Frédéric François Chopin

por: Clarindo Gonçalves de Oliveira

Chopin nasceu no dia primeiro de março de 1810 em Zelazowa Wola, cerca de 10 quilômetros de Varsóvia, capital da Polônia, recebendo o nome de Fryderyk Francizek.

Quando Chopin tinha dez meses, o pai mudou-se para Varsóvia, onde passou a lecionar no liceu da nobreza e numa escola militar.

A educação musical de Chopin começou em seu próprio lar, onde todos apreciavam cantar e tocar: sua mãe e sua irmã Luísa dedicavam-se ao piano; o pai ao violino. Aos seis anos o menino tentava reproduzir o que ouvia e criar novos sons; aos sete, após receber algumas lições de sua irmã Luísa, pôde ter seu primeiro mestre: Wojciech Zywny. Um ano após, Chopin já se apresentava em público, dada a sua extraordinária facilidade para o piano. Desta época datam os seus primeiros trabalhos: duas polonaises, mazurcas, variações e um rondó.

Os estudos comuns foram feitos em casa até 1823, quando contava treze anos. Nesse ano seu pai o matriculou no liceu, onde seus interesses dirigiram-se para a História, Literatura e o Teatro. Mas o que mais lhe interessava era a música. Em 1826 ingressou no Conservatório de Varsóvia, tendo aulas de composição com Joseph Elsner.

Em 1829 viaja à Viena, onde faz sua estréia internacional, com grande sucesso, embora tenha causado certa surpresa pôr seu toque delicado.

Um mês depois, de volta a Varsóvia, apaixona-se pôr Constancia Gladkowska, estudante de canto do conservatório. Timidez e acanhamento fizeram-no cultivar esta paixão em segredo.

O movimento lento do Concerto para Piano e Orquestra N.2 foi composto com o pensamento voltado para Constancia, mas, logo depois, ela desapareceria de sua vida.

Em 1830,a opressão do Czar Nicolau I sobre a Polônia chegara a um ponto insuportável, provocando a famosa insurreição de novembro. Seguiu-se uma guerra, com a vitória final dos russos. Milhares de poloneses foram obrigado a exilar, muitos do quais antes de estourar o conflito. Entre eles, Chopin.

Não tendo condições para continuar sua carreira em Varsóvia e aconselhado pôr seus amigos, o compositor deixou a terra natal. Parte para Viena e, na despedida, seus amigos lhe entregam uma taça com terra polonesa, gesto que o comove. Chopin não poderia supor que em breve estouraria uma guerra, impedindo-o de voltar para sempre. Em novembro de 1830 chegou a Viena, onde ficou até 1831.

Em Viena, sua tristeza por ter deixado Varsóvia foi agravada com o pouco caso dos vienenses em relação aos patriotas poloneses e o desinteresse dos editores em editar suas obras. Era obrigado a percorrer os gabinetes burocráticos na tentativa de obter passaporte para a França, onde acreditava poder viver bem melhor.

Finalmente consegue seu visto e parte para Paris, passando antes pela Alemanha, onde encontra Schumann. Contam que na primeira vez que visitou a casa do compositor ele não estava em casa. Sua esposa, Clara o recebeu. Ela não falava francês, Chopin não falava alemão. Diz a história que ele se sentou ao piano e tocou algumas composições suas. Clara fez o mesmo com as músicas do marido.

Se isso é verdade ou não, não se sabe. O que há de concreto é um artigo de Schumann na Nova Gazeta Musical, que dizia, a respeito de Chopin: “Tirem os chapéus, senhores, um gênio”.

Chegando em Paris em setembro de 1831, Chopin impressiona-se com o tamanho da cidade, seus contrastes. Respira-se em Paris uma atmosfera liberal, com a burguesia conduzindo as rédeas da nação

Em Paris, encontra rapidamente a fama e o sucesso. Fino, elegante, gentil, ele possui todos os predicados para ser aceito na sociedade francesa. Além disso, os poloneses contam com a simpatia do povo francês, o que lhe facilita ainda mais a estadia em seu novo país.

