Culto da “Carne Santa”: Uma Cópia de Métodos

por: Isaac Malheiros

Parte 1

Contextualizando a Campal de Muncie, Indiana

O movimento perfeccionista da Carne Santa atingiu o seu ápice na campal de Muncie, Indiana em 1900. Em reação à mensagem equivocada e ao culto ruidoso da Carne Santa, Ellen White escreveu os mais claros textos contra o perfeccionismo e contra o emocionalismo na adoração. Um desses textos é o famoso “haverá gritos, com tambores, música e dança” [1].

No entanto, há uma chave para entendermos o que ocorreu nessa campal. O pastor Stephen Haskell foi testemunha do que aconteceu em Indiana e descreveu o ocorrido como uma cópia dos métodos do Exército da Salvação. Haskell afirma que os músicos eram “tão treinados em sua linha musical como qualquer coro do Exército da Salvação que já ouvistes. De fato, seu esforço de reavivamento é simplesmente uma cópia fiel do método utilizado pelo Exército da Salvação.” [2]

Ao escrevermos sobre a música da Carne Santa, não devemos desconsiderar a informação de que o que era praticado ali era musicalmente semelhante ao Exército da Salvação [3]. Mas, como era o “método do Exército da Salvação” de fazer música? E por que os adeptos da Carne Santa escolheram esse método?

Para entender, vamos contextualizar a campal da Carne Santa historicamente.

Nessa série de artigos veremos que o que aconteceu em Indiana era apenas o reflexo do que acontecia em toda a América do Norte, movido por duas fortes influências: o Movimento Holiness e o pentecostalismo que estava nascendo nos Estados Unidos. No entanto, o pentecostalismo ainda era muito novo para ser responsabilizado pelo que aconteceu em Indiana. Temos subestimado a influência Holiness/Metodista e superestimado a influência pentecostal no movimento da Carne Santa.

As discussões atuais em torno do culto e da música cristã fazem parte da tradição Wesleyana/Holiness. Bem antes do debate sobre os cultos voltados aos “perdidos” (“seeker services”), o movimento Holiness já realizava cultos assim. Bem antes das discussões sobre música cristã popular e contemporânea, o movimento Holiness produzia e cantava tais músicas. Bem antes da “Bênção de Toronto”, o movimento Holiness já estava “caindo no Espírito” e seus adeptos sendo apelidados de “gritadores” (Shouters) e “saltadores” (Jumpers).

Assim, em vez de tentar conectar o fanatismo de Indiana ao surgimento do moderno Pentecostalismo da Rua Azuza, é mais correto olharmos para trás: nossas raízes metodistas/holiness.

O que foi o Movimento Holiness

O Movimento Holiness foi o resultado da união do Metodismo americano com o reavivalismo do Segundo Grande Despertamento. Isso deu início a uma crescente onda de persuasão perfeccionista na religião Americana que começou nos anos 1830 e durou até bem depois da virada do século.[4]

O Movimento Holiness tinha suas raízes ideológicas e espirituais no reavivamento Wesleyano do século 18. Mas apesar do metodismo ser um dos carros-chefes, o Movimento não era apenas metodista e incluía várias denominações, dentre elas, o Exército da Salvação.

O início do Movimento Holiness pode ser demarcado com a realização da primeira campal “Holiness” e a organização da National Campmeeting Association for the Promotion of Christian Holiness (Associação Nacional de Campais para a Promoção da Santidade Cristã) em 1867.

Veremos claramente que a Campal de Indiana tem algo a ver com as campais do movimento Holiness. Além da mensagem e dos métodos empregados na campal de Indiana, o próprio fato de realizar campais já era uma influência do movimento Holiness.

Copiando a Tradição Holiness de Fazer Campais

A tradição das campais já começou com sinais de excessos e fanatismo. Em 1798, um ajuntamento em Cane Ridge, Kentucky, marcou o início não-oficial de um estilo de adoração que ficou conhecido como “CampMeeting” (“reuniões campais”). Foram vários dias de intensa celebração religiosa que uniu ministros Metodistas, Presbiteriano, Batistas e outros. Muitas das características da campal de Cane Ridge, como reuniões ao ar livre, intenso emocionalismo e manifestações físicas, se tornaram modelo para futuros reavivamentos.[5]

A adoração na tradição “Holiness” se desenvolveu a partir da tradição desses reavivamentos e “campmeetings” do século 19. Nessas campais já era possível encontrar exemplos de demonstração emocional extrema, incluindo pulos, gritos, corridas, sacudidas, latidos e desmaios.

