O Cristão e a Música Rock – Capítulo 6

por: Samuele Bacchiocchi

Uma Teologia Adventista da Música na Igreja

A controvérsia sobre o uso da música rock religiosa na adoração na igreja é fundamentalmente teológica, porque a música é como um prisma de vidro, através do qual brilham as verdades eternas de Deus. A música divide esta luz em um espectro de muitas belas verdades. Os hinos cantados e os instrumentos tocados durante o culto na igreja, expressam o que esta igreja acredita sobre Deus, Sua natureza e Sua revelação para nossa vida presente e destino final.

A música define a natureza da experiência da adoração, revelando a forma e o objeto de adoração. Quando a música é orientada no sentido de agradar ao eu, então a adoração reflete esta nossa cultura de elevação das pessoas acima de Deus. A tendência hedonista de nossa cultura pode ser vista na popularidade crescente de várias formas de música rock usada para adoração na igreja, porque elas fornecem uma auto-satisfação fácil.

Muitos cristãos reclamam que os hinos tradicionais da igreja estão mortos, porque estes não têm mais nenhum apelo para eles. Por outro lado, música rock religiosa contemporânea lhes dá um “pontapé”, – uma sensação agradável. Aqueles que clamam por uma música eclesiástica que lhes ofereça satisfação pessoal, ignoram que estão buscando uma excitação física egocêntrica, em lugar de uma celebração espiritual das atividades criadoras e redentoras de Deus, centralizada nEle.

No capítulo 2 notamos que há uma íntima conexão entre a música e a teologia. Durante a história Cristã a produção musical foi grandemente influenciada pela evolução da compreensão de Deus. A

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mudança histórica da compreensão transcendental de “Deus além de nós” durante o período medieval, para a concepção imanental de “Deus por nós” durante a reforma no décimo sexto século, e para a percepção “Deus em nós” do décimo sétimo século até nossos dias, é refletida na evolução gradual da música eclesiástica do canto medieval, para o coral luterano, para o rock religioso de hoje.

A manifestação moderna de uma forte concepção imanental “Deus em nós”, tem levado as pessoas a buscar uma experiência emocional imediata de Deus através do estímulo da música popular rítmica e estridente. Tal música, freqüentemente usada durante o culto na igreja, reflete em grande extensão a perspectiva teológica da congregação e, muito provavelmente, da denominação que esta representa.

Teologia Insuficiente. O número crescente de igrejas cristãs em geral e de igrejas adventistas em particular que estão adotando estilos de adoração contemporâneos, onde várias formas de música rock religiosa são executadas, sofrem de uma condição que pode ser chamada de “empobrecimento teológico”. A característica que define esta condição é a escolha de música com base estritamente no gosto pessoal e tendências culturais, em lugar de convicções teológicas claras.

Este problema tem sido reconhecido até mesmo por alguns músicos Cristãos contemporâneos. Em seu livro At The Crossroads (1999), Charlie Peacock, um artista com gravações ganhadoras de prêmios, produtor e compositor de canções populares tais como “Every Heartbeat” (gravada por Amy Grant), reconhece francamente que Música Cristã Contemporânea (MCC) tem operado “sob uma teologia insuficiente”.1 Ele escreve: “O que está faltando na MCC é uma teologia abrangente da música em geral, e uma teologia da arte, indústria, e público da MCC em particular. De modo a começarmos a repensar a música cristã contemporânea, teremos primeiro que reconhecer a necessidade de desenvolver uma teologia abrangente”.2

Peacock acha que as teologias da música contemporânea freqüentemente “erram nos seus objetivos” porque estão baseadas em gostos pessoais ou demanda popular ao invés de basear-se em ensinamentos Bíblicos. “Sem os pensamentos de Deus e os caminhos de Deus, somos deixados com nossas próprias idéias obscurecidas e insuficientes. Se voluntariamente escolhemos negligenciar o trabalho de edificar teologias verdadeiras para nossas vocações, nos veremos despedindo-nos do brilho que ilumina a vida. Nos acharemos tropeçando cegamente pelo caminho que parece certo aos homens, mas leva a nada mais do que escuridão”.3

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O desafio de repensar o arcabouço teológico da música contemporânea, não afeta apenas o movimento de MCC, mas as igrejas cristãs em geral, inclusive a Igreja Adventista do Sétimo-Dia. Muito freqüentemente as canções populares cantadas durante o culto na igreja são baseadas em uma teologia inadequada ou até mesmo herética orientada para a auto-satisfação. Isto é verdade não só para o rock religioso, mas também para outras canções.

Um exemplo é a canção, “We Get Lifted Up”,4 que começa: “Eu aprendi um segredinho que você já deve saber”. O segredo vem a ser que louvar ao Senhor “faz tanto por nós quanto faz por Ele, porque somos levados ao alto”. O refrão repete a mesma mensagem: “Somos levados ao alto, somos levados ao alto, somos levados ao alto quando louvamos ao Senhor; Oh, somos levados ao alto, somos levados ao alto, somos levados ao alto quando louvamos ao Senhor”. A segunda estrofe começa, “Eu costumava pensar que meu louvor era só para servir ao Rei”, mas agora descobrimos que louvar ao Senhor “faz tanto por nós quanto faz por Ele”.

Realmente, adoração nos eleva, mas se a razão para adoração é somente conseguir uma elevação emocional, então a adoração se torna uma gratificação centrada no eu, em vez de ser uma adoração centralizada em Deus. Em última instância, cantamos sobre nós mesmos em vez de cantarmos sobre a glória, beleza, e santidade de Deus, manifestadas na criação e na redenção.

Música Orientada às Emoções. Teologia inadequada e enganosa está freqüentemente presente também nas músicas para crianças. Por exemplo, na série popular de fitas para crianças Psalty, produzidas pela Maranatha Music, a criança menor pergunta: “Psalty, eu sou tão pequeno. Como eu posso louvar ao Senhor?” Psalty responde: “Você consegue pular prá cima e prá baixo? Você consegue se abaixar no chão? Você consegue gritar com toda a tua força, ‘Louvado seja o Senhor?’ Se você faz isso com todo o teu coração, então você pode louvar ao Senhor”. A canção seguinte, com um som decididamente contemporâneo, começa com todas as crianças cantando: “Eu vou pular prá baixo / dar voltas / tocar o chão / e louvar ao Senhor”.

A mensagem falsa desta canção é típica da música e adoração orientadas às emoções. Nós não louvamos a Deus simplesmente saltando para cima e para baixo ou gritando o Seu nome. Louvar a Deus simplesmente não é um assunto de exercícios externos, mas uma resposta interna, sincera.

É impressionante que muitos adultos estejam satisfeitos em cantar corinhos simples, próprios para crianças. De fato, o cântico de corinhos tem encorajado muitas igrejas a ignorar completamente o hinário e, ao invés dele, optar por corinhos facilmente memorizáveis, que podem ser cantados e dançados como se se estivesse em uma festa. “Estou-feliz-feliz-feliz-todo-o-dia”

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é repetido uma dúzia de vezes. Outro exemplo, “Tenho uma sensação que tudo vai dar certo. Tenho uma sensação que tudo vai dar certo. Tenho uma sensação que tudo vai dar certo, certo, certo, certo”.

Tais corinhos não apenas são muito banais, mas são também heréticos, fazendo com que aquilo que a pessoa está sentindo, ao invés das promessas de Deus, seja a base da certeza. “Na adoração… fé, não os sentimentos, deveria ser a guia de referência. Uma fé praticada com base em emoções não é fé de forma alguma. Tais músicas podem ser divertidas para se cantar e nos fazer sentir-se bem, mas o seu efeito sobre a adoração e a vida é devastador”.5

Espiritualidade Obscura. A ênfase de muitas músicas religiosas contemporâneas em “mim”, “meu”, e “eu” reflete a teologia egocêntrica que é tão prevalecente hoje. No seu artigo “Gospel Music Finds Its Amazing Grace”, Philip Gold mostra que a mensagem das canções religiosas contemporâneas “raramente varia: Eu estou OK, você está OK, Deus está OK, e tudo vai ficar OK”.6

A teologia egocêntrica das canções contemporâneas é refletida nessas letras que contêm referências apenas vagas e obscuras a coisas espirituais. Tomemos, por exemplo, a canção popular cristã contemporânea “You Light Up My Life”. A letra fala de um você nebuloso, que poderia facilmente ser uma referência a um namorado, amante, cônjuge ou, possivelmente, o Senhor.

