Unidos em Adoração – Parte 5 – Uma Igreja em Adoração

por: Pr. Dwight Nelson

Precisamos mais do que uma adoração instantânea para nos prepararmos para o desfile barulhento do mundo

David James Randolph, em seu livro God´s Party (A Festa de Deus), fala de um desfile festivo de um circo que percorria alegremente as ruas de Milão, Itália. As multidões aclamavam, os palhaços riam, os animais rugiam. Repentinamente, sem aviso, umas das enormes atrações do circo, um gigantesco e pesado elefante afastou-se do desfile e caminhou diretamente para a catedral. Antes que seus domadores pudessem reagir, o elefante trotou através das portas da igreja, caminhou pelo corredor, soltou alguns barritos com voz de trombeta, então virou a cabeça enrugada e caminhou de volta para o desfile.

Randolph pergunta: em assuntos de adoração, será que somos semelhantes a paquidermes piedosos – elefantes na igreja? Desabamos através das portas da igreja no sábado de manhã, fazemos alguns barulhos, agitamos a cabeça sobre os bancos a fim de observar a congregação, e quando tudo acaba, nos arrastamos de volta para nosso lugar no desfile barulhento da vida?

Certamente, não, se Deus estiver em nosso caminho!

No sonho noturno do rei Salomão, Deus mostrou um impressionante quadro verbal de pessoas reunidas em adoração: “Se o Meu povo, que se chama pelo Meu nome, se humilhar, e orar, e Me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, Eu ouvirei dos Céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra” (II Crônicas 7:14).

Embora tenhamos usado muitas vezes estas palavras como apelo à oração e confissão coletiva, também é verdade que Deus aqui descreve a adoração coletiva, aquela experiência coletiva de comunhão na qual o povo se reúne em Sua presença para humilhar-se diante dEle, buscando Sua face em louvor, oração e penitência.

Você percebeu como Deus descreve a comunidade que se reúne para adorá-lo? Ele declara que eles serão “Meu povo, que se chama pelo Meu nome”. E se pessoas são chamadas pelo mesmo nome, ao redor do mundo, são conhecidas como uma “família”. Assim, quando Deus observa uma comunidade reunida em Seu nome para adorá-lo, Ele nos chama Sua família.

Elefantes na igreja? Dificilmente. A adoração é o ajuntamento da família de Deus. Que elevada condição! Quando as portas de nossas igrejas são amplamente abertas cada sábado, são abertas para filhos do mesmo Pai, chamados por Seu nome.

Não é por acaso que Paulo é tão taxativo ao declarar: “Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda família, tanto no Céu como sobre a Terra” (Efésios 3:14 e 15). Tendo o mesmo Pai, recebemos o mesmo nome, o dEle.

Enquanto crescia com meu irmão e minha irmã mais novos, lembro-me do corajoso conselho de minha mãe – que Deus a abençoe – que nunca deixou de esperar que alguma palavra de conselho estimulasse um comportamento apropriado. Antes que saíssemos correndo pela porta para a casa de um colega de brinquedos, ela punha a mão em nosso ombro e olhava dentro de nossos olhos: “Lembrem-se de quem vocês são, filhos, vocês pertencem à família Nelson”. E amando muito nossos pais, desejando orgulhar-nos de nosso nome, nós fazíamos o melhor que podíamos para ter um bom comportamento – ao menos por algum tempo, até esquecermos o nome que levávamos e a família a que pertencíamos. Dali em diante, nós descíamos a ladeira.

“Se o Meu povo, que se chama pelo Meu nome” é a maneira de Deus colocar gentilmente a mão em nosso ombro e olhar bem para dentro do nosso coração com o lembrete – antes de sairmos pelo desfile da vida – “Lembrem-se de quem vocês são, filhos. Lembrem-se de que vocês são Meus”. A adoração coletiva é o lembrete poderoso e perene de que sem dúvida somos todos uma família – Sua família, que temos o Seu nome.

O fato de que esse evento tem lugar a cada sétimo dia é um testemunho de nossa necessidade infantil de sermos lembrados. A escolha de viver sem esse momento semanal de adoração familiar é uma das razões por que tantas crianças crescidas acabam vivendo sem um único pensamento para seu Pai e para Seu nome, os quais uma vez eles escolheram adotar. Não se lembram mais – porque não se reúnem mais com família em adoração. E – é triste dizer – realmente é uma grande descida ladeira abaixo.

Não conseguimos sozinhos – Ao longo do meu pastorado, conheci homens, mulheres e jovens adultos que tentavam viver separados da comunidade de fé de sua família, que buscavam andar por conta própria pela vida pessoal e profissional, sem a família de outros tempos. Observei seus valorosos esforços para abrir caminho em meio a uma existência isolada, solitária em um mundo geralmente frio e desalmado. Alguns tiveram marcante sucesso profissional e financeiro – mas entre as linhas de suas palavras eu identificava a dor e solidão de seu coração.

A essas pessoas chega um terno apelo do Pai, cujo nome uma vez eles levaram, um convite contido em uma única promessa: “Deus faz que o solitário more em família” (Salmo 68:6). Agora, mais do que nunca, Ele está procurