O Culto – Capítulo 4

por: Rev. Onézio Figueiredo [1]

Expressões cúlticas de Israel

01 – Clericalismo e laicismo:

Sendo uma nação santa, um povo teocrático, todas as festas de Israel tinham sentido duplo integrado: Civil e religioso. A liturgia, pois, se realizava clericalmente no templo, especialmente no Santo dos Santos, e laicamente, embora sob orientação sacerdotal, no exterior do recinto sagrado. O culto do altar, clerical por excelência, tinha formas rígidas em seu ritual ordenado e organizado por Deus. O culto laico, exercido nas festas sagradas, efetivava-se com mais liberdade de ação e expressão, onde a religiosidade confundia-se com o civismo, especialmente na hinologia salterial. O leigo não tinha acesso ao lugar santo, mas isso não lhe impedia de ser um adorador de Javé, à parte do ritualismo sacrificial em que se fazia representar pelo sacerdote.

Os simbolismos do culto sacerdotal realizaram-se e se concretizaram em Cristo Jesus e são rememorados na mesa da eucaristia, no púlpito do profeta, na congregação confessante, na comunidade que recebe o perdão do Salvador, no coral dos novos levitas, os cantores da Igreja sacerdotal. A essencialidade do culto de Israel preserva-se na Igreja: A adoração; a confissão; o sacrifício de Cristo tipificado na Ceia; o sacrifício do crente efetivado por sua dedicação a Deus (Rm 12.1,2); a confissão de pecados, individual e comunitária; o perdão recebido mediante o sacrifício do Cordeiro; a gratidão em expressões gratulatórias e em oferendas; o louvor.

02 – As festas:

As festas de Israel eram memorativas, comemorativas, consagradoras e sacramentais. A três delas todos os israelitas tinham a obrigação de comparecer:

a. Páscoa: Comemoração seguida da festa dos pães asmos, rememorando a saída do Egito e a dádiva da Terra da Promissão. Conteúdo: Lembrança do sofrimento sob a escravidão faraônica e da libertação, além de rememorar o pacto mosaico, gerador da nação israelita. Comemorava-se do dia 14 a 21 de “nisan”.

b. Festas do Pentecostes e das Semanas: Comemoração no mês de “sivan”, relembrando a dádiva da lei no Sinai e a bênção das colheitas na nova terra, quando não mais havia famintos.

Conteúdo: Renovação do pacto e lembrança da providência divina por meio de todos os atos libertadores de Deus, inclusive nas guerras santas de conquista.

c. Festa da Expiação, seguida pela dos tabernáculos, nos dias 10 e 15 a 21 de “tishri”, começo do ano civil. Conteúdo: Salvação, peregrinação no deserto e vicariedade de Israel. No dia 10 de “tishri”, o dia da expiação, não podia haver hilaridade litúrgica, pois Israel inteiro estava em contrição, meditação, reflexão e confissão. Era o “dia da tristeza” pela constatação da existência e da persistência do pecado. A festa da expiação era a única em que o Sumo Sacerdote, vestido de branco, entrava no Santo dos Santos para interceder pelo povo.

Além das grandes festas, havia as festas das luas novas, marcando o início de cada mês lunar. Destas, a mais importante era a do sétimo mês (tishri ), comemorando a abertura do mês, consagrando-o. Nesta festa também se comemorava o ano novo, o começo do ano civil.

Das festas religiosas com forte conteúdo de civismo não se há de deduzir nenhuma ordem litúrgica, pois o culto organizado, durante as festas, celebrava-se no interior do templo despido de qualquer hilaridade, especialmente o do Dia da Expiação. Os salmos refletem as alegrias laudatórias das inúmeras festividades de Israel, sem estabelecer fronteiras nítidas entre o cívico e o religioso, mas separando com muita clareza, nos eventos de adoração, o sagrado do profano.

03 – As Teofanias:

Na consagração do templo de Salomão a glória (shekinah) de Javé desceu sobre o tabernáculo para ali permanecer, marcando a presença de Deus com o seu povo (I Rs 8.2; II Cr 7). No Santo dos Santos, pois, onde estava a arca coberta pelo propiciatório, habitava a “shekinah” de Javé. “O sumo sacerdote ficava sozinho, separado de todo povo, naquele lugar misterioso e sombrio, o mais santo de todos, iluminado apenas pelo brilho das brasas do turíbulo”. “A arca de Deus se achava ali, coberta pelo propiciatório; acima dela, a presença visível de Javé na nuvem de “shekinah” (Edersheim; Festas de Israel, p. 128, União Cultural Editora, SP). Sem a presença teofânica, gloriosa e glorificante de Javé, não havia culto.