E você ilumina minha vida.
Você me dá esperança, prá continuar.
Você ilumina meus dias e enche minhas noites de cânticos.
Não pode estar errado quando sinto ser tão certo,
Porque você, você ilumina minha vida.

Por causa de sua teologia nebulosa, esta canção é cantada em virtualmente qualquer ambiente, dos corredores de cassinos em Las Vegas até cruzadas evangelísticas “como uma música de fundo durante um apelo para aceitar a Jesus Cristo como Salvador”.7

As implicações desta canção, chamada de cristã, são que quando se sente ser certo, não pode estar errado. Se você se sente bem, então faça! Coincidentemente, esta foi a natureza da tentação de Eva. Ela achou que o fruto proibido era “bom”, assim ela o tomou e “comeu, e deu a seu marido” (Gênesis 3:5-6). A Bíblia adverte por exemplos e preceitos que nossos sentimentos não são um guia moral seguro para a conduta cristã, porque nossa mente carnal está em inimizade para com Deus (Romanos 8:7).

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Outro exemplo de espiritualidade obscura é a canção popular de Amy Grant “Who To Listen To”:

Não aceite caronas de estranhos
Não há como saber para onde eles vão
Você pode ser deixado em uma estrada longa e escura
Perdido e só
Não fique lembrando o que sua mamãe lhe falou
Você tem que aprender a diferenciar o quente do frio.

Esta canção dificilmente ensina qualquer valor espiritual substancioso. Não dá nenhuma instrução ou propósito bíblico às pessoas. Note os comentários que um repórter de um jornal de Boston fez sobre um dos concertos de Amy onde ela cantou “Who To Listen To”: “‘Você quer cantar, cante! Você quer dançar, dance até seu cérebro sair prá fora! Esta noite nós estamos celebrando!’ Com essas palavras, ela [Amy Grant] deu o pontapé inicial em um tipo próprio de reunião de reavivamento no Worchester Centrum na segunda-feira à noite…. Durante quase duas horas, ela manteve o espírito se movendo – através de vocais forte mas calmos, sobre uma mistura de música pop eletrônica que parecia melhor apropriado para uma festa de dança do que para uma igreja. ‘Who To Listen To,’ um número agitado, figurou até mesmo em um episódio de ‘Miami Vice'”.8

Música que é apropriada para “Miami Vice”, dificilmente pode ser satisfatória para a adoração no santuário de Deus. Isto é especialmente verdade para a Igreja Adventista do Sétimo Dia onde a música usada no culto de adoração deveria expressar a sua identidade teológica como um movimento profético chamado para preparar um povo para a breve volta do Salvador. De fato, muitas das canções no hinário adventista encarnam tais crenças distintivas como a criação, o sábado, a expiação, o sacerdócio divino de Cristo, o julgamento, o Segundo Advento, e o mundo por vir.

Objetivos deste Capítulo. Este capítulo tenta repensar a base teológica que deveria guiar a escolha da música usada no culto de adoração das igrejas Adventistas. Consideraremos especificamente como as três crenças distintivas dos Adventistas do Sétimo Dia, o sábado, o Ministério de Cristo no Santuário Celestial e o Segundo Advento, deveriam causar um impacto na escolha e na execução de música no culto divino.

O capítulo está dividido em três partes. A primeira parte examina a música na igreja no contexto do Sábado. Um ponto importante apresentado nesta seção é que o Sábado, sendo a santidade no tempo, desafia de forma eficaz

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aos crentes a respeitarem a distinção entre o sagrado e o secular, não apenas no tempo, mas também em áreas tais como a música e a adoração na igreja.

A segunda parte vê a música na igreja no contexto do ministério intercessório de Cristo no santuário celestial. Este estudo propõe que a música majestosa e triunfante dos coros celestiais descritas no livro do Apocalipse, deveria brilhar através da música, orações e pregação da igreja na terra.

A terceira parte focaliza a música na igreja no contexto da certeza e iminência do Segundo Advento de Cristo. Um ponto significativo desta seção é que a visão do breve aparecimento da Rocha Eterna com a maior orquestra de anjos que este mundo jamais viu, deveria incendiar a imaginação dos membros a cantarem com jubilosa antecipação e dos músicos para comporem novos cânticos que reacendam e Bendita Esperança no coração dos crentes.

O que está sendo apresentado neste capítulo deveria ser considerado como uma primeira débil tentativa de considerar um assunto de grande importância que tem sido largamente ignorado. O autor não está ciente de qualquer estudo significativo produzido por estudiosos Adventistas que tenham examinado a música na igreja no contexto das crenças distintivas da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Isto significa que as reflexões teológicas apresentadas neste capítulo representam uma tentativa inicial para estabelecer um fundamento sobre o qual outros estudiosos Adventistas competentes possam construir no futuro.

Parte I
Música na Igreja no Contexto do Sábado

A Igreja Adventista do Sétimo Dia tira a inspiração para sua música e adoração de três doutrinas principais: (1) o sábado, (2) o sacrifício expiatório de Cristo e o Seu ministério no santuário celestial, (3) a certeza e iminência da volta de Cristo. Cada uma destas crenças contribui a seu modo para definir a natureza da música na Igreja Adventista.

Infelizmente, o debate corrente sobre o uso de música popular contemporânea na adoração adventista ignora grandemente os pressupostos teológicos que devem guiar a experiência da adoração dos crentes Adventistas. Alguns líderes de música adventistas estão insistindo na adoção de rock religioso contemporâneo nos cultos de adoração adventistas com base no gosto pessoal e considerações culturais. Mas a música e o estilo de adoração da igreja adventista não podem ser baseados somente em gostos subjetivos ou tendências populares. A

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missão profética e a mensagem da igreja deveriam ser refletidas em sua música e estilo de adoração.

A música e o estilo de adoração da maioria das igrejas adventistas estão em grande parte baseados na aceitação, sem qualquer crítica, do estilo de adoração de outras igrejas. Em seu livro And Worship Him, Norval Pease, meu antigo professor de adoração no Seminário Teológico Adventista do Sétimo Dia da Andrews University, nos ensinou, “Somos adventistas, e temos que aproximar da adoração como adventistas. Um culto de adoração que satisfaz as necessidades de metodistas, episcopais, ou presbiterianos pode ser insatisfatório para nós”.9

A resposta para a renovação da adoração adventista será encontrada, não na adoção de música rock religiosa, mas em um reexame de como nossas crenças distintivas Adventistas deveriam ser refletidas nas várias partes do culto na igreja, inclusive na música. Um projeto tão ambicioso está além do âmbito limitado deste capítulo, que enfoca principalmente o aspecto da música no culto de adoração.

O Sábado Oferece Razões para a Adoração. Das três doutrinas bíblicas principais que identificam a Igreja Adventista do Sétimo Dia, o sábado ocupa um lugar sem igual porque provê a base para a verdadeira adoração a Deus. Tal base será encontrada nas três verdades fundamentais que o sábado contém e proclama, que são: que o Senhor nos criou perfeitamente, Ele nos redimiu completamente, e Ele nos restabelecerá finalmente. Estes três significados fundamentais do sábado são examinados detalhadamente em meus dois livros Divine Rest for Human Restlessness e The Sabbath Under Crossfire. O leitor deve referir-se a estes estudos para uma exposição da teologia do sábado.

Adorar significa reconhecer e louvar os méritos de Deus. Seria Deus merecedor de louvores se não houvesse originalmente criado este mundo e todas suas criaturas perfeitamente e não tivesse feito provisão para sua restauração final? Ninguém louva um fabricante que produz um carro com problemas mecânicos e que não assume a responsabilidade pelos consertos. Da mesma maneira seria difícil achar razões para louvar a Deus com cânticos, orações, e sermões, se Ele não houvesse nos criado perfeitamente e nos redimido completamente.

