O Músico na Igreja Adventista

Entrevista com Williams Costa Junior [*]


Diretor do Conservatório Musical do Instituto Adventista de Ensino, o Prof. WilIiams Costa Júnior é natural de Recife, Pernambuco, onde nasceu no dia 19 de outubro de 1951. Desde pequeno, suas atividades estiveram voltadas para a música. Fez os seguintes cursos: Técnico em Contabilidade (ENA); graduação em Piano (1972) na Faculdade de Música “Instituto Musical de São Paulo”; dois anos depois, bacharelou-se em Composição e Regência; é Mestre em Artes, pela Universidade Andrews (1976). Tem 42 participações no hinário “Vamos Cantar”: 27 como compositor de letra e música e 15 como autor e/ou arranjador. Compôs também vários hinos oficiais para congressos adventistas. Casado com Sonete Magalhães Costa, tem uma filha de nome Carolina.


A música sempre foi elemento importante no panorama da Igreja. Está identificada com todas as situações por que tem passado o povo de Deus, refletindo-lhe as alegrias e mesmo as derrotas. Dependendo, porém, de seu uso, pode ser uma espada de dois gumes. Além disto, fazer música na Igreja nem sempre foi uma tarefa fácil, como também não é fácil definir, com precisão, todas as subtilezas que caracterizam o terreno da música. Nesta entrevista, Costa Júnior abre um diálogo franco com o leitor, analisando, acima de tudo, o papel e a situação daqueles que vivem para a música, no âmbito da Igreja, no Brasil.

RA: Como é vista a música na Igreja Adventista do Sétimo Dia?

Costa Júnior: Quando a nossa Igreja surgiu, a música foi um importante elemento integrador e sedimentador do movimento. Nossos pioneiros gostavam muito de música e usavam-na com freqüência nas reuniões, cultos, campais, viagens, etc. Somos uma Igreja estruturada em música, como foram os reformadores luteranos e huguenotes, os valdenses, os primeiros cristãos e o povo de Israel, no passado. A Sra. White diz no livro Educação, p. 161, que “a atmosfera do Céu é música”. Não tenho dúvida de que foi plano divino que a música estivesse onde estava o povo escolhido, ao longo dos séculos de peregrinação na Terra. Por esta razão, a atividade musical é uma das principais da nossa denominação. Sempre precisamos de música para tudo o que fazemos na Igreja. Estranhamos quando ela não se faz presente. Consciente ou inconscientemente, não temos dúvida de sua importância e necessidade.

RA: Você acha que o músico adventista brasileiro é devidamente valorizado pela Igreja?

Costa Júnior: De modo geral, não. Infelizmente parece que a Igreja (e aqui me refiro a ela como um todo) confunde valorização com bajulação. Ela tem medo de “estragar” o músico, bajulando-o, então deixa de valorizá-lo. Acho que os músicos da Igreja não devem, nem precisam ser adulados, mas necessitam sempre de apoio, e reconhecimento. Dar incentivo sincero, reconhecendo realizações de valor e utilidade para a Causa os de Deus, é algo bem diferente de borbulhantes e caudalosos elogios feitos com o objetivo de glorificar as realizações humanas.

RA: O que você quer dizer por “apoiar e reconhecer”?

Costa Júnior: Além de tudo aquilo que compreendemos, acho que apoiar e reconhecer tem que ver um pouco com o chamado “apoio financeiro”. Não me refiro ao simples fato de ter dinheiro; mas em dispor financeiramente para ampliar o profissionalismo musical da Igreja. Carecemos disto com urgência, no Brasil.

RA: Como você vê a situação profissional do músico adventista brasileiro?

Costa Júnior: Honestamente, não é das melhores. Pense o seguinte: o pastor e os outros profissionais que trabalham para a Organização Adventista investem um “dinheirão” no seu estudo e formação intelectual. Depois, são empregados e recebem um salário para cumprir suas responsabilidades nos escritórios das Associações e Uniões, nas escolas, colégios, igrejas, orfanatos, clínicas rodantes, lanchas, hospitais, editoras, indústrias, etc. O músico gasta rios de dinheiro na sua formação (que é caríssima), e não vejo, falando generalizadamente, para o músico adventista aquilo que chamaria de estabilidade profissional. Não é muito comum, entre nós hoje, nossos jovens pensarem em fazer carreira na “Obra” como músicos, como pensam em fazer como pastores, médicos, professores, etc. Não quero criar uma situação na qual, de hoje em diante, os músicos só façam música para a Igreja mediante recebimento de dinheiro. Não. Mas é bom não esquecermos que a Obra de Deus, no tempo de Davi, mantinha do dízimo, centenas de músicos profissionais. Repito: manter profissionais é uma importante forma de reconhecer e apoiar os músicos e a música da Igreja.

