Uma Teologia Adventista da Música na igreja

por: Levi de Paula Tavares

Baseada no capítulo 6 livro O Cristão e a Música Rock—Um Estudo dos Princípios Bíblicos da Música de autoria do Dr. Samuelle Bacchiocchi

A Música na Igreja – Fábio Henrique Trovon de Carvalho, em seu artigo “Música na IASD: Questão de Gosto?“, conta-nos que certa vez teve a oportunidade de participar de uma convenção de vendas onde, entre outros palestrantes convidados, estavam presentes André Azevedo e Klever Kolberg, brasileiros que competem e já vencerem o rally mais famoso do mundo: Paris-Dakar. Entre as inúmeras comparações dos desafios do rally com a realidade das empresas, uma colocação chamou-lhe muito a atenção.

O maior drama enfrentado por um piloto no deserto é desviar-se da rota, ficar perdido. Se isso ocorre, o sucesso no rally pode estar comprometido, pois perde-se tempo, gasta-se combustível em excesso e, pior, consome-se mais água que o necessário.

Ao final de vários relatos de situações desse tipo, houve uma pausa solene e, após, eles concluíram: “Perder-se no deserto é o pior dos mundos. Mas existe uma coisa que é ainda pior.” Nesse momento a platéia ficou paralisada, tentando imaginar o que poderia ser pior. E eles concluíram: “Pior que estar perdido no deserto é estar de fato perdido SEM SABER QUE ESTÁ PERDIDO!”

A Igreja Adventista do Sétimo Dia professa ser o povo remanescente, que tem a luz da verdade para os últimos dias da história do mundo, o Israel espiritual. Porém, durante as últimas décadas, temos notado que os membros desta igreja têm caminhado por um caminho perigoso baseado na confiança própria, em vez de um claro “Assim diz o Senhor”. O povo que antes era conhecido como o “povo da Bíblia”, hoje dificilmente estuda a lição da Escola Sabatina. Como conseqüência lógica desta atitude, temos assistido a uma queda alarmante da espiritualidade da igreja como um todo e a uma perda dos valores e princípios que nortearam os pioneiros de outros tempos. Existe hoje uma tendência para a racionalização dos valores estabelecidos. Isto leva a uma perda do discernimento entre o sacro e o profano, as bases teológicas para este discernimento estão esfaceladas e enferrujadas pela falta de uso.

A perda do discernimento entre o sacro e o profano abre uma brecha enorme para a introdução e aceitação de tendências musicais questionáveis no sagrado serviço de adoração, seja na Igreja, nos aniversários de colégios, congressos, reuniões de jovens, conferências evangelísticas ou qualquer outro lugar. Na falta de uma base concreta para o discernimento, os líderes de jovens, músicos, pastores e a congregação em geral, usam, para decidirem que tipo de música usar, aquilo que está ao seu alcance imediato: o gosto pessoal.

Muitos cristãos reclamam que os hinos tradicionais da igreja estão mortos, porque estes não têm mais nenhum apelo para eles. Por outro lado, música religiosa contemporânea lhes dá uma sensação agradável. Aqueles que clamam por uma música eclesiástica que lhes ofereça satisfação pessoal, ignoram que estão buscando uma excitação física egocêntrica, em lugar de uma celebração espiritual das atividades criadoras e redentoras de Deus, centralizada nEle.

Infelizmente, o debate corrente sobre o uso de música popular contemporânea na adoração adventista ignora grandemente os pressupostos teológicos que devem guiar a experiência da adoração dos crentes Adventistas. Alguns líderes de música adventistas estão insistindo na adoção de música religiosa contemporânea nos cultos de adoração adventistas com base no gosto pessoal e considerações culturais. Mas a música e o estilo de adoração da igreja adventista não podem ser baseados somente em gostos subjetivos ou tendências populares. A missão profética e a mensagem da igreja deveriam ser refletidas em sua música e estilo de adoração.

Música – Uma Discussão Teológica – A controvérsia sobre o uso da música popular religiosa na adoração na igreja é fundamentalmente teológica, porque a música é como um prisma de vidro, através do qual brilham as verdades eternas de Deus. A música divide esta luz em um espectro de muitas belas verdades. Os hinos cantados e os instrumentos tocados durante o culto na igreja, expressam o que esta igreja acredita sobre Deus, Sua natureza e Sua revelação para nossa vida presente e destino final.

A Igreja Adventista do Sétimo Dia tira a inspiração para sua música e adoração de três doutrinas principais: (1) o sábado, (2) o sacrifício expiatório de Cristo e o Seu ministério no santuário celestial, (3) a certeza e iminência da volta de Cristo. Cada uma destas crenças contribui a seu modo para definir a natureza da música na Igreja Adventista.

