O Violionista do Metrô

por: Gene Weingarten – The Washington Post

Um homem chegou ao Metrô, na estação L’Enfant Plaza, em Washington, DC. Era um jovem alto, usando jeans, camiseta de mangas compridas e um boné de baseball, do time Washington Nationals. Posicionando-se de costas para uma parede, ao lado de uma lata de lixo, abriu um pequeno estojo e retirou um violino. Colocou na caixa aberta diante de si alguns trocados, como incentivo, e começou a tocar o violino.

Eram 7:51 de uma manhã fria de Janeiro. Por 43 minutos, ele tocou seis obras clássicas e neste período passaram por ele 1.097 pessoas. A maior parte dessas pessoas estava indo para o trabalho, o que significa, para a maior parte daquelas pessoas, naquela região, um emprego burocrata de nível médio no governo federal americano.

Cada pessoa que passou por ele teve que tomar uma rápida decisão: Vou parar e ouvir? Vou passar rapidamente, sentindo uma mistura de culpa e irritação e incomodado pela solicitação indesejada de meu tempo e dinheiro? Vou jogar um trocado na caixa, apenas para ser educado? Esta decisão seria diferente se o violinista fosse realmente ruim? E se ele fosse realmente bom? No fundo, a pergunta a ser respondida era: Tenho algum tempo para a beleza?

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Nenhuma daquelas pessoas estava ciente disso, mas aquele violinista tocando contra uma parede nua, no hall de entrada de uma estação do Metrô era um dos mais destacados violinistas da atualidade, usando um dos mais valiosos violinos jamais construído e tocando algumas das músicas mais elegantes jamais escritas. Esta apresentação foi montada pelo jornal Washington Post, como um experimento não científico, de cunho sociológico, acerca de contexto, percepção e prioridades. Em um ambiente banal, em um momento inconveniente, a beleza conseguiria transcender a tudo isso?

Quem estava tocando era ninguém menos do que Joshua Bell, um menino prodígio que se tornou um virtuoso aclamado internacionalmente. Três dias antes aparecer tocando no Metrô, Bell lotou a sala de concertos do Symphony Hall, de Boston, onde os assentos mais baratos custaram US$ 100,00. A idéia do concerto anônimo havia sido colocada diante de Bell, durante um café, três semanas antes, quando ele veio à cidade para tocar na Biblioteca do Congresso. Na ocasião, ele disse: “Parece divertido”. Mas naquela manhã fria de Janeiro, Joshua Bell era somente mais um pedinte, competindo pela atenção de pessoas ocupadas em seu caminho para o trabalho.

O músico tocava um violino feito em 1713, pelo imortal Antonio Stradivarius. Este foi o período áureo do grande luthier italiano, já chegando ao final de sua carreira, quanto tinha acesso às melhores madeiras e sua técnica havia sido refinada até a perfeição. Até hoje, não existem violinos que soem de maneira tão maravilhosa quanto os construídos por ele entre 1710-1720. Este instrumento em particular, ainda conserva seu verniz original. O preço declarado pela sua compra, há alguns anos atrás, foi de US$ 3,5 milhões de dólares.

Ela não tocou peças populares, as quais, pela própria familiaridade, despertariam interesse. As obras primas executadas ali sobreviveram por seus próprios méritos aos séculos, preenchendo com sua grandiosidade catedrais e salas de concerto em todo o mundo. A acústica era surpreendentemente razoável. Apesar de haver sido projetado por razões utilitárias, o ambiente reverberava o som de maneira redonda e ressonante.

Então, o que você acha que aconteceu?

Mesmo tocando anonimamente, Joshua Bell não fez por menos: tocou com entusiasmo, seu corpo curvando-se de acordo com a melodia e erguendo-se na ponta dos pés nas notas mais altas.

Para começar, Bell tocou a Chacone, da Partita No. 2 em Ré Menor de Johann Sebastian Bach. É digno de nota que esta música é considerada uma das mais complexas e difíceis peças para violino; poucos virtuosos conseguem executá-la com a precisão necessária. É uma peça longa, com duração de cerca de 14 minutos.