RA: Mas, Costa, há músicos profissionais mantidos pela Igreja.

Costa Júnior: É certo e tenho o alto privilégio de ser um deles. Mas veja: Quantos adventistas existem no Brasil e quantos músicos profissionais a Igreja mantém?! Acho que dá aproximadamente um músico para cada dez mil adventistas. Você não acha isto pouco?

RA: Você teria alguma sugestão para este estado de coisas?

Costa Júnior: Sim, a criação de Ministros da Música. Eles poderiam trabalhar como coordenadores de Departamentos de Música anexos à Divisão, Uniões ou Associações. Nesta função eles visitariam nossas Igrejas e orientariam os músicos amadores, congregação e pastor, quanto aos problemas musicais específicos daquela comunidade religiosa. Fariam sermões, palestra e seminários especializados sobre o assunto. Providenciariam, ainda, material musical para as Igrejas e grupos. Ajudariam na coordenação musical de congressos, seminários e encontros promovidos pelos outros departamentais do campo onde trabalham. Seriam consultores musicais para nossas revistas. Veja só quanto trabalho já existe para os ministros da música. Acho mesmo que algumas de nossas grandes igrejas já têm porte para ter, além do seu pastor, um ministro da música. Temos que investir se queremos ter dividendos, crescimento e organização. Não creio também que a formação de pessoal especializado em música deva ser tarefa só da “Obra”. Os irmãos leigos poderiam unir-se em suas comunidades para ajudar a prover para a Igreja não apenas pessoal, mas material e instrumentos musicais. Se a Igreja como um todo (obreiros e leigos) começar a investir hoje em partituras, material e formação de músicos, não tenho dúvida de que, daqui a alguns anos, teremos mais e melhores corais, grupos musicais, regentes, pianistas e organistas.

Acredito que paralelamente surgirão mais compositores e arranjadores, além de orquestras e outros grupos instrumentais. Se a música é importante para a Igreja, vamos trabalhar unidos para que ela seja cada vez mais efetiva em nosso meio.

RA: Mas há muita gente não profissional na Igreja, que faz música. Como você explica isto?

Costa Júnior: Geralmente estes vêm de famílias da classe média e alta. Não me leve a mal, mas até quando, servir musicalmente a Igreja será privilégio da elite rica? Quando penso que a maioria dos meus irmãos e irmãs em Cristo são pobres! (…) Sei de muita gente que não tem possibilidade financeira de estudar música, mas que possui talento. Se eles tivessem recebido ajuda para desenvolver seus talentos artísticos, hoje seriam de grande utilidade para a expansão da Obra do Senhor no Brasil. Acho que a Igreja (e aqui torno a incluir obreiros e leigos) deveria fazer planos sólidos de prover bolsas para que jovens pobres, consagrados e de talento, em sua comunidade, estudassem música. Sugeriria ainda que este estudo fosse feito em nossos colégios, por causa do ambiente cristão em nossos internatos e também porque em nossos Departamentos de Música é incutida nos estudantes a filosofia adventista de música[1] . Depois, eles viriam servir àquela Igreja que o ajudou. Isto daria maior senso de responsabilidade ao músico, criaria maior laço entre o músico e a Igreja, seria uma motivação e ajudaria o trabalho a caminhar de maneira mais séria e sólida.

RA: Ouve-se dizer que músico é desorganizado e não tem responsabilidade. Como você explica isto? Você não acha que as falhas a compromissos e os atrasos, tão comuns aos músicos, têm alguma coisa relacionada com a falta de estabilidade profissional e apoio ao músico adventista?

Costa Júnior: Desorganização e irresponsabilidade não é um problema musical, mas de personalidade. Acredito, entretanto, que a falta de estabilidade profissional gere a desorganização e sobrecarga de trabalho, principal raiz das falhas e atrasos a compromissos. Tenho alguns colegas adventistas que nunca vi falharem ou chegarem atrasados a compromissos e são bons músicos.

RA: Há pessoas que não são de famílias de classe média e alta e que estudaram música e colaboram intensamente na Igreja!

