Artimanhas Evangelísticas: A Loucura da Pregação ou a Pregação da Loucura

por: Samuel Koranteng-Pipim

Como devemos comunicar a mensagem de Deus? O método influencia em alguma coisa?

O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram, a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas, cisternas rachadas que não retêm água. Agora, por que você vai ao Egito beber água do Nilo? E por que vai à Assíria beber água do Eufrates?(Jeremias 2:13, 18, NVI).

Desde os tempos bíblicos, e até hoje, a clara e persuasiva proclamação da Palavra de Deus tem sido o meio mais eficiente de comunicar a Sua verdade. O apóstolo Paulo se refere a esse método como a “loucura da pregação(I Coríntios 1:21).

Hoje, contudo, parece que estamos nos deslocando desta pregação simples, embasada biblicamente, para artimanhas, ora ridículas ora bizarras, vindas do mundo secular. Até podemos convencer a nós mesmos de que não há nada errado com essas “artimanhas”. Mas os incrédulos mais observadores, ao observar o modo pelo qual imitamos cegamente as características do mundo, podem, de forma justificada, dispensar nossa mensagem, chamando-a de “pregação da loucura“. Deixe-me explicar.

Mágico Evangélico?

Recentemente, recebi um email urgente de um Adventista do Sétimo Dia, graduando de uma universidade pública nos Estados Unidos. Ele insistiu para que eu compartilhasse com ele minhas opiniões sobre um “assunto delicado” que se levantou em uma das igrejas locais de sua associação. O problema estava relacionado ao plano desta igreja local de convidar um “mágico evangélico”, para ser o narrador convidado em uma semana de oração. O estudante expressou sua preocupação deste modo:

“Temo que ao fazer uso de truques mágicos (os mesmos usados por mágicos seculares) estamos obscurecendo a linha que separa as coisas boas das coisas más. Mesmo não crendo que, necessariamente, aqueles que estão envolvidos com truques manuais usem poderes sobrenaturais, temo que o uso de ilusões para propagar alguma verdade do evangelho possa fazer com que percamos o foco e estejamos simplesmente colocando tentações na frente de nossas crianças.

“Os irmãos da igreja à qual me referi não crêem que este seja uma questão de certo e errado. Acreditam que os que se opõem a esse tipo de prática na igreja (para contar histórias às crianças) ou em nossas escolas (para entretenimento ou mesmo em semanas de oração) são ‘ultra-conservadores’ e estão vendo maldade onde ela não existe. Não tenho certeza se há mesmo uma distinção muito clara entre certo e errado neste caso. Por enquanto (ainda tenho a esperança de estudar mais sobre esse assunto), vejo como algo errado, por causa do potencial de maldade e também porque obscurece a linha entre o bem e o mal (estes irmãos argumentam, inclusive, que a Bíblia realmente não se opõe à ‘mágica’). Tenho a sensação de que, se estamos lidando com algo que está numa área duvidosa, deveríamos, como igreja, nos afastar disso. Devemos abominar toda e qualquer ‘aparência’ do mal.

“Desta forma, não sei se a igreja possui alguma posição sobre este assunto. Já fui desafiado a mostrar se este tipo de prática é condenada, seja na Bíblia, seja no Espírito de Profecia. Fui lembrado de que a associação local patrocinou alguns membros da igreja para assistirem seminários e conferências para mágicos evangélicos. Foi-me lembrado também que houveram “mágicos evangélicos” Adventistas (ou ilusionistas do evangelho), apresentando-se durante a Conferência Geral em Toronto, Canadá. Estou investigando no vasto oceano de informação e argumentação por aí a fora, para conseguir alguns princípios aplicáveis a este assunto. Solicitei a esta igreja em particular que apontasse irmãos para estudar o assunto e estabelecer um fórum para discuti-lo. Tentei a mesma coisa no conselho escolar, mas a maioria esmagadora dos membros deste conselho ‘não via’ nada de errado com esse tipo de prática. Estou me preparando para enfrentar a comissão da igreja, mas não posso ir até eles com argumentos simplórios, sem uma razão bíblica. Alguma sugestão?”

Poucos teriam imaginado que, algum dia, uma congregação Adventista do Sétimo Dia poderia realmente considerar a possibilidade de usar um assim chamado “mágico evangélico” para comunicar verdades espirituais em um encontro religioso. Porém, esta é mais uma evidência de uma tendência em crescimento: introduzir na igreja alguns estilos biblicamente questionáveis de adoração e evangelismo. O elemento mais surpreendente sobre este desenvolvimento é o fato de que um número esmagador de membros simplesmente não vê nada de errado nisso.

Nós já tivemos “rock evangélico” e “danças de louvor” em cultos de adoração, “marionetes evangélicos”, “palhaços evangélicos”, “discotecas evangélicas” e apresentações teatrais evangélicas para alcançar a juventude, os jovens adultos e os “sem igreja”. Agora, ao que parece, precisamos ter “mágicos evangélicos” para os nossos cultos e semanas de oração. Ao apelar para essas “artimanhas evangelísticas”, estamos correndo o risco de transformar a loucura da pregação em uma pregação da loucura?

