Rock, Revolução e Satanismo – Parte IV

por: Orlando Fedeli

Rock e Religião

Os adeptos do Rock consideram a canção “Stairway to Heaven“, do conjunto Led Zeppelein, como o hino do Rock. Curiosamente ela é uma canção que principia muito lânguida, parecendo uma “complainte” medieval, com sons de queixume, um tanto melancólica. À medida que vai prosseguindo, ela vai tendo seu ritmo cada vez mais acentuado até atingir, no final, o ritmo frenético típico das canções de Rock. Desse modo ela resume, em sua execução, todo o caminho da história do Rock: do início sentimental até o ritmo alucinante e frenético.

Entretanto, não é só por ser uma síntese dos ritmos do Rock que essa canção é importante. Ela tem, de fato, um fascínio particular, que se diria mágico. Ela como que gruda na memória de quem a ouve, com um poder estranho.

Já as gravuras do álbum de apresentação são curiosas. Num quadro dependurado numa velha parede de reboco deteriorado, aparece um velho curvado sob o peso de um grande feixe de lenha amarrado às suas costas. Uma segunda gravura mostra uma aldeia ao longe e uma montanha pela qual sobe, rastejando, um homem em direção ao pico, onde se levanta uma figura fantasmagórica: uma espécie de monge de túnica e capuz, tendo numa das mãos um bordão, e na outra uma lanterna onde, em lugar da chama, brilha uma estrela hexagonal. Ele olha para baixo, em direção ao homem que sobe a vertente pedregosa, fascinado pelo brilho da estrela.

Ora, essa estrela hexagonal é a estrela alquímica, o hexagrama cósmico, o selo de Salomão, a estrela dos magos. Ela é formada por dois triângulos superpostos, indicando a união do divino e do humano, o abismo superior e o abismo inferior. O triângulo com vértice para baixo representa nos três ângulos os minerais, vegetais e animais; o triângulo de vértice para o alto, em seus ângulos, simboliza o rocio ou a chuva, o mar e a terra. Este hexagrama cósmico é cercado normalmente pelos símbolos dos metais e planetas e pela serpente ourobouros que come a própria cauda. Esse hexagrama cósmico aparece na Aurea Catena Homeri, famosa obra alquímica. (Cfe. Ronald B Gray, Goethe, The Alchimimist – Cambridge – University Press, Prancha I e Fulcanelli, Le Mystère des Cathédrales, Jean Jaques Pauvert, Paris, 1964, pág. 66)

A letra da canção vem estampada em caracteres góticos, e uma pequena gravura mostra um homem lendo, atento, um velho livro com fechos de metal. Conforme conta Luc Adrian no Artigo Hard-Rock, La Danza del Diablo (Jesus Cristus No. 26 – março/abril 1993 – pág. 8) num estojo do disco Stairway to Heaven havia a seguinte frase: “Pela audição do disco, os jovens estão sob um encantamento, são dominados, dirigidos por forças ocultas, demônios. Isto pode levar à possessão demoníaca”.