Passaram-se três minutos antes que algo ocorresse. Sessenta e três pessoas já haviam passado, quando um senhor de meia idade percebeu que havia um músico tocando. Ele diminuiu seu passo e virou a cabeça, mas continuou andando. Meio minuto mais tarde, Bell ganhou seu primeiro donativo. Uma mulher lançou um dólar na caixa e continuou seu caminho.

Somente aos seis minutos de música chega um homem de pouco mais de 30 anos usando calça cáqui, jaqueta de couro e carregando uma pasta. Ele está chegando ao final de sua viajem de casa e sobe as escadas rolantes. É uma subida longa, demora 1 minuto e 15 segundos, se você não subir andando. Então, assim como todos os que passaram por Joshua Bell neste dia sem notá-lo, este homem tem os ouvidos cheios de música, mesmo antes de ver de onde ela vem. Como muitos deles, este homem nota que o som é de boa qualidade. Mas, como muitos poucos dentre eles, este homem chega ao topo da escada rolante e não se apressa a sair, como se Bell fosse algum tipo de incômodo a ser evitado. Este homem é a primeira pessoa a parar par ouvir.

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No vídeo, é possível ver este homem saindo da escada rolante e olhar em volta. Ele localiza o violinista, para, se afasta, mas é atraído de volta. Ele verifica a hora em seu telefone celular – ainda está três minutos adiantado – e então encosta-se a uma parede para ouvir. Ele não conhece música clássica; o mais perto disso que ele conhece é rock clássico. Mas existe alguma coisa naquilo que ele está ouvindo que ele realmente gosta. Segundo suas palavras, “O que ser que seja aquilo, me fez sentir em paz.”

Então, pela primeira vez em sua vida, este homem para para ouvir um músico de rua. Ele permanece ali pelos três minutos de que dispõe, enquanto 94 outras pessoas passam rapidamente. Quando ele parte, não sabendo muito bem o que havia acontecido, mas sentindo que aquilo era especial, pela primeira vez em sua vida ele dá dinheiro a um músico de rua.

É possível observar ainda uma cena reveladora. Um adulto levando uma criança pela mão caminha apressadamente. A criança, de cerca de 3 anos, usa uma agasalho rosa. O adulto, ao ouvir a música, diminui o passo, observa rapidamente, mas decide seguir em frente. A criança, porém, mantém os olhos fixos no violinista, como que hipnotizada. Continua olhando, mesmo quando o adulto a faz mudar de direção. Só desvia os olhos quando o adulto larga a sua mão, para abrir a porta de saída. Mas, ao atravessar a porta, volta-se novamente, como se desejasse voltar para dentro, até que o adulto interpõe-se entre ela e o objeto de sua atenção, bloqueando efetivamente com o corpo a sua linha de visão, obrigando-a a seguir em frente.

Em todo o experimento, não houve qualquer padrão étnico ou demográfico que diferenciasse os grupos de pessoas que paravam para ouvir e os que davam algum dinheiro daquela vasta maioria que se apressava a continuar em frente. Homens mulheres, velhos, jovens, brancos, negros, asiáticos, todos estavam representados nos três grupos. Mas o comportamento de um grupo demográfico permaneceu absolutamente consistente. A cada vez que uma criança passava, o mesmo comportamento se repetia: ela tentava parar para ouvir. E a cada vez, um pai ou mãe apressado a obrigava a prosseguir para a saída.

Todo o evento foi filmado por uma câmera escondida. Quando executado em alta velocidade, o vídeo parece surreal. Os movimentos do violinista permanecem fluidos e graciosos; ele parece estar tão destacado do público – não visto, não ouvido, como se fosse de outro mundo – que podemos nos perguntar se ele está realmente ali. Um fantasma. E então nos conscientizamos: Ele é o que é real; os outros são fantasmas.