O culto de adoração no sábado é a ocasião para os crentes celebrarem e regozijarem pela magnitude das realizações de Deus: Sua maravilhosa criação, a redenção bem sucedida de Seu povo; e as múltiplas manifestações de Seu amor e cuidado constantes. Estes são os temas fundamentais

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que deveriam inspirar a composição e o cântico de hinos de louvores a Deus.

Alguns destes temas aparecem no Salmo 92 que é “Um Cântico para o sábado”. Aqui os crentes são convidados a celebrar o sábado dando graças, cantando louvores e tocando o alaúde, a harpa e a lira (Salmos 92:3). O propósito desta jubilosa celebração é declarar o constante amor e fidelidade de Deus (Salmos 92:2); louvar os grandes feitos da Sua criação (Salmos 92:4-5); reconhecer o cuidado e o poder de Deus (Salmos 92:12-15).

A celebração da bondade e da misericórdia de Deus constitui a base para toda a música e adoração oferecidas a Deus em qualquer dia da semana. Mas no sábado as experiências da música e da adoração alcançam sua completa expressão, porque o dia fornece tanto o tempo quanto as razões para celebrar alegremente e com gratidão o amor criativo e redentor de Deus.

O Conflito Entre a Verdadeira e a Falsa Adoração. Para apreciar a importância da adoração no sábado, da qual música é um componente principal, temos que notar que, de certo modo, a Bíblia é a história do conflito entre verdadeira e falsa adoração. O apelo de Deus para “Lançar fora os deuses estranhos” (Gênesis 35:2), que acontece no primeiro livro da Bíblia é reiterado de diferentes formas em todos os livros subseqüentes. No Apocalipse, o último livro da Bíblia, o apelo é renovado pela imagem de três anjos voando.

Estes anjos conclamam a “toda nação, e tribo, e língua, e povo” (Apocalipse 14:6), por um lado, a renunciar o sistema pervertido de adoração promovido por “Babilônia”, “a besta e sua imagem” (Apocalipse 14:8-11) e por outro lado a “Temer a Deus, e dar-lhe glória; porque é chegada a hora do seu juízo”; e a “adorar aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas” (Apocalipse 14:7).

Este chamado solene para abandonar a falsa adoração de Babilônia e restabelecer a verdadeira adoração de Deus é apresentado em Apocalipse 14 como parte da preparação para “a ceifa da terra” (Apocalipse 14:15), quando o Senhor virá juntar os crentes e castigar os incrédulos. Esta preparação requer o abandono da falsa adoração promovida por Babilônia e a restauração da verdadeira adoração pelo povo de Deus.

Notamos no capítulo 4 que a imagem apocalíptica da falsa adoração promovida por Babilônia é derivada do capítulo histórico de Daniel 3 que descreve um evento de significado profético para o fim dos tempos. Na Planície de Dura foram chamados todos os habitantes do império Babilônico para adorar a estátua de ouro do rei Nabucodonozor. Uma fornalha ardente

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estava preparada para aqueles que se recusassem a prestar homenagem à imagem de ouro. Duas vezes Daniel menciona que “todo tipo de música” (Daniel 3:7, 10) foi usado para levar a todas as classes de pessoas de todas as províncias do império para juntamente adorarem a estátua de ouro (Daniel 3:10).

A música eclética produzida pelos sons “da trombeta, da flauta, da harpa, da cítara, do saltério, da gaita de foles”, e outros instrumentos, serviu induzir as pessoas “a se prostrarem e adorar a imagem” (Daniel 3:15). Poderia ser que, assim como na Babilônia antiga, Satanás esteja usando hoje “todo tipo de música” para conduzir o mundo a uma falsa adoração escatológica da “besta e sua imagem” (Apocalipse 14:9)? Poderia ser que um golpe de mestre Satânico escreveria canções gospel que teriam elementos de todos os gostos de música: música folclórica, jazz, rock, discoteca, country-western, rap, calypso, etc? Poderia ser que muitos cristãos chegassem a amar este tipo de canções gospel, porque se parecem muito com a música de Babilônia?

O apelo das Três Mensagens Angélicas para sair da Babilônia espiritual, rejeitando sua falsa adoração, poderia perfeitamente incluir também a rejeição da música rock da Babilônia. Logo o mundo inteiro será agregado para o conflito final na antitípica planície apocalíptica de Dura e “todo tipo de música” será tocada para levar os habitantes da terra a “adorar a besta e sua imagem” (Apocalipse 14:9).

A Música da Babilônia. O uso da música para promover uma falsa adoração no final dos tempos, é sugerido pela descrição da queda final de Babilônia: “Com igual ímpeto será lançada Babilônia, a grande cidade, e nunca mais será achada. E em ti não se ouvirá mais o som de harpistas, de músicos, de flautistas e de trombeteiros; e nenhum artífice de arte alguma se achará mais em ti” (Apocalipse 18:21-22).

O silenciamento final dos músicos da Babilônia indica que estes têm um papel ativo na promoção da falsa adoração. É instrutivo notar o contraste entre a música de Babilônia, a qual é principalmente instrumental, com menestréis (artistas profissionais), e a música dos coros celestiais, que são principalmente vocais. O único instrumento usado para o acompanhamento os coros celestiais, é o conjunto de harpas. Nenhuma flauta ou trompete as acompanha. Por que? Porque, como veremos, o timbre da harpa mistura-se harmoniosamente com a coletividade de vozes humanas. O uso de outros instrumentos obscureceria o cântico.

A descrição apocalíptica da música de Babilônia nos faz lembrar dos instrumentos usados por bandas de rock. A música delas é tão alta que a letra quase não pode ser ouvida. A razão, como já vimos em capítulos anteriores, é

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estimular as pessoas fisicamente pela batida alta, incessante. Esta é a música que finalmente o Senhor silenciará quando da destruição final da Babilônia apocalíptica. Contrastando com esta, a música triunfante da eternidade é impulsionada, não pela batida hipnótica de instrumentos de percussão, mas pela revelação maravilhosa das realizações redentoras de Deus que, inspiram os redimidos a cantar de todo o seu coração. Retornaremos a este ponto em breve.

Um Antídoto Contra Falsa Adoração. A missão da Igreja neste momento, conforme retratada eficazmente pelos três anjos apocalípticos, é promover a verdadeira adoração dAquele “que fez céu e terra, o mar e as fontes de água” (Apocalipse 14:6). O sábado é uns meios mais eficazes para promover a restauração de verdadeira adoração, porque conclama as pessoas a adorar Aquele que “em seis dias fez o céu e a terra, o mar, e tudo aquilo neles há” (Êxodo 20:11).

Por seu foco nas realizações criadoras e redentoras de Deus, o sábado funciona como um antídoto contra a falsa adoração. Desafia os homens e mulheres para não adorar as suas realizações e prazeres humanos, mas ao seu Criador e Redentor.

A tentação para adorar realidades feitas pelo homem como dinheiro (Mateus 6:24), poder (Apocalipse 13:8; Colossenses 3:5), e prazer (Romanos 6:19; Tito 3:3), esteve presente em todas as eras. Hoje, porém, o problema é particularmente agudo, porque o triunfo de ciência moderna e a tendência hedonista de nossa cultura, levaram muitas pessoas a adorar o lucro e prazeres pessoais, em lugar do poder e presença de Deus.

A síndrome de prazer de nosso tempo pode ser vista na prática de adoração da igreja. As pessoas se tornaram tão afinadas com as diversões que esperam que a música na igreja também seja divertida, estimulante e que satisfaça o seu ego. O sábado pode servir como um antídoto contra a busca por prazeres na adoração, lembrando aos crentes que Deus os convida no Seu Dia Santo a entrar no Seu santuário, não para buscar a “tua vontade” (Isaías 58:13), mas para deleitar-se na bondade do Seu amor criador e redentor.

Santidade no Tempo como Santidade na Música na Igreja. Como uma santidade no tempo, o sábado desafia eficazmente os crentes a respeitar a distinção entre o sagrado e o secular, não apenas no tempo, mas também em áreas tais como música na igreja e adoração. Afinal de contas, música e adoração constituem um aspecto importante da observância do sábado.

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O significado fundamental de santidade [do Hebreu qadosh] do sábado, a qual é freqüentemente reafirmada nas Escrituras (Gênesis 2:3; Êxodo 20:11; Êxodo 16:22; 31:14; Isaías 58:13), é o “colocar à parte” as vinte quatro horas do sétimo dia para cultivar a percepção da presença de Deus em nossas vidas. É a manifestação da presença de Deus que faz o tempo ou o espaço santo.