Neste artigo, vou argumentar que, na mesma medida em que essas artimanhas evangelísticas acomodam a religião bíblica aos gostos de corações não renovados, tais métodos contemporâneos evidenciam nossas boas vindas ao mundanismo no interior da igreja. Mais do que isso, a dependência destes métodos mundanos para a comunicação do evangelho é errônea e contrária aos ensinamentos bíblicos da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Mundanismo na Igreja.

O ex-líder soviético Nikita Khruschev teria relatado a seguinte história, para ensinar a necessidade da vigilância.

A história conta que, em uma época na qual houve uma onda de pequenos roubos na URSS, as autoridades soviéticas colocaram guardas em muitas das fábricas estatais. Em uma madeireira de Leningrado o guarda conhecia muito bem os operários. Na primeira noite, Pyotr Petrovich saiu empurrando um carrinho de mão e, sobre o carrinho, havia um enorme saco, de conteúdo suspeito.

Guarda: “Venha cá, Petrovich. O que você tem aí?”
Petrovich: “Apenas serragem e lascas de madeira.”
Guarda: “Ei, pode parar, eu não nasci ontem. Mostre o que você tem aí.”

Petrovich mostrou, e não havia nada além de serragem e lascas de madeira. Então o guarda permitiu que ele guardasse tudo de volta no saco e fosse para casa. A mesma coisa aconteceu todas as noites, a semana inteira, e o guarda foi ficando extremamente frustrado. Finalmente, sua curiosidade superou sua frustração.

Guarda: Petrovich, eu te conheço. Conte o que você anda surrupiando daí de dentro e eu deixo você ir.
Petrovich: Carrinhos de mão!

Mesmo que possamos rir desta história, também devemos nos dar conta de que na arena da adoração contemporânea e dos métodos de alcançar novos membros, o mundo está rindo de nós, Adventistas do Sétimo Dia que acreditamos na Bíblia. Estabelecemos ao nosso redor patrulhas contra a secularidade através da construção de nossas escolas, colégios, estações de rádio e TV, casas publicadoras, livrarias, etc. Mas o diabo, bem embaixo de nossos olhos, carrega o mundanismo e o paganismo para dentro de algumas destas instituições de nossa igreja. E muitos não vêem isso, para não dizer os que não vêem nada de errado nisso.

Mais do que isso, na verdade estamos importando e fervorosamente promovendo esses métodos questionáveis de adoração e evangelismo, vindos diretamente do mundo secular e de outras religiões e igrejas. Em alguns casos, adventistas têm saído em busca de seminários teológicos não adventistas para estudar esses métodos, ou assistem a seminários de treinamento em adoração, conquista de almas e liderança na Willow Creek e outras organizações e igrejas inter-denominacionais, ecumênicas e carismáticas. Contudo, falhamos em descobrir que, quando mudamos nosso método de proclamação das verdades espirituais, mudamos a própria mensagem. E quando mudamos a mensagem de Deus, mudamos o Deus da mensagem.

Uma vez que estas artimanhas comprometem a credibilidade de nossa mensagem, os Adventistas têm sido aconselhados contra a cópia de métodos encontrados em outras igrejas.

Nossa Tentação.

No decorrer da história da Igreja, sempre houve para nossos pastores a tentação de moldar nossas práticas à semelhança das outras igrejas. Ellen White, em sua época, alertou sobre isso: “Uma nova ordem de coisas se abateu sobre o ministério. Existe agora um desejo de moldar-se à semelhança de outras igrejas” (Sinais dos Tempos, 27 de dezembro de 1899). Ela expressou sua preocupação com respeito à influência de outras igrejas sobre nossos pastores: “Alguns pastores estão adotando os padrões de outras igrejas, copiando seus hábitos e maneiras de atuar” (ibid., 25 de maio de 1882).

Alertando acerca dos perigos inerentes à aceitação dos convites de outras igrejas para o emprego de seus métodos de atuação, a Sra. White escreveu: “Eles podem desejar que nos unamos a eles e aceitemos seus planos, e podem fazer propostas acerca de nossos planos de ação, o que estaria dando ao inimigo certa vantagem contra nós” (Boletim da Conferência Geral, 13 de abril de 1891).

Ao abraçar o conselho da Sra. White, os Adventistas do Sétimo Dia não estão presumindo que possuem, sozinhos, toda a verdade. A Palavra de Deus é clara em dizer que cada ser humano existente no mundo de Deus tem ao menos um pouco de luz (João 1:9; Tiago 4:17), e que Deus Se revela pela natureza, história, experiência humana e de várias outras maneiras (Salmos 19; Romanos 1 e 2; Hebreus 1:1-2. Conseqüentemente, os adventistas sustentam que algo da verdade divina pode ser achado até no mundo secular (seja ele ateu ou materialista), nas religiões pagãs ou não cristãs, assim como em todas as denominações cristãs (católica, ortodoxa, protestante e pentecostal). Deus é a verdade e a fonte fundamental de toda a verdade. Devemos nos aliar à verdade, onde quer que ela seja encontrada.