“Há uma Dama que tem certeza de que tudo o que brilha é ouro.
E ela está comprando uma escada para o céu.
E quando ela chegar lá, ela sabe
que se as esferas (compartimentos) estiverem fechadas,
Com uma palavra ela pode obter aquilo que veio procurar.
Há um sinal na parede,
Mas ela quer estar certa,
porque, você sabe, muitas vezes as palavras têm dois sentidos.
Numa árvore à beira do riacho há um pássaro cantor que, por vezes, canta
Todos os nossos pensamentos estão enganados.
Há um sentimento que me domina quando eu olho para o oeste,
E meu espírito está gritando para partir.
Em meus pensamentos eu tenho visto anéis de fumaça através das árvores.
E as vozes daqueles que estão de pé, olhando
E é sussurrado que logo, se todo nós evocarmos a canção
então, o tocador de flauta nos conduzirá à razão
E um novo dia cairá para aqueles que há tempos esperam
E as florestas ecoaram com risos
E isto me faz desejoso…
Se algo se mexer em seu canteiro não se assuste
É apenas uma nascente límpida para a Rainha de Maio.
Sim, há dois caminhos que você pode seguir mas na longa caminhada
há sempre tempo para deixar a estrada que você está percorrendo
Sua cabeça está zumbindo e o zumbido não quer passar – caso você não saiba –
é o apelo do flautista que está chamando para ir juntar-se a ele.
Cara dama, pode você ouvir o vento soprar e você sabe
que sua escada se apóia no murmurante vento
E como o vento ao longo da estrada,
Nossas sombras vão ficando menores que nossa alma
Aí caminha a dama que todos conhecemos
que brilha com luz branca e quer mostrar
como todas as coisas ainda se transformam em ouro
E se você ouvir muito atentamente o canto finalmente chegará até você
Quando todos são um e um é o tudo para ser uma rocha e não rolar”.

Estranha canção! Que significa essa letra misteriosa? É claro que poucos a entendem. Aqui e ali um verso deixa entrever algo. Apenas o suficiente para despertar curiosidade. Apenas o suficiente para perceber que nela há algo oculto. Algo que imediatamente se esconde nas brumas mais espessas do verso seguinte, ainda mais misterioso. Essa canção é como um véu que vela e revela. Ela clama por ser decifrada. Evidentemente, os que percebem que nela há algo misteriosamente oculto procurarão escalar sua montanha de mistério, onde no alto, alguém, ainda mais misterioso, faz brilhar um lanterna na noite…

Quem é essa dama de que fala a canção?

Dela se diz que quer comprar uma escada para o céu. Ela julga que tudo que reluz é ouro. Sua escada se apóia no vento. Diz-se ainda que todos a conhecemos e que ela quer demonstrar que é possível ainda mudar tudo em ouro.

Ora, a pretensão de transformar tudo em ouro é o sonho da Alquimia, ciência esotérica, fundada numa concepção gnóstica do mundo. Para a alquimia, todas as coisas teriam como substância fundamental e primeira o ouro. Por isso, tudo que existe tem um certo brilho. Até o carvão pode se transformar em luz ou em diamante brilhante. As matérias mais opacas podem, por atrito, começar a brilhar.

Para a Alquimia, contudo, o verdadeiro fruto da arte real não é a de transformar chumbo em ouro, mas sim de transforma o alquimista em Deus. O ouro que se supunha existir, como elemento fundamental de todas as coisas, era apenas símbolo do pneuma divino – de centelha divina – que jazia aprisionado no âmago de todo o ser. Mais que transformar tudo em ouro, seria preciso transformar tudo em Deus, libertando as centelhas divinas do cárcere da matéria, da razão e da moral.

Ora, a Alquimia era representada na Idade Média, por uma mulher segurando uma escada de nove degraus, que repousava sobre o solo, e no alto se apoiava em nada, isto é, atingia as nuvens tocadas pelo vento.

Essa representação da Alquimia pode ser vista esculpida no portal da catedral de Notre Dame, em Paris. A mais importante obra alquímica de nosso tempo – Le Mystère des Cathédrales -, de Fulcanelli, apresenta uma reprodução desse relevo. (Fulcanelli, Le Mystère des Cathedrales, ed. J. P. Pouvert, Paris, 1964 pág. 32-33 Pranche II)

Logo após a apresentação da dama alquímica, se diz que ela está comprando uma escada para o céu, isto é, um meio para atingir a felicidade absoluta. Ela a adquire com suas forças, e a escada é um meio natural para alcançar a divindade. Está é a scala philosophorum, símbolo da paciência que devem ter os alquimistas ao longo das operações do trabalho hermético (cfe. Fulcanelli, op. cit., pág. 90). Explica-se a seguir que se os “stores” – os compartimentos, as esferas celestes, os ayon na linguagem gnóstica – estiverem fechados, ela, com uma palavra, poderia abri-los.