As reuniões campais não foram uma invenção adventista. Os adventistas seguiram o costume evangélico (especialmente o modelo metodista/holiness) de realizar reuniões campais desde a época do movimento milerita. [6]

Como era comum nas campais evangélicas em geral acontecerem fenômenos extáticos, nas campais mileritas esse sempre foi um perigo que rondava. Existem vários relatos de excessos perfeccionistas em reuniões mileritas.

Em 1843, por exemplo, o pastor John Starkweather promoveu o fanatismo da extrema santificação em uma das reuniões campais mileritas. Ele e seus seguidores se diziam capazes de discernir a condição do coração dos adoradores, e no meio de muito murmúrio e gemido, convidavam homens e mulheres a renunciar aos seus “ídolos”, que poderiam incluir broches, faixas, cabelo trançado, ou ate mesmo dentaduras postiças! [7]

Segundo Richard W. Schwarz: “o emocionalismo associado às reuniões campais coloniais não estava inteiramente ausente de suas correspondentes adventistas; orações fervorosas eram frequentemente interrompidas pelos brados de “Glória!” e “Aleluia!”. Ao elevarem-se as emoções, alguns caíam prostrados no chão. Os principais líderes mileritas procuravam impedir que essa excitação saísse do controle, para que não degenerasse em fanatismo e levasse todo o movimento ao descrédito.” [8]

Em 1º de setembro de 1868, aconteceu a primeira reunião campal oficial dos adventistas do sétimo dia. Todavia, “foi com algumas preocupações e temor do emocionalismo e desordem que frequentemente haviam desfigurado o tom espiritual das reuniões campais dos tempos coloniais, que a Associação Geral de 1868 votou recomendar tais reuniões.” [9]

Repare que o perigo do emocionalismo e fanatismo existia, mas a igreja não abriu mão do que seria uma benção apenas por causa do risco de se tornar uma maldição.

Esse princípio nos interessa aqui: apesar das campais de reavivamento serem famosas pelos excessos e fanatismos, a igreja adventista não usou isso como desculpa para não fazer campais.

Um trecho de um discurso de Ellen White de 1891 revela que ela sentia uma certa preocupação exagerada entre os adventistas de não serem confundidos com o Movimento Holiness ou com o Exército da Salvação:

“Quando falamos da graça de Deus, de Jesus e seu amor, falamos do Salvador como alguém que é capaz de guardar-nos do pecado, e salvar perfeitamente todos os que se achegam a ele, muitos vão dizer: ‘Ó, eu temo que você esteja seguindo o povo Holiness. Temo que você esteja indo atrás do Exército da Salvação’. Irmãos, vocês não precisam ter medo dos claros ensinos da Bíblia.” [10]

Infelizmente, as preocupações e temores relacionados ao fanatismo e a desordem de outras reuniões campais se confirmaram mais tarde no adventismo em alguns casos (como nos casos do fanatismo da “carne-santa” na campal de Indiana, e do casal Mackin, que também teve experiências extáticas durante uma campal em Mansfield, Ohio [11]). Mesmo assim, os adventistas aprenderam a separar sabiamente o “bebê” da “água suja” e não jogar tudo fora. As reuniões campais foram mantidas, e abençoaram muitas vidas.

Repetimos esse sábio comportamento quando separamos os malefícios da TV, do radio e da internet e usamos esses meios para anunciar poderosamente o evangelho. No entanto, na música, parece que o menor risco de fanatismo, por mais distante e remoto que esteja, já justifica jogar o “bebê” fora junto com a “água suja”.

Diante de situações semelhantes, o conselho de Ellen White é extremamente sábio:

“O fanatismo virá como sempre vem quando Deus opera. A rede ajunta o bom e o mau, mas quem se atreverá em jogar tudo fora, somente porque alguns não são peixes bons?” [12] E ela completa: “Apegai-vos a tudo o que seja bom. Não tenhais espírito de Farisaísmo; não tenhais atitudes de superioridade ou auto-confiança.” [13]

Esse conselho faz eco à ordem bíblica: “Examinai tudo, retende o bem.” (I Tessalonicenses 5:21).