Verdade Presente

Os Adventistas, porém, insistem no fato de que qualquer verdade encontrada em outras igrejas é também cheia de exceções. Ao acreditar que Deus construiu o adventismo como Seu repositório da verdade para os dias finais, Adventistas afirmam ter a verdade presente, o evangelho eterno para os últimos dias.

A questão, portanto, não é se outras crenças ou igrejas possuem ou não alguma verdade. Mas sim se os nossos pastores devem ou não procurar por nova luz em outras igrejas. Dada a nossa autodenominação como depositários da verdade de Deus para os últimos dias, será mesmo necessária a nossa ida às igrejas que ainda vivem em escuridão espiritual, para descobrir nova luz ou verdades adicionais? Se estas igrejas representam a “Babilônia”, e se é verdade que “caiu Babilônia”, como conseguiremos dizer aos nossos irmãos e irmãs que estão na “Babilônia”, “sai dela povo meu” (Apocalipse 18:4), quando nós mesmos estamos retornando à “Babilônia” para recebermos instruções dela?

Cisternas quebradas.

Séculos atrás, o profeta Jeremias discursou contra essa tendência de parte do povo de Deus de imitar as artimanhas encontradas em outras crenças: “O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram, a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas, cisternas rachadas que não retêm água. Agora, por que você vai ao Egito beber água do Nilo? E por que vai à Assíria beber água do Eufrates?” Jeremias 2:13, 18, NVI).

Ellen White deixou claro o motivo para que não bebamos de cisternas quebradas: “Estamos correndo perigo de cometer erros em nossos esforços missionários, em perigo de falharmos na compreensão de quão essencial é a obra do Espírito Santo sobre o coração. Uma nova ordem de coisas entrou no ministério. Há desejo de moldar-se segundo outras igrejas, e simplicidade e humildade são quase desconhecidas. Os ministros jovens procuram ser originais, e introduzir idéias e planos novos para o trabalho. Alguns iniciam reuniões de reavivamento, trazendo assim muitos conversos para a igreja. Passada, porém, a emoção, onde estão os convertidos? Não se vêem arrependimento e confissões de pecados. O pecador é instado a crer em Cristo e aceitá-Lo, sem consideração quanto a sua vida passada de pecado e rebelião. O coração não é quebrantado. Não há contrição de alma. Os supostos conversos não caíram sobre a Rocha, Cristo Jesus” (Sinais dos Tempos, 27 de dezembro de 1899).

No passado, logo depois do “desapontamento”, a Sra. White avisara aos membros de nossa igreja para que não procurassem “nova luz”, mesmo naquelas denominações religiosas com raízes no movimento do advento, mas que não tinham aceitado a nova verdade: “Os diferentes grupos de professos crentes do advento têm cada um deles um pouco de verdade, mas Deus deu todas essas verdades aos Seus filhos que estão sendo preparados para o dia de Deus. Ele tem dado verdades que nenhum desses agrupamentos conhece, nem entenderão. Coisas que para eles são seladas, o Senhor abriu aos que verão e estarão prontos a compreender. Se Deus tem alguma nova luz a comunicar, Ele permitirá que Seus escolhidos e amados a compreendam, sem que precisem ter a mente iluminada pelo ouvir os que estão em trevas e erro” (Primeiros Escritos, p. 124, ênfase minha).

Ela continua: “Foi-me mostrada a necessidade dos que crêem estarmos tendo a última mensagem de misericórdia, de se separarem dos que estão diariamente absorvendo novos erros. Vi que nem jovens e nem velhos devem assistir às suas reuniões; pois é errado assim encorajá-los enquanto ensinam o erro que é veneno mortal para a alma e doutrinas que são mandamentos de homens. A influência de tais reuniões não é boa. Se Deus nos libertou de tais trevas e erros, devemos ficar firmes na liberdade com que Ele nos tornou livres e regozijar na verdade. Deus Se desagrada de nós quando assistimos ao erro sem a isso ser obrigados” (Ibidem, pp. 125, 125, ênfase minha).

A despeito destes avisos, um crescente número de membros e líderes adventistas “não vê nada errado” com as artimanhas evangelísticas atuais. Estamos adotando e francamente promovendo esses métodos mundanos de entretenimento para a nossa própria adoração e serviços de evangelismo. Lamentavelmente, aqueles que levantam preocupações sobre isso são rotulados de “ultraconservadores”. Por que isso acontece?

Porque “Não Vemos Nada de Errado”.

Certamente, muitos em nosso meio que fazem uso dos vários tipos de artimanhas evangelísticas (rock evangélico, palhaços evangélicos, café evangélicos, mágicos evangélicos, etc.) são sinceros no desejo de presenciar uma renovação espiritual na igreja e querem mesmo atrair novas almas a Cristo. Muitos que defendem o uso dessas coisas estão convencidos de que Deus irá usar essas formas de entretenimento, adaptadas de outras igrejas, para ganhar e manter os jovens dentro de nossa igreja. Sem julgar seus motivos e sinceridade, gostaria de sugerir algumas outras razões pelas quais alguns de nós simplesmente não conseguem ver nada de errado nessas inovações contemporâneas.