A música e o estilo de adoração da maioria das igrejas adventistas estão em grande parte baseados na aceitação, sem qualquer crítica, do estilo de adoração de outras igrejas. Em seu livro And Worship Him, Norval Pease, meu antigo professor de adoração no Seminário Teológico Adventista do Sétimo Dia da Andrews University, nos ensinou, “Somos adventistas, e temos que aproximar da adoração como adventistas. Um culto de adoração que satisfaz as necessidades de metodistas, episcopais, ou presbiterianos pode ser insatisfatório para nós”.

A resposta para a renovação da adoração adventista será encontrada, não na adoção de música popular religiosa, ou outros estilos de tendência popular, mas em um reexame de como nossas crenças distintivas Adventistas deveriam ser refletidas nas várias partes do culto na igreja, inclusive na música. Um projeto tão ambicioso está além do âmbito limitado desta palestra, que enfoca principalmente o aspecto da música no culto de adoração.

Teologia Insuficiente. O número crescente de igrejas cristãs em geral e de igrejas adventistas em particular que estão adotando estilos de adoração contemporâneos, onde várias formas de música popular religiosa são executadas, sofrem de uma condição que pode ser chamada de “empobrecimento teológico”. A característica que define esta condição é a escolha de música com base estritamente no gosto pessoal e tendências culturais, em lugar de convicções teológicas claras.

Este problema tem sido reconhecido até mesmo por alguns músicos Cristãos contemporâneos. Em seu livro At The Crossroads (1999), Charlie Peacock, um artista com gravações ganhadoras de prêmios, produtor e compositor acha que as teologias da música contemporânea freqüentemente “erram nos seus objetivos” porque estão baseadas em gostos pessoais ou demanda popular ao invés de basear-se em ensinamentos Bíblicos. “Sem os pensamentos de Deus e os caminhos de Deus, somos deixados com nossas próprias idéias obscurecidas e insuficientes. Se voluntariamente escolhemos negligenciar o trabalho de edificar teologias verdadeiras para nossas vocações, nos veremos despedindo-nos do brilho que ilumina a vida. Nos acharemos tropeçando cegamente pelo caminho que parece certo aos homens, mas leva a nada mais do que escuridão”.

O desafio de repensar o arcabouço teológico da música contemporânea, não afeta apenas o movimento de Música Cristã Contemporânea, mas as igrejas cristãs em geral, inclusive a Igreja Adventista do Sétimo-Dia. Muito freqüentemente as canções populares cantadas durante o culto na igreja são baseadas em uma teologia inadequada ou até mesmo herética orientada para a auto-satisfação. Isto é verdade não só para a música popular religiosa, mas também para outras canções.

Três Doutrinas Básicas – Estaremos tentando repensar a base teológica que deveria guiar a escolha da música usada no culto de adoração das igrejas Adventistas. Consideraremos especificamente como as três crenças distintivas dos Adventistas do Sétimo Dia, o Sábado, o Ministério de Cristo no Santuário Celestial e o Segundo Advento, deveriam causar um impacto na escolha e na execução de música no culto divino.

A palestra está dividida em três partes. A primeira parte examina a música na igreja no contexto do Sábado. Um ponto importante apresentado nesta seção é que o Sábado, sendo a santidade no tempo, desafia de forma eficaz aos crentes a respeitarem a distinção entre o sagrado e o secular, não apenas no tempo, mas também em áreas tais como a música e a adoração na igreja.

A segunda parte vê a música na igreja no contexto do ministério intercessório de Cristo no santuário celestial. Este estudo propõe que a música majestosa e triunfante dos coros celestiais descritas no livro do Apocalipse, deveria brilhar através da música, orações e pregação da igreja na terra.

A terceira parte focaliza a música na igreja no contexto da certeza e iminência do Segundo Advento de Cristo. Um ponto significativo desta seção é que a visão do breve aparecimento da Rocha Eterna com a maior orquestra de anjos que este mundo jamais viu, deveria incendiar a imaginação dos membros a cantarem com jubilosa antecipação e dos músicos para comporem novos cânticos que reacendam e Bendita Esperança no coração dos crentes.

Parte I

Música na Igreja no Contexto do Sábado

O Sábado Oferece Razões para a Adoração. Das três doutrinas bíblicas principais que identificam a Igreja Adventista do Sétimo Dia, o sábado ocupa um lugar sem igual porque provê a base para a verdadeira adoração a Deus. Tal base será encontrada nas três verdades fundamentais que o sábado contém e proclama, que são: que o Senhor nos criou perfeitamente, Ele nos redimiu completamente, e Ele nos restabelecerá finalmente.