A santidade do sábado deve ser encontrada, não na estrutura de um dia, a qual é igual ao restante dos dias da semana, mas no compromisso de Deus de manifestar de um modo especial a Sua Santa presença no dia de sábado nas vidas do Seu povo. Isaías, por exemplo, retrata a Deus como recusando-Se a estar presente à assembléia de Seu povo no sábado, por causa da “iniqüidade” deles (Isaías 1:13-14). A ausência de Deus faz com que a adoração deles não seja santa, mas ao invés disso, uma “abominação” ou um “pisar os meus átrios” (Isaías 1:12-13).

Como o símbolo da livre escolha de Deus do Seu tempo especial para manifestar a Sua Santa presença, o sábado pode, constante e efetivamente, lembrar aos crentes que o guardam, da sua eleição divina e missão especial neste mundo. Um Dia Santo exige um um povo santo. Assim como o sábado permanece como o Dia Santo entre os dias da semana, assim também o crente que o guarda, é convidado constantemente a permanecer como uma pessoa santa, escolhida de Deus, entre uma geração perversa e de mente secularizada. Em outras palavras, como a Bíblia coloca, a guarda do sábado serve como “um sinal entre mim e vós pelas vossas gerações; para que saibais que eu sou o Senhor, que vos santifica”. (Êxodo 31:13; cf. Ezequiel 20:12).

A Mistura do Sagrado com o Profano. A distinção entre o sagrado e o secular, que está inserida no mandamento do sábado, é estranha a aqueles cristãos que vêem o seu Dia do Senhor como um feriado em vez de ser um Dia Santo. Na Europa Ocidental menos que dez por cento dos católicos e protestantes vão à igreja no domingo. A vasta maioria dos cristãos escolhe usar o seu Dia do Senhor buscando prazer e lucro pessoal. Até mesmo na América, onde a freqüência à igreja está na faixa próxima dos cinqüenta por cento, os mesmos cristãos que no domingo pela manhã vão à igreja, muito provavelmente à tarde irão para o shopping center, jogos de bola, restaurantes, ou outros lugares de entretenimento.

A mistura de atividades sacras com atividades profanas naquele que muitos cristãos vêem como o seu Dia do Senhor, facilita a mistura da música sacra com a música profana na própria adoração na igreja. O fator contribuinte comum é

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a perda do senso do sagrado – uma perda que afeta muitos aspectos da vida Cristã hoje.

Para muitas pessoas hoje nada é mais sagrado. O Dia Santo se tornou um feriado. O matrimônio é visto como um contrato civil que pode ser anulado facilmente pelo processo legal, em vez de ser uma aliança sagrada testemunhada e garantida pelo próprio Deus. A igreja é tratada como um centro social para divertimento, em vez de ser um lugar sagrado para adoração. A pregação tira sua inspiração de assuntos sociais em vez de tira-los da Palavra de Deus. Pelo mesmo motivo, a música na igreja é freqüentemente influenciada pela batida do rock secular, em vez de ser influenciada pelas Sagradas Escrituras.

Relativismo Cultural. A adoção de versões modificadas de música rock para a adoração na igreja é sintomática de um problema maior, a saber, a perda do senso do sagrado em nossa sociedade. O processo de secularização, que alcançou novas alturas em nosso tempo, tem toldado gradualmente a distinção entre o sagrado e o profano, o certo e o errado, o bom e o ruim. “Todos os valores e sistemas de valores, apesar de suas perspectivas contraditórias, são igualmente válidos. Certo e errado são reduzidos a mera opinião, um é tão bom quanto o outro. Verdade não é fixa, mas mutável, relativa aos caprichos que a definem”.10

O relativismo cultural de nosso tempo tem influenciado a igreja, especialmente no campo da estética, tal como a música, a qual se tornou apenas um assunto de preferência pessoal. “Eu gosto de rock, você gosta de clássico – e daí?” Pressupõe-se que um seja tão bom quanto o outro. Para muitos não há mais distinção alguma entre música sacra e profana. É simplesmente uma questão de gosto e de cultura.

O subjetivismo no campo da estética está em contraste marcante com as crenças doutrinárias objetivas, inegociáveis, que são defendidas apaixonadamente por cristãos evangélicos. Dale Jorgensen observa corretamente que “O mesmo pregador que crê estar obrigado a pregar uma retidão moral objetiva, freqüentemente sugere que ‘qualquer coisa serve’ na música para a igreja. Esta é uma área onde os humanistas naturalistas encontram, talvez com uma boa razão, uma grande rachadura na porta cristã”.11

O sábado desafia os crentes a fechar a porta à pressão humanística do relativismo cultural, lembrando-os que a distinção entre o sacro e o profano estende-se a todas as facetas de vida cristã, inclusive à música na igreja e adoração. Usar música secular para o culto da igreja no sábado significa tratar o sábado como um dia secular e a igreja como um lugar secular. Em última instância nenhuma adoração real é oferecida a

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Deus, porque a verdadeira adoração é vinculada ao reconhecimento dos limites entre o que é sagrado para o uso de Deus e o que é secular para nosso uso pessoal.

Parte II
Música na Igreja no Contexto do Santuário Celestial

Para muitas igrejas Cristãs, seus cultos de adoração centralizam-se naquilo que Cristo já realizou no passado por sua vida perfeita, morte expiatória, e ressurreição gloriosa. Porém, a adoração Adventista do Sétimo Dia centraliza-se, não apenas nas realizações redentoras passadas de nosso Salvador, mas também no Seu ministério presente no santuário celestial, e na Sua vinda futura para trazer a consumação de Sua redenção. Assim, toda a três dimensões do ministério de Cristo – passado, presente, e futuro – são envolvidos na adoração adventista.

Reunindo-se com o Senhor. É notável que as três doutrina distintivas da Igreja Adventista – o Sábado, o Santuário, e o Segundo Advento – compartilham de um denominador comum, isto é, a reunião com o Senhor. No Sábado encontramos o Senhor invisível no tempo. No Santuário Celestial encontramos através da fé o Salvador que ministra em um lugar. No Segundo Advento seremos reunidos com o Senhor no espaço.

Encontrar-se com o Senhor no tempo em Seu dia de sábado, num lugar em Seu santo santuário, e no espaço no dia glorioso da Sua vinda, deveriam constituir os pontos focais da adoração adventista. Quando adventistas reúnem-se para adoração, o seu desejo deveria ser encontrar-se com o Senhor. Pela fé eles deveriam desejar encontrar o Senhor, não apenas na Cruz do Calvário, onde Ele pagou a pena dos seus pecados, mas também no trono de Deus no próprio céu, onde Ele ministra em seu favor.

No seu livro Sing a New Song! Worship Renewal for Adventists Today, Raymond Holmes escreveu: “Em nossa adoração [adventista] entramos no santuário celestial através da fé e podemos ver o mundo, o propósito da igreja, o ministério de nosso Senhor, e nossas próprias vidas da perspectiva completamente abrangente de Deus e não apenas de nosso próprio ponto de vista limitado, egocêntrico, e estreito”.12

O foco da adoração Adventista deveria estar no santuário celestial onde Jesus continuamente ministra na liturgia celestial em favor do Seu povo. “Temos um sumo sacerdote tal, que se assentou nos céus à direita

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do trono da Majestade, ministro do santuário, e do verdadeiro tabernáculo, que o Senhor fundou, e não o homem”. (Hebreus 8:1-2). É porque temos tal Sumo Sacerdote ministrando nos céus que Hebreus diz: “Cheguemo-nos, pois, confiadamente ao trono da graça, para que recebamos misericórdia e achemos graça, a fim de sermos socorridos no momento oportuno” (Hebreus 4:16).

A Adoração da Igreja deve Refletir a Adoração Celestial. O convite para “chegarmo-nos ao trono de graça” é obviamente um convite à adoração, oferecendo ao nosso Senhor nossas orações, louvores, e cânticos. A igreja na terra une-se aos seres celestiais no louvor a Cristo: “Por ele, pois, ofereçamos sempre a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13:15).