1. Ansiedade

Há muitos de nós cujo testemunho e exemplo como pais e professores tem sido falho em persuadir nossos jovens. Os jovens têm observado que, ao mesmo tempo em que afirmamos com precisão “a Bíblia e somente a Bíblia”, muitos de nós não temos uma experiência de vida ao lado do Autor da Bíblia. O batismo parece mais uma cerimônia de formatura do que o recomeço de uma nova vida com Cristo. Nossa identidade como “igreja remanescente” nos torna complacentes ao invés de nos motivar a cumprir nossa divina missão no mundo. Afirmamos constantemente que “temos a verdade”, mas freqüentemente a verdade não nos tem. Nossa pregação, ensino e evangelismo podem abarrotar a mente de informações, sem trazer a investigação profunda da alma ou a humildade de coração que é resultado da transformação de caráter. Nossas posições éticas acerca de questões sociais refletem conceitos pragmáticos, ao invés de fidelidade às Escrituras. E ao invés de nossa adoração ser reverentemente vibrante, tem a tendência de ser tediosa e estéril, ou emocional e superficial.

Ao observar as inconsistências e hipocrisias citadas acima, muitos de nossos jovens estão impacientes para cortar qualquer ligação com aquilo que percebem ser uma fé hipócrita. Seus pais e professores, em franco desespero para segurá-los no aprisco, apóiam todo modismo mundano, mesmo que isso signifique importar o rock evangélico, palhaço evangélico, ou mágico evangélico.

Embora alguns de nós, que nos encaixamos nesta descrição, possamos ter a sensação de que essas formas de adoração e evangelismo são incompatíveis com o cristianismo bíblico, sentimo-nos incapazes de fazer oposição a esses métodos porque, de fato, compartilhamos os mesmos valores mundanos, não fazendo praticamente nada pelo Senhor. Por outro lado, nossos filhos e alunos querem ser membros ativos na igreja. Mas o único modo que eles conhecem de fazer isso é através dessas formas idólatras de adoração.

2. Líderes Fracos da Igreja.

Infelizmente, alguns de nossos pastores e lideres da igreja são os culpados pela introdução de artimanhas evangelísticas na igreja. Parecemos colocar nossa popularidade, segurança empregatícia, posição e a ilusão de aparente sucesso, acima de nossa obrigação com o Sumo Pastor. Aparentemente, tememos que se nos posicionarmos contra essas formas de mundanismo em nossas igrejas, poderíamos criar inimigos e colocar em risco o apoio de nosso “eleitorado”.

Em alguns casos, temos feito menos do que deveríamos fazer para liderar nossas congregações na direção do reavivamento e de um evangelismo significativo. Raramente pregamos mensagens baseadas na Bíblia. Com uma pregação confusa e ensinamentos paralisados pela incerteza, nossas igrejas estão morrendo. Por conseqüência, quando algo errado é introduzido na igreja em nome do evangelismo e da inovação na adoração, já estamos com a moral abalada demais para combater o erro. Achamos mais fácil entrar na roda da novidade, do que corajosamente nos apegarmos à verdade.

3. Negação da Fé.

Outra razão pela qual não vemos nada de errado com as artimanhas evangelísticas, é que alguns de nós já abraçamos a Alta Crítica liberal. Conseqüentemente, não acreditamos na eficácia da Palavra de Deus para guiar almas a Cristo e mantê-las na fé. Também não acreditamos que a nossa igreja seja a igreja do final dos tempos descrita na profecia, para a qual as outras religiões deveriam vir para encontrar a verdade. Para aqueles de nós que compartilham desta visão, nossa igreja não é o remanescente, mas apenas “parte do remanescente”. Mesmo que venhamos a aceitar partes de nossa fé comum, como o sábado ou os princípios de saúde, no fundo de nossos corações, não reconhecemos a individualidade de nossa mensagem, a distinção de nossa identidade, a dimensão escatológica de nossa esperança e a urgência de nossa missão.

A integridade ética sugere que, se perdemos a fé e a certeza de nossos pioneiros, e não pudermos recuperá-las, deveríamos nos demitir de nosso emprego na igreja. Mas nem todos têm a coragem de fazer isso. (Alguns confessam suas posições religiosas apenas depois da aposentadoria). Assim, no desejo de evitar os rótulos de “seita” e “sectarismo”, que comumente caracterizam os Adventistas do Sétimo Dia, efetivamente importamos artimanhas evangelísticas e adoracionais tanto do mundo secular, quanto de outras religiões e igrejas.

4. Falta de Conversão.

Há outra razão pela qual alguns de nós defendem as artimanhas evangelísticas e não vêem nada de errado com isso. Talvez, mesmo sem que saibamos disso, não tenhamos sido completamente convertidos. Nossos gostos e sentimentos são ainda mundanos. Somos sinceros quando dizemos que não vemos nada de errado com essas inovações biblicamente questionáveis. E isso acontece porque as coisas espirituais são percebidas espiritualmente.

Deste modo, quando os santuários dedicados à adoração do Santo Deus são transformados em auditórios para a adoração do deus do entretenimento, não vemos nada de errado. Podemos parabenizar a nós mesmos por finalmente conseguir obter uma “programação atual para a igreja, que vai ao encontro das necessidades de nossa geração”. Simplesmente não percebemos que o deus deste mundo nos cegou (ver II Coríntios 4:4). Sem uma conversão verdadeira, não há esperança de mudarmos a nossa mente contra a utilização de métodos mundanos de adoração e evangelismo.