Adorar significa reconhecer e louvar os méritos de Deus. Seria Deus merecedor de louvores se não houvesse originalmente criado este mundo e todas suas criaturas perfeitamente e não tivesse feito provisão para sua restauração final? Ninguém louva um fabricante que produz um carro com problemas mecânicos e que não assume a responsabilidade pelos consertos. Da mesma maneira seria difícil achar razões para louvar a Deus com cânticos, orações, e sermões, se Ele não houvesse nos criado perfeitamente e nos redimido completamente.

O culto de adoração no sábado é a ocasião para os crentes celebrarem e regozijarem pela magnitude das realizações de Deus: Sua maravilhosa criação, a redenção bem sucedida de Seu povo; e as múltiplas manifestações de Seu amor e cuidado constantes. Estes são os temas fundamentais que deveriam inspirar a composição e o cântico de hinos de louvores a Deus.

A celebração da bondade e da misericórdia de Deus constitui a base para toda a música e adoração oferecidas a Deus em qualquer dia da semana. Mas no sábado as experiências da música e da adoração alcançam sua completa expressão, porque o dia fornece tanto o tempo quanto as razões para celebrar alegremente e com gratidão o amor criativo e redentor de Deus.

Santidade no Tempo – Santidade na Música. Como uma santidade no tempo, o sábado desafia eficazmente os crentes a respeitar a distinção entre o sagrado e o secular, não apenas no tempo, mas também em áreas tais como música na igreja e adoração. Afinal de contas, música e adoração constituem um aspecto importante da observância do sábado.

O significado fundamental de santidade [do Hebreu qadosh] do sábado, a qual é freqüentemente reafirmada nas Escrituras (Gênesis 2:3; Êxodo 20:11; Êxodo 16:22; 31:14; Isa. 58:13), é o “colocar à parte” as vinte quatro horas do sétimo dia para cultivar a percepção da presença de Deus em nossas vidas. É a manifestação da presença de Deus que faz o tempo ou o espaço santo.

A santidade do sábado deve ser encontrada, não na estrutura de um dia, a qual é igual ao restante dos dias da semana, mas no compromisso de Deus de manifestar de um modo especial a Sua Santa presença no dia de sábado nas vidas do Seu povo. Isaías, por exemplo, retrata a Deus como recusando-Se a estar presente à assembléia de Seu povo no sábado, por causa da “iniqüidade” deles (Isaías 1:13-14). A ausência de Deus faz com que a adoração deles não seja santa, mas ao invés disso, uma “abominação” ou um “pisar os meus átrios” (Isaías 1:12-13).

Como o símbolo da livre escolha de Deus do Seu tempo especial para manifestar a Sua Santa presença, o sábado pode constantemente e efetivamente lembrar aos crentes que o guardam da sua eleição divina e missão especial neste mundo. Um Dia Santo exige um povo santo. Assim como o sábado permanece como o Dia Santo entre os dias da semana, assim também o crente que o guarda, é convidado constantemente a permanecer como uma pessoa santa, escolhida de Deus, entre uma geração perversa e de mente secularizada. Em outras palavras, como a Bíblia coloca, a guarda do sábado serve como “um sinal entre mim e vós pelas vossas gerações; para que saibais que eu sou o Senhor, que vos santifica”. (Êxodo 31:13; cf. Ezequiel 20:12).

Relativismo Cultural. A adoção de versões modificadas de música popular para a adoração na igreja é sintomática de um problema maior, a saber, a perda do senso do sagrado em nossa sociedade. O processo de secularização, que alcançou novas alturas em nosso tempo, tem toldado gradualmente a distinção entre o sagrado e o profano, o certo e o errado, o bom e o ruim. “Todos os valores e sistemas de valores, apesar de suas perspectivas contraditórias, são igualmente válidos. Certo e errado são reduzidos a mera opinião, um é tão bom quanto o outro. Verdade não é fixa, mas mutável, relativa aos caprichos que a definem”.

O relativismo cultural de nosso tempo tem influenciado a igreja, especialmente no campo da estética, tal como a música, a qual se tornou apenas um assunto de preferência pessoal. “Eu gosto de rock, você gosta de clássico – e daí?” Pressupõe-se que um seja tão bom quanto o outro. Para muitos não há mais distinção alguma entre música sacra e profana. É simplesmente é uma questão de gosto e de cultura.