Bem recebido pôr sua condição de exilado polonês, Chopin trava contato com muitas personalidades do meio artístico. Seu ambiente mais chegado, no entanto, seria constituído pela nova geração de compositores, jovens como ele: List, Berlioz e Mendelsonhn.

Como professor, Chopin consegue logo se firmar, dando aulas para os filhos das famílias aristocráticas e fazendo desta atividade seu principal meio de sobrevivência. Ao mesmo tempo desenvolve-se como compositor.

Em 1835 visita seus pais, exilados em Karlsbad, Alemanha. Depois viaja para Dresden, a fim de visitar a família Wodzinska, e surpreende-se com a beleza e os dotes artísticos da jovem Maria Wodzinska, que conhecera ainda criança. Os dois se amam profundamente e planejam casar-se. Mas a mãe de Maria apavora-se com a saúde delicada do compositor e impede o noivado. Abatido com o término do romance, Chopin volta a Paris.

Chopin encontra George Sand pela primeira vez em 1836, junto a Liszt e outros membros de seu círculo de artistas e escritores. A primeira impressão é desfavorável:

“Como é antipática essa Sand! Será mesmo uma mulher? Estou começando a duvidar.” Para Chopin, sempre tão educado e polido, os modos de George Sand eram horríveis: vestia roupas de homem, fumava charutos, chamava os desconhecidos pôr “tu”, era separada do marido e desafiava os padrões da moral vitoriana; tinha idéias socialistas.

A escritora, no entanto, se apaixona imediatamente pôr aquele “pobre anjo muito triste”, seis anos mais jovem que ela, carente de cuidados, doente, desamparado… Propõe lhe viverem juntos. Durante muito tempo o compositor evita que isso aconteça, temia desagradar seus pais com uma ligação ilícita.

Entretanto, em 1838, os argumentos de George Sand contra os escrúpulos morais de Chopin que considerava ingênuos , acabam pôr surtir efeito. Chopin escreve em seu diário:

“Vi-a três vezes. Ela olhava-me profundamente nos olhos, enquanto eu tocava. Era uma música um pouco triste, lendas do Danúbio; o meu coração dançava com o dela no país longínquo. E os seus olhos nos meus, olhos escuros, singulares, que diziam? Apoiava-se sobre o piano e os seus olhares abrasadores inundavam-me Flores à nossa volta. O meu coração estava preso. Voltei a vê-la duas vezes…”.

George Sand preocupou, em primeiro lugar, com a precária saúde do pianista. Queria tratar do amante, viver com ele e, ao mesmo tempo, desejava afastar-se de seu ex-marido e seus amantes anteriores. Resolvem viajar para a ilha de Maiorca, no litoral da Espanha. Acompanham o casal os dois filhos da escritora: Maurice, de quinze anos e Solange, de oito.

Passam uma temporada idílica em uma casa simples, até que Chopin adoece. Rumores de que estava tuberculoso levaram o proprietário da casa a mandá-los embora. Procuram refúgio em um convento abandonado, em Valdemosa, nas montanhas da ilha, habitado unicamente pelo sacristão, um farmacêutico, um trabalhador braçal, varrido pêlos ventos da montanha e tendo como personagens principais uma romancista e um músico tuberculoso terrivelmente apaixonados, o local compõe um autêntico cenário do romantismo.

Aí George Sand inspira-se para escrever sua novela “Espiridião”e Chopin conclui seus 24 Prelúdios, o Scherzo em Dó sustenido menor e a Polonaise em Dó menor.

Contudo a umidade, o frio e a alimentação precária agravam o estado de saúde do compositor. Em março de 1839, Sand se convence de que só a imediata partida poderia salvar o amante. Durante a viagem de volta, Chopin teve uma hemorragia que quase lhe custou a vida. Viajam para Marselha, onde Chopin consegue se recuperar depois de três meses.

