Tim Fisher e Damy Ferreira: Reflexões Sobre a Música Cristã na Contemporaneidade

por: Charles Bronson e Fernanda Silvério

Em O Debate sobre a Música Cristã, Tim Fisher desenvolve suas considerações sobre música cristã, ao mesmo tempo em que analisa as tendências de um estilo de louvor musical muito conhecido nos EUA, o CCM (Música Cristã Contemporânea), caracterizado pelo uso de variados estilos musicais, principalmente aqueles que fazem sucesso na cultura popular americana e tem atraído o interesse de grandes produtoras e gravadoras, “de olho” no mercado da música gospel.

Logo no início da obra, Tim apresenta-nos uma relevante definição para o que está chamando de música cristã em sua análise, afirmando que essa é entendida como a música em que a letra, a música, os executantes, e a maneira como a executam estão de conformidade com a imagem de Cristo. Para tanto, os fundamentos bíblicos, para citar alguns, são Colossenses 3:16, Efésios 5:19 e Salmos 19:14.

Tim Fisher apresenta vários princípios para uma música cristã, dentre eles: princípio do “novo cântico”, Deus como compositor, Semelhanças com Cristo (na letra, na música, na vida do músico) e Culpa por associação.

No primeiro, Fisher, baseia-se em várias referências bíblicas, dentre elas o Salmo 40:1-3, para justificar que as Escrituras ensinam uma progressão que ocorre na vida do crente, por meio da salvação, a saber: Novo nascimento – Nova criação – Novo cântico. Sendo assim, já está posta de lado a idéia de que Deus será louvado por cânticos que se destacam pela composição poética ou habilidades do cantor, sendo esse uma pessoa que ainda não nasceu de novo, em Cristo.

Em Deus como compositor, compreendendo a fé em Deus que é criador, construtor e exemplo, “a preocupação do cristão não deve ser conformar sua arte com a sociedade; antes, é a obrigação do cristão conformar sua vida e criatividade com as Escrituras” (p.57).

Ao tratar da relevância da letra da música, é observada a capacidade que esta tem de fixar na mente do ouvinte um dado ensinamento.

Visto que o nosso povo sai do culto sussurrando os cânticos em vez do sermão, temos que fazer o melhor que pudermos para ter certeza de que eles sussurrem boa doutrina… Ora, se a música tem texto e assim comunica algo, precisamos saber o que estamos comunicando com aquela música. Claro, primeiro conhecer o que crê, fundamentado na Bíblia, e assim, rejeitar àquelas músicas que contrárias à fé bíblica. (pp.83-84).

Estimulando o leitor a reconhecer que a música cristã é mais do que palavras, e sim, um reflexo da constante comunhão e consagração do crente, somos advertidos sobre uma prática pessoal comum em nossos dias na igreja: é que a maioria dos cristãos julga a eficiência da música com base na regra da carne, não do Espírito. Se uma canção nos emociona, nós gostamos dela! O que, segundo o autor, tem gerado outro comportamento: os crentes cantando desanimados durante o louvor musical na igreja!

Nessa condição, afirma o autor, não devo culpar o estilo musical tocado na igreja, e sim, examinar como anda minha adoração pessoal a Deus, pois a adoração pública é unicamente uma manifestação da adoração pessoal. A razão pela qual os nossos cultos públicos estão mortos é que nossa vida devocional particular está morta, assevera.

As variadas citações que apontam a presença da música tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, estão presentes no capítulo Semelhança com Cristo na vida do Músico. Somos lembrados da constância da presença da música em vários aspectos da vida do povo judeu (A.T), dentre eles: adoração por parte de Israel (Neemias 12:45-47); na prosperidade econômica (Isaías 16:10), durante eventos políticos importantes (I Reis 1:39-40), etc. Referente ao Novo Testamento, são lembrados Marcos 14:26, Atos 16:25, Lucas 1:46-56, etc.