O subjetivismo no campo da estética está em contraste marcante com as crenças doutrinárias objetivas, inegociáveis, que são defendidas apaixonadamente por cristãos evangélicos. Dale Jorgensen observa corretamente que “O mesmo pregador que crê que esteja obrigado a pregar uma retidão moral objetiva, freqüentemente sugere que ‘qualquer coisa serve’ na música na igreja. Esta é uma área onde os humanistas naturalistas encontram, talvez com uma boa razão, uma grande rachadura na porta cristã”.

O sábado desafia os crentes a fechar a porta à pressão humanística do relativismo cultural, lembrando-os que a distinção entre o sacro e o profano estende-se a todas as facetas de vida cristã, inclusive à música na igreja e adoração. Usar música secular para o culto da igreja no sábado significa tratar o sábado como um dia secular e a igreja como um lugar secular. Em última instância nenhuma adoração real é oferecida a Deus, porque a verdadeira adoração é vinculada ao reconhecimento dos limites entre o que é sagrado para o uso de Deus e o que é secular para nosso uso pessoal.

Parte II

Música na Igreja no Contexto do Santuário Celestial

Três Dimensões da Adoração Adventista. Para muitas igrejas Cristãs, seus cultos de adoração centralizam-se naquilo que Cristo já realizou no passado por sua vida perfeita, morte expiatória, e ressurreição gloriosa. Porém, a adoração Adventista do Sétimo Dia centraliza-se, não apenas nas realizações redentoras passadas de nosso Salvador, mas também no Seu ministério presente no santuário celestial, e na Sua vinda futura para trazer a consumação de Sua redenção. Assim, toda a três dimensões do ministério de Cristo – passado, presente, e futuro – são envolvidos na adoração adventista.

Reunindo-se com o Senhor. É notável que as três doutrina distintivas da Igreja Adventista – o Sábado, o Santuário, e o Segundo Advento – compartilham de um denominador comum, isto é, a reunião com o Senhor. No Sábado encontramos o Senhor invisível no tempo. No Santuário Celestial encontramos através da fé o Salvador que ministra em um lugar. No Segundo Advento seremos reunidos fisicamente com o Senhor no espaço.

Encontrar-se com o Senhor no tempo em Seu dia de sábado, num lugar em Seu santo santuário, e no espaço no dia glorioso da Sua vinda, deveriam constituir os pontos focais da adoração adventista. Na verdade, este é o verdadeiro sentido da religião – do latim religare – restabelecer a ligação entre o homem e Deus, promovendo um encontro através da fé.Quando adventistas reúnem-se para adoração, o seu desejo deveria ser encontrar-se com o Senhor. Pela fé eles deveriam desejar encontrar o Senhor, não apenas no Calvário na Cruz, onde Ele pagou a pena dos seus pecados, mas também no trono de Deus no próprio céu, onde Ele ministra em seu favor, ansiando pela reunião eterna pessoal com Ele no futuro.

O foco da adoração Adventista deveria estar no santuário celestial onde Jesus continuamente ministra na liturgia celestial em favor do Seu povo. “Temos um sumo sacerdote tal, que se assentou nos céus à direita do trono da Majestade, ministro do santuário, e do verdadeiro tabernáculo, que o Senhor fundou, e não o homem”. (Hebreus 8:1-2). É porque temos tal Sumo Sacerdote ministrando nos céus que Hebreus diz: “Cheguemo-nos, pois, confiadamente ao trono da graça, para que recebamos misericórdia e achemos graça, a fim de sermos socorridos no momento oportuno” (Hebreus 4:16).

A Adoração da Igreja deve Refletir a Adoração Celestial. O convite para “chegarmo-nos ao trono de graça” é obviamente um convite à adoração, oferecendo ao nosso Senhor nossas orações, louvores, e cânticos. A igreja na terra une-se aos seres celestiais no louvor a Cristo: “Por ele, pois, ofereçamos sempre a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13:15).

A música e a adoração da igreja na terra deveriam tirar sua inspiração da música e adoração do santuário celestial, porque os dois estão unidos pela adoração do mesmo Criador e Redentor. Hebreus convida os crentes a vir “ao Monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, a miríades de anjos; à universal assembléia e igreja dos primogênitos inscritos nos céus” (Hebreus 12:22-23).

Que desafio para a igreja dos últimos dias, deixar a glória e majestade da adoração celestial brilhar através de sua música, orações, e pregação. Como Richard Paquier sugere, “algo da majestade real e da glória do Ressuscitado que ascendeu ao céu tem que fazer parte da adoração da igreja”. Quando vislumbres da majestade e glória do Salvador Ressurreto e Sumo Sacerdote celestial passam pela música e adoração da igreja, não haverá nenhuma necessidade de experiências com música popular religiosa, drama, ou danças para revitalizar adoração de igreja. A visão da glória e majestade do Senhor supre todos os ingredientes dramáticos que os crentes jamais poderiam desejar para uma experiência de adoração excitante.

A Adoração do Santuário Celestial – Apocalipse. Para termos um vislumbre da majestosa adoração levada a efeito no santuário celestial, nos voltamos ao Livro do Apocalipse, onde achamos o número maior de conjuntos corais que podemos encontrar em toda a Bíblia.

O texto dos hinos é muito instrutivo. O coro dos 24 anciãos canta primeiro, diante do trono de Deus, um hino sobre o Seu poder criador: “Digno és, Senhor nosso e Deus nosso, de receber a glória e a honra e o poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade existiram e foram criadas”. (Apocalipse 4:11). Então eles cantam diante do Cordeiro um hino acompanhado por harpas, sobre as Seus feitos redentores: “Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo e nação” (Apocalipse 5:8-9).

Finalmente, os 24 anciãos cantam diante de Deus sobre a vindicação dos remidos e a inauguração do reino eterno: “Graças te damos, Senhor Deus Todo-Poderoso, que és, e que eras, porque tens tomado o teu grande poder, e começaste a reinar. Iraram-se, na verdade, as nações; então veio a tua ira, e o tempo de serem julgados os mortos, e o tempo de dares recompensa aos teus servos, os profetas, e aos santos, e aos que temem o teu nome, a pequenos e a grandes, e o tempo de destruíres os que destroem a terra” (Apocalipse 11:17-18; cf. 19:4). Pode-se notar uma progressão temática nos hinos dos 24 anciãos, do louvar da criação de Deus, para o louvor da redenção de Cristo e a vindicação final de Seu povo.

Atribuições semelhantes de louvores são encontradas nos hinos cantados pela multidão inumerável de anjos (Apocalipse 5:11-12) e pelos remidos (Apocalipse 7:9-12; 14:2-3; 19:1-3; 19:6-8). “Depois destas coisas olhei, e eis uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, que estavam em pé diante do trono e em presença do Cordeiro, trajando compridas vestes brancas, e com palmas nas mãos; e clamavam com grande voz: ‘Salvação ao nosso Deus, que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro'” (Apocalipse 7:9-10).

A dinâmica das respostas antifônicas e responsoriais dos vários grupos, revela uma unidade surpreendente. “Eles respondem de uma forma ordenada e equilibrada, a qual testemunha a unidade totalmente completa, inflexível, de toda a criação da Divindade. A adoração no Apocalipse é ‘genuinamente congregacional’ e une de forma inclusiva níveis variados da criação em um mar de louvores doxológicos à Divindade”.

A música triunfante de Apocalipse é inspirada, não pela pulsação hipnótica de instrumentos de percussão, mas pela revelação maravilhosa dos feitos redentores de Deus por Seu povo. Conforme os adoradores do santuário celestial são privilegiados em revisar a forma providencial pela qual Cristo, o Cordeiro que foi morto, resgatou pessoas de todas as nações, eles cantam com uma excitação dramática no seu louvor doxológico à Divindade.

Música Sagrada para um Lugar Sagrado. Aqueles que acreditam que a Bíblia lhes dá licença para tocar na igreja qualquer instrumento e música que eles queiram, ignoram que a música no Templo não estava baseada em gosto pessoal ou preferências culturais. Isto é indicado pelo fato que outros instrumentos como os tamboris, as flautas, as cornetas, e as cítaras, não puderam ser usados no Templo, por causa de sua associação com diversões seculares.

A música era rigidamente controlada na adoração do Templo para assegurar que estaria em harmonia com a santidade do lugar. Assim como o sábado é um Dia Santo, da mesma forma o Templo era um Lugar Santo onde Deus manifestava a Sua presença “entre o povo de Israel” (Êxodo 25:8; cf. 29:45). O respeito para com o Dia Santo de Deus e o Lugar Santo de adoração, exigia que nenhuma música ou instrumentos associados com a vida secular fossem usados no Templo.

A conexão entre o sábado e o santuário é claramente afirmada em Levítico 19:30: “Guardareis os meus sábados, e o meu santuário reverenciareis. Eu sou o Senhor”. Guardar o sábado é comparado com a reverência no santuário de Deus, porque ambos são instituições sagradas estabelecidas para a adoração de Deus. Isto significa que a música secular que é imprópria para o sábado também é imprópria para a igreja, e vice-versa. Por que? Simplesmente porque Deus separou a ambos para a manifestação da Sua Santa presença.

Quatro Lições da Música do Templo. Quatro lições principais podem ser aprendidas a partir da música executada no Templo de Jerusalém, assim como no santuário celestial.

Primeiro, a música na igreja deveria respeitar e refletir a santidade do lugar de adoração. Isto significa que instrumentos de percussão e música de entretenimento, que estimulam as pessoas fisicamente, estão fora de seu lugar no culto da igreja. Por respeito à presença de Deus, tal música não foi permitida nos serviços de Templo, nem é usada na liturgia do santuário celestial. O mesmo respeito deveria ser encontrado nos cultos da igreja hoje. No próximo capítulo veremos que o mesmo era verdade no serviço de adoração da sinagoga e da igreja primitiva. Este testemunho consistente das Escrituras e da história deveria servir como advertência para a igreja hoje, quando a adoção de música popular para a adoração está se tornando a coisa “bacana” a fazer.

Segundo, tanto a música do Templo terrestre quanto a do Templo celestial nos ensinam que os acompanhamentos instrumentais devem ser usados para ajudar a resposta vocal para Deus e não para sufocar o cântico. Em Apocalipse, é o conjunto instrumental das harpas que acompanha o cântico dos coros, porque o som da harpa combina-se bem com o a voz humana, sem suplantá-la. Isto significa que música popular alta, rítmica, que encobre o som da letra, é imprópria para adoração na igreja.

Terceiro, a música na igreja deveria expressar a delícia e a alegria de estar na presença do Senhor. O cantar dos vários coros no Apocalipse é sincero e expressivo. Eles cantam com “alta voz” (Apocalipse 5:12; 7:10) e expressam suas emoções dizendo “Amém, Aleluia” (Apocalipse 19:4).

Deve haver um equilíbrio entre os aspectos emocional e intelectual da vida de religião e adoração. “A expressão musical na adoração deve ter um aspecto emocional e intelectual porque esta é a natureza de homem, a natureza da música, e a natureza da religião. Em sua melhor expressão, a música deveria demonstrar esta unidade vida-religião-música na adoração, através de uma abordagem à composição bem proporcionada, racional e sentimental”.

Reverência no Santuário de Deus. Por fim, a música na igreja deveria ser reverente, afinada com a natureza sagrada da adoração. É significativo que, das oito palavras usadas no Testamento Novo para expressar uma resposta de adoração a Deus, apenas um deles é usado no Apocalipse. É a palavra grega prokuneo que é comumente traduzido por “adorar” ou “prostrar-se”. O termo aparece 58 vezes no Novo Testamento, sendo que 23 destas acontecem no Apocalipse.

O termo prokuneo é combinação de dois radicais: pros que significa “em relação a” e kuneo que significa “beijar”. Quando combinados, eles referem-se à honra e ao respeito demonstrados em relação a um superior. Vez após vez nos é dito no Apocalipse que os seres celestiais “prostraram-se e O adoraram” (Apocalipse 4:10; 5:14; 7:11; 11:17; 15:4; 19:4).

É significativo que João, o Revelador use apenas prokuneo para descrever a adoração reverente do final dos tempos. A razão poderia ser a necessidade de advertir a geração dos últimos dias a não ser enganada pela falsa adoração de Babilônia, caracterizada por uma excitação febril. Deus é santo e nós O adoramos com profundo respeito, temor, e afeição. Tanto no Templo de Jerusalém quanto no santuário celestial Deus é adorado com grande reverência e respeito. A mesma atitude deveria ser manifestada em nossa adoração hoje, porque Deus não muda.

Hoje vivemos em um mundo de atividade febril, entretenimento constante, e familiaridade íntima. Isto também é refletido em algumas das músicas cristãs contemporâneas que tratam a Deus com frivolidade e irreverência. A adoração, tanto no Templo terrestre quanto no celestial, nos ensina que precisamos nos curvar em humildade ante o nosso grande Deus. Música sacra pode ajudar a acalmar nossos corações e almas de forma que possamos reconhecer mais claramente quem nosso Deus realmente é e a responder a Ele em reverência.

Parte III

Música na Igreja no Contexto do Segundo Advento

Adoração em Antecipação. A crença na certeza e na iminência do retorno de Cristo é a força impulsionadora da adoração e do estilo de vida da igreja adventista. Ser um cristão adventista significa primeiramente e antes de tudo viver ansiando pelo dia glorioso da vinda de Cristo. Pedro insiste nesta visão voltada para o futuro dizendo: “esperai inteiramente na graça que se vos oferece na revelação de Jesus Cristo”. (I Pedro 1:13). Paulo expressa eloqüentemente esta visão voltada para o futuro dizendo: “esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3:13-14).

