Perdas e Prevenção da Acuidade Auditiva

por: Projeto Ciência Viva
(Ministério da Ciência e da Tecnologia – Portugal)

Nas grandes cidades estamos muitas vezes expostos a uma série de barulhos, algumas vezes muito prejudiciais ao nosso sistema auditivo. É conhecido que sons de intensidade superior a 85dB são já considerados de risco. Contudo, é também necessário avaliar os seus efeitos, tendo em conta o tempo de exposição. É que quando o ouvido é “agredido” com uma intensidade de pressão acústica elevada, ele necessita de tempo para recuperar. Se a “agressão” for contínua, o ouvido não repousa, pelo que existe o risco de perda de sensibilidade auditiva.

1. Perdas auditivas:

Geralmente associamos perdas auditivas a pessoas com idade avançada. No entanto, apesar do fator idade ser importante, existem muitas outras causas para além do próprio processo natural de envelhecimento, tais como fatores hereditários e/ou patológicos, ou perdas devidas à exposição prolongada a níveis de intensidades sonoras acima das recomendadas. As perdas devidas ao processo de envelhecimento natural costumam designar-se por presbicusia e resultam da morte gradual de células ciliadas ao longo da vida. Normalmente classificam-se as perdas auditivas nas duas seguintes categorias:

  • Perdas condutivas: causadas por uma diminuição da transmissão de energia sonora entre o ouvido externo e o ouvido interno. Este tipo de perdas pode ser provocado por defeitos ou bloqueios na estrutura anatômica do ouvido, por excesso ou falta de pressão no ouvido médio ou por articulações duras ou deslocadas nos ossículos que os impedem de vibrar livremente. Muitas vezes, este tipo de perdas pode ser revertido recorrendo a intervenções cirúrgicas, medicação ou aparelhos auditivos;
  • Perdas sensoriais: causadas pela deterioração das células ciliadas internas, na cóclea, e/ou no nervo auditivo, o que impede a condução de impulsos nervosos do ouvido interno até ao cérebro. Este tipo de perda auditiva pode ser conseqüência de síndromes genéticas ou de comportamentos incorretos durante a gravidez, tais como o consumo de álcool ou drogas. Pode também, muitas vezes, ser corrigido utilizando aparelhos auditivos. Perdas sensoriais revelam-se também como resultado de exposições prolongadas a níveis de intensidade sonora elevada (trauma acústico), níveis esses que geralmente podem e devem ser evitados! O termo trauma acústico é também utilizado para referir exposições curtas mas de intensidade muito violenta para o ouvido, tendo também como conseqüência perdas sensoriais. Algumas infecções graves como o sarampo, a parotidite, a meningite e a coqueluche podem também causar este tipo de perdas!

As perdas auditivas podem também ser classificadas pelo seu grau de gravidade em perdas mínimas, suaves, moderadas, severas e profundas. O grau de severidade é determinado pelo nível de intensidade sonora que alguém pode ouvir sem a ajuda de uma aparelho auditivo.

  • Perdas mínimas: estas pessoas têm poucas dificuldades em ouvir pois a mais baixa intensidade que percebem é da ordem dos 11dB. Uma pessoa normal consegue ouvir intensidade sonoras a partir dos 0dB;
  • Perdas suaves: pessoas com perdas suaves conseguem ouvir intensidades sonoras de 20 a 40 dB ou mais elevadas. Estas pessoas têm dificuldades em perceber voz distante;
  • Perdas moderadas: pessoas com este tipo de perdas conseguem ouvir sons a partir de 45dB. Isto significa que é difícil para estas pessoas ouvir alguém a falar e entender conversas em grupo;
  • Perdas severas: quem sofre de perdas severas consegue apenas ouvir sons de intensidade superior a 65 dB. Estas pessoas conseguem apenas ouvir alguém a falar alto a distâncias muito pequenas, para além de perceberem sons de intensidade elevada no ambiente que as envolve;
  • Perdas profundas:as intensidade de som que alguém que sofre deste tipo de perdas ouve são sempre superiores a 90 dB. O termo surdo aplica-se normalmente a pessoas que sofrem perdas deste grau ou pessoas que não ouvem absolutamente nada!

