Ellen White Era Contra a Bateria na Música Sacra? – Uma Resposta – Parte 03

Ellen White e Instrumentos Musicais

Ellen White e Instrumentos Musicais

Uma busca da frequência da palavra “drums”, (tambores) nos escritos de Ellen White[xxiii] resulta em apenas 15 referências, das quais 14 são repetições da Carta 132 de 1900, que como vimos, se refere a um surdo de fanfarra e não à bateria moderna, embora o termo “drums” defina os dois. A outra referência relata uma visita de Ellen White a Basel, Suíça em dezembro de 1886, onde ela viu um treino militar de soldados e jovens suíços usando tambores.[xxiv]

Já a palavra para tamborim na versão King James da Bíblia inglesa, “timbrels”, é mencionada somente 2 vezes, ambas favoravelmente no contexto de celebrações do povo de Israel. O outro termo para tamborim é “tabret” citado em Isa. 5:11 e também no encontro de Saul com um grupo de profetas de Deus que tocavam “saltério, tamborins, flauta e a harpa.” [xxv]

Ellen White e Instrumentos Musicais

Não há o que comentar neste ponto, a não ser a estranheza de pretender realizar uma contagem das palavras relativas a instrumentos de percussão na versão King James. Se estamos analisando o ponto de vista de Ellen White com relação aos tambores, esta contagem no texto bíblico é sem sentido para a argumentação que se apresenta. Se, contudo, a contagem no texto bíblico é importante, para o embasamento de algum argumento, deveria ser feita a partir de textos originais, ou catálogos autorizados destes textos.

Outro ponto que merece maior atenção é a afirmação de que as citações bíblicas são favoráveis ao uso de instrumentos de percussão nos cultos. Esta argumentação é falaciosa por, no mínimo, dois motivos, conforme expomos:

Primeiro, as citações mencionadas pelo articulista provêem do fato sabido por todos os estudiosos do assunto que o uso de instrumentos da categoria dos membranofones (tambores, tamboris, pandeiros, etc.) fazia (e ainda faz) parte da cultura judaica, em todas as suas manifestações festivas. Além disso, sabendo-se que a nação judaica nos tempos do Antigo Testamento era fortemente teocrática, torna-se evidente que todas essas manifestações festivas, sejam culturais, folclóricas, nacionalistas, militares, etc., eram feitas em nome de Deus. Relembrarmos estes fatos conhecidos aumenta sobremaneira a importância da não inclusão desta classe de instrumentos na lista de instrumentos permitidos no serviço do Templo (I Crônicas 15:16, 28; 25:1, 6; II Crônicas 5:12-13; 20:28; 29:25), no serviço levítico instituído por Davi. Podemos concluir que mais uma vez Deus procurou enfatizar o princípio de separação entre o “comum” e o “sagrado” (II Crônicas 29:25).

Segundo, o fato de a Bíblia citar um evento não significa, necessariamente, que a aprovação divina repousava sobre o evento citado. Por exemplo, a Bíblia diz que Salomão teve 700 mulheres e 300 concubinas. Isso quer dizer que podemos ter esse número de esposas? Antes de responder, devemos levar em conta que não há, no texto bíblico, uma reprovação formal e direta ao número de esposas de Salomão. Porém, é óbvio que não podemos usar a mera citação como exemplo de aprovação divina, pois a citação em si é neutra, a não ser que o contexto indique que Deus aprovou (ou não) o ato. Em boa parte dos relatos históricos a Bíblia não faz juízo de valor, apenas relata os fatos. Portanto, mais uma vez evidencia-se a questão de que a simples contagem de palavras não acrescenta nada à argumentação do articulista.