Costa Júnior: Sei disto e é bom não esquecer que neste mundo há sempre uma classe de gente que são os casos excepcionais, as exceções à regra, os “fora de série”. Far-lhe-ia uma pergunta: por que devem as famílias pobres sacrificar-se para dar formação musical a seus filhos, sendo que a perspectiva profissional deste investimento é praticamente nula? Sei que música é alguma coisa importante para a vida das pessoas. Ela deve estar incluída no processo educacional, é quase indispensável para a formação do ser humano, e isto deve independer de profissionalismo. Mas creio que profissionalmente o horizonte poderia ser um pouco melhor dentro de uma Igreja que precisa tanto de música. Há casos de rapazes pobres que lutaram para aprender música. Quando chegaram à idade adulta, descobriram que “não tinham profissão”. Deveriam aprender ou fazer outra coisa, pois, do contrário, morreriam de fome, ele e a família. Adianto que estes rapazes ficaram frustrados, decepcionados e perdidos no seu ideal, tendo que deixar de fazer o que gostavam para poder sobreviver. Isto não é um problema? Há também o caso de moças sem grandes recursos financeiros que, com dificuldade e grande luta, estudaram música, mas que se casaram com profissionais estabilizados e não precisaram trabalhar para ganhar dinheiro. De qualquer maneira, dou graças a Deus também por estes.

RA: Como você vê o que tem sido feito no campo da música, nas Igrejas Adventistas?

Costa Júnior: Nós como Igreja estamos passando hoje em dia por alguns problemas musicais. Isto parece ser novidade. Parece que a Igreja de Deus no passado nunca passou por isto antes! Tanto quanto a História pode provar, sempre houve problemas musicais na Igreja de Deus, ao longo dos séculos. Como os problemas são variados e alguns deles bem específicos e característicos a certas comunidades, acho que não seria o caso nos demorarmos nos mesmos aqui. Creio, entretanto, que um bom número destes problemas ocorre por falta de músicos treinados e preparados, que saibam transferir com sabedoria para a prática, o verdadeiro espírito da filosofia adventista de música. A Igreja precisa muito, mas muito mesmo, de uma larga quantidade desta espécie de lideres artísticos.

RA: Você não estaria indiretamente dizendo com isto que bom senso é privilégio de quem é culto e bem preparado musicalmente?

Costa Júnior: Não. Bom senso é característica dos sábios e a verdadeira sabedoria vem de Deus. Deus está à disposição de TODOS. Entretanto não deixo de crer que pessoas realmente convertidas, que possuem conhecimento, são uma bênção para seu grupo social, pois têm mais condições de servir melhor. Normalmente crescer é conhecer mais. Viver a vida cristã é crescer em Cristo e isto significa crescer em sabedoria. Com a Igreja melhor educada musicalmente estariam os mais bem servidos, não acha?

RA: O que devem fazer os musicistas sacros da Igreja?

Costa Júnior: Não há desculpa para se ficar parado. Acho que devemos trabalhar com o que temos. Tenho pavor a gente que fica de braços cruzados, exigindo coisas! E, infelizmente, há um bom número de pessoas que acreditam que só poderiam fazer seu trabalho se tivessem certas condições materiais que elas imaginam sejam ideais. Como geralmente estas condições não aparecem, cruzam os braços e ficam sem fazer nada! E o pior é que se realizam por terem achado uma desculpa para sossegarem a consciência! (…) Devemos sempre fazer o nosso melhor com as condições que temos. Se batermos à porta, alguém virá abrir. Se ficarmos de braços cruzados, mesmo que seja junto à porta, será meio difícil para quem está dentro, adivinhar que gostaríamos de ter a porta aberta!

RA: Você não acha que deve haver uma melhoria no equipamento musical de nossas Igrejas e Instituições?

Costa Júnior: Acho, mas não creio que isto seja prioritário. O mais importante agora é o elemento humano. Gente que esteja mais disposta a semear que colher. Gente consciente, competente, séria, responsável, convertida e que deposite uma imensa porção de amor no trabalho que planeja fazer. Devemos sempre oferecer o nosso melhor para Deus. Se houver um pessoal pensante em música, pode crer que surgirão as “coisas” para concretizar as idéias.

RA: Como você acha que deveriam ser os músicos cristãos?

Costa Júnior: Eles nunca deveriam esquecer que seu trabalho deve sempre ser uma oferta de amor para Aquele que não apenas deu a arte, mas deu a vida para nos salvar. O músico cristão deve ser um verdadeiro seguidor de Cristo e um servo fiel do seu Criador. Deve ser colaborador, prestativo e integrado socialmente como Jesus foi. Deve acabar com essa bobagem de querer ser algo à parte! Os músicos devem colaborar para abreviar a vinda de Jesus, e não podem perder de vista este ideal.

RA: O que você diz da música popular?

Costa Júnior: Qual delas? Que estilo?

RA: Essa que anda por ai nas rádios.

Costa Júnior: Bem, nas rádios, televisores e discos há de tudo, mas acho que você está se referindo ao rock.

RA: É certo. Aquele estilo barulhento.

Costa Júnior: Ah! Sim. O “rock da pesada”!