Quando nascemos temos aproximadamente 40000 células ciliadas, número este que vai diminuindo à medida que envelhecemos. O processo de envelhecimento afeta sobretudo a sensibilidade a freqüências superiores a 1000Hz. Note-se que, por exemplo, à idade de 70 anos, a perda à freqüência de 4000Hz atinge 60dB. É claro que estes valores são uma média, podendo verificar-se tanto situações não tão dramáticas como situações muito piores. Este cenário, ao qual não podemos escapar, poderá ser agravado caso não respeitemos as recomendações quanto aos limites máximos de exposição à poluição sonora. Esses limites podem ser consultados na tabela seguinte:

Valores de intensidade de pressão acústica

Tempo máximo de exposição diária.

85 dB

8 horas

90 dB

4 horas

95 dB

2 horas

100 dB

1 hora

105 dB

30 minutos

110 dB

15 minutos

115 dB

7 minutos

120 dB

3 minutos

Maior do que 120dB

Risco imediato de perdas auditivas irreversíveis

Tabela 1 – Tempo máximo recomendado de exposição diária para várias gamas de intensidades de pressão acústica.

Pode notar-se nesta tabela que, para uma intensidade de 85 dB, o tempo máximo de exposição é de 8 horas. Este valor vai diminuindo para metade por cada aumento de 5dB. Repare-se também que o tempo máximo de exposição para uma intensidade sonora de 110dB é de 15 minutos. Esse valor é ainda mais impressionante quando notamos que em qualquer discoteca ou concerto a intensidade ultrapassa quase sempre essa intensidade (Tabela 2). Este valor é também muitas vezes encontrado em circunstâncias aparentemente tão inocentes como ouvindo um walkman ou o som de uma sala de cinema. A tabela seguinte apresenta alguns cenários, por ordem crescente do risco envolvido.

Intensidade de pressão acústica

10-20 dB

40-45 dB

60-65 dB

85-90 dB

100-120 dB

120-130 dB

140-… dB

Cenário Típico

-Espaço aberto, sossegado.

-Barulho provocado pela respiração

-Tique-taque de um relógio

-Sussurro

-Conversa em espaço aberto.

-Barulho de água a correr.

-Ruído de tráfego citadino.

-Ruído de maquinaria pesada.

-Batedeira de bolos.

-Aspirador.

-Motociclo a 5m.

-Fábrica ruidosa.

-Escavadoras de pressão.

-Britadeiras.

-Música tão alta que é muito difícil conversar entre duas pessoas.

-Jato voando a baixa altitude.

-Barco a motor a 10m.

Concerto rock ao vivo

-Casa das máquinas de um navio.

-Disparo de uma arma de fogo ou dinamite.

Sensação

Parcialmente audível

Som sossegado e agradável

Ruído citadino normal

A exposição prolongada pode provocar perdas irreversíveis

O ruído provoca desconforto

Para a maioria das pessoas este é o limiar da dor.

Uma simples exposição pode causar perdas permanentes.

Tabela 2 – Classificação de cenários típicos do dia-a-dia de acordo com as intensidades de pressão acústica.

A exposição a ruído de intensidade superior à recomendada pode causar uma perda da audição temporária denominada de desvio temporário dos limiares, algo que um período de repouso e silêncio pode corrigir. Essa perda manifesta-se principalmente nas altas freqüências, sendo apercebida como um abafamento dos sons que pode ser acompanhada do chamado tinnitus, algo que acontece freqüentemente depois das duas primeiras horas de exposição. Contudo, uma exposição regular e prolongada a intensidades de som acima das recomendadas pode causar um desvio permanente dos limiares de audição, algo que não é medicamente recuperável. Alguns estudos efetuados revelam diferenças de 25dB, a certas freqüências entre um adulto saudável de 30 anos e um outro que repetidamente esteve exposto a intensidades sonoras de 100dB.

