Ellen White Era Contra a Bateria na Música Sacra? – Uma Resposta – Parte 07

Um Convite ao Equilíbrio

Um Convite ao Equilíbrio

Nunca foi intenção de Ellen White que sua mensagem para os irmãos da Carne Santa fosse usada para apoiar posições extremas, como a proibição generalizada de instrumentos de percussão na música adventista ou o extremismo do culto formal e “constrangido”. Ela nunca apoiou interpretações extremas de seus escritos em nenhum assunto. Note que o problema era comum já na sua época:

Há uma classe de pessoas sempre dispostas a escapar por alguma tangente, que desejam apreender qualquer coisa estranha, maravilhosa e nova; mas Deus quer que todos procedam calma e ponderadamente … Devemos guardar-nos de criar extremos, de animar os que tendem a estar ou no fogo, ou na água.[lxxxi]

O que me preocupa é o perigo de cairmos no outro extremo.[lxxxii]
Quando serve ao vosso desígnio, tratais os Testemunhos como se neles crêsseis, citando trechos deles para reforçar qualquer declaração em que desejais prevalecer.[lxxxiii]
A reforma de saúde torna-se a deformação da saúde, destruidora da saúde, quando levada a extremos.[lxxxiv]

Um exemplo, embora não musical, mas que ilustra bem o risco de se cair nos extremos em um determinado assunto é o caso dos ovos. Em Testimonies, vol. 2, p. 400 ela diz: “Ovos não deveriam ser postos em sua mesa” e em Conselhos Sobre o Regime Alimentar, p. 204, ela diz “Coma ovos cozidos ou crus.” O problema é que cada referência se aplica a um caso específico, a um “tempo e lugar” e não devem ser tomados isoladamente como proibições ou permissões universais.[lxxxv]

Tiago White expande o pensamento dizendo:

Enquanto Satanás tenta muitos a serem lentos demais, ele tenta outros a serem muito rápidos. A obra da irmã White é dificultada, e às vezes com perplexidade, pela obra dos extremistas, que consideram o único lugar seguro o se apegar às interpretações mais extremas das expressões que ela usou, enquanto outras interpretações são possíveis. Essas pessoas frequentemente se apegam à sua interpretação de uma expressão, e forçam o assunto a qualquer custo e ignoram suas advertências quanto ao cair em extremos. Sugiro que estes afrouxem seu apego às expressões mais fortes de Ellen White, que são para os mais lentos, e apóiem suas convicções sobre as muitas advertências que ela fez para benefício dos extremistas.[lxxxvi]

E George Knight conclui que:

Quando lemos as passagens que intermediam e equilibram um tópico, em vez de ler somente as mais extremas que reforçam nossas opiniões pessoais, estamos mais próximos da perspectiva de Ellen White. … A fim de evitar interpretações extremas, precisamos ler amplamente o que Ellen White diz sobre um determinado assunto, mas também precisamos acatar às declarações que se equilibram em cada extremo de determinado assunto.[lxxxvii]

Infelizmente algumas citações do Espírito de Profecia têm passado tantas vezes pela “moenda” de uma certa interpretação que esta se torna estabelecida ou tradicional, como é o caso da percussão na música, cujas aplicações extremas, baseadas nas mais tênues implicações do que Ellen White escreveu, têm-se tornado a única alternativa e causado “perplexidade” na igreja.

Um Convite ao Equilíbrio

É falacioso, e chega a causar perplexidade o título “Um Convite ao Equilíbrio”, dado que toda a linha argumentativa utilizada até agora pelo articulista foi, conforme demonstramos, fortemente tendenciosa, pinçando textos isolados, omitindo propositadamente frases, fatos e documentos específicos, invertendo causas e efeitos, descontextualizando textos, e juntando textos que foram escritos em momentos e para públicos distintos.

Não precisamos ir muito longe, nem sermos prolixos para desmascarar as distorções pretendidas pelo articulista. Vejamos o primeiro texto de Ellen G. White citado por ele neste trecho. Note que não estamos apresentando nem mesmo todo o capítulo, nem mesmo os parágrafos adjacentes; estamos apresentando tão somente o parágrafo citado, porém em sua totalidade. Leiamos com atenção:

O Senhor há de em breve trabalhar com maior poder entre nós, mas há o perigo de permitirmos que os nossos impulsos nos levem aonde o Senhor não quereria que fôssemos. Não devemos dar um passo para depois retroceder. Devemos caminhar solene, prudentemente, não fazendo uso de expressões extravagantes, nem permitindo que os nossos sentimentos sejam excessivamente agitados. Devemos pensar calmamente, e agir sem empolgação; pois há alguns que ficam facilmente arrebatados, que se aproveitam de expressões sem fundamento e usam pronunciamentos extremos para criar agitação, impedindo assim a própria obra que Deus queria fazer. Há uma classe de pessoas sempre dispostas a escapar por alguma tangente, que desejam apreender qualquer coisa estranha, maravilhosa e nova; mas Deus quer que todos procedam calma e ponderadamente, escolhendo as palavras em harmonia com a sólida verdade para este tempo, a qual precisa, tanto quanto possível, ser apresentada ao espírito isenta do que é emocional, conquanto ainda levando a intensidade e solenidade que lhe convém. Devemos guardar-nos de criar extremos, de animar os que tendem a estar ou no fogo, ou na água. (Testemunhos para Ministros e Obreiros, pp. 227-228 – ênfase acrescentada)

Após esta leitura, na qual enfatizamos alguns trechos propositalmente excluídos pelo articulista, são perfeitamente cabíveis algumas perguntas, dirigidas àqueles leitores que estão buscando a verdade, a fim de conhecerem a vontade de Deus neste assunto.