A música e a adoração da igreja na terra deveriam tirar sua inspiração da música e adoração do santuário celestial, porque os dois estão unidos pela adoração do mesmo Criador e Redentor. Hebreus convida os crentes a vir “ao Monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, a miríades de anjos; à universal assembléia e igreja dos primogênitos inscritos nos céus” (Hebreus 12:22-23).

Que desafio é, para a igreja dos últimos dias, deixar a glória e majestade da adoração celestial brilhar através de sua música, orações, e pregação. Como Richard Paquier sugere, “algo da majestade real e da glória do Ressuscitado que ascendeu ao céu tem que fazer parte da adoração da igreja”.13 Quando vislumbres da majestade e glória do Salvador Ressurreto e Sumo Sacerdote celestial passam pela música e adoração da igreja, não haverá nenhuma necessidade de experiências com rock religioso, drama, ou danças para revitalizar adoração de igreja. A visão da glória e majestade do Senhor supre todos os ingredientes dramáticos que os crentes jamais poderiam desejar para uma experiência de adoração excitante.

A Adoração do Santuário Celestial. Para termos um vislumbre da majestosa adoração levada a efeito no santuário celestial, nos voltamos ao Livro do Apocalipse, onde achamos o número maior de conjuntos corais que podemos encontrar em toda a Bíblia. Eruditos que têm estudado a música do Apocalipse chegaram a diferentes números de textos de hinos neste livro. Oscar Cullman identificou seis hinos (Apocalipse 5:9; 5:12; 5:13; 12:10-12;

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19:1-2; e 19:6),14 enquanto Michael Harris enumera sete (Apocalipse 4:8-11; 5:9; 7:10; 11:17-18; 12:10-11; 15:3; e 15:4b).15 Forrester Church e Terrance Mulry identificam onze hinos no Apocalipse (Apocalipse 1:5-8; 4:11; 5:9-11; 5:12-13; 11:17-18; 12:10-12; 15:3-4; 18:22-23; 19:1-9; 22:16-17; e 22:20).16

O número exato de hinos e coros que se apresentam no Apocalipse é menos importante que o seu testemunho do papel importante que a música representa na adoração escatológica de Deus no santuário celestial. Os três coros principais que participam na adoração celestial são: (1) os 24 anciãos (Apocalipse 4:10-11; 5:8-9; 11:16-18; 19:4); (2) A multidão inumerável de anjos e remidos (Apocalipse 5:11-12; 7:9-12; 14:2-3; 19:1-3, 6-8); (3) O conjunto universal de toda criatura no céu e na terra (Apocalipse 5:13).

O texto dos hinos é muito instrutivo. O coro dos 24 anciãos canta primeiro, diante do trono de Deus, um hino sobre o Seu poder criador: “Digno és, Senhor nosso e Deus nosso, de receber a glória e a honra e o poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade existiram e foram criadas”. (Apocalipse 4:11). Então eles cantam diante do Cordeiro um hino acompanhado por harpas, sobre as Seus feitos redentores: “Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo e nação” (Apocalipse 5:8-9).

Finalmente, os 24 anciãos cantam diante de Deus sobre a vindicação dos remidos e a inauguração do reino eterno: “Graças te damos, Senhor Deus Todo-Poderoso, que és, e que eras, porque tens tomado o teu grande poder, e começaste a reinar. Iraram-se, na verdade, as nações; então veio a tua ira, e o tempo de serem julgados os mortos, e o tempo de dares recompensa aos teus servos, os profetas, e aos santos, e aos que temem o teu nome, a pequenos e a grandes, e o tempo de destruíres os que destroem a terra” (Apocalipse 11:17-18; cf. 19:4). Pode-se notar uma progressão temática nos hinos dos 24 anciãos, do louvar da criação de Deus, para o louvor da redenção de Cristo e a vindicação final de Seu povo.

Atribuições semelhantes de louvores são encontradas nos hinos cantados pela multidão inumerável de anjos (Apocalipse 5:11-12) e pelos remidos (Apocalipse 7:9-12; 14:2-3; 19:1-3; 19:6-8). “Depois destas coisas olhei, e eis uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, que estavam em pé diante do trono e em presença do Cordeiro,

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trajando compridas vestes brancas, e com palmas nas mãos; e clamavam com grande voz: ‘Salvação ao nosso Deus, que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro'” (Apocalipse 7:9-10).

Em sua dissertação, publicada sob o título A Theology of Music for Worship Derived from the Book of Revelation, Thomas Allen Seel vê um crescendo na participação dos coros celestiais. “O coro dos 24 anciãos parece liderar os coros maiores conforme a ação no texto revela um poderoso crescendo de participação e som; inicia-se com o coro do 24 anciãos cantando, seguido por uma resposta antifônica das criaturas de céu, e culmina quando estas forças antifônicas participam em uma resposta, unidas ao remanescente da criação, inclusive os Remidos. Juntamente eles dirigem o seu louvor corporativo à Divindade”.17

A dinâmica das respostas antifônicas e responsoriais dos vários grupos, revela uma unidade surpreendente. “Eles respondem de uma forma ordenada e equilibrada, o que dá testemunho da unidade totalmente completa, inflexível, de toda a criação da Divindade. A adoração no Apocalipse é ‘genuinamente congregacional’ e une de forma inclusiva níveis variados da criação em um mar de louvores doxológicos à Divindade”.18

Música Triunfante Sem “Batida”. Um estudo cuidadoso dos vários hinos do Apocalipse revela que, apesar de todas as referências ao sofrimento do povo de Deus, o livro ainda consegue provar-se como sendo uma das composições mais felizes já escritas. Como o The Interpreter’s Bible comenta: “A música da eternidade [no Apocalipse] envia de volta a sua alegria triunfante para vida através dos tempos. A justificação da gloriosa música cristã no mundo é sempre justificação pela fé… Os escritos de Paulo também têm esta característica de explodir em cânticos. Você pode julgar uma interpretação da religião cristã por sua capacidade para fazer os homens cantarem. Há algo errado com uma teologia que não cria uma música triunfante”.19

A música triunfante de Apocalipse é inspirada, não pela pulsação hipnótica de instrumentos de percussão, mas pela revelação maravilhosa dos feitos redentores de Deus por Seu povo. Conforme os adoradores do santuário celestial são privilegiados em revisar a forma providencial pela qual Cristo, o Cordeiro que foi morto, resgatou pessoas de todas as nações, eles cantam com uma excitação dramática no seu louvor doxológico à Divindade.

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Líderes da adoração que estão insistindo no uso de baterias, contrabaixos, guitarras rítmicas para dar uma pulsação de rock à música de suas igrejas, deveriam notar o fato que tanto no Templo de Jerusalém quanto no santuário celestial, nenhum instrumento de percussão foi permitido. O único instrumento usado pelos coros celestiais é um conjunto de harpas (Apocalipse 5:8; 14:2). A razão é, que, como Thomas Seel explica, “o timbre distintivo da harpa na adoração mescla-se harmoniosamente com as vozes coletivas dos adoradores. É de se notar que o apoio instrumental não suplanta a importância das palavras do texto nem contém uma mistura de instrumentos diversos. O conjunto instrumental contém um tipo singular de instrumento [a harpa], a qual mescla-se com a voz”.20

Nenhuma Música Secular Permitida no Templo. A distinção entre música sacra e secular, a qual está presente no santuário celestial, também era evidente no Templo de Jerusalém. No próximo capítulo “Princípios Bíblicos de Música”, veremos que apenas um grupo selecionado de Levitas fazia parte do coro do Templo. Eles tocavam somente quatro instrumentos em momentos específicos durante o culto: as trombetas, címbalos, liras e harpas (1 Crônicas 15:16; 16:5-6). Dos quatro, apenas os últimos dois, a lira e a harpa (ambos os instrumentos de cordas que combinam com as vozes humanas), foram usados para acompanhar o cântico.