Pela aparente falta de interesse no instrumento em si, o historiador adventista Arthur Patrick conclui que:

considerando-se a riqueza e variedade dos escritos de Ellen White, tambores recebem pouquíssima atenção. … O problema não é o instrumento mas o estilo em que é tocado e a falsa doutrina e emocionalismo que acompanham o seu uso. O uso de tambores é visto por Ellen White como tendo os mesmos problemas que a música tem. Obviamente o ponto em questão não é música em si, mas música inapropriada.[xxvi]

É importante não apenas notar que os “tambores recebem pouquíssima atenção“, mas também compreender corretamente o motivo desta falta de atenção. Conforme já dissemos, nem a marcação rítmica dançante através do uso de tambores nem as danças jamais foram admitidas em nossos cultos, exceto no episódio de Indiana e alguns casos isolados no passado, os quais foram prontamente combatidos. Portanto, não havia um problema generalizado com esta classe de instrumentos. Atualmente, contudo, existe uma grande disseminação de seu uso, sem qualquer parâmetro, o que tem causado inúmeros problemas e divisões na igreja. Ademais, também não podemos esquecer os problemas que levam à adoção de tais métodos de adoração, tanto no passado quando na atualidade. Podemos supor então que, caso Ellen G. White vivesse hoje, haveria muito mais citações a este respeito.

Além disso, deve ser ressaltado que a “pouquíssima atenção” dada por Ellen G. White à questão do uso dos tambores no culto resume-se à única vez em que o assunto mereceu ser mencionado, que é o texto que estamos analisando. E, como temos demonstrado, a posição da mensageira do Senhor foi no sentido de reprovar incisivamente esta prática, tendo em vista os resultados do que ocorreu em Indiana. E, obviamente, tendo condenado seu uso dos tambores de forma tão enfática, não haveria necessidade de retornar ao tema, visto que seu conselho foi prontamente acatado.

Note que a resistência em se aceitar certos instrumentos no culto da igreja Adventista não é nova.

Desde os primórdios do movimento até 1877, o canto congregacional era feito a cappella. Em 1877 Tiago White e John Loughborough experimentaram resistência quando tentaram incluir um órgão numa campal na Califórnia. Loughborough leu o Salmo 150 e até adicionou ‘órgãos’ na lista para defender o uso de instrumentos na adoração. Apesar do receio, os presentes notaram que o canto congregacional melhorou sensivelmente! [xxvii]

Ellen White também interpretou os Salmos e seus instrumentos como literais e, por sua vez, não preferiu certos instrumentos em detrimento de outros. Ela falou em favor de se usar o violão no culto e quando esteve na Suécia, ela pediu que uma senhora não-adventista cantasse ao som do violão na abertura das reuniões.[xxviii]

Na verdade a resistência em aceitar “certos instrumentos” no culto da Igreja Adventista não é nova. Esta resistência iniciou-se quando houve a primeira tentativa de introduzi-los, e foi iniciada e liderada pela inspiração divina.

No entanto, parecia-nos, pelo que depreendemos a partir do título, que o assunto em pauta neste artigo seria os instrumentos de percussão, notadamente a bateria. De qualquer forma, não vemos em qualquer uma dessas referências apresentadas pelo articulista qualquer citação autorizando o uso de tambores ou qualquer outro instrumento de percussão na adoração.

Acerca da utilização de vários instrumentos no culto, sabemos que eles são bem-vindos em nosso culto e obviamente, quando executados dentro de um contexto de reverente adoração, produzindo música harmoniosa e suave (Patriarcas e Profetas, p. 637, Testemunhos para a Igreja, vol. 1, p. 146; vol. 9, pp. 143 e 144), acrescentam interesse (Evangelismo, p. 501) aos nossos momentos de louvor, provendo um acompanhamento que enriquece grandemente a música executada durante o decorrer da liturgia. Mas cabe a pergunta retórica: Os tambores, da maneira como normalmente são usados, também contribuem favoravelmente para o espírito de reverente adoração? Fornecem elementos para uma música harmoniosa e suave? Favorecem a adoração em espírito (emoções) e em verdade (mente) (João 4:23-24)?

Sobre a inclusão de vários instrumentos no culto, ela diz:

Nas reuniões realizadas, escolham-se alguns para tomar parte no serviço de canto. E seja este acompanhado de instrumentos de música habilmente tocados. Não nos devemos opor ao uso da música instrumental em nossa obra.[xxix]

Em nossas reuniões campais deve haver canto acompanhado de instrumentos musicais.[xxx]

O emprego de instrumentos de música não é de modo algum objetável. … Os adoradores louvavam a Deus com harpa e com címbalo [percussão], e a música deve ter seu lugar em nossos cultos. Isto acrescentará o interesse nos mesmos.
Alegro-me de ouvir os instrumentos de música que tendes aqui. Deus quer que os tenhamos. [xxxi]