Entretenimento Mundano para Comunicar o Evangelho?

É freqüentemente sugerido que, para conseguirmos alcançar o mundo com o evangelho, temos que empregar os métodos mundanos para proclamar a Verdade de Cristo. Mas essa afirmação é indefensável por pelo menos duas razões: 1. Métodos mundanos banalizam a mensagem; 2. Métodos mundanos são contrários ao ensinamento bíblico.

1. Banalizando a Mensagem

Mesmo que estivermos efetivamente pregando o evangelho eterno, banalizamos e depreciamos a importância da mensagem ao empregar métodos mundanos de entretenimento para comunicar a verdade. Entretenimento é entretenimento e raramente é visto pelo público como algo sério ou um veículo de proclamação de mensagens importantes. Se adotarmos elementos de entretenimento como o rock, teatro, palhaços, marionetes ou mágicos, nossa mensagem irá falhar na intenção de formar alguma necessidade moral nos ouvintes.

Se é verdade que a música rock (disfarçada em música de louvor ou dança de louvor) é o método mais eficaz de alcançar os jovens contemporâneos, por que os professores de matemática ou de química não dão suas aulas ao som de rock ou hip-hop? Por que os políticos não empregam palhaços ou ilusionistas na apresentação de suas mensagens políticas?

O senso comum nos indica que essas mídias de entretenimento não são os métodos de maior credibilidade na hora de comunicar mensagens sérias. Um médico, ao atender um paciente aflito, não se veste como um palhaço ao invés de dizer que ele possui um câncer. Se um médico, que quer ser levado a sério, não faz uso desse tipo de frivolidade, não é uma loucura anunciar a mensagem de aviso e julgamento de Deus a um mundo moribundo através do entretenimento?

Jesus não usou artimanhas de entretenimento para pregar o Sermão da Montanha. No dia do Pentecoste, Pedro não montou uma bateria ou pediu à Maria que liderasse uma dança de louvor para anunciar a ressurreição de Jesus e a sua coroação no céu. E Paulo não persuadiu as pessoas no Areópago usando mágicos evangélicos.

Estamos enganando a nós mesmos se acreditamos que bateria, luzes piscantes, fantasias, ilusionismos e barulhos são capazes de representar a santidade infinita e a misericórdia de Deus a uma geração perdida. Aqueles de nós que fazem uso desse tipo de artimanhas mundanas só podem fazer isso porque temos servido a um deus diferente dAquele adorado pelos apóstolos.

O apóstolo Paulo deixa claro que o método mais excelente de proclamar verdades espirituais é pela pregação da palavra. “Visto que (…) agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação. Porque a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria humana, e a fraqueza de Deus é mais forte que a força do homem.” (I Coríntios 1:21,25).

2. Contrário à Escritura

É um erro pensar que o mundo irá abraçar a nossa mensagem quando usamos métodos mundanos. O Novo Testamento nos diz que quando Cristo veio ao mundo, “o mundo não o conheceu” (João 1:10), porque ele “não era deste mundo” (João 8:23). O que nos faz crer que poderemos ter sucesso onde Cristo falhou?

O próprio Jesus mencionou que os cristãos “não são deste mundo, como Eu mesmo não sou” (João 17:16, cf. versos 9 e 14). Ele afirmou enfaticamente que as obras deste mundo são más (João 7:7). Ele disse que os verdadeiros crentes não são deste mundo e orou para que estes fossem afastados dos maus caminhos (João 17:14, 15). Pela razão de o Espírito de Deus se firmar contra o espírito do mundo (I Coríntios 2:12), o evangelho não deveria ser apresentado em parceria com os padrões do mundo. “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se (…) para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:2 NVI).

Os apóstolos também ensinaram que a “amizade com o mundo é inimizade contra Deus” (Tiago 4:4) e que o mundo “corrompe” o crente (Tiago 1:27). Portanto, cristão são estimulados: “Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens não provém do Pai, mas do mundo.” (I João 2:15 a 16 NVI).

Estamos abandonando o ensinamento bíblico quando pensamos que aquilo que hoje é conhecido como rock evangélico, palhaço evangélico, mágico evangélico e quaisquer outras formas de entretenimento evangélico podem legitimamente ser empregadas para comunicar verdades espirituais. As Escrituras ensinam que o mundo foi deixado à sua própria sorte, “sem esperança e sem Deus” (Efésios 2:12). Assim, ao invés de tomar emprestado métodos mundanos para alcançar o mundo, os cristãos são enviados como o apóstolo Paulo, “para abrir-lhes os olhos e convertê-los das trevas para a luz, e do poder de Satanás para Deus” (Atos 26:18).

Evangelismo “Isca-e-Anzol”?