Mas existem outros problemas associados à exposição a intensidades de ruído elevadas. Pessoas que vivem em ambientes barulhentos têm maior risco de ataques cardíacos, distúrbios psicológicos, problemas com o sono e sofrem geralmente de nervosismo, entre outros problemas.

3. Tinnitus

O tinnitus é uma sensaçãode ruído no ouvido (zumbidos) na ausência de qualquer sonoridade exterior, estando comumente associado a perdas auditivas. O principal sintoma é a presença de ruídos vibrantes, “atroadores”, zumbidos, sons sussurrantes ou parecidos com assobios e que apenas quem sofre da doença ouve! Eles podem ser esporádicos, por vezes síncronos com a atividade cardíaca, ou contínuos, variando geralmente em intensidade e notando-se sobretudo quando a intensidade de som no ambiente é pequena.

Não se conhece com exatidão a causa do tinnitus, mas ele é um sintoma comum em muitos problemas auditivos como os que se seguem:

  • Exposição prolongada a ruídos de intensidade elevada;
  • Trauma acústico;
  • Bloqueio do canal auditivo pelo acumular de cera;
  • Infecções no ouvido;
  • O tímpano perfurado;
  • Um tumor no ouvido médio;
  • Efeito secundário de mais de 200 medicamentos (aspirina, quinina, antibióticos, anti-inflamatórios, diuréticos, e antidepressivos), ditos ototóxicos;
  • Surdez hereditária;
  • Stress crônico ou problemas como tensão arterial elevada, anemia, problemas cardiovasculares, alergias.

4. Medidas de proteção:

Qualquer pessoa que se exponha a uma dose de ruído equivalente a 8 horas acima dos 85 dB, deve estar guarnecida de proteção adequada. Tal deve ser o caso de operários fabris, operadores de máquinas ou outras profissões de risco. Existem no mercado vários tipos de protetores que agem como barreiras ajudando a reduzir a potência das ondas sonoras que entram no ouvido. Essa redução assume regularmente valores entre cerca de 20 e 30dB. Estas proteções podem tornar-se algumas vezes incômodas por várias razões, algo que leva muitas pessoas a pô-las de parte. Eis alguns desses problemas:

  • As proteções auditivas existentes no mercado atenuam muitas vezes mais do que o necessário para o ruído existente na indústria e no ambiente;
  • A atenuação a altas freqüências é geralmente de 10 a 20 dB, o que torna muitas vezes difícil perceber a voz das pessoas;
  • A voz do utilizador soa cavernosa para ele próprio.

Contudo, os modelos de protetores auriculares mais recentes são construídos com material esponjoso muito suave que se adapta confortavelmente à anatomia de cada um e que, após um pequeno período de adaptação, evitam as razões de desconforto anteriormente apontadas.

Independentemente desta discussão, é absolutamente consensual que a utilização de proteção auditiva é indispensável para a preservação de uma boa acuidade, quando as intensidades de som são superiores a 85 dB! Existe uma gama muito variada de protetores para os ouvidos. A tabela seguinte seguinte apresenta alguns exemplos.

Tabela 3 – Exemplos de proteções auditivas.

Apesar da grande quantidade de proteções disponíveis no mercado, a melhor estratégia continua a ser simplesmente evitar a exposição prolongada a sons intensos. Convém também lembrar que os ouvidos estão sempre a trabalhar, sendo por isso necessário estarmos atentos para eventuais situações que possam por em causa a sua integridade.

Por último aconselha-se que, na ausência de proteção auditiva mais apropriada, o recurso a materiais vulgares e de fácil acesso como bolas de algodão, mas que não “agridam” fisicamente o canal auditivo, apesar de proporcionarem uma proteção muito modesta, não são de ignorar pois trazem sempre algum benefício.


Fonte: http://telecom.inescn.pt