O Organum Gregoriano

Estudar a transição do canto monódico para o polifônico e a evolução deste a partir do início do segundo milênio da era cristã, é acompanhar a revolução mais fascinante sofrida pela música ocidental em toda a sua história; significa ver surgirem nesta arte dimensões inteiramente novas e de uma importância tal que constituem os fundamentos da composição até os nossos dias.

Remontemos ao século IX. Datam desta época os primeiros textos importantes descrevendo um cantar não monódico. A fim de podermos sentir bem a significação desta mudança, tenhamos em mente que a música, desde a mais remota antiguidade, era basicamente monódica. Isto significa: toda vez que se cantava, em grupo ou em solo, com ou sem o acompanhamento de instrumentos, as vozes entoavam a mesma linha melódica. Naturalmente, quando homens e mulheres ou crianças cantavam juntos, as vozes eram separadas por intervalo de oitava. Mas este fato não altera o caráter monódico dos cantos. Fazemos abstração de casos esporádicos de “heterofonia”, passagens não monódicas, bem como da ocorrência de música polifônica entre os povos primitivos, pela razão de que não constituíam germes de uma evolução sistemática. Por outro lado, está fora dos nossos propósitos a exposição das várias teorias que procuram explicar o surgimento do canto não monódico. O decisivo é que no século IX aparecem os primeiros documentos descrevendo este modo de cantar, dando inclusive exemplos.

Neste mesmo século o filósofo e teólogo irlandês Scot Erigena (cerca de 815 – 877), que viveu na França desde 840, descreve em sua obra De Divisione Naturae, uma modalidade de cantar em vozes superpostas sem, contudo, expor a sua técnica. Traça, porém, analogia entre as harmonias da música e a harmonia cósmica.

É provavelmente Regino de Prüm, em sua obra De Harmônica Instituitione, o primeiro a usar o termo organum para o cantar em vozes superpostas.

É, no entanto, a obra Musica Enchiriadis, durante muito tempo atribuída erroneamente a Hucbald, mas hoje tida como de autoria incerta, o documento que mais nos informa sobre a prática do organum. Sabe-se que esta obra foi redigida não depois do século IX.

O autor da obra Musica Enchiriadis descreve dois tipos de organun (ou diafonia, termo equivalente). No primeiro as vozes cantam invariavelmente em quintas ou quartas paralelasou, no caso de duas ou mais vozes, em acordes contendo somente intervalos de oitava, quinta e quarta. Eis um exemplo:

Na verdade, tal maneira de cantar não permite falar ainda em polifonia, termo que significa independência de vozes superpostas. Trata-se de faixas melódicas. Sobre o sentido estético desta maneira de cantar falaremos em capítulo especial, mais adiante.

O segundo tipo de organum já apresenta um certo grau de independência entre as vozes pois aparecem, ao lado do movimento paralelo, os movimentos obliquo e contrário.

Notemos que nos dois exemplos o canto dado, pertencente ao repertório do canto gregoriano, figura na parte superior (vox principalis). A parte inferior era denominada vox organalis. Este segundo tipo de organum constitui verdadeiramente o começo da polifonia, pois nele surgem os primeiros sinais de independência entre as vozes. O valor melódico da vox organalis, contudo, é quase nulo ainda.

Escassas são as modificações sofridas por esta polifonia rudimentar durante os dois séculos seguintes. Se compararmos os dois tipos de organum descritos acima com a diafonia de Guido D’Arezzo (monge beneditino, nascido em 995 perto de Paris e falecido em 1050 em Arezzo, Itália), notaremos o predomínio do movimento contrário entre as vozes, o que significa, sem dúvida, um passo a mais rumo à independência das vozes. De fato, se duas vozes caminham paralelas, conservando uma distância fixa entre elas, não temos propriamente duas melodias distintas, mas sim uma faixa melódica. Se uma das vozes mantiver a mesma altura enquanto a outra subir e descer, já existe um começo de independência. É, no entanto, o movimento contrário das vozes que confere a estas um máximo de independência melódica.

Embora predomine neste exemplo o movimento contrário entre as vozes, a conquista da independência das linhas melódicas está apenas a meio caminho: apesar de cada voz seguir o seu próprio caminho, cada uma está amarrada à outra pelo ritmo. Diremos que há uma independência melódica mas não independência rítmica.

Outro aspecto a observar na diafonia é que o cantus firmus – é a designação da melodia do canto gregoriano sobre a qual foi construída a outra melodia em contraponto – está agora na voz inferior. A polifonia é aqui um contraponto nota-contra-nota ou em latim: punctus-contra-punctum. No decorrer deste estudo haveremos de conhecer outras modalidades de contraponto.


Fonte: Kiefer, Bruno – História e Significado das Formas Musicais, São Paulo, 1968 (no livro não constam informações de editora), p. 8 a 11