O escritor nos leva há consciência pessoal de que hoje, Deus requer de cada crente deve louvor/cantar a Ele, conseqüência de uma vida devocional firme, não somente dos que estão no “ministério de louvor” (Hebreus 13:15, I Pedro 2:5,9 e Colossenses 3:16).

Caminhando para conclusão, em Culpa por associação Fisher discute uma das questões mais presentes no perfil dos grupos de louvor das igrejas atuais, a saber, a disposição e determinação dos integrantes em usarem melodias, ritmos e letras, de músicas seculares, com adaptações, por que estas já são conhecidas pela maioria, que cantavam-nas com entusiasmo, antes da conversão! Ele destaca que “não é o valor intrínseco da música, mas é o conhecimento da associação que causa pontos de vista diferentes quanto à aceitabilidade da música… Música que, embora possa ser aceitável a letra e na música propriamente dita, talvez seja questionável por causa da associação”.

Esse comentário, claro, não abrange a dimensão da contribuição da obra para o debate sobre a música cristã, por isso, fica nosso convide à leitura integral da mesma, para que, citando o Dr. John C. Vaughn (autor da apresentação do livro), “os cristãos adquiram convicções bíblicas sobre música”.

Obra de autoria do brasileiro Damy Ferreira, Louvor a Deus… Será?, também publicada pela Editora Batista Regular, busca apresentar argumentos bíblicos para controvérsias tão presentes na igreja cristã contemporânea quanto ao louvor musical. Para isso, o autor logo afirma que compreende louvor, de maneira abrangente, não se referindo apenas a expressão musical, afirmando que a Bíblia deve ser parâmetro para se discutir o assunto, tendo-a como única regra de fé e prática, onde aprendemos como expressar nosso louvor em direção a Deus.

Nesse sentido, Damy salienta que a música para louvar deve ter uma linguagem para Deus, uma linguagem do nosso espírito para o Espírito de Deus, sabendo que música provoca reações emotivas, mas não deve perder o objetivo que é a adoração a Deus. Comparando-a com religião, cita que, assim como a religiosidade, a música está sendo levada pelo caminho das emoções, confundindo espiritualidade com ‘emocionalidade’.

Dentre as controvérsias discutidas por ele, estão, a dança na Bíblia, uso das palmas e música e conflitos de gerações. Sobre dança na Bíblia, afirma que fazia parte da cultura do povo e a Bíblia o menciona, sem querer dizer, com isso, que a estava aprovando para fins de culto. (Êxodo 32:19 – dança pagã) e quanto à dança de Davi (II Sam. 6:14-16) (Tradução da palavra ‘dançar’ no texto é ‘rodopiar’), lembra que a mesma não era dança regulada para culto. Demy diz que o uso das palmas não é encontrada na liturgia do Antigo Testamento nem no Novo Testamento.

Orientando quanto aos possíveis conflitos sobre música, entre gerações diferentes na igreja, destacamos 5 pontos citados pelo autor:

  • Se a música é apreciada apenas por quem louva, então o louvor não é direcionado a Deus, mas ao grupo.
  • Certos jovens gostam de certos movimentos ‘religiosos’ porque trabalham com a emoção.
  • Jovem crente, nascido de novo, é espiritual como um adulto. Não deve haver conflito de gerações porque todos nasceram de novo e sabem como louvar a Deus.
  • Novo cântico surge da nova experiência com Deus, a experiência cristã. (I Coríntios 2:16, Romanos 12:1-2, Romanos 6:4, 7:6, II Coríntios.3:17-18, I João 3:1-3).
  • A música (louvor) deve ser coerente com tudo aquilo que herdamos da salvação. Isso não dá lugar para modelos mundanos.

Em suma, podemos afirmar que tanto para Tim Fisher quanto para Damy Ferreira, o louvor a Deus através da música deve também está baseado no princípio paulino da conciliação entre emoção e entendimento, de maneira que o crente possa dizer “… cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente” (I Coríntios 14:15).


Fonte: http://charlesbronsondemossoro.blogspot.com