A expectativa da breve volta de Cristo dá uma textura especial à adoração e música adventistas. Através da adoração penetramos as barreiras do tempo e do espaço e experimentamos um antegozo da bem-aventurança da futura adoração celestial que nos espera quando da vinda gloriosa do Senhor. O escritor aos Hebreus fala desta função vital da adoração dizendo: “Mas tendes chegado ao Monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, a miríades de anjos; à universal assembléia e igreja dos primogênitos inscritos nos céus” (Hebreus 12:22-23a).

A adoração comunitária dos crentes nos permite esquecer e transcender as realidades desagradáveis desta vida presente e ter um vislumbre da bem-aventurança do mundo porvir. A música, as orações, a proclamação da palavra, o testemunho e o companheirismo com outros membros da comunidade podem nos dar um antegozo da Jerusalém celestial futura e do encontro festivo dos filhos de Deus. Tal experiência nutre e fortalece a Esperança do Advento em nossos corações, dando-nos uma visão e um antegozo das glórias do Segundo Advento.

A expectativa da vinda de Cristo dá um senso de urgência à adoração da igreja adventista. Hebreus adverte aos crentes “retenhamos inabalável a confissão da nossa esperança, porque fiel é aquele que fez a promessa; e consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras, não abandonando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia“. (Hebreus 10:23-25).

A necessidade de nos reunirmos para a adoração e encorajamento mútuo é apresentada nesta passagem como ainda mais imperativa, conforme o Dia da Vinda de Cristo vai se aproximando. A razão é que quanto mais nos aproximamos do retorno de Cristo, tanto mais intensos serão os esforços de Satanás para minar o trabalho de Deus em nossas vidas e neste mundo. “Ai da terra e do mar! Porque o Diabo desceu a vós com grande ira, sabendo que pouco tempo lhe resta”. (Apocalipse 12:12). A inspiração e encorajamento que recebemos da adoração conjunta com outros crentes podem nos ajudar a manter firme a nossa fé e esperar na breve vinda do Salvador.

Música do advento. A música na igreja representa um papel vital no fortalecimento da fé e nutrição da esperança da volta de Cristo. Através do cântico de hinos, os crentes ensaiam para o dia quando verão a Jesus e falarão face a face com Ele. “Face a face eu hei de vê-Lo, Quando vier em Glória e luz; Face a face lá na glória Hei de ver meu bom Jesus!”.

Não é de surpreender que no novo Hinário Adventista do Sétimo Dia, haja 47 hinos, nos temas “Segunda Vinda” e “Vitória e Recompensa”). Estes sobrepujam muito em numero os hinos sobre qualquer outro assunto, inclusive os 6 hinos sobre o sábado A música e o texto dos hinos sobre o Advento expressam uma variedade de estados de espírito. Por exemplo, “A manhã já está raiando, Logo o Rei virá! E Seu povo então, para o lar eterno Ele levará” (nr. 138), pressente a excitação ao aparecer do Senhor no céu resplandecente. “Oh, Jesus Salvador, Senhor! Quando vamos cantar: Cristo volta, aleluia, aleluia, amém!” (nr. 143), expressa o desejo e impaciência para ver o Senhor. “Vigiai, cristãos sinceros!” (nr. 126), dá a certeza de que os sinais do fim dos tempos estão se cumprindo rapidamente. “Servos de Deus, a trombeta tocai:” (nr. 134), desafia os crentes a proclamar corajosamente que “Breve Jesus voltará!”. “Oh, que esperança, vibra em nosso ser” (nr. 469) captura de um modo maravilhoso a convicção de que o “tempo logo vem, e as nações daqui e além Bem alertas vão cantar: Aleluia! Cristo é Rei!”. “Quando for então chamado, aprovado hei de estar perante o Rei” (nr. 434), entusiasticamente reafirma o compromisso de estar pronto para o dia “Quando Cristo Sua trombeta lá do céu mandar tocar”.

Inspiração do advento. A visão gloriosa do retorno de Cristo inspirou a composição de muitos hinos de fé, que enriqueceram a vida da igreja e a adoração através dos séculos. Hoje, enquanto estamos no limiar do retorno do Senhor e “vemos que o Dia se aproxima” (Hebreus 10:23-25), a Santa Esperança deveria inspirar a composição de novos cânticos que possam reacender a chama e encorajar os crentes a viver “no presente mundo sóbria, e justa, e piamente, aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tito 2:13).