O Deus de Israel nunca foi um Deus ausente e secundário. Diante de sua glória (shekinah) e majestade o povo prostrava-se em adoração. Todo fiel adorador reconhecia a presença de Javé no templo, seu poder perdoador, sua regência sobre os eleitos; e então lhe prestava culto pela confissão, pela oferenda do animal substituto em sacrifício, pela recepção do anúncio sacerdotal do perdão e pela alegria de ser perdoado graciosamente, embora a dádiva do perdão só fosse possível mediante o derramamento do sangue da vítima, morta em seu lugar.

O que era símbolo, tornou-se realidade na Igreja, o novo Israel, por meio de Jesus Cristo. Na essência, a liturgia permanece.

A teofania templária esteve na visão dos profetas, provocando neles a reverência e os movimentos cúlticos de quem se defronta com o Todo Poderoso. Caso típico é Isaias 6, além das visões de Ezequiel. Diante do “Majestoso e Numinoso”: Respeito, consagração e reverência absoluta.

Perante Deus, espiritualizante por natureza, a espiritualidade do homem aflora, superando, mas não eliminando, a sensorialidade. A sublimação do homem acontece, quando ele é colocado frente a frente com o Sublime, seu Criador, Salvador e Rei. Dissemos que ele “é colocado”, isto mesmo”. Deus é quem o elege, chama-o, coloca-o na fraternidade dos redimidos, prostra-o diante de seu altar como adorador, redime-o pelo sacrifício de seu Filho, santifica-o pelo poder de sua palavra.

04 – Hekal e Debhir:

Podemos dividir o culto de Israel em:

Festivo, o das festas programadas por Deus e realizadas fora do templo. Não eram anárquicas e nem despropositadas.

Objetivavam manter a memória dos feitos de Javé. Sem o depósito de ontem não haveria a reserva de hoje. A Igreja existe por causa dos atos criadores, protetores e redentores de Deus na história da redenção. A eucaristia, mistério e festa, tem o mesmo propósito das comemorações de Israel: Manter viva a lembrança do que Deus já fez; e esta lembrança é um alimento da fé.

Solene: Culto efetivado no “hekal” ou lugar santo, onde costumeiramente os sacerdotes sacrificavam intercessoriamente pelos pecadores e mediavam-lhes as oferendas gratulatórias.

Soleníssimo: Culto executado pelo sumo sacerdote, e somente por ele, uma vez por ano, no “debhir” ou Santos dos Santos. Ali era o local do silêncio, onde a fala de Deus era prioritária, não a do homem. No “debhir” Deus falava e o homem ouvia. Nenhum hino se cantava no Santíssimo, apenas o diálogo Deus – homem. No ‘hekal”, local dos rituais ordinários (falamos do templo de Salomão), somente os sacrifícios, as orações, os oráculos e os cânticos corais levíticos compunham a liturgia.

No mundo exterior, porém, o povo alegrava-se nas festas preordenadas, estabelecidas e regulamentadas por Deus, cantando, ao som de instrumentos, e dançando. Este quadro tem de ser levado em conta, quando se transferem expressões e imagens litúrgicas de Israel para a Igreja. Toda Igreja agora é mais que um “hekal”, é um “debhir”, um Santos dos Santos, um santuário, isto é, lugar de santos, de coisas santas, de palavras santas.

Onde dois ou três se reunem, aí é um “debhir”, lugar onde Cristo está como sujeito e objeto de nossa adoração. A reverência, pois, é, em si mesma, e uma forma de cultuar a Deus.


Notas:

[1] O presente texto foi escrito por um Reverendo da Igreja Presbiteriana. Por este motivo, o leitor encontrará algumas referências relacionadas ao culto de domingo, ou ainda alguns temas diretamente vinculados a esta denominação religiosa. Apesar deste detalhe, os editores do Música Sacra e Adoração compreendem que a leitura do texto do Reverendo Onézio Figueiredo é de suma importância para o contexto da adoração e do culto a Deus na Igreja Adventista do Sétimo Dia, justificando assim esta publicação.


Fonte: www.monergismo.com


Capítulo 5

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