O Canto Cristão – I

por: Hugo Dario Riffel

Parte I

Não há dúvida de que o canto cristão seja herdeiro direto do hebraico, e suas raízes nos levam aos Salmos e outros trechos musicais do Velho Testamento.

As referências acerca do canto ritual nos primeiros tempos da igreja Cristã não são muito abundantes,[1] o que levou alguns a opinarem que a música estava proscrita nos cultos da Igreja Primitiva. Não obstante, podemos reconhecer quatro fontes de informação para assegurar-nos que efetivamente se cantava naquele tempo. Ei-las:

  • O Novo Testamento
  • O Espírito de Profecia
  • Os Escritos dos Pais da Igreja
  • A História Secular

Vejamos algumas indicações. Por exemplo: Os apóstolos Tiago e Paulo aconselhavam os fiéis a cantar; Santo Inácio escreve aos Efésios: “Formai todos um coro, para que, fusionando-vos em concórdia e tomando a nota dominante de Deus, possais cantar em uníssono ao Pai, através de Jesus Cristo.” Plínio, protetor da Bitínia, no ano 109 escreve ao imperador Trajano acerca dos costumes cristãos, e menciona que se reúnem ao amanhecer, num dia determinado, “para se revezarem em cantar um hino a Cristo como Deus”.

A forma mais antiga de canto cristão é a salmodia; no entanto, por falta de comunicação entre as diversas congregações, cada grupo tinha seus cânticos. Havia quatro maneiras diferentes de cantar:

Canto Antifonal: em que a congregação se divide em dois setores que cantam alternadamente.

Canto Responsorial: no qual o solista se alterna com os fiéis.

Solo Salmódico: O solista canta um salmo; é como uma espécie de recitativo.

Indirectum” – assim se denomina o canto congregacional. Não sabemos como eram as melodias, mas por analogia com as escolas hebraica e grega dominantes, supõe-se que canto era silábico, severo e monótono. Os instrumentos foram excluídos da liturgia para diferenciá-la dos cultos pagãos; e as vozes femininas também são excluídas no quarto século.

Os hinos cristãos primitivos são os hinos de uma igreja, logicamente, perseguida; no entanto tudo neles era alegria, amor, fé e esperança; nunca aparece uma nota triste. Além disso, são hinos de caráter universal, procedentes duma época que não fazia distinção de credos ou seitas. Vejamos os três mais importantes:

1) “Tersanctus” ou “Trisagien”: baseado em Isaías 6:3: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a Terra esta cheia da Sua glória.” Já era cantado na liturgia hebraica. Provavelmente foi modificado no Século III, subsistindo a versão cristã que todos conhecemos.

2) “Glória in Excelsis”: É o canto dos anjos na noite do nascimento do Salvador. Chama-se “Doxologia Maior”.

3) “Te Deum Laudamus”: É o mais sublime de todos e uma espécie de salmo de louvor, dignidade e grandeza não superados.

O centro mais importante da música cristã primitiva é a cidade de Antioquia. Encontrava-se ali a origem do canto antifonal. Santo Inácio, que vivera nessa cidade, foi um grande propagador do uso dos hinos. Há uma porção de compositores de hinos gregos nos primeiros séculos da Igreja Cristã sobressaindo três monges do Mosteiro de Mar Saba, situado num lugar deserto. São eles: Cosmas, Estevão e João Damasceno. Do último ainda são cantados dois hinos.

No Século VI, porém, foi codificada e ordenada a música cristã, pela genial obra de Ambrósio, bispo de Milão. Introduziu o uso de quatro tons melódicos segundo o estilo grego, e por sua vez compôs e ensinou hinos aos fiéis de Milão. Apesar de conhecer-se pouco acerca do sistema e estrutura das melodias ambrosianas, temos certeza de que eram capazes de produzir nobres sentimentos. Escreve Santo Agostinho depois de havê-los ouvido pela primeira vez: “Como tenho chorado com teus Hinos e Cânticos, profundamente comovido pelas vozes de tua docemente melodiosa Igreja!”. – Confesiones, IX, 6.

Finalmente aparece em cena o Papa Gregório, o grande, que ocupou o trono pontifício entre 590 a 604. Apesar de que nem tudo o que se atribui tradicionalmente a Gregório seja obra sua, é muito certo que foi o iniciador dum sistema, que depois, desenvolvido e aperfeiçoado, ocupa toda a Idade Média e constitui a base da música religiosa da igreja Católica. Há numerosos autores de hinos na língua latina, destacando-se os três monges seguintes: Bernardo de Claraval, Bernardo de Cluny e Tomás de Celano. Este último, por volta do ano 1250, escreve o hino latino mais grandioso e descritivo, que tem inspirado os músicos e poetas de todos os tempos. É o famoso “Dies Irae” [2].

Acompanhamos assim, de modo bastante sucinto, a fase inicial da música cristã, e seu desenvolvimento posterior. Talvez o ponto mais importante de todo o assunto seja encontrado nas palavras de Paulo aos coríntios: “…cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento”. – (I Coríntios 14:15). Deus quer que nossas congregações retornem ao estilo daqueles tempos distantes, sem templos majestosos e órgãos sedutores, mas em que o importante era cantar com o “espírito” e com o “entendimento”.


Nota:

[1] – Algumas referências bíblicas e do Espírito de Profecia, a respeito da música no Novo Testamento e a Igreja Cristã Primitiva:

  • Mateus 26:30; Marcos 14:26; Atos 16:25; Romanos 15:9; I Coríntios 14:15 e 26; Efésios 5:19; Colossensses 3:16; Tiago 5:13; Apocalipse 5:9; 14:3; 15:3.
  • Ellen G. White – Atos dos Apóstolos, pp. 35 e 214.
  • Ellen G. White – O Conflito dos Séculos (Nova Edição Revista), p. 41.
  • Ellen G. White – Educação, p. 165
  • Ellen G. White – O Desejado de Todas as Nações, pp. 51,53 e 502

[2] – Apesar de reconhecermos a importância do cântico “Dies Irae”, não podemos nos esquecer que ele está permeado de ensinamentos da teologia católica, com alguns dos quais nós, como Adventistas do Sétimo Dia, não concordamos (nota dos editores do Música Sacra e Adoração).


Fonte: Revista O Ministério Adventista, Jan-Fev de 1966, pp. 20,21.