Considerando as diferenças entre aqueles que pretendem ter um culto mais “extravagante” do ponto de vista musical e os que buscam a solenidade, a contrição e o culto racional, perguntamos, no contexto do texto acima:

  • Qual grupo está mais claramente se permitindo ser guiado pelos próprios impulsos?
  • Qual grupo está pensando calmamente e quem está agindo com empolgação?
  • Qual grupo está criando agitação, prejudicando assim a obra de Deus?

As respostas às questões acima se aplicariam àqueles que estão de acordo com a posição histórica da igreja, ou aos que estão buscando novas interpretações, novas “verdades” que satisfaçam seus gostos pessoais secularizados?

Salvação não é questão de equilíbrio, mas de fé e santificação – ambos obtidos somente mediante a Graça salvadora de Jesus Cristo. Ainda mais, neste caso, onde o articulista considera “extremas” as idéias que não sejam as suas próprias, ou que se harmonizem com as suas – as que se situariam em “equilíbrio”.

Também é de se questionar qual seria o equilíbrio sugerido. Seria o equilíbrio entre o sacro e o secular? Ou talvez o equilíbrio entre o santo e o profano? Existe algum equilíbrio possível entre “Assim diz o Senhor” e entre o coração do homem, enganoso e corrompido como sabemos que é (Jeremias17:9)? “Que comunhão pode ter a luz com as trevas?” (II Coríntios 6:14b)

Do artigo escrito, se pode depreender com fartura de evidências que o equilíbrio sugerido pelo articulista é aquele que se situa entre a orientação divina e nossas convicções pessoais – ou seja, um equilíbrio claramente pecaminoso.

Desde o título, passando pelos primeiros parágrafos, durante toda a sua argumentação, até a conclusão do texto, o que o articulista fez foi juntar argumentos corretos com outros falaciosos, (ou, no melhor dos casos, equivocados), descontextualizando o que Ellen G. White disse e escreveu, de modo a inverter o significado das coisas, desconsiderando os princípios mais básicos da tão propalada exegese!

Repetimos ainda o que Ellen G. White escreveu a este respeito:

“Com o intuito de sustentar doutrinas errôneas ou práticas anticristãs, alguns apanham passagens das Escrituras separadas do contexto, citando talvez a metade de um simples versículo, como prova de seu ponto de vista, quando a parte restante mostraria ser bem contrário o sentido. Com a astúcia da serpente, entrincheiram-se por trás de declarações desconexas, interpretadas de maneira a convir a seus desejos carnais. Muitos assim voluntariamente pervertem a Palavra de Deus.” (O Grande Conflito, p. 521 – ênfase acrescentada.

A conclusão alcançada neste trecho seria interessante, se não tivesse conseqüências trágicas. O articulista toma um texto, escrito de maneira tão simples e direta e diz que defender a sua aplicação é extremismo. Porém, ao mesmo tempo, defende a posição oposta – desconsiderando a correta exegese do próprio texto e os princípios que a igreja historicamente tem defendido – abrindo assim as portas a práticas cúlticas inspiradas em entretenimentos mundanos; e ainda considera que esta não é uma posição de extremismo!

Vejamos um dos aspectos do extremismo pela pena de Ellen G. White:

Outros ainda vão ao extremo oposto, pondo mais força nas emoções religiosas, e manifestando intenso zelo nas ocasiões especiais. Sua religião parece ser mais da natureza de um estimulante do que uma permanente fé em Cristo.

Os verdadeiros pastores conhecem o valor da obra interior do Espírito Santo sobre o coração humano. Satisfazem-se com a simplicidade nos cultos. Em vez de dar valor ao canto popular, volvem sua atenção principalmente para o estudo da Palavra, e dão de coração louvor a Deus. Acima do adorno exterior, consideram o interior, o ornamento de um espírito manso e quieto. Na sua boca não se acha engano. (Evangelismo, pág. 502)

Talvez o leitor, apesar de toda a argumentação apresentada nesta réplica, ainda esteja concordando com o articulista, na idéia de que buscar valores e princípios cristãos fundamentais seja extremismo, uma vez que estamos em uma sociedade pós-moderna, em que não existem valores absolutos e cada um constrói a sua própria “verdade”. Mas acreditamos que seria interessante meditarmos nas palavras destes textos bíblicos:

“‘Nos últimos tempos haverá zombadores que seguirão os seus próprios desejos ímpios’. Estes são os que causam divisões entre vocês, os quais seguem a tendência da sua própria alma e não têm o Espírito.” (Judas 18,19)

Saiba disto: nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis. Os homens serão (…) presunçosos, arrogantes, (…) soberbos, mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder. Afaste-se desses também.” (II Timóteo 3:1-5)

Note que essas advertências são para o tempo do fim, exatamente o mesmo tempo no qual Ellen G. White advertiu que o problema de Indiana se repetiria. As pessoas descritas nestes versos são pessoas que podem até estar praticando formas de adoração, mas não são verdadeiros adoradores.


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Parte 06 – O Uso da Percussão na Igreja Adventista desde 1900

Parte 08 – Conclusão