É freqüentemente sugerido que, como a maioria das pessoas (especialmente os jovens) não quer ouvir sobre o evangelho, temos que oferecer entretenimento evangélico e artimanhas evangelísticas como uma isca. Uma vez que os tenhamos atraído por esses métodos contemporâneos, então podemos “fisgá-las” com a mensagem verdadeira. O texto base para justificar o uso de métodos mundanos para alcançar pessoas é a afirmação de Paulo:

“Tornei-me judeu para os judeus, a fim de ganhar os judeus. (…) Para os que estão sem lei, tornei-me como sem lei (…), a fim de ganhar os que não têm a Lei. Para com os fracos tornei-me fraco, para ganhar os fracos. Tornei-me tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns.” (I Coríntios 9:20-22). Assim, alguns defendem, devemos usar qualquer coisa que seja agradável ao ouvido das pessoas, de forma a conseguir ouvintes para o evangelho.

Mas o contexto nos revela que Paulo estava falando de pregação (ver do verso 16 em diante) não do uso de métodos mundanos de evangelismo. O apóstolo afirmou que em sua pregação e testemunho, sempre adaptava a mensagem ao nível de compreensão dos ouvintes. Em outras palavras, ele sempre falou de forma apropriada. Portanto, I Coríntios 9 não nos ensina que Paulo usou o método “isca e anzol” de evangelismo. Pelo contrário, ele convencia os diferentes povos sobre a Palavra de Deus utilizando a pregação como método.

Além disso, a igreja de Deus para os últimos dias foi divinamente confiada para proclamar o evangelho eterno. Esta comissão é um grande privilégio. Mas também é uma solene responsabilidade. Porque “o que se requer destes encarregados é que sejam fiéis”(I Coríntios 4:2). A fidelidade para a qual a igreja é chamada nos compele a preservar a integridade da mensagem através da preservação do método de comunicá-la.

Portanto, o apóstolo Paulo nos incita a não tentarmos “fisgar” pessoas através da “isca” do entretenimento, para que assim elas sejam “pescadas” para o evangelho. Ele escreve: “Pois nossa exortação não tem origem no erro nem em motivos impuros, nem temos intenção de enganá-los; ao contrário, como homens aprovados por Deus para nos confiar o evangelho, não falamos para agradar pessoas, mas a Deus, que prova o nosso coração. Vocês bem sabem que a nossa palavra nunca foi de bajulação nem de pretexto para ganância; Deus é testemunha.” (I Tessalonicenses 2:3-5).

Note duas verdades nesta passagem. Primeiro, a palavra grega plane é traduzida como “erro”. A última palavra sobre qualquer assunto deveria ser sempre verdade. “O Evangelho ou é verdade ou não é. Paulo baseou sua vida inteira na verdade do evangelho. Em nossos dias há uma tendência de julgar padrões pelos valores errados. Com freqüência ‘isso funciona?’ é perguntado mais vezes do que ‘isso é verdade?’. O teste de validade do evangelho é a verdade. O perigo em pregar somente para atrair os ouvintes é obvio. É muito mais fácil conseguir prover soluções que funcionam do que fornecer verdades a serem confrontadas. O teste de fogo para todo sermão ou classe bíblica deve ser: isso é verdade? Se Cristo é meramente apresentado como um meio pelo qual conseguimos sucesso, felicidade, ou qualquer outra coisa, estamos traindo o Evangelho do Senhor. Somos culpados por engano e erro, mesmo que estejamos tendo sucesso em atrair seguidores.[1]

Segundo, a palavra grega dolos, traduzida por “engano” em I Tessalonicenses 2:3, significa “artifício” ou “isca” (ou “astúcia”, “sutileza”, ou “chamariz”). Não há lugar para artifícios ou manipulação no evangelismo. Por isso a Bíblia na Nova Versão Internacional traz a passagem com a seguinte tradução: Pois nossa exortação não tem origem no erro nem em motivos impuros, nem temos intenção de enganá-los (ênfase minha).

Não devemos empregar o “engano” na proclamação do evangelho. Nossa mensagem deve determinar o método. Paulo nos diz em I Coríntios 1 que quando os judeus quiseram ver milagres e os gregos quiseram ouvir sabedoria mundana, ele se recusou a curvar-se aos seus desejos porque Deus o havia ordenado a pregar do evangelho. Pregação efetiva é sempre o método preferencial para proclamar o evangelho.

Motivando a Participação dos Jovens

Algumas vezes ouvimos que o uso desses métodos contemporâneos de entretenimento é o único modo de envolver os jovens na vida da igreja. Defensores dessa idéia argumentam que pelo motivo de os jovens terem muitos talentos e habilidades, a igreja deve oferecer a eles um “pedaço do bolo” (assim como fora feito aos jovens pioneiros Adventistas). Eles afirmam ainda que não permitir aos jovens o emprego de seus dons únicos na adoração e nas atividades de evangelismo faz com que eles percam o interesse pelas coisas da igreja.

Esse argumento não é de todo preciso, muito menos bíblico. É verdade que muitos de nossos pioneiros adventistas eram jovens. Por exemplo, Tiago White começou sua pregação aos 23 e Ellen White tornou públicas suas visões aos 17. J. N. Andrews coordenou séries evangelísticas aos 21, e aos 24 anos já havia publicado 35 artigos. Uriah Smith se tornou editor da revista Review and Herald aos 23 anos, tendo já escrito um poema de 35.000 palavras chamado “The Warning Voice of Time and Prophecy” (A Voz de Advertência do Tempo e da Profecia), publicado em fascículos no ano anterior. O que diferencia esses jovens pioneiros em relação à maioria dos jovens contemporâneos é o fato de que eles eram convertidos e estudiosos da Bíblia. Assim, não permitiriam a si mesmos o uso de métodos de entretenimento mundano no serviço de Deus.