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Durante o vídeo, há seis momentos especialmente dolorosos de assistir: é o que acontece quando cada peça de música acaba: nada! A música para. As mesmas pessoas que não haviam notado que ele estava tocando, não notam que ele parou. Nenhum aplauso, nenhum agradecimento. Bell somente toca um curto acorde, experimenta a afinação, como se dissesse: “OK, vamos em frente…” e começa a próxima música.

A cerca de 30 metros de distância, do outro lado do ambiente, há uma banca de jornais que vende bilhetes de loteria. Há uma fila contínua, às vezes de cinco ou seis pessoas. Mas nenhuma delas, mesmo estando parada em uma fila, e com uma possível linha de visão perfeita, virou-se para ver quem estava tocando. Nenhuma delas, durante os 43 minutos. Elas só se moviam lentamente em direção à máquina de bilhetes, olhos fixos no grande prêmio.

Depois da “Chacona” foi a vez da “Ave Maria” de Franz Schubert. Esta oração musical tornou-se uma das mais familiares e duradouras peças da música religiosa de toda a história. Então, toca “Estrellita”, de Manuel Ponce; depois uma música de Jules Massenet e então começa uma gavotte de Bach, uma dança alegre e animada. Mas ainda assim, ninguém presta atenção.

Assistindo ao vídeo, dias depois, Joshua Bell se admira: “Estou surpreso com a quantidade de pessoas que não prestam atenção alguma, como se eu fosse invisível. E eu estou fazendo muito barulho!” E, na verdade, ele está. Não é preciso conhecer música para notar que aquele violinista está tocando de uma forma tão vibrante e complexa que às vezes parece haver dois instrumentos tocando em harmonia.

As pessoas, entrevistadas mais tarde, disseram estar ocupadas, ou com outras coisas na cabeça. Uma delas, entrevistada poucas horas depois, não se lembrava de haver qualquer violinista à vista no Metrô, apesar de haver passado a pouco mais de um metro de distância dele. Mas não havia nada de errado com a audição desta pessoa. É que ela estava com fones de ouvido, ouvindo seu iPod. Para muitos de nós, a explosão da tecnologia limitou, e não expandiu nossa exposição a novas experiências. Cada vez mais buscamos informações de fontes que tem a mesma opinião que nós já tínhamos. O com o iPod, ouvimos aquilo que já conhecemos, nós programamos a nossa própria lista de músicas.

Em frente à saída da escada rolante [à direita do vídeo], há uma banca de engraxate. A mulher que trabalha ali é brasileira e ela diz que já viu muitos músicos ambulantes. Mas, como eles sempre fazem muito barulho isso é ruim para os negócios; então ela tem memorizado no celular o telefone da segurança, e liga sempre que se sente incomodada. E sobre Joshua Bell? Ela diz que ele também fez muito barulho, mas que “ele era muito bom, aquele rapaz. Foi a primeira vez que eu não chamei a polícia.” Ela ficou surpresa em saber que se tratava de um músico famoso, mas não se surpreendeu ao saber que as pessoas não prestaram atenção. “Se algo assim acontecesse no Brasil todos iriam parar para ver. Nas aqui, não.” [Este tradutor, brasileiro de São Paulo, tem suas dúvidas…]

Então, chega o herói cultural do dia. Um homem baixo, calvo. Ele chega ao final da escada rolante pouco depois de Joshua Bell iniciar a peça final, uma reprise da “Chacona”. No vídeo é possível ver este homem parar, localizar a fonte da música, e então posicionar-se depois da banca de engraxate, perto da fila para os bilhetes de loteria, permanecendo ali por nove minutos.

Como todas as pessoas entrevistadas para este artigo, ele foi abordado por um repórter ao sair do prédio, e deu seu número de telefone, sob o pretexto de que se tratava de uma pesquisa sobre os serviços de transporte. Quando recebeu uma ligação, mais tarde, a primeira pergunta que foi feita – assim como a todos os outros entrevistados – é se ele havia visto algo de diferente em sua viagem para o trabalho. Mas, de mais de 40 pessoas contatadas, ele foi o único que mencionou imediatamente: “Havia um violinista tocando perto da escada rolante na estação L?Enfant Plaza.” E continuou, elogiando: “Era um excelente violinista. Nunca tinha ouvido alguém deste calibre. Era tecnicamente perfeito, com um ótimo fraseado. E ele tinha um violino muito bom, com um som grandioso, ressonante. Fiquei a uma certa distância para ouvi-lo, de forma a não me intrometer em seu espaço.”