As trombetas eram usadas somente para dar vários sinais, como quando a congregação deveria prostrar-se ou o coro deveria cantar durante a apresentação das ofertas queimadas (II Crônicas 29:27-29). Os címbalos eram usados para anunciar o começo de um cântico ou de uma nova estrofe. “Ao contrário de opinião corrente, os címbalos não eram usados pelo cantor-mor para dirigir o cântico batendo o ritmo da música”.21 A razão é que a música no antigo Israel, como Anthony Sendrey demonstrou, não possuía uma batida regular e uma estrutura métrica.22 É evidente que não havia nenhuma possibilidade de que qualquer judeu que pudesse tocar um instrumento pudesse ser convidado para juntar-se à banda de rock do Templo e transformar o culto em um festival de música.

Em sua dissertação doutoral apresentada na Universidade de Cambridge e publicada sob o título The Lord’s Song. The Basis, Function and Significance of Choral Music in Chronicles, John Kleinig nota que: “David determinou a combinação particular de instrumentos que deveriam ser usados na adoração. Às trombetas que o Senhor tinha ordenado através de Moisés, ele adicionou os címbalos, liras, e harpas (I Crônicas 15:16; 16:5-6). A importância desta

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combinação é enfatizada pela insistência em II Crônicas 29:25 que os instrumentos para música sacra, assim como o lugar dos músicos no templo, tinham sido instituídos sob a ordem do Senhor. Era esta ordem divina que lhes dava seu significado e poder”. 23

II Crônicas 29:25 explicitamente afirma que o rei Ezequias “dispôs os levitas na casa do Senhor com címbalos, alaúdes e harpas conforme a ordem de Davi, e de Gade, o vidente do rei, e do profeta Natã; porque esta ordem viera do Senhor, por meio de seus profetas”. Apelando às diretrizes proféticas de Gade e Natã, o autor de Crônicas enfatiza que a adição de Davi dos címbalos, harpas e liras ao uso das trombetas (Num 10:2), não estava baseado no gosto pessoal do rei, mas em uma ordem “do Senhor”.

Música Sagrada para um Lugar Sagrado. Aqueles que acreditam que a Bíblia lhes dá licença para tocar na igreja qualquer instrumento e música que eles queiram, ignoram que a música no Templo não estava baseada em gosto pessoal ou preferências culturais. Isto é indicado pelo fato que outros instrumentos como os tamboris, as flautas, as cornetas, e as cítaras, não puderam ser usados no Templo, por causa de sua associação com diversões seculares.

É evidente que não há nada de moralmente errado com o uso de instrumentos como os tamboris ou as flautas. A razão pela qual eles foram excluídos da orquestra do Templo é simplesmente porque eram usados comumente para o entretenimento. A dança de mulheres na Bíblia era normalmente acompanhada com o tocar de tamboris, que parecem ser tambores de mão, como os pandeiros modernos, feitos de uma armação de madeira, em volta da qual uma única pele era esticada.

Caso os instrumentos e a música associada com as danças tivessem sido usados no Templo, os israelitas teriam sido tentados a tornar o Templo em um local de entretenimento. Para evitar que isto acontecesse, os instrumentos e a música associada com o entretenimento foram excluídos do Templo. Esta exclusão se estendeu à participação de mulheres no ministério musical do Templo porque, como veremos no próximo capítulo, sua música consistia principalmente da dança com tamboris – uma música que era inapropriada para a adoração sagrada.

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Em seu livro Music of the Bible in Christian Perspective, Garen Wolf demonstra que “o uso do adufe, tamboril, saltério, e danças por mulheres ou homens nunca tiveram nenhuma conexão com a adoração no Templo, mas sim para finalidades de espetáculo, êxtase e divertimentos seculares ou para música religiosa que fazia fora do Templo”.24

A música era rigidamente controlada na adoração do Templo para assegurar que estaria em harmonia com a santidade do lugar. Assim como o sábado é um Dia Santo, da mesma forma o Templo era um Lugar Santo onde Deus manifestava a Sua presença “entre o povo de Israel” (Êxodo 25:8; cf. 29:45). O respeito para com o Dia Santo de Deus e o Lugar Santo de adoração, exigia que nenhuma música ou instrumentos associados com a vida secular fossem usados no Templo.

A conexão entre o sábado e o santuário é claramente afirmada em Levítico 19:30: “Guardareis os meus sábados, e o meu santuário reverenciareis. Eu sou o Senhor”. Guardar o sábado é comparado com a reverência no santuário de Deus, porque ambos são instituições sagradas estabelecidas para a adoração de Deus. Isto significa que a música secular que é imprópria para o sábado também é imprópria para a igreja, e vice-versa. Por que? Simplesmente porque Deus separou a ambos para a manifestação da Sua Santa presença.

Lições da Música do Templo. Quatro lições principais podem ser aprendidas a partir da música executada no Templo de Jerusalém, assim como no santuário celestial. Primeiro, a música na igreja deveria respeitar e refletir a santidade do lugar de adoração. Isto significa que instrumentos de percussão e música de entretenimento, que estimulam as pessoas fisicamente, estão fora de seu lugar no culto da igreja. Por respeito à presença de Deus, tal música não foi permitida nos serviços de Templo, nem é usada na liturgia do santuário celestial. O mesmo respeito deveria ser encontrado nos cultos da igreja hoje. No próximo capítulo veremos que o mesmo era verdade no serviço de adoração da sinagoga e da igreja apostólica. Este testemunho consistente das Escrituras e da história deveria servir como advertência para a igreja hoje, quando a adoção de música popular para a adoração está se tornando a coisa “bacana” a fazer.

Segundo, tanto a música do Templo terrestre quanto a do Templo celestial nos ensinam que os acompanhamentos instrumentais devem ser usados para ajudar a resposta vocal para Deus e não para sufocar o cântico. Em Apocalipse, é o conjunto instrumental das harpas que acompanha o cântico dos coros, porque o som da harpa combina-se bem com o a voz humana, sem

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suplantá-la. Isto significa que música rock alta, rítmica, que encobre o som da letra, é imprópria para adoração na igreja.

Terceiro, a música na igreja deveria expressar a delícia e a alegria de estar na presença do Senhor. O cantar dos vários coros no Apocalipse é sincero e expressivo. Eles cantam com “alta voz” (Apocalipse 5:12; 7:10) e expressam suas emoções dizendo “Amém, Aleluia” (Apocalipse 19:4).

Deve haver um equilíbrio entre os aspectos emocional e intelectual da vida de religião e adoração. “A expressão musical na adoração deve ter um aspecto emocional e intelectual porque esta é a natureza de homem, a natureza da música, e a natureza da religião. Em sua melhor expressão, a música deveria demonstrar esta unidade vida-religião-música na adoração, através de uma abordagem à composição bem proporcionada, racional e sentimental”.25

Reverência no Santuário de Deus. Por fim, a música na igreja deveria ser reverente, afinada com a natureza sagrada da adoração. É significativo que, das oito palavras usadas no Novo Testamento para expressar uma resposta de adoração a Deus, apenas um deles é usado no Apocalipse.26 É a palavra grega prokuneo que é comumente traduzido por “adorar” ou “prostrar-se”. O termo aparece 58 vezes no Novo Testamento, sendo que 23 destas acontecem no Apocalipse.27

O termo prokuneo é combinação de dois radicais: pros que significa “em relação a” e kuneo que significa “beijar”. Quando combinados, eles referem-se à honra e ao respeito demonstrados em relação a um superior. Vez após vez nos é dito no Apocalipse que os seres celestiais “prostraram-se e O adoraram” (Apocalipse 4:10; 5:14; 7:11; 11:17; 15:4; 19:4).

É significativo que João, o Revelador use apenas prokuneo para descrever a adoração reverente do final dos tempos. A razão poderia ser a necessidade de advertir a geração dos últimos dias a não ser enganada pela falsa adoração de Babilônia, caracterizada por uma excitação febril. Deus é santo e nós O adoramos com profundo respeito, temor, e afeição. Tanto no Templo de Jerusalém quanto no santuário celestial Deus é adorado com grande reverência e respeito. A mesma atitude deveria ser manifestada em nossa adoração hoje, porque Deus não muda.

Hoje vivemos em um mundo de atividade febril, entretenimento constante, e familiaridade íntima. Isto também é refletido em algumas das músicas Cristãs contemporâneas que tratam a Deus com frivolidade e irreverência. A adoração, tanto no Templo terrestre quanto no celestial, nos ensina que precisamos nos curvar em humildade ante o nosso grande Deus. Música sacra pode ajudar a acalmar nossos

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corações e almas de forma que possamos reconhecer mais claramente quem nosso Deus realmente é e a responder a Ele em reverência.

