Missa Brevis em Sol M KV. 49 – Wolfgang Amadeus Mozart

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Embora pouco se saiba sobre as circunstâncias em que a Missa em Sol M KV.49 terá sido escrita, pensa-se que terá sido por indicação do padre jesuíta Ignaz Parzhammer que Mozart recebeu a encomenda da sua segunda missa – depois da Missa em dó m Waisenhausmesse -, uma missa breve destinada ao Convento das Ursulinas. Executada pela primeira vez no dia 3 de Dezembro de 1768, ela marca a estréia do compositor no gênero Missa brevis.

Destinada a um elenco de quarteto solista, coro, cordas e órgão, as proporções são bem características de uma missa breve quer no plano orquestral (cordas e órgão) quer no plano formal (andamentos tratados como um todo, sem números separados).

O Kyrie, de pequenas dimensões, começa com uma breve introdução adagio de caráter semi-contrapontístico que se encadeia com um andante onde o coro, pela construção celular e permanência de um ritmo pontuado com que se iniciam todas as frases, se apresenta num estilo quase encantatório. Não intervêm as vozes solistas e o próprio estilo em grande tríptico (KyrieChristeKyrie) desaparece, não sendo tratado na habitual dialética coro-solistas-coro, dando lugar a uma grande sobriedade de expressão.

Mozart trata a primeira parte do Gloria (até ao Qui tollis) como um todo, unificado através do recurso a frases que parecem sair de dentro umas das outras. A alternância coro-solistas regula esta parte inicial: coro para o Gloria, solo de soprano para o Laudamus Te, coro de novo (Gratias agimus), solo alto-tenor e depois baixo para o Domine Deus.

A partir de Qui tollis, a escrita torna-se mais dramática com o recurso a um efeito melódico-rítmico de arpejos descendentes e pela ascensão terrível, a cargo do tutti homófono, das palavras sacrificiais. O Miserere renova o contraste: ré menor, notas sustentadas nas vozes, legato expressivo das cordas, as solistas, depois os solistas, juntam-se à massa coral para uma modulação a lá menor.

Retomado uma segunda vez, o Qui tollis é amplificado dramaticamente conduzindo o discurso musical de forma veemente até ao Miserere final: a súplica torna-se exortação. O soprano solista tem a cargo o Quoniam – com uma lógica semelhante ao do Laudamus Te – para conduzir ao mini-fugato Cum Sancto Spiritu – cujo tema parece provir do mesmo material temático – e daí ao Amen final em Sol M.

Esta palavra final põe em evidência uma das características mais marcantes do período clássico – o durchkomponiert, um mesmo material melódico alimenta sob formas diferentes o Gloria, a parte central do Qui tollis/Miserere.

O Sanctus parece deixar soar, após um diálogo entre os violinos, o canto da celebração do Senhor dos Exércitos em toda a sua glória. O allegro, comandado pelos sopranos do coro, exalta o canto desta glória que brilha sobre o céu e a terra. Finalmente o Hosanna, com o seu sistema contrapontístico sujeito/contra-sujeito, restabelece um clima mais recolhido sobre um motivo explorado no final do Credo.

A benção daquele “que vem em nome do Senhor” é aqui entregue ao quarteto solista: soprano, depois alto, e por fim tenor em contraponto com o baixo, dobrados pelos segundos violinos e o órgão solo, uma sexta abaixo dos primeiros violinos. Os quatro juntam-se para retomar a mesma frase num quarteto homófono, antes do regresso do tutti da capo ao Hosanna.

Após o Hosanna, glorificante, abre-se uma bela página no Agnus Dei. Um adagio em mi menor, sombrio, com um forte em colcheias regulares nas cordas, é a base sobre a qual se eleva a súplica homófona do coro. De seguida, o Miserere nobis, a capella e em piano, quase sussurrado, termina com uma cadência perfeita a lá menor.

Por três vezes, se repete este esquema, este grito de dor e angústia que intensificam a sucessão de modulações. Os grandes saltos, sincopados, dos violinos atenuam esta sensação dolorosa preparado a passagem ao dona nobis pacem. Num estilo dançante em 3/8, o coro parece cantar uma ária de alegria popular, de caráter livre, com contra-temas alegres nos violinos.

Pelas suas dimensões e beleza, esta Missa é bastante apropriada ao uso litúrgico a par da execução em concerto.


Fonte: http://www.csmbelem.org/