Novos cânticos triunfantes sobre o Advento são necessários hoje especialmente para atrair a geração mais jovem que foi cativada pelos movimentos rápidos, os sons rítmicos, altos, eletronicamente amplificados, e letras desinibidas da música popular. Alcançar a geração mais jovem é uma tarefa formidável, porque em muitos casos os seus sentidos se tornaram tão entorpecidos pela superexposição aos sons altos, rítmicos da música popular, que eles já não podem ouvir a “voz calma e suave”. Nosso desafio hoje é ajudar nossa geração rock and roll a captar a visão daquele dia glorioso por vir quando serão capazes de experimentar o espetáculo audiovisual mais excitante que jamais poderiam imaginar – a vinda gloriosa do Rei Eterno. A orquestra de anjos que O acompanhará produzirá os sons mais trovejantes que este planeta jamais ouviu. O esplendor da Sua presença e as vibrações do som da Sua voz serão tão poderosas que aniquilarão os incrédulos e trarão vida nova para os crentes.

Um evento tão glorioso pode incendiar a imaginação dos músicos de hoje para compor novas canções que terão um apelo a muitos que estão procurando significando e esperança em suas vidas. O cântico destas novas música deverá ajudar a captar a delícia e a excitação emocional do dia glorioso que se aproxima. Novos hinos do Advento, que sejam corretos teologicamente e musicalmente inspiradores, podem enriquecer a experiência de adoração dos crentes, e atrair a aqueles que são receptivos à obra do Espírito Santo em suas vidas.

Conclusão

Notamos ao início que música é como um prisma de vidro através do qual brilham as verdades eternas de Deus. Através da música na igreja pode ser proclamado todo um espectro de verdades Bíblicas. Por toda a história da igreja as pessoas aprenderam através da música as grandes verdades da fé cristã e os reclamos de Deus sobre suas vidas.

Em sua tentativa de trazer uma renovação espiritual, muitas igrejas evangélicas hoje estão adotando canções populares religiosas com base no gosto pessoal e nas tendências culturais, em vez de claras convicções teológicas. O resultado é que algumas canções populares cantadas durante o culto na igreja têm uma teologia inadequada ou mesmo herética, orientada para a satisfação própria.

A escolha de música apropriada para a igreja é crucial, especialmente para a Igreja Adventista do Sétimo Dia, porque através de sua música ela ensina e proclama as verdades finais a ela confiadas. Infelizmente o estilo de música e de adoração da maior parte das igrejas Adventistas é baseado grandemente na aceitação sem críticas do estilo de adoração de outras igrejas.

Para promover uma base teológica para a escolha e execução da música durante o culto de adoração nas igrejas Adventistas, temos considerado neste capítulo as implicações do sábado, do ministério de Cristo no santuário celestial e a Segunda Vinda. Temos visto que cada uma destas três crenças Adventistas distintivas contribui de maneira própria e ímpar para definir como deveria ser a boa música na igreja.

O sábado nos ensina a respeitar a distinção entre o sagrado e o secular, não apenas no tempo, mas também em áreas como a música na igreja e a adoração. Em uma época em que o relativismo cultural obscurece a distinção entre a música sacra e a secular, o sábado nos ensina a respeitar esta distinção em todas as facetas da vida cristã, incluindo a música na igreja e a adoração. Usar música secular para o culto na igreja no sábado significa tratar o sábado como um dia secular e a igreja como um local secular.

No estudo da música e da liturgia do Templo de Jerusalém, bem como do santuário celestial, vimos que, por respeito pela presença de Deus, instrumentos de percussão e música de entretenimento, os quais estimulam as pessoas fisicamente, não eram permitidos nos serviços do Templo, nem são usados na liturgia do santuário celestial. Pela mesma razão, instrumentos rítmicos e música que estimula as pessoas fisicamente em vez de eleva-las espiritualmente, estão fora de lugar na igreja hoje. A adoração nos dois Templos, terrestre e celestial, também nos ensina que Deus deve ser adorado com grande reverência e respeito. A música na igreja não pode tratar a Deus com frivolidade e irreverência. Ela deveria ajudar a aquietar nossas almas e a responder a Ele em reverência.

A convicção da certeza e iminência da vinda de Cristo deveria ser a força motriz do estilo adventista de vida e da música na igreja. O breve aparecimento da Rocha Eterna, com a maior orquestra de anjos que este mundo jamais viu, pode incendiar a imaginação dos músicos atuais para comporem novas canções que apelem a aqueles que estejam procurando significando e esperança para suas vidas.

No limiar de um milênio novo, a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem diante de si um desafio e uma oportunidade sem precedentes para reexaminar a base teológica para a escolha e execução de sua música. Esperamos e oramos para que a igreja responda a este desafio, não pela aceitação sem questionamentos da música popular contemporânea, que é estranha à missão e mensagem da igreja, mas pela promoção da composição e cântico de músicas que expressem adequadamente a esperança que arde em nossos corações (I Pedro 3:15).