Parte III
Música na Igreja no Contexto do Segundo Advento

A crença na certeza e na iminência do retorno de Cristo é a força impulsionadora da adoração e do estilo de vida da igreja adventista. Ser um cristão adventista significa primeiramente e antes de tudo viver ansiando pelo dia glorioso da vinda de Cristo. Pedro insiste nesta visão voltada para o futuro dizendo: “esperai inteiramente na graça que se vos oferece na revelação de Jesus Cristo”. (I Pedro 1:13). Paulo expressa eloqüentemente esta visão voltada para o futuro dizendo: “esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3:13-14).

A Perspectiva de Peregrino. Viver com esta visão voltada para o futuro significa ver nossa vida presente como uma peregrinação, uma jornada para uma terra melhor. O escritor de Hebreus ressalta que Abraão e todos os verdadeiros crentes do passado eram peregrinos, sem uma casa permanente nesta terra. “Confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Ora, os que tais coisas dizem, mostram que estão buscando uma pátria. E se, na verdade, se lembrassem daquela donde haviam saído, teriam oportunidade de voltar. Mas agora desejam uma pátria melhor, isto é, a celestial. Pelo que também Deus não se envergonha deles, de ser chamado seu Deus, porque já lhes preparou uma cidade” (Hebreus 11:13-16).

Alguém disse que os cristãos do século vinte são “o grupo de peregrinos mais bem disfarçados que este mundo já viu”. Muitos chegaram a ver este mundo como uma “sala de estar” na qual ficam como se Cristo nunca fosse voltar, em vez de uma “sala de espera” para o mundo porvir.

A visão voltada para o futuro, para o Reino futuro de Deus, nos desafia a não investirmos as instituições religiosas ou políticas atuais com valores e funções permanentes porque elas não são o método pelo qual o Reino de Deus será estabelecido. Nos desafia a reconhecer que quando Jesus voltar, todas nossas instituições humanas, incluindo nossas igrejas, terão um fim.

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Temos que construir para o futuro, reconhecendo, porém, que o futuro não pertence por direito ao que construímos. O efeito final de vivermos com uma visão voltada para o futuro é ver todas nossas instituições e decisões pessoais à luz do Advento de nosso Senhor.

Adoração em Antecipação. A expectativa da breve volta de Cristo dá uma textura especial à adoração e música adventistas. Através da adoração penetramos as barreiras do tempo e do espaço e experimentamos um antegozo da bem-aventurança da futura adoração celestial que nos espera quando da vinda gloriosa do Senhor. O escritor aos Hebreus fala desta função vital da adoração dizendo: “Mas tendes chegado ao Monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, a miríades de anjos; à universal assembléia e igreja dos primogênitos inscritos nos céus” (Hebreus 12:22-23a).

A adoração comunitária dos crentes nos permite esquecer e transcender as realidades desagradáveis desta vida presente e ter um vislumbre da bem-aventurança do mundo porvir. A música, as orações, a proclamação da palavra, o testemunho e o companheirismo com outros membros da comunidade podem nos dar um antegozo da Jerusalém celestial futura e do encontro festivo dos filhos de Deus. Tal experiência nutre e fortalece a Esperança do Advento em nossos corações, dando-nos uma visão e um antegozo das glórias do Segundo Advento.

A expectativa da vinda de Cristo dá um senso de urgência à adoração da igreja adventista. Hebreus adverte aos crentes “retenhamos inabalável a confissão da nossa esperança, porque fiel é aquele que fez a promessa; e consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras, não abandonando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia“. (Hebreus 10:23-25).28

A necessidade de nos reunirmos para a adoração e encorajamento mútuo é apresentada nesta passagem como ainda mais imperativa, conforme o Dia da Vinda de Cristo vai se aproximando. A razão é que quanto mais nos aproximamos do retorno de Cristo, tanto mais intensos serão os esforços de Satanás para minar o trabalho de Deus em nossas vidas e neste mundo. “Ai da terra e do mar! Porque o Diabo desceu a vós com grande ira, sabendo que pouco tempo lhe resta”. (Apocalipse 12:12). A inspiração e encorajamento que recebemos da adoração conjunta com outros crentes podem nos ajudar a manter firme a nossa fé e esperar na breve vinda do Salvador.

Música do advento. A música na igreja representa um papel vital no fortalecimento da fé e nutrição da esperança da volta de Cristo. Através do cântico de hinos, os crentes

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ensaiam para o dia quando verão a Jesus e falarão face a face com Ele. “Face a face eu hei de vê-Lo, Quando vier em Glória e luz; Face a face lá na glória Hei de ver meu bom Jesus!”.

Não é de surpreender que no novo Seventh-day Adventist Church Hymnal (Hinário Adventista do Sétimo Dia), haja aproximadamente 34 hinos sobre o Segundo Advento (N.T. – Este número refere-se ao hinário americano. No hinário utilizado no Brasil, há 47 hinos, nos temas “Segunda Vinda” e “Vitória e Recompensa”).29 Estes sobrepujam muito em numero os hinos sobre qualquer outro assunto, inclusive os 18 hinos sobre o sábado (N.T. – 6 hinos no hinário brasileiro).30 A música e o texto dos hinos sobre o Advento expressam uma variedade de estados de espírito. Por exemplo, “A manhã gloriosa está raiando, Breve surgirá a luz! A manhã gloriosa está raiando, Eis que vem Jesus!” pressente a excitação ao aparecer do Senhor no céu resplandecente. “Oh, Jesus Salvador, Senhor! Quando vamos cantar: Cristo volta, aleluia, aleluia, amém!” expressa o desejo e impaciência para ver o Senhor. “Vigiai, cristãos sinceros!” dá a certeza de que os sinais do fim dos tempos estão se cumprindo rapidamente.

“Servos de Deus, a trombeta tocai:” desafia os crentes a proclamar corajosamente que “Breve Jesus voltará!”. “Oh, que esperança, vibra em nosso ser” captura de um modo maravilhoso a convicção de que o “tempo logo vem, e as nações daqui e além Bem alertas vão cantar: Aleluia! Cristo é Rei!”. “Quando for então chamado, aprovado hei de estar perante o Rei” entusiasticamente reafirma o compromisso de estar pronto para o dia “Quando Cristo Sua trombeta lá do céu mandar tocar”.

Inspiração do advento. A visão gloriosa do retorno de Cristo inspirou a composição de muitos hinos de fé, que enriqueceram a vida da igreja e a adoração através dos séculos. Hoje, enquanto estamos no limiar do retorno do Senhor e “vemos que o Dia se aproxima” (Hebreus 10:23-25), a Santa Esperança deveria inspirar a composição de novos cânticos que possam reacender a chama e encorajar os crentes a viver “no presente mundo sóbria, e justa, e piamente, aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tito 2:13).

Novos cânticos triunfantes sobre o Advento são necessários hoje especialmente para atrair a geração mais jovem que foi cativada pelos movimentos rápidos, os sons rítmicos, altos, eletronicamente amplificados, e letras desinibidas da música rock. Alcançar a geração mais jovem é uma tarefa formidável, porque em muitos casos os seus sentidos se tornaram tão entorpecidos pela superexposição aos sons altos, rítmicos da música rock, que eles já não podem ouvir a “voz calma e suave”. Em seu livro Decline of the West, Oswald Spengler deu uma impressionante advertência há alguns anos atrás: “Nas últimas fases de uma civilização toda a arte se torna nada mais que titilação das sensações (excitações nervosas)”.31

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Realmente, vivemos hoje no estágio derradeiro da civilização do tempo do fim, quando a “titilação das sensações” pela linguagem do rock invadiu até mesmo a comunidade evangélica, inclusive um número crescente de igrejas adventistas. A música rock provê para muitos um substituto enganoso para seus sentimentos internos de “amor, alegria, e paz” que vêm quando o Espírito Santo trabalha em nossas vidas (Gálatas 5:22).

