O Culto – Capítulo 3

por: Rev. Onézio Figueiredo [1]

Terminologia

Todas as palavras gregas para culto significam trabalho, serviço prestado a um superior, serviço prestado a Deus. Culto, portanto, como ficou definido, é um serviço que se presta a Deus.

Muitos, modernamente, entendem que culto é “invocação da divindade”, para que o Deus invocado se coloque a serviço dos invocadores. Outros pensam que culto é uma festa espiritual com o objetivo de alegrar os fiéis. Quanto mais festivo, mais “espiritual” é o culto, pensam os ludinistas. Os idólatras acham que culto é veneração e adoração do divino consubstanciado ou materializado em ícones, que lhes servem de símbolos e objetos de fé. Há os que revivem os cultos orgíacos do paganismo grecoromano.

Outros ressuscitam o dualismo persa da luta do deus do bem contra o deus do mal, do Espírito Santo contra o espírito satânico. A doutrina do satanismo versus divinismo substitui a pessoa do pregador pela do exorcista; e o culto se transforma numa batalha entre Deus e Satã. Alguns, não poucos, entendem que culto é uma reunião de pedintes de bênçãos espirituais e materiais, mais estas que aquelas.

Os que mais pedem são os que menos servem. Numerosos hoje, a maioria inconsccientemente, transformam o culto numa sessão ordenatória e de cobrança na qual o homem poderoso, supercrente, pela fé positiva e pela palavra autoritativa, exige do Criador respostas unicamente positivas às suas petições e lhe cobra os direitos que, na qualidade de filho, possui por criação e por natureza. É o suserano comandando o Soberano. Crença absurda, mas popularíssima entre os carismáticos “prosperistas”.

No espaço sagrado, uma propriedade exclusiva de Deus, onde o culto se realizava em Israel, não havia lugar para “manifestações demoníacas”, pois aí Deus se manifestava, e exclusivamente ele, não como escravo dos adoradores, mas como Senhor soberano e absoluto em santidade, sabedoria, grandeza, bondade, justiça e poder.

Os principais termos conotadores e denotadores do culto são:

01 – Douleo:

Serviço escravo do “doulos”, sem qualquer direito pessoal, trabalhista, salarial; e mais, sem livre arbítrio. O escravo e sua produção pertenciam ao seu senhor. Tudo que um escravo faz é para riqueza e glória de seu senhor. O crente é “doulos” de Deus, um cultuador, portanto.

02 – Therapeuo:

Serviço voluntário, sem remuneração; geralmente exercido na área carita-tiva ou no serviço público, mas sempre de cunho social. O “therapeuta” era livre para “doar” o seu trabalho como expressão de amor fraternal e comunitário.

03 – Hypereteo:

Serviço de remador; remar como escravo sob comando imperativo do administrador da embarcação. Era um trabalho de ação sincronizada, conforme o grito de cadenciamento do dirigente.

O “hyperetês” era um dentre vários, mas seu trabalho sincrônico compunha a força conjunta de maneira indispensável. O navegar do barco na velocidade ideal e na direção proposta dependia da união e do esforço harmônico de todos.

04 – Diaconeo:

Serviço fundamentado unicamente no amor, na consagração, na abnegação. Diácono é aquele que serve sem esperar qualquer tipo de retorno como recompensa, reconhecimento, gratidão.

Serve-se, movido pelo amor ao próximo, jamais por venalidade, publicidade ou ostentação.

05 – Leitourgeo:

“Leitourgeo” vem de “laos”, povo, e “ergon”, trabalho; o que se faz em benefício da comunidade. Significa, portanto, prestação de serviço público, nobre ou não, tanto no palácio real como no templo. “Leitourgos”, no âmbito religioso, era quem se dedicava exclusivamente ao serviço do templo quer na ordem cerimonial e ritual quer na manutenção e administração do imóvel, dos móveis e dos objetos consagrados a Deus e destinados ao culto.

06 – Latreuo – Latreia:

Serviço sacerdotal, o que oferece sacrifício a Deus, o que promove intermediação religiosa, o que se oferta em adoração. “Latreia” sofreu conotações diferentes em decorrência do uso que dela faz o romanismo. O culto romano divide-se em três modos de adoração: “Hiperdulia”, o culto que se presta a Deus e ao “Santíssimo Sacramento”, especialmente à hóstia que, pela transubstanciação divinizase e se vitaliza, igualando-se a Deus, merecendo a mesma honra. A hóstia deificada é também chamada de “Corpus Christi”, corpo de Cristo. “Dulia” ( de doulos ) é o culto prestado à Virgem Maria. Por esta ordem se vê que a Virgem ocupa o segundo lugar na hierarquia divina, uma semideusa. “Latria”, culto que se presta aos santos. A palavra “latria” vem de “latron”, salário. Era, portanto, originalmente, trabalho assalariado, não escravo.

Todo trabalho do cristão, no templo ou fora dele, realizado com dedicação, eficiência e consagração, é culto ao Criador e Salvador. A adoração é filha da mordomia.


Notas:

[1] O presente texto foi escrito por um Reverendo da Igreja Presbiteriana. Por este motivo, o leitor encontrará algumas referências relacionadas ao culto de domingo, ou ainda alguns temas diretamente vinculados a esta denominação religiosa. Apesar deste detalhe, os editores do Música Sacra e Adoração compreendem que a leitura do texto do Reverendo Onézio Figueiredo é de suma importância para o contexto da adoração e do culto a Deus na Igreja Adventista do Sétimo Dia, justificando assim esta publicação.


Font

Fonte: www.monergismo.com


Capítulo 4

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