Além dos textos citados pelo articulista, Ellen G. White também escreveu os trechos que se seguem, e que deveriam ser levados em consideração pelo atento estudioso do assunto, que esteja realmente interessado em compreender o arcabouço dos conselhos inspirados acerca do assunto:

Há algo especialmente sagrado na voz humana. Sua harmonia e seu sentimento subjugado e inspirado pelo Céu supera todo instrumento musical. A música vocal é um dos dons de Deus aos homens, um instrumento que não pode ser sobrepujado ou igualado quando o amor de Deus inunda a alma. Cantar com o espírito e com o entendimento também é um grande auxílio aos cultos na casa de Deus.” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 335)

A música só é aceitável a Deus quando o coração é consagrado, e enternecido e santificado por suas faculdades. Muitos, porém, que se deleitam na música não sabem coisa alguma de produzir melodia ao Senhor, em seu coração. Estes foram ‘após seus ídolos.’ (Ezequiel 6:9)“. (Evangelismo, p. 512).

Ergam-se as vozes em cânticos de louvor e adoração. Que haja auxílio, se possível, de instrumentos musicais, e a gloriosa harmonia suba a Deus em oferta aceitável. Mas às vezes é mais difícil disciplinar os cantores e mantê-los em forma ordeira, do que desenvolver hábitos de oração e exortação. Muitos querem fazer as coisas à sua maneira. Não concordam com deliberações, e são impacientes sob a liderança de alguém. No serviço de Deus se requerem planos bem amadurecidos. O bom senso é coisa excelente no culto do Senhor.” (Obreiros Evangélicos, p. 325).

Aparelhamento faustoso, ótimo canto e música instrumental na igreja não convidam o coro angelical a cantar também. À vista de Deus estas coisas são como galhos da figueira infrutífera, que só mostrava folhas pretensiosas. Cristo espera frutos, princípios de bondade, simpatia e amor. Estes são os princípios do céu, e quando se revelam na vida de seres humanos, podemos saber que Cristo, a esperança da glória, está formado em nós. Pode uma congregação ser a mais pobre da Terra, sem música nem ostentação exterior, mas se ela possuir esses princípios, os membros poderão cantar, pois o gozo de Cristo está em sua alma, e esse canto podem eles oferecer como uma oblação a Deus.” (Evangelismo, pp. 511, 512).

A conformidade aos costumes mundanos converte a igreja ao mundo; jamais converte o mundo a Cristo.” (O Grande Conflito, pág. 512).

Quando os professos cristãos alcançam a alta norma que é seu privilégio alcançar, a simplicidade de Cristo será mantida em todo o seu culto. As formas, cerimônias e realizações musicais não são a força da igreja. No entanto, estas coisas tomaram o lugar que deveria ser dado a Deus, tal como se deu no culto dos judeus. O Senhor revelou-me que, se o coração está limpo e santificado, e os membros da igreja são participantes da natureza divina, sairá da igreja que crê na verdade um poder que produzirá melodia no coração. Os homens e as mulheres não confiarão então em sua música instrumental, mas no poder e graça de Deus, que proporcionará plenitude de alegria.” (Evangelismo, p. 512)

Como já foi dito, Ellen White era equilibrada em suas posições, e é preciso levar em conta todo o conjunto de sua obra. Não é uma boa prática de exegese pinçar apenas os textos que nos interessam, usando-os para tentar defender um ponto de vista que nos agrada, mas que nunca esteve nas intenções da autora dos textos originais.

O articulista lança mão deste recurso reiteradas vezes, conforme já apontamos, cabendo ao leitor, novamente, entender de que lado está a verdade, e de que lado está o sofisma.

