Sobre o Incontestável

por: Eduardo Solá

Que a raiz cúbica de 27 é 3 o homem já sabe faz tempo. Hoje em dia isso já está mais do que provado, e não existem mais especulações acadêmicas que tentem provar que a assertiva é falsa, ou inconsistente. Quando um ponto se torna indiscutível e se verifica que ele é válido e infalível, os debates não visam mais ponderações sobre ele, uma vez que o caso está solucionado. Em vez disso, concentram-se em facetas outras que são, ao meu ver, de duas naturezas distintas, cujas propriedades discutiremos a seguir. (É relevante destacar aqui que os parágrafos seguintes são de teor altamente cartesiano. Para aqueles que manifestam reações alérgicas a tal forma de abordagem, sugiro que pulem para as porções conclusórias.)

A primeira delas é a pesquisa em prol do desenvolvimento de novas idéias. Se assim for, um indivíduo engajado em tal empreitada, deve trabalhar para que através de seus esforços, possa acrescentar algo novo ou contestar algo antigo, o que já é um acréscimo em si. A segunda, e não menos importante, é a filosofia sobre o próprio ponto incontestável. Essa é a mais fiel serva da pesquisa e sem ela seria impossível problematizar questões emergentes (note-se, de emersão).

Tomando por base o pensamento acima, suponha-se uma instituição religiosa com doutrinas bem definidas e expressas, às quais seus adeptos têm pleno acesso. Essas doutrinas e dogmas são o resultado de um trabalho sério de uma divisão maior da instituição, sendo discutidas em reuniões específicas, que são organizadas quando há algum ponto de toque em determinado assunto ou um tema polêmico que poderia causar divergência. Isso acontece quando se pesquisa e se filosofa, o que acaba dotando um dogma de força, no caso de se conseguir reunir embasamento suficiente para o mesmo. Por fim, todas as resoluções são reunidas e expressas para que os membros da instituição, uma vez informados do que a faz parte de sua ideologia, possam fazer suas escolhas quanto a elas. Essa escolha deve ser feita da forma mais criteriosa possível por parte do indivíduo enquanto ser vinculado à instituição.

Pode-se concluir até aqui que: para determinado ponto doutrinário estabelecido pela instituição através de ponderação específica existe a possibilidade de pesquisa relacionada ao mesmo e reflexão filosófica. Ora, se a instituição religiosa Igreja Adventista do Sétimo Dia provê uma ideologia bem definida no tocante ao tema “Música Sacra”, cujos caracteres supõe-se serem aceitos por seus membros, para essa situação existem duas possibilidades, a saber, pesquisa e filosofia. Se o tema incontestável e amplamente aceito é o conceito de que a música Sacra é uma música separada para o Criador do Universo, devemos filosofar sobre ele, sobre como realmente Deus gostaria de que estivéssemos nos envolvendo com essa música. Podemos também pesquisar para que haja crescimento e essa doutrina se fortaleça e esteja munida de argumentos, o que só irá acontecer caso ela seja de fato consistente e correta. Deus dá conhecimento suficiente a seu povo, e somos nós os culpados se não há correta administração dele (Oséias 4:6).

Ultimamente tenho visto várias discussões sobre como deveria ser a música na igreja, sendo que a própria já tem resoluções cujo conteúdo nos provê informação suficiente. Pessoas têm criticando este ou aquele palestrante, muitas vezes se perdendo em seus próprios argumentos e acabando por apenas mostrar seus conhecimentos sobre o tema, enquanto seus esforços deveriam ser direcionados para a pesquisa diligente e filosofia (de preferência visando edificação, se vêm da parte dos próprios membros). No lugar de criticarmos a outros que estão fazendo o trabalho de Deus, devemos nos concentrar em pesquisar e filosofar sobre o que significa a música separada para Ele, e como podemos oferecê-la.

Que a música de Deus deve ser separada, isso já sabemos; tanto quanto que a raiz cúbica de 27 é 3. Resta-nos ponderar sobre o caráter dessa música.


Fonte: Publicado originalmente em: http://basse-fondamentale.blogspot.com.br/2009/02/sobre-o-incontestavel.html