De volta a Paris, alugam dois apartamentos; nem muito perto, nem muito longe de modo a possibilitar que Chopin e Sand se visitem à vontade, sem provocar mexericos. Seu ganha pão volta a ser a atividade de professor. Suas apresentações como pianista são raras: “Não tenho temperamento para dar concertos: o público intimida-me, sinto-me asfixiado pela impaciência, paralisado pêlos seus olhares curiosos, mudo perante essas fisionomias desconhecidas” – escreve a seu amigo Liszt.

De tempos em tempos sua saúde piora. Sand mostra-se cada vez mais maternal e, quase todos os verões, o leva para sua casa de campo. A tuberculose provocava nele mudanças apreciáveis de estado de espírito, que iam da mais viva excitação nervosa a um desânimo angustiante. O convívio com um ser tão sensível, doente, e, pôr vezes caprichoso não era fácil para a paciente Sand. Toda complicação vem de que ele ainda a ama com verdadeiro amor, ao passo que ela há muito tempo se aquartelou na afeição.

Seu pequeno Chopin, ela o ama, o adora como, porém, a Solange e a Maurício. Nos meses em que vivem separados, pôr ocasiões de viagens, está sempre inquieta pela saúde dele: “Aí tem o meu pequeno Chopin” – escreve à dona de uma pensão – “confio-lho, cuide dele mesmo contra sua vontade. Quando não estou com ele, é de trato difícil”. Escreve a uns e outros, recomendando-lhes uma vigilância discreta. Que não se esqueça de tomar seu chocolate pela manhã, seu caldo às dez horas. Que o obriguem a cuidar-se, a não sair sem agasalho…

Com o tempo, o caráter de Chopin tornou-se insuportável. A relação entre os dois começa, pouco a pouco a se deteriorar. Suspeitando de que a amante o trai com outro homem, Chopin torna-se cada vez mais petulante, mal humorado e desagradável. A esse quadro negativo, acrescentam-se problemas domésticos e brigas pôr causa dos filhos de George Sand. No verão de 1847,os dois resolvem se separar.

No ano seguinte, Chopin entra em fase de grande depressão. Desolado e abatido, aceita o convite da aluna Jane Stirling para visitar a Inglaterra e a Escócia, onde toca para a Rainha Vitória. Apresenta-se em Manchester, Edimburgo e Glasgow, mas o faz sem o menor prazer, apenas para ganhar seu sustento. Novamente em Londres dá um concerto beneficente para exilados poloneses, seu último concerto.

Seu estado de saúde é alarmante. Volta a Paris. À sua débil saúde vieram acrescentar-se os problemas econômicos, que se resolverão graças ao generoso donativo de Jane Stirling, que lhe enviou, anonimamente, 25.000 francos.

No princípio de 1849, chega sua irmã Luisa, que ele mandara chamar, provavelmente pôr sentir que o fim estava próximo: ” Você sabe que os ciprestes têm seus caprichos: hoje, meu capricho é tê-la comigo.”

Nos primeiros dias de outubro teve uma crise que anunciava a morte. Seus fieis amigos se revezavam junto a sua cama para cuidá-lo. A princesa Czartoryska e seu amigo fiel Gutmann são os seus enfermeiros. Na noite de 14 de outubro, murmurou: ” Entretanto, ela me havia dito que eu não morreria senão em seus braços”. Antes de falecer, quase sem poder respirar, escreveu: ” Como esta terra me asfixiará, peço-vos que meu corpo seja aberto, a fim de não ser enterrado vivo”.

Assim, ele morreu na madrugada de 17 de outubro. O corpo de Chopin foi enterrado no cemitério de Père-Lachaise, exceto seu coração, que foi enviado para Varsóvia e depositado na Igreja de Santa Cruz.

Nos minutos de recolhimento que se seguiram à descida do ataúde, foi vista uma certa mão amiga atirar sobre o caixão aquela terra polonesa que havia sido entregue a Chopin no dia em que deixara sua Pátria.

Obras

Falar em Chopin é falar em piano. A maioria esmagadora de suas obras são para esse instrumento, e mesmo suas obras orquestrais o incluem.