Veja que ela não tentou criar uma distinção arbitrária entre instrumentos “sacros” e “profanos”.[xxxii] Não há em seus escritos nada que apóie essa distinção, tampouco há na Bíblia. Citar certos instrumentos musicais e outros elementos omitidos ou incluídos no ritual do Templo como modelo para nossa adoração é incoerente, pois elementos que incluímos hoje foram omitidos, e.g., mulheres oficiando, a congregação participando dentro do “santuário”, enquanto instrumentos musicais que eram usados no Templo também faziam parte de festas e cultos pagãos.[xxxiii] Por isso, o que ocorria no Templo não é modelo para o que ocorre na Igreja pois ambos tinham diferentes funções.[xxxiv]

Ellen White se opôs a qualquer instrumento, não só de percussão, quando usado para criar confusão na adoração e em apoio a manifestações estranhas e caóticas:

É melhor nunca ter o culto do Senhor misturado com música do que usar instrumentos musicais para fazer a obra que … seria introduzida em nossas reuniões campais. … Uma balbúrdia de barulho choca os sentidos e perverte aquilo que, se devidamente dirigido, seria uma bênção.[xxxv]

Veja que ela inclui aqui todos os instrumentos musicais que estavam sendo usados na campal em Indiana, como vimos acima e não somente os “tambores”. É digno de nota que para apoiar uma certa interpretação, se enfatize os tambores somente, mas claramente não é essa a intenção da mensagem. Veremos mais sobre essa prática no fim do artigo.

Realmente não existe, do ponto de vista bíblico ou profético, uma “distinção arbitrária entre instrumentos ‘sacros’ e ‘profanos’“. Mas existe claramente uma distinção entre alguns instrumentos que podiam ser usados no templo e outros que não podiam, e havia um motivo muito sério para esta distinção: “porque este mandado veio do Senhor, por mão de seus profetas” (II Crônicas 29:25). Querer desconsiderar completamente esta instrução é um assunto sério, que pode equivaler a um espírito de rebeldia contra a vontade expressa de Deus.

Como profetiza de Deus, Ellen G. White sabia dessa distinção já estabelecida e não teria qualquer motivação para fornecer uma nova lista ou nova advertência a favor ou contra estes instrumentos e seu uso na adoração. Obviamente, as instruções e advertências dadas por ela enquadram-se neste padrão já estabelecido biblicamente.

Note que, quando o serviço levítico foi implantado, não houve uma proibição expressa a certos instrumentos, mas houve uma ordem expressa para que apenas certos instrumentos fossem utilizados, e esta ordem foi obedecida à risca, pois quem ordenou foi Deus.

Se a ordem foi dada (e sabemos que o foi), o que importa é termos consciência de que alguns instrumentos, apesar de serem usados comumente na cultura judaica, não foram aceitos no templo e, a partir disso, tentarmos compreender os princípios que se aplicam às instruções divinas, entre eles porque uma lista tão restrita de instrumentos foi aceita no serviço de adoração no templo, e alguns (e não apenas os instrumentos de percussão) não foram admitidos.

Mas não precisamos entrar em conjecturas e pressuposições; na verdade, a causa subjacente é comum a muitos erros que temos notado sendo introduzidos na igreja, e não apenas da área da música e da adoração. Deixemos que a serva do Senhor fale acerca do santuário e seu significado para a nossa adoração hoje.

“Da santidade atribuída ao santuário terrestre, os cristãos devem aprender como considerar o lugar onde o Senhor Se propõe encontrar-se com Seu povo. Houve uma grande mudança, não para melhor mas para pior, nos hábitos e costumes do povo em relação ao culto religioso. As coisas sagradas e preciosas, destinadas a ligar-nos a Deus, estão quase perdendo sua influência sobre nossa mente e coração, sendo rebaixadas ao nível das coisas comuns. A reverência que o povo antigamente revelava para com o santuário onde se encontrava com Deus, em serviço santo, quase deixou de existir. Entretanto, Deus mesmo deu as instruções para Seu culto, elevando-o acima de tudo quanto é terreno.” (Testemunhos para a Igreja, vol. 5, pp. 491)

Obviamente, devemos compreender que há diferenças fundamentais de forma e propósito, entre o serviço no santuário móvel e no templo de Jerusalém e os cultos realizados em nossas igrejas atuais. Aqueles antigos centros de adoração também tinham uma função que não corresponde à das nossas igrejas, e concordamos que a sua função, bem como o seu ritual e sua liturgia não podem ser transpostos diretamente para a igreja cristã, assim como não foram transpostos nem mesmo para a liturgia da sinagoga, que já exercia, naquela época, um papel totalmente diferente.