Este homem conhece música clássica. É um fã de Joshua Bell, embora não o tenha reconhecido, pois não possui uma foto recente dele. No vídeo, é possível vê-lo olhando de vez em quando para os lados, atônito. “As outras pessoas não estavam compreendendo; não estavam registrando aquilo. Isso era chocante para mim.” Em Nova Iorque, onde cresceu, ele estudou violino de forma séria, pretendendo ser um concertista; mas abandonou aos 18 anos, quando decidiu que nunca seria bom o bastante. Atualmente, ele trabalha para os Correios e não toca muito seu violino. Ao sair ele “humildemente” (nas suas palavras) coloca $ 5,00 na caixa e se afasta rapidamente do homem que uma vez sonhou ser.

Em certo momento, durante esta música, foi a primeira vez que mais de uma pessoa estava ouvindo. Enquanto o homem calvo estava olhando, uma mulher parou e se posicionou a pouca distância de Bell. Ela também tocava violino quando criança. Ao virar-se para sair, cochichou para um homem perto dela: “Eu realmente não queria ir embora.” Este homem era um repórter do Washington Post.

Nos 43 minutos que Bell tocou, sete pessoas deram uma parada para ouvir, por pelo menos um minuto. Vinte e sete pessoas deram algum dinheiro, num total de US$ 32,17. Sim, algumas pessoas deram centavos…

Ao se prepararem para este evento, os editores do Washington Post discutiram como lidar com eventuais possíveis cenários. Havia o consenso geral de que poderia haver problemas de controle da multidão, uma vez que numa cidade sofisticada como Washington, muitas pessoas certamente reconheceriam Joshua Bell.

Porém, somente uma mulher, que havia assistido ao concerto de Joshua Bell na Biblioteca do Congresso o reconheceu, mas ela só chegou perto do final da audição. Ela não tinha ideia do que estava acontecendo, mas ali estava ele e ela não perderia isso por nada. Ela se posicionou a três metros de distância, exatamente em frente a ele, na “primeira fila”, com um grande sorriso no rosto e assim ficou até o final.

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Ao terminar a música ela fala: “Eu vi você na Biblioteca do Congresso… Foi fantástico. Essa é uma daquelas coisas que só poderiam acontecer em D.C. (Washington).” Mais tarde, ela disse ao jornal: “Joshua Bell estava ali, tocando no horário de pico, e as pessoas não paravam, nem mesmo olhavam; e alguns estavam jogando moedas de $ 0,25 para ele!”

Depois deste evento, Joshua Bell partiu para uma turnê de concertos pelas capitais da Europa. Ao terminar a turnê, voltou aos Estados Unidos. Ele tinha que voltar, para receber o prêmio Avery Fisher, como um reconhecimento de que o violinista da estação L’Enfant Plaza era o melhor intérprete de música clássica da América.


A conclusão que podemos tirar é de que estamos acostumados a dar valor às coisas, quando estão num contexto. Bell, no metrô, era uma obra de arte sem moldura. Um artefato de luxo sem etiqueta de grife. Esse é mais um exemplo daquelas tantas situações que acontecem em nossas vidas, que são únicas, singulares e a que não damos importância, porque não vêm com a etiqueta de preço.

Se não conseguimos conceder nem mesmo um momento para parar e ouvir um dos melhores músicos no mundo tocando uma das músicas mais complexas jamais escritas, com um dos instrumentos mais apurados jamais fabricados… quantas outras coisas estamos perdendo?


Fonte: Washington Post, Domingo, 8 de abril de 2007

Artigo original completo: http://www.washingtonpost.com

O vídeo completo está disponível no YouTube: https://youtu.be/hnOPu0_YWhw

Traduzido, resumido e adaptado por Levi de Paula Tavares em Fevereiro de 2012