. 32-33.