Muitos de nossos jovens possuem dons e habilidades. Mas a aptidão em exercer certas funções não significa que essas atividades deveriam ser necessariamente aplicadas na adoração espiritual ou no evangelismo. O fato de uma pessoa ser capaz de tocar bateria, ou dançar, ou mesmo executar ilusões mágicas ou acrobacias, não significa que precisamos de rock evangélico, dança evangélica, mágico evangélico ou acrobata evangélico em nossas igrejas. Se fosse assim, teríamos que insistir para que jogadores evangélicos de futebol ou basquete usassem seus dons especiais no meio dos cultos de adoração. Ao invés disso, deveríamos encorajar nossos jovens verdadeiramente convertidos a usar seus dons de modo apropriado ao culto divino do Divino Deus e, ao mesmo tempo, evitando colocá-los em posições que os exponham cedo demais aos perigos do orgulho e arrogância espirituais (ver I Timóteo 3:6).

A Loucura da Pregação, não a Pregação da Loucura

A clara proclamação da Palavra de Deus tem sido sempre o método mais eficiente para comunicar a verdade de Deus. Pelo motivo deste método ser contrário às artimanhas evangelísticas dos dias de Paulo, foi que ele se referiu a isso como “a loucura da pregação”. O evangelista Adventista Carlyle B. Haynes ilustrou com pertinência a diferença entre a pregação centrada na Palavra de Deus e a pregação usando o método do mundo.

Artimanhas Evangelísticas

Ao falar a jovens pastores, há algumas décadas, Haynes escreveu:

“Uma vez acompanhei um encontro, comandado por um evangelista adventista bem conhecido, o aual havia alcançado uma reputação impressionante, e a quem muitos pastores jovens estavam consultando, pedindo conselhos para aprimorar seu trabalho. Alguns desses pastores estavam copiando passo a passo os métodos de apresentação daquele homem. Estive fora do país por cinco anos, em trabalhos missionários. Notícias vinham a mim a respeito deste homem, que havia ficado conhecido como um ganhador de almas bem sucedido. Seus métodos, os quais eram, certamente, inovações em nosso meio, foram objetos de muita discussão.

“Estava ansioso para conhecer pessoalmente esse homem e suas técnicas. Meus compromissos me levaram à cidade onde ele estava dirigindo uma série evangelística, então fiz planos para ouvi-lo e observá-lo em ação. Misturando-me com o grande número de pessoas que iam em massa aos encontros, sentei no meio do auditório, em um lugar onde poderia ver e ouvir sem dificuldades.

“A igreja estava bem iluminada e decorada. (…) Nos suportes acima da plataforma, estavam penduradas muitas luzes e, de cada lado da plataforma, dois pontos de luz direcionados ao pregador.

“Havia música, muita música – instrumental e vocal, coral, duetos, solos, quartetos e duas criancinhas, que cantavam uma canção divertida, que levou a uma rodada de risadas e a um ou dois aplausos. Então teve início uma música tema, que muitos pareciam conhecer e que eu nunca tinha ouvido antes. Ao final da música, o pregador entrou, em uma atmosfera de silêncio.

“Ele chamou a atenção de todos, inclusive a minha. Não estava preparado para aquilo. Ele não poderia deixar de prender a atenção. E tudo parece ter sido preparado tendo isso em mente. Ele estava vestido em um branco imaculado, com gravata branca, meias brancas e sapatos brancos. Até a Bíblia que ele carregava era coberta de branco. Uma mulher atrás de mim, quase sem respirar, exclamou ao seu acompanhante: ‘Ele não é um doce?’, e eu tive que concordar. Ele era mesmo. Desde aquela entrada, ele era o centro das atenções. Ninguém poderia ouvir, ver, ou pensar em nada além daquele ‘doce’ pregador. Suas palavras eram pouco notadas, mas ninguém tirava os olhos do pregador, e todas as cabeças se moviam, acompanhado-o, a cada parada ou movimento sob o brilho dos pontos de luz. (…)

“Eu não ouvi, mas certamente olhei. Eu não podia resistir em olhar. Foi uma performance incrível. O que ele disse, eu não sei; mas eu ainda me lembro do que ele fez, enquanto se movia habilmente em cima daquela plataforma. (…)

“Ao voltar para o meu quarto de hotel, tentei me lembrar do que ele poderia ter lido na Bíblia. Eu não conseguia me lembrar se ele tinha aberto aquela linda Bíblia branca. Mesmo tendo a certeza de que deveria tê-la aberto, não tinha notado. A última coisa de que me lembro passando em minha cabeça antes de mergulhar no sono foi: ‘Ele certamente é um doce’.

Viajando pelo país por alguns meses depois disso, eu percorri por um numero considerável de ternos brancos e pontos de luz. Esse tipo de decoração era como uma epidemia por todo o canto. A imitação correu seu curso, como fazem as epidemias, e então diminuiu (eu espero).

“Mencionei esse episódio apenas para contrastar com outra experiência que ocorreu enquanto eu era pastor em Nova Iorque. Por alguns anos, ouvi relatos sobre um grande pastor britânico, George Campbell Morgan, pastor da Capela londrina de Westminster. Ele tinha estado viajando anualmente para conferencias bíblicas nos Estados Unidos, mas eu nunca o havia ouvido. Contudo, havia lido todos os seus livros. (…)”

Pregação Bíblica

Haynes continua seus conselhos aos pastores:

“Ao saber que Morgan viria a Nova Iorque para dirigir uma série de estudos por duas semanas na Igreja Presbiteriana da Quinta Avenida, fiquei empolgado com a possibilidade de ouvir esse grande pregador e organizei minha agenda, para que fosse possível acompanhar sem interrupção todos esses encontros noturnos. Eles começariam em uma segunda à noite, uma data que julguei bastante ruim para o início da conferência.

“Cheguei à igreja cerca de meia hora antes da hora marcada para o início do encontro. Sabendo que a igreja facilmente acomodava 2500 pessoas, pensei que não teria dificuldades em achar um lugar para sentar. Mas estava errado; os lugares estavam todos ocupados. Os diáconos me orientaram a ir para a galeria e, felizmente, ainda havia um lugar para ali. Com um suspiro de alivio, eu me sentei, impressionado além da conta com o fato de 2500 pessoas terem saído assim de casa, em uma segunda à noite.

“O pastor e o Dr. Morgan, silenciosamente, vieram para a plataforma e se assentaram. A congregação cantou um hino antigo, e durante o canto olhei para o famoso pregador. Nunca tinha visto um homem tão pouco atraente em um púlpito. Ele era baixo, magricelo, desajeitado, e pensei que poderia ouvir seus ossos rangerem se não fosse o ruído do auditório. Sua roupa era simples e não havia nada nele que chamasse a atenção.

“Após a oração do pastor e uma introdução simples, Dr. Morgan se dirigiu ao púlpito, abriu a Bíblia (que não era branca) e, com uma voz agradável, mas inteiramente sem efeitos dramáticos, leu a passagem da Escritura e imediatamente começou a explicá-la. Me alegro por haver olhado bem para o pregador antes de ele começar a falar, porque nem notei sua aparência física durante toda aquela hora. Ao invés disso, eu estava completamente imerso e absorvido pelos significados que ele retirava da casa do tesouro que é a Palavra de Deus. Foi uma das horas mais emocionantes da minha vida. Nunca tinha experimentado nada como isso antes. E isto foi se repetindo, noite após noite, durante duas semanas.

“Dr. Morgan não possuía graciosidade em seus gestos, nem uma comunicação espetacular, nem eloqüência (como esta é vista no senso comum). Não usou cartazes, lousas, quadros, telões, ou qualquer tipo de engenhoca. Nada em sua fala, movimentos, roupa, ou comportamento atraía a atenção das pessoas para ele mesmo, ou afastava a atenção da Bíblia. Seu tremendo poder vinha daquilo que ele fazia com e pela Palavra de Deus.

“Em questão de cinco minutos e eu estava em outro mundo, e não era por causa de nenhum recurso de oratória ou eloqüência. Ele falou em um tom informal e casual, lendo com profunda reverência e notável sentimento o significado de cada trecho percorrido. Esqueci-me das pessoas ao meu redor, esqueci-me da igreja, do pregador, esqueci-me de tudo e me concentrei nas maravilhas do mundo pelo qual estava sendo guiado. (…)

“Fui para casa atônito com a hipótese de a Bíblia, por ela mesma, pode ser a fonte mais eficiente de uma grande pregação. (…)

“Quero deixar impresso em você que esse tipo de pregação é completamente suficiente para alcançar cada um de vocês, é o método mais poderoso que qualquer homem poderia usar. Jogue fora seus acessórios, descarte suas engenhocas e figuras, interrompa seus shows ou atuações, pare de se apoiar no entretenimento ou em apresentações teatrais, e volte de novo à simples, clara e poderosa exposição da Palavra.

“Após a primeira noite de estudos do Dr. Morgan, ao voltar para casa, a oração que explodiu de meu coração profundamente comovido foi: Oh Deus, faz de mim um pregador da Tua Divina Palavra, e me ajude a nunca confiar em outra coisa qualquer.”[2]

Que esta possa ser também a nossa oração.


Notas:

[1]Gary W. Demarest, The Communicator’s Commentary Series, Volume 9, 1, 2 Thessalonians, 1, 2 Timothy, Titus (Waco, Texas: Word Books, 1984), p. 54.

[2]Carlyle B. Haynes, Carlyle B. Haynes Speaks to Young Ministers (Nashville, Tenn.: Southern Publishing Association, 1968), pp. 31-36.


Fonte: ADVENTISTS AFFIRM: Worship v. Performance; Summer 2000, vol. 14, no. 2. Também disponível em: http://www.adventistsaffirm.org.

Tradução: Adrian Theodor. Revisão: Levi Tavares. Julho/2007.