RA: Isto.

Costa Júnior: Bem, aquilo não me interessa. Procuro não me envolver com o que falam acerca do assunto. Tenho outros interesses e preocupações.

RA: Mas…

Costa Júnior – Imagine se, para descobrir como Jesus é bom, eu fosse investigar como Satanás é mau! Não tenho interesse pelo diabo. Minha preocupação é Cristo, Sua bondade, Seu amor, a Sua salvação (a propósito, graças a Deus por ela). Imagine também se, para resolver os problemas de castidade e pureza da Igreja, fosse me preocupar com prostitutas! (…) Como elas trabalham, como agem, como são ímpias, que têm parte com o demônio, etc. Nada disto me interessa. O mesmo se dá com o “rock”. A Igreja Adventista nos Estados Unidos tem gasto muito tempo falando do “rock”. Antigamente era o “jazz”; como o “jazz” caiu de moda, agora é o “rock”. Está virando moda falar mal do “rock”. Acho que isto não resolve muito. Falar mal só diz que alguma coisa não presta. E daí? Onde estão as substituições? Não adianta só dizer que se está no erro. Temos que mostrar caminhos e aí está o meu interesse. Tenho gasto horas pensando no que pode ser feito para solucionar os problemas musicais da Igreja. Convenha comigo, dizer nesta entrevista que o “rock” não presta, pouco adianta, não acha?! Até um surdo deve saber isto! Nós precisamos falar mais é acerca de Jesus. Isto sim. Além disto, precisamos sempre estar tentando descobrir caminhos novos para a Igreja e não nos demorarmos no mundo. O mundo está condenado; a Igreja é que é a representante de Deus na Terra. Entenda que estes caminhos novos não são novas doutrinas. Não é plano de Deus que conheçamos o mal; mesmo, acho eu, que seja para combatê-lo! Deus sempre quer para Seus filhos o bem e nada mais que isto.

RA: E o que você me diz do problema do ritmo?

Costa Júnior: Permita-me dizer outra coisa. Infelizmente há muito adventista que tem verdadeira veneração por sambão! Para resolver este problema, vou eu falar das influências psicológicas do sambão, o que o sambão faz no caráter e etc? Não! Só perguntaria o seguinte: Se Jesus estivesse do seu lado, Ele estaria ouvindo aquele sambão? Até que ponto o sambão interfere no meu relacionamento com Jesus? O sambão me leva à oração, à leitura da Bíblia, à contemplação de Cristo no Calvário? Os membros da Igreja precisam aprender a decidir e ter bom censo. Precisamos acabar com esta história de ficar arrumando leis e regras para O povo. O adventista não pode esquecer a presença divina em todos os momentos de sua vida. Não somos um povo que segue leis promulgadas por seus líderes religiosos e que as cumpre cega e irracionalmente. “Pecado é transgressão da Lei de Deus”. Os Dez Mandamentos são sucintos e claros, a despeito do fato de que seu conteúdo de amor é eterno e infinito! O cumprimento de leis humanas pode até sossegar a consciência de quem as cumpre, mas aniquila a individualidade e o senso de dependência de Jesus. O senso da presença de Jesus em todos os momentos, em todas as decisões, faz a diferença na vida dos cristãos. Evito criar regras e bulas. Quero, tanto quanto puder, levar as pessoas aos pés de Cristo e não a leis e fórmulas musicais que possa inventar.

RA: Você provaria pela Bíblia e pelo Espírito de Profecia que a “música rock” não presta para os cristãos?

Costa Júnior: Você me provaria pela Bíblia e pelo Espírito de Profecia que o cristão não deve usar maconha, heroína e LSD? Volto a repetir, o cristão sempre precisa ter bom senso e Jesus a seu lado para decidir corretamente em todos os momentos de sua vida.

RA: Como você procura conduzir sua vida?

Costa Júnior: A Bíblia diz: “Quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus”. Profissionalmente sou músico, mas procuro fazer tudo para a glória de Deus. Nem sempre consigo, porque sou humano e pecador. Quando erro, peço perdão a Jesus e continuo a vida com a certeza de que fui perdoado. Sabe, sou muito feliz com Cristo. Não consigo viver sem Ele. Acho que é por isso que sou feliz como músico profissional.


Notas:

[*] Agradecemos à Loide Simon por esta contribuição ao Música Sacra e Adoração.

[1] Williams Costa Junior está se referindo ao documento oficial da Igreja Adventista do Sétimo Dia votado no Concílio Outonal de 1972 da Conferência Geral desta denominação. Você pode ter acesso ao documento clicando aqui. (Nota dos editores do Música Sacra e Adoração).