Conclusões

Conclusão 1: O próprio ato de realizar uma campal já era uma “cópia de métodos”. Especificamente, um método que já surgiu com excessos e foi popularizado pelo Movimento Holiness, também com excessos. É um erro supor que a “cópia de métodos” presente na campal de Indiana estava restrita ao uso de instrumentos musicais.[14]

Conclusão 2: Apesar das Campais terem uma origem questionável, serem frequentemente acompanhadas de excessos emocionais, e serem regularmente realizadas pelo movimento Holiness e por outros grupos não alinhados à teologia adventista [15], os adventistas não deixaram de usar esse método. Ellen White claramente endossou a realização de campais [16], mesmo estando ciente do fanatismo que rondava as campais Holiness e do risco de excessos no adventismo. [17]

No próximo artigo, veremos o que a Carne Santa emprestou do movimento Holiness em termos doutrinários.


Leia também:

Culto da “Carne Santa”: Uma Cópia de Métodos – Parte 2 : A Influência Holiness na Teologia.

Culto da “Carne Santa”: Uma Cópia de Métodos – Parte 3 : A Influência Holiness na Música.


Notas:

[1] “As coisas que descrevestes como ocorrendo em Indiana, o Senhor revelou-me que haviam de ocorrer imediatamente antes da terminação da graça. Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho. Haverá gritos com tambores, música e dança”. Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 36. (voltar)

[2] Carta 1, S. N. Haskell para Ellen White, 25 de Setembro de 1900 (voltar)

[3] Por que os especialistas em música sacra adventista não se interessam em pesquisar essa preciosa informação musical? Criam um totem em cima da palavra “drum” (tambor), mas pulam uma informação tão clara! Os escritores de artigos repressivos também deveriam se interessar por isso. (voltar)

[4] Steven T. Hoskins, “The Wesleyan/Holiness Movement in search of liturgical identity, emWesleyan Theological Journal, p. 1245-125. (voltar)

[5] J. William Frost, “Part V: Christianity and Culture in America”, Christianity: A Social and Cultural History, (Upper Saddle River: Prentice Hall, 1998), p. 430. (voltar)

[6] “Em suas reuniões campais, os mileritas seguiam um modelo colonial previamente desenvolvido pelos metodistas”. Richard W. Schwarz e Floyd Greenleaf, Portadores de Luz(Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2009), p. 39. (voltar)

[7] Ibid. (voltar)

[8] Ibid. (voltar)

[9] Idem, 153. (voltar)

[10] Mensagem “Our Present Dangers”, apresentada em Março de 1891. The Ellen G. White 1888 Materials, p. 904. (voltar)

[11] O curioso (mas ainda não explorado no adventismo) fenômeno extático do casal Mackin está relatado em Mensagens Escolhidas, vol. 3, p. 362-368. (voltar)

[12] Carta 76, 1886. (voltar)

[13] Carta 9, 1886. (voltar)

[14] Antes de condenar toda e qualquer “cópia de métodos”, lembremo-nos de empréstimos históricos como: a Escola Sabatina, o hinário, as semanas de oração, a liturgia, as tendas de evangelismo, os pequenos grupos e, mais recentemente, as jornadas espirituais de 40 dias – nada disso é invenção adventista. (voltar)

[15] No final do século 19, até mesmo o Espiritualismo realizava Campais nos Estados Unidos. Veja, por exemplo em http://www.rootsweb.ancestry.com/~mivhs/vicksburgvillageviewsp5.htm e http://www.cassadaga.org/ Imagine hoje o que diriam os “adventistas históricos” sobre o adventismo dividir um método com os espíritas! (voltar)

[16] Ellen White escreveu que “Deus convida os homens a (…) multiplicar reuniões campais em diferentes localidades, advertir as cidades, e enviar advertência longe e perto, nos caminhos e valados do mundo.” Manuscrito 4, 1899. Ela tinha uma visão positiva a respeito das campais, talvez por causa de seu passado metodista. Foi numa campal metodista em Buxton, Maine que Ellen White entregou sua vida a Deus em 1840. (voltar)

[17] Se fosse aos dias de hoje, alguns adventistas denunciariam a conexão entre as campais e os movimentos evangélicos espúrios como provas da apostasia da igreja e de seu processo de “pentecostalização”. E talvez algum palestrante escatológico até conseguisse ver as Campais como um enorme plano Iluminati (ou Maçom) para dominar o mundo… (voltar)


Fonte: http://www.adoracaoadventista.com