A música de Chopin é intensamente pessoal, pela grande força espiritual, pela extrema sensibilidade, pelo amor à sua Pátria. Foi mestre nas formas musicais breves.

Chopin foi menos feliz nas grandes formas tradicionais: seus dois concertos para piano e orquestra são obras da mocidade. Suas três sonatas não passam pôr impecáveis, o que não impediu a glória da Sonata em si bemol menor, cujo terceiro movimento é a conhecida Marcha Fúnebre.

Os Prelúdios:

Sabemos que O Cravo bem Temperado de J.S. Bach constituía para Chopin, um estudo diário. Passava as horas que antecediam a um concerto entregue a Bach.

Os prelúdios de Chopin nasceram como uma “reelaboração” do conceito de improvisação de Bach. São um conjunto de vinte e quatro peças, cuja duração dura entre meio e pouco mais de cinco minutos. Com estas peças, Chopin abriu um mundo inédito para o piano.

Os Estudos:

Chopin compôs os Estudos Op.10 dedicados a F .Liszt e os Estudos Op.25, dedicados a condessa D’Agoult, entre os anos de 1828 a 1836. Chopin não pretendia apenas ensinar a prática das oitavas, o trilo ou as escalas em terças. Os estudos são, acima de tudo, poemas musicais, e para os executar, o pianista deve recorrer a meios que ultrapassam o domínio puramente técnico. Para além da mera função didática, Chopin procurava um aperfeiçoamento que servisse para exprimir, para ajudar a cantar. A função técnica é transcendida nestas obras. Cortot caracterizou muito bem esses estudos ao dizer que o pianista não virtuoso tinha tão pouco acesso a eles como o virtuose que carecesse de sentido musical.

As Valsas:

Chopin foi um renovador que deu traços novos a gêneros já existentes, chegando pôr vezes a modificá-los. Os contemporâneos do autor não souberam encontrar nas valsas qualquer relação com as valsas de Strauss ou Schubert. Não se procuram, portanto, nestas peças, o caráter dançante.Todos os temas são possíveis nas íntimas e humaníssimas valsas do nosso músico, desde o amor, cantado na Valsa N.3 Op.70, dedicada a Constancia, ou aValsa em lá bemol maior ( O Adeus), dedicada a Maria, até a ligeireza da N.1 Op.68,ou a melancolia da Valse du Regret (n.2 Op.38).

Os Noturnos:

Noturno significa um canto livre da sua intimidade, pôr meio da qual conta uma história íntima que o músico não poderia exprimir de outra forma. Chopin baseou-se num modelo próximo, os noturnos do irlandês Field, mas submeteu-os a tal modificação que apenas poderemos notar um vago parentesco entre os dois músicos. Nos últimos noturnos encontramos sonoridades e uma escrita pianística próximas do impressionismo.

Os Scherzos:

Chopin escreveu quatro Scherzos. Separa o Scherzo da sonata e da sinfonia e dá-lhe um caráter autônomo. Não procuraremos nestas obras o caráter lúdico: do scherzo tradicional retira-se apenas a medida e não o conteúdo.

As Polonaises:

Inicialmente era uma dança tradicional da nobreza, de forma lenta e majestosa, surgida no século XVI. Estas polonaises eram totalmente desprovidas de ritmos e temas folclóricos. Chopin começou a cultivar este modelo, desde a infância, introduzindo-lhe temas populares do folclore polonês.

Chopin ainda compôs baladas, mazurcas, improvisos, fantasias e outras peças diversas. Na história da música é importante o papel de Chopin como inventor de novas harmonias e criador de uma nova técnica para o piano, revolucionária na época

Em suma, a obra de Chopin é muita mais extensa do que se imagina; ele escreveu um pouco mais de duzentos obras entre Baladas, Noturnos, valsas, Estudos, Mazurcas, Polonaises, Prelúdios, e Sonatas.

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Fonte: http://www.oliver.psc.br