Música: Emoção Universal?

por: vários autores (veja abaixo)

Estudo conclui que reconhecimento de emoções na música independe de influências culturais

Uma música que soa alegre para brasileiros também seria percebida assim por japoneses? E uma marcha fúnebre tocada nos Estados Unidos pareceria triste na Índia? Estudo recente sobre percepção musical investigou quais aspectos são universais e quais se desenvolvem com a exposição a uma cultura musical específica. Os resultados da pesquisa, publicada na revista Current Biology, revelam que a capacidade de reconhecer emoções básicas na música é universal e independe de influências culturais.

Ao longo da história da civilização humana, em diferentes culturas, os povos produziram e se encantaram com a música. Em culturas ocidentais, a capacidade de uma determinada música de evocar emoções é condição fundamental para que seja apreciada. Essa característica não é necessariamente observada em todas as culturas. Em algumas delas, a música teria outras funções, como a de coordenação grupal em rituais, deixando em aberto a questão da universalidade no reconhecimento da ‘emoção’ na música, bem como na sua apreciação.

Para esclarecer essas questões, Thomas Fritz, do Departamento de Ciências Cerebrais e Cognitivas Humanas do Instituto Max Planck (Alemanha), e colegas realizaram um estudo no qual o tipo de música a ser apresentado fosse completamente desconhecido para o ouvinte. Esse pré-requisito foi essencial, pois a mera exposição ocasional a um tipo de música (por exemplo, ao se assistir a um filme ou se ouvir rádio) pode levar ao aprendizado daquele tipo de som.

Na primeira etapa do estudo, os pesquisadores investigaram a habilidade dos participantes de identificar as três emoções básicas/inatas (alegria, tristeza e medo) expressas na música ocidental. Foram selecionados participantes que pertenciam à etnia Mafa, que, juntamente com outros quase 250 grupos, compõe a população de Camarões. Eles vivem no extremo norte da montanha de Mandara, área culturalmente isolada devido à alta prevalência de doenças endêmicas. Além disso, muitos de seus habitantes têm um estilo de vida tradicional (por exemplo, sem energia elétrica), nunca tendo sido expostos à música ocidental. Esse grupo torna-se, portanto, o candidato ideal para investigar a universalidade no reconhecimento da emoção na música.

Expressões faciais

Tanto os nativos africanos (população Mafa) quanto os participantes ocidentais ouviram a excertos de música ocidental (curtas peças de piano). Os indivíduos deveriam selecionar entre três expressões faciais representativas de emoções (alegria, tristeza e medo) a que melhor representasse a emoção expressada pela música. As expressões faciais estavam apresentadas em fotografias extraídas de um catálogo elaborado pelo psicólogo norte-americano Paul Ekman.

A utilização dessa metodologia como instrumento para medir emoções vem de estudos da década de 1970 que mostraram que o reconhecimento de algumas emoções nas expressões faciais é universal e, portanto, biológico em sua origem, como antecipado um século antes pelo naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882). Nos estudos conduzidos por Ekman, membros de uma cultura isolada (na Papua-Nova Guiné) identificavam corretamente as emoções nas expressões faciais de pessoas de outras culturas.

Na primeira fase do experimento, Fritz e colegas mostraram que o percentual de reconhecimento correto de cada emoção para o grupo étnico (Mafa) – que desconhecia a música ocidental – foi acima do nível da chance, à semelhança dos participantes ocidentais. Isso indica que algum aspecto da música ocidental (como o ritmo, por exemplo) contém informação de caráter emocional que possa ser reconhecido universalmente e transcenda os limites culturais. Segundo os pesquisadores, “esse reconhecimento pode ser comparado ao também universal reconhecimento de expressões faciais ou da entonação que usamos ao falar”.

Na fase seguinte, um experimento foi conduzido para avaliar a apreciação musical. Estudos anteriores já haviam mostrado que ocidentais percebem uma música como mais agradável quando ela é consonante (harmônica). Agora, os pesquisadores quiseram investigar se membros da tribo Mafa também julgariam uma música como agradável se ela fosse consonante.

Cada participante ouvia excertos de música instrumental original de cada cultura (Mafa e ocidental) e também excertos das mesmas músicas modificadas espectralmente (ou seja, com seus sons originais alterados). A música Mafa foi obtida de rituais em que se tocam flautas originais da região. Já a música ocidental foi representada por uma do tipo dançante.

Menos agradável

Os resultados mostraram que ambos os grupos de participantes (Mafa e ocidentais) julgaram a música dissonante (modificada espectralmente para tornar-se desarmônica) como menos agradável que as músicas originais, de ambas as culturas. “É provável que a dissonância sensorial produzida pela manipulação espectral influencie universalmente a percepção do quão agradável é uma música”, escreveram os pesquisadores.

Assim, o estudo representa mais um passo na compreensão dos aspectos universais, imunes às influências culturais que nos fazem gostar ou não de uma música e automaticamente reconhecê-la como alegre ou triste.

Os achados fomentam o debate da compreensão da música como ‘linguagem’ – ou seja, como um traço universal humano em contraposição a uma invenção cultural -, fornecendo pistas dos aspectos inatos e dos fundamentos biológicos da música.


Colaboradores:

Izabela Mocaiber e Eliane Volchan
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Letícia de Oliveira e Mirtes Garcia Pereira
Departamento de Fisiologia e Farmacologia,
Universidade Federal Fluminense


Fonte: Revista Ciência Hoje