Porém, a serva do Senhor enfatiza que há lições a serem aprendidas e tentar eclipsá-las ou anuviá-las na mente do povo nunca pode estar de acordo com a vontade de Deus. O texto acima nos orienta a aprender dos princípios de reverência, adoração e santidade que eram a referência de todo o serviço do santuário. Portanto é necessário, é nosso dever, entender corretamente esses princípios e aplicá-los aos nossos cultos, com a devida atenção aos diferentes objetivos e culturas.

Se tambores e percussão fossem incompatíveis com a música sacra, era de se esperar que ela articulasse sua posição especificamente e em termos típicos como: “Foi me mostrado que os tambores e tamborins são ofensivos a Deus e não devem ser usados em seu culto e na música do Senhor” como ela fez em outros assuntos de vital importância para a igreja Adventista. Mas tal citação não existe. Por isso, justificar a proibição indiscriminada do uso da bateria hoje porque ela traz automaticamente “ruído e confusão” não pode ser sustentada pelos escritos de Ellen White.

Ellen G. White não se pronunciou expressamente sobre muitas coisas que hoje consideramos altamente prejudiciais para a nossa vida espiritual. Por exemplo, ela não disse nada sobre a televisão. Será, então que não precisamos tomar cuidado ao selecionar o que assistimos (se assistirmos), somente porque ela não deu qualquer advertência explícita sobre isso? É óbvio que todos reconhecemos os malefícios deste aparelho, quando mal utilizado. Não seria útil, portanto, lermos as suas instruções acerca de outros meios de comunicação e de mídia, impressa ou não, existentes à sua época e aplicá-los a este caso em particular?

Ellen White também não articulou sua posição inequivocamente em termos típicos como: “Foi-me mostrado que usar cocaína, heroína, crack, ecstasy e maconha são ofensivos a Deus e não devem ser usados por seus filhos, quer seja em casa ou na igreja”. Baseado na lógica distorcida do articulista, então a profetiza do Senhor seria favorável ao uso dessas drogas pelo povo separado para Deus o qual habitará no Céu e na nova terra eternamente. Ora, assim como sabemos claramente – por princípio e não por declaração específica incluindo seus diversos tipos – que tais drogas são prejudiciais ao organismo e seus efeitos afastam o ser humano da adoração conscienciosa a nosso Deus, também deveríamos saber – uma vez que temos princípios a este respeito – que a utilização de música de maneira a favorecer o barulho e o alarido – sejam quais forem os estilos e instrumentos utilizados – não são apropriados ao culto, sem a necessidade de que sejam dadas instruções específicas acerca de estilos e instrumentos musicais a serem utilizados na adoração verdadeira a Deus.

Apesar de havermos citado coisas que a serva do Senhor não condenou – uma vez que não existiam no seu tempo – aplicando este silêncio ao caso da bateria, permanece o fato que os “tambores e tamborins” citados pelo articulista já existiam em seu tempo (afinal, foram usados em Indiana) e ela não se manifestou condenando-os de forma específica, exceto no texto que estamos analisando.

Porém, temos que destacar que, mais importantes e possivelmente prejudiciais às práticas cúlticas adventistas do que objetos como “tambores e tamborins” seriam as práticas religiosas existentes em seu tempo. Mas ao observarmos este assunto constatamos que ela também não condenou algumas práticas religiosas enganosas contemporâneas a ela como, por exemplo, o culto aos antepassados (realizados pelas religiões orientais), o culto a espíritos pagãos (realizado pelos índios americanos e pelos escravos africanos) e a autoflagelação (realizada pelos católicos).

Por que este silêncio acerca de algo tão potencialmente prejudicial? A resposta é óbvia: estes elementos não foram condenados simplesmente porque não representavam problemas naquele tempo, nem o Senhor lhe revelou que representariam problemas sérios no futuro. Fica claro que o mesmo raciocínio se aplica aos “tambores e tamborins“, isoladamente: eles não representavam qualquer problema naquela época, não tinham qualquer espaço em nossa prática litúrgica.

Também podemos ver claramente que, na única ocasião em que isto ocorreu, em uma reunião campal (nem mesmo era no edifício de uma igreja consagrada) a reprovação foi incisiva e direta, advertindo ainda para o perigo que estes instrumentos representariam para a igreja no futuro.