Nosso desafio hoje é ajudar nossa geração rock and roll a captar a visão daquele dia glorioso por vir quando serão capazes de experimentar o espetáculo audiovisual mais excitante que jamais poderiam imaginar – a vinda gloriosa da Rocha Eterna (aqui o autor faz um trocadilho usando, no original, o termo “Rock of Ages” (NT)). A orquestra de anjos que O acompanhará produzirá os sons mais trovejantes que este planeta jamais ouviu. O esplendor da Sua presença e as vibrações do som da Sua voz serão tão poderosas que aniquilarão os incrédulos e trarão vida nova para os crentes.

Um evento tão glorioso pode incendiar a imaginação dos músicos de hoje para compor novas canções que terão um apelo a muitos que estão procurando significando e esperança em suas vidas. Uma canção que me vem à mente é “Bem-vindos ao Lar, Filhos”, de Adrian King. A cântico ajuda a captar a delícia e a excitação emocional do dia glorioso que se aproxima, quando “os portões do céu abrirão e todos os que amam o Senhor entrarão”. O próprio Senhor saudará Seus filhos dizendo, “Bem-vindos ao lar, filhos, este é um lugar que eu preparei para vocês. Bem-vindos ao lar, filhos, agora que vosso trabalho na terra está terminado. Bem-vindos ao lar, filhos, vocês que seguiram tão fielmente”.

Novas canções do Advento, como “Bem-vindos ao Lar, Filhos”, que são corretas teologicamente e musicalmente inspiradoras, podem enriquecer a experiência de adoração dos crentes, e atrair a aqueles que são receptivos à obra do Espírito Santo em suas vidas.

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CONCLUSÃO

Notamos ao início que música é como um prisma de vidro através do qual brilham as verdades eternas de Deus. Através da música na igreja pode ser proclamado todo um espectro de verdades Bíblicas. Por toda a história da igreja as pessoas aprenderam através da música as grandes verdades da fé cristã e os reclamos de Deus sobre suas vidas.

Em sua tentativa de trazer uma renovação espiritual, muitas igrejas evangélicas hoje estão adotando canções de rock religioso com base no gosto pessoal e nas tendências culturais, em vez de claras convicções teológicas. O resultado é que algumas canções populares cantadas durante o culto na igreja têm uma teologia inadequada ou mesmo herética, orientada para a satisfação própria.

A escolha de música apropriada para a igreja é crucial, especialmente para a Igreja Adventista do Sétimo Dia, porque através de sua música ela ensina e proclama as verdades finais a ela confiadas. Infelizmente o estilo de música e de adoração da maior parte das igrejas Adventistas é baseado grandemente na aceitação sem críticas do estilo de adoração de outras igrejas.

Para promover uma base teológica para a escolha e execução da música durante o culto de adoração nas igrejas Adventistas, temos considerado neste capítulo as implicações do sábado, do ministério de Cristo no santuário celestial e a Segunda Vinda. Temos visto que cada uma destas três crenças Adventistas distintivas contribui de maneira própria e ímpar para definir como deveria ser a boa música na igreja.

O sábado nos ensina a respeitar a distinção entre o sagrado e o secular, não apenas no tempo, mas também em áreas como a música na igreja e a adoração. Em uma época em que o relativismo cultural obscurece a distinção entre a música sacra e a secular, o sábado nos ensina a respeitar esta distinção em todas as facetas da vida cristã, incluindo a música na igreja e a adoração. Usar música secular para o culto na igreja no sábado significa tratar o sábado como um dia secular e a igreja como um local secular.

O estudo da música e da liturgia do Templo de Jerusalém, bem como do santuário celestial, foi muito instrutivo. Vimos que, por respeito pela presença de Deus, instrumentos de percussão e música de entretenimento, os quais estimulam as pessoas fisicamente, não eram permitidos nos serviços do Templo, nem são usados na liturgia do santuário celestial. Pela mesma razão, instrumentos rítmicos e música que estimula as pessoas fisicamente em vez de eleva-las espiritualmente, estão fora de

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lugar na igreja hoje.

A adoração nos dois Templos, terrestre e celestial, também nos ensina que Deus deve ser adorado com grande reverência e respeito. A música na igreja não pode tratar a Deus com frivolidade e irreverência. Ela deveria ajudar a aquietar nossas almas e a responder a Ele em reverência.

A convicção da certeza e iminência da vinda de Cristo deveria ser a força motriz do estilo adventista de vida e da música na igreja. O breve aparecimento da Rocha Eterna, com a maior orquestra de anjos que este mundo jamais viu, pode incendiar a imaginação dos músicos atuais para comporem novas canções que apelem a aqueles que estejam procurando significando e esperança para suas vidas.

No limiar de um milênio novo, a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem diante de si um desafio e uma oportunidade sem precedentes para reexaminar a base teológica para a escolha e execução de sua música. Esperamos e oramos para que a igreja responda a este desafio, não pela aceitação sem questionamentos da música popular contemporânea, que é estranha à missão e mensagem da igreja, mas pela promoção da composição e cântico de músicas que expressem adequadamente a esperança que arde em nossos corações (I Pedro 3:15).

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NOTAS

1. Charlie Peacock, At the Cross Roads. An Insider’s Look at the Past, Present, and Future of Contemporary Christian Music (Nashville, 1999), p. 72.

2. Ibid., p. 70.

3. Ibid., pp. 72-73.

4. Hal Spencer and Lynn Keesecker, “We Get Lifted Up”, Works of Heart (Alexandria, Indiana, 1984), p. 44.

5. Calvin M. Johansson, Discipling Music Ministry. Twenty-First Century Directions (Peabody, Massachusetts, 1992), p. 52.

6. Philip Gold, “Gospel Music Industry Finds Its Amazing Grace”, Insight (17 de dezembro de 1990), p. 46.

7. Frank Garlock and Kurt Woetzel, Music in the Balance (Greenville, North Carolina, 1992), p.124.

8. “Spirit of Pop Moves Amy Grant”, Boston Herald (9 de abril de 1986), p. 27.

9. Norval Peace, And Worship Him (Nashville, 1967), p. 8.

10. Calvin M. Johansson (nota 5), p. 42.

11. Dale A. Jorgenson, Christianity and Humanism (Joplin, Missouri, 1983), p. 49.

12. C. Raymond Holmes, Sing a New Song! Worship Renewal for Adventist Today (Berrien Springs, Michigan, 1984), p. 41.

13. Richard Paquier, Dynamics of Worship (Philadelphia, 1967), p. 22.

14. Oscar Cullman, Early Christian Worship (Philadelphia, 1953), p. 8.

15. Michael Anthony Harris, “The Literary Function of the Hymns in the Apocalypse of John“, Dissertação de doutorado, Baptist Theological Seminary (Louisville, KY, 1988), p. 305.

16. F. Forrester Church and Terrance J. Mulry, Earliest Christian Hymns (New York, 1988), p. x.

17. Thomas Allen Seel, A Theology of Music for Worship Derived from the Book of Revelation (Metuchen, New Jersey, 1995), p. 84.

18. Ibid., p. 126.

19. George A. Buttrick, ed., The Interpreter’s Bible (Nashville, TN, 1982), vol. 12, p. 420.

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20. Thomas Allen Seel (nota 18), p. 124.

21. John W. Kleinig, The Lord’s Song. The Basis, Function and Significance of Choral Music in Chronicles (Sheffield, England, 1993), p. 82.

22. Anthony Sendrey, Music in Ancient Israel (London, 1963), pp. 376-377.

23. John W. Kleinig (nota 21), p. 78.

24. Garen L. Wolf, Music of the Bible in Christian Perspective (Salem, Ohio, 1996), p. 145.

25. Calvin M. Johansson, Music and Ministry. A Biblical Counterpoint (Peabody, Massachusetts, 1986), p. 67-68.

26. See, Ralph P. Martin, The Worship of God (Grand Rapids, 1982), p. 11.

27. See, James Strong, The Exhaustive Concordance of the Bible (New York, 1890), p. 1190.

28. Ênfase acrescentada.

29. The Seventh-day Adventist Hymnal (Washington, DC, 1985), p. 783.

30. Ibid., p. 787.

31. Conforme citado por Jack Wheaton, “Are Jazz Festivals Killing Jazz?” Pro/Ed Review 1 (Abril/Maio de 1972), p. 19.

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Capítulo 7

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