Ora, segundo vários mitos gnósticos, o deus criador – o deus do mal – teria prendido as partículas divinas no universo material, que seria guardado por um arconte, ou espírito diabólico. Quando o homem morre, seu espírito procura atravessar as esferas que circundam a terra, mas só conseguirá passar por elas, se conhecer a palavra mágica que as abre ou se souber usar o sinal que as marca. (Cfe. Hans Jonas, La Religion Gnostique, Flammarion – Paris, pag 63-64)

Entretanto, se o espírito se equivocar na palavra de passe ou na fórmula a usar, ele recairá na matéria, não atingindo o “céu”, isto é, sua libertação e divinização, ele se reencarnará.

A canção alude, a seguir, a um pássaro numa árvore, o qual, por vezes, canta. Ora, no mesmo livro de Fulcanelli, se reproduz outro relevo dos portais de Notre Dame, de Paris, e que representa o alquimista junto a seu “laboratório”. Aí se vê o alquimista sob a aparência de um velho apoiado num bordão, junto à caverna que representa o laboratório alquímico. A seus pés jorra a fonte “magnésia”, de onde escorre o mercúrio necessário à obra alquímica. A essa fonte límpida que corre para a Rainha de Maio, é que faz menção um dos versos da canção. Numa árvore próxima, há um pássaro cantando, que, segundo alguns, representa a ave fênix, símbolo do espírito divino existente no fundo da alma humana.

Adverte ainda a canção que “todos os nossos pensamentos estão equivocados”. De fato, para a gnose, a inteligência nos teria sido dada pelo deus do mal ao nos criar, para nos enganar. O demiurgo mau teria construído um mundo inteligível e nos teria feito inteligentes para que, compreendendo o mundo, o julgássemos bom, e já não quiséssemos sair dele. Por isso a inteligência sempre nos levaria ao erro.

Depois, a canção afirma que, ao olhar para o oeste, isto é, para a direção em que morre o sol, a pessoa que canta fica dominada por um sentimento e seu espírito clama por deixar o corpo, isto é, para morrer. Porque, para a gnose e para a Alquimia a morte seria o único meio de o homem se libertar de seu corpo-cárcere.

E é preciso não esquecer que Oriente é um dos nomes que a Escritura dá a Cristo, e que, portanto, o Oeste é oposto a Cristo, isto é, o demônio e a morte.

E tudo isto deixa o cantor desejoso, maravilhado…

Fugiria do escopo deste trabalho fazer uma análise mais exaustiva dessa canção. Queremos apenas mostrar que ela, veladamente, propõe uma visão gnóstica do mundo. Por isto ela conclui dizendo que, ao final, nós todos seremos uma só coisa e que o “um” é o tudo. Quando então nos tornarmos o Um – o tudo – isto é, deus, então seremos “Rock” – fixos – e já não mais estaremos sujeitos à evolução. “To Be a Rock and not to roll …”

O autor da letra da canção “Stairway to Heaven“, Robert Plant, declarou: “as palavras (da canção) foram recebidas por mim instantaneamente, não mudei nenhuma. Estou orgulhoso delas. Penso que alguém me soprou essas palavras”. (Cfe. Luc Adrian – art. cit. in Jesus Cristus No. 26 pág. 8)

Há pois, no Rock and Roll, uma religião oculta, a gnose, que no fundo adora Satã.

Segundo alguns, essa mesma canção tocada em sentido inverso, permitiria ouvir frases satânicas, exatamente no trecho em que se diz que o espírito humano clama por partir, quando olha para o oeste, símbolo da morte. Nesse ponto, se ouvem as seguintes palavras: “I’ve got live for Satan”. (Eu decidi viver para Satã)

Isto coloca o problema das mensagens subliminares ou secretas no Rock.


Fonte: http://www.montfort.org.br


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