Portanto, a afirmação do articulista de que “Se tambores e percussão fossem incompatíveis com a música sacra, era de se esperar que ela articulasse sua posição especificamente e em termos típicos…” é, no mínimo, leviana e tendenciosa. Mais uma vez, devemos nos ater ao que está escrito, buscando compreender os princípios contidos nos textos de Ellen White, bem como na Bíblia, de modo a usá-los como diretrizes e orientações, ao invés de tentar colocar na pena do profeta os nossos próprios conceitos e expectativas.

Da mesma forma como ela não proibiu terminantemente, de forma explícita, os tambores, ela também não os autorizou de forma explícita, conforme já notamos anteriormente. Ora, se havia uma ordem divina, a qual não autorizava a utilização de instrumentos de percussão – conforme vimos ao estudar acerca da organização do serviço levítico no Templo, bem como a sua reorganização – então uma nova luz deveria ser dada, autorizando a igreja remanescente a assumir uma posição diferente daquela que já estava estabelecida.

Isto foi verdade com relação a vários pontos doutrinários, como o sábado e a reforma de saúde, por exemplo. Nas doutrinas relativas a esses pontos, os pioneiros iniciaram agindo de certa forma, mas no decorrer do tempo receberam luz adicional, o que os fez mudar de posicionamento e atitude. (11) Vale ressaltar que a luz a respeito desses assuntos sempre veio primeiro a partir do estudo da Bíblia, sendo então ratificada e aprofundada pela revelação profética. Claro, a questão dos tambores não é um problema doutrinário, mas de prática cristã. Ocorre que na área da prática cristã também tivemos conselhos específicos como, por exemplo, na questão do vestuário. (A Ciência do Bom Viver, pp. 207, 271, 287-290; Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes, pp. 302-306, etc.)

O articulista acredita que não é possível justificar uma restrição (note que não utilizamos os termos “condenação” ou “proibição”) ao uso de instrumentos de percussão em nossos cultos, embasada nos textos de Ellen G. White, tendo em vista a questão do “ruído e confusão“. Porém, ao lermos os textos abaixo descobriremos algumas características comuns da música descrita como apropriada aqui na terra ou da música celestial, o que nos leva a pensar de maneira contrária (ênfases acrescentadas):

Pensam alguns que, quanto mais alto cantarem, tanto mais música fazem; barulho, porém, não é música. O bom canto é como a melodia dos pássaros – dominado e melodioso.” (Evangelismo, p. 510)

Nunca se deve perder de vista o valor do canto como meio de educação. Que haja cântico no lar, de hinos que sejam suaves e puros, e haverá menos palavras de censura e mais de animação, esperança e alegria. Haja canto na escola, e os alunos serão levados para mais perto de Deus, dos professores e uns dos outros.” (Educação, p. 168)

Não é necessário um cântico ruidoso, mas entoação clara, pronúncia correta e expressão vocal distinta. Que haja tempo para o cultivo da voz de modo que o louvor a Deus possa ser entoado em tons claros e suaves, não com aspereza e estridência que ofendem o ouvido.” (Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, p. 143)

Entre os anjos não há tais exibições musicais como as que tenho visto algumas vezes em nossas reuniões. (…) O cântico deles não irrita os ouvidos. É macio e melodioso” (Mensagens Escolhidas, Vol. 3, p. 333).

Os anjos dirigentes desferirão o tom, e então todas as vozes se alçarão em louvor grato e feliz, e todas as mãos deslizarão habilmente sobre as cordas da harpa, originando uma música melodiosa, com acordes ricos e perfeitos” (Primeiros Escritos, pp. 288-289).

Seus dedos não corriam pelas cordas descuidosamente, mas faziam vibrar diferentes cordas para produzir diferentes acordesmajestosa e perfeita música do Céu” (Visões do Céu, p.182).

Depois dos anjos dirigentes, todas as mãos deslizam com maestria sobre as cordas da harpa, tirando-lhes uma música suave em ricos e melodiosos acordes. Diante da multidão está a cidade santa. Jesus abre as portas e a angélica multidão entra por elas, enquanto a música prorrompe em arrebatadora melodia” (O Grande Conflito, p. 651).

Por entre o agitar dos ramos de palmeiras, os redimidos derramam um cântico de louvor, claro, suave e melodioso; todas as vozes apreendem a harmonia até que reboa pelas abóbadas do Céu…”(Visões do Céu, p. 180).

Vemos que algumas características são repetidamente destacadas: a música é “suave”, “melodiosa”, “harmoniosa” ou possuindo “acordes”. Obviamente, cabe destacar o fato que a bateria (ou outros instrumentos de percussão de tom indefinido) não contribuem para essas características, uma vez que não conseguem produzir tons, apenas ruídos.

Além disso, Ellen G. White não escreveu diretamente sobre tambores, condenando de forma veemente sua utilização na marcação rítmica nos cultos de adoração – exceto no texto sobre a campal de Indiana, que estamos analisando – simplesmente porque até a sua morte este problema não existia, assim como, por exemplo, não existia a televisão, sobre a qual ela também não escreveu. Este ponto será detalhado posteriormente.

É importante compreendermos que Deus estabelece limites, e que embora a sociedade humana mude freqüentemente – e hoje adote um raciocínio pós moderno, no qual não existe conceito preciso de certo e errado – Deus não muda, e continua a definir claramente uma linha separadora entre o certo e o errado, o puro e o impuro, o justo e o ímpio, o sagrado e o profano. E se queremos ser o povo de Deus, temos que pautar nossa vida, nossa linha de pensamento e nossos princípios pela filosofia divina, claramente estabelecida na Sua palavra, e não na filosofia humana. É claro que a contribuição da filosofia humana é sempre bem-vinda, desde que não se oponha à Palavra de Deus.

Na Bíblia, tamborins e címbalos e outros instrumentos eram usados em situações de exultação, na adoração vibrante e para festividades do povo de Deus.[xxxvi] Essas características da percussão nos permitem concluir que se a bateria for habilmente utilizada na música e no culto, sem se tornar um fim em si mesma e como parte de um contexto musical equilibrado, ela pode na realidade facilitar o culto energético e vibrante que Ellen White preferia ao culto formal e friamente solene.[xxxvii]

Esperar também que todos toquem os mesmos instrumentos e tenham o mesmo talento musical não é a visão Bíblica da adoração. O Salmo 150 permite que todos usem seus variados talentos musicais em adoração a Deus:[xxxviii]

Aleluia! Louvem a Deus no seu santuário, louvem-no em seu magnífico firmamento. Louvem-no pelos seus feitos poderosos, louvem-no segundo a imensidão de sua grandeza! Louvem-no ao som de trombeta, louvem-no com a lira e a harpa, louvem-no com tamborins e danças, louvem-no com instrumentos de cordas e com flautas, louvem-no com címbalos sonoros, louvem-no com címbalos ressonantes. Tudo o que tem vida louve o SENHOR! Aleluia! (Salmo 150, NVI)[xxxix]

e Ellen White adiciona que

A diversidade de dons leva à diversidade de operações mas é “o mesmo Deus que opera em todos. (1 Coríntios 12:6).[xl]
…pois nem todas as mentes devem ser alcançadas pelos mesmos métodos.[xli]

O convite ao louvor presente não apenas no Salmo 150, mas também na grande maioria dos outros salmos e em inúmeros outros textos bíblicos, principalmente do Antigo Testamento, deve ser, necessariamente, interpretado à luz da cultura hebraica do Antigo Testamento. Lembremo-nos de que as sociedades da época (e não apenas a israelita) estavam profundamente baseadas na religião, a qual envolvia todos os aspectos da vida, e não apenas os de cunho estritamente religioso. Especialmente no caso dos israelitas as festas ordenadas por Deus tinham não apenas caráter religioso, mas também possuíam um caráter fortemente social.

De maneira análoga, as festas populares, sejam folclóricas ou de comemoração de vitórias militares, possuíam um forte componente religioso, pois Deus era o próprio centro da sociedade; Ele era o responsável final pela alegria popular expressa naquelas festas.

Assim, havia um convite permanente ao louvor a Deus em todo tipo de atividade, tanto as corriqueiras do dia a dia, como as sociais, além, evidentemente, das eminentemente religiosas. Portanto o louvor a Deus não estava, naquele contexto sócio-cultural, sempre e necessariamente ligado a um contexto estritamente religioso, ou a um ambiente de adoração solene.

É importante notarmos que “louvor” é um ato inerentemente diferente de “adoração“, embora o primeiro possa fazer parte do segundo. O Pr. Valdeci Júnior, em seu artigo intitulado “A Diferença Entre Louvor e Adoração(12), destaca o seguinte:

O Que é Louvor – A palavra louvor significa “ato de louvar, aplauso, elogio, encômio. Apologia de uma obra meritória”. Tem como antônimo “censura e crítica”. Sendo assim o louvor pode ser dirigido a pessoas, instituições, ideologias, objetos, lugares, animais, e outras coisas, através de elogios, aplausos, cânticos, falas poéticas, apologéticas, informais, etc. Por exemplo, quando cantamos o Hino Nacional Brasileiro, estamos louvando o Brasil. Portanto louvar significa “admirar, falar bem, elogiar, engrandecer”. Diariamente, estamos louvando muitas coisas ao nosso redor. Quando louvamos a Deus, estamos admirando os atributos do Seu caráter: fidelidade, bondade, amor, longanimidade, retidão, justiça, misericórdia, etc. Usamos as expressões dos nossos anseios para fazer isto. Qualquer um pode fazer isto. A natureza, por exemplo, também pode louvar a Deus (Salmos 19:1). Louvor é algo que qualquer um pode dar a qualquer coisa ou pessoa (Salmos 9:11; 33:2; 67:3; 42:12).

O Que é Adoração – O vocábulo adoração deriva da palavra em latim adorare, que etimologicamente vem a ser “falar com”. O dicionário define seu significado como “ato de adorar; culto a Deus; amor profundo”. É render culto a Deus, coisas ou pessoas considerados como sendo santos. É prostrar-se diante de algo em “sinal de reconhecimento, rezar, idolatrar, amar apaixonadamente”.

Conforme notado no mesmo artigo citado acima, as palavras hebraicas para “louvor” e “adoração” são diferentes:

“A palavra traduzida mais freqüentemente para adorar é o vocábulo hebreu shachah, que aparece mais de 170 vezes na Bíblia hebréia com o significado de “adorar, prostrar-se, inclinar-se” (Êxodo 34:8; Salmos 66:4; 95:6; Zacarias 14:16). A outra palavra é abhôdhâ, que significa servir com temor reverente, admiração e respeito.”

“As palavras no Antigo Testamento para louvor vêm do hebraico hãlal, que significa fazer ruído, yãdhâ, que está associada às ações e gestos corporais que acompanham o louvor e, zãmar, que é associada à música tocada e cantada.”

Portanto, o Salmo 150, bem como o 149 e outros, ao utilizarem, como fazem, o termo hebraico “halal” (traduzida como “louvai“, de onde veio o nosso “aleluia“) não estão descrevendo o momento do culto de adoração solene, no templo, mas os momentos de louvor coletivo, ocorridos na vida cotidiana da comunidade judaica. Obviamente que os tambores e as danças eram aceitas na cultura folclórica israelita (como o são até os dias de hoje), mas nunca foram aceitas nos momentos de adoração, deste o período do Tabernáculo no deserto.

Destacamos aqui o seguinte texto da pena inspirada:

“É um fato deplorável que a reverência pela casa de Deus esteja quase extinta. As coisas e lugares sagrados quase já não são discernidos; as coisas santas e elevadas não são apreciadas. Não haverá uma causa para essa falta de legítima piedade nas famílias? Não será acaso por que a elevada norma da religião esteja abatida até ao pó? Deus deu a Seu povo na antigüidade procedimentos precisos e exatos. Porventura Seu caráter foi mudado? Não é mais o Altíssimo e Todo-Poderoso que domina sobre o Universo? Não conviria lermos com freqüência as instruções que Deus mesmo Se dignou dar aos antigos hebreus para que nós, que temos a verdade gloriosa radiando sobre nós, os imitemos em sua reverência para com a casa de Deus? Temos motivos de sobra para alimentar espírito de fervor e devoção na adoração a Deus. Temos até motivos para ser mais ponderados e reverentes em nosso culto do que os judeus. Mas um inimigo tem estado a trabalhar, a fim de destruir nossa fé na santidade da adoração cristã.” (Testemunhos para a Igreja, vol. 5, pp. 495-496)


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Parte 02 – Tambores: Ponto Central?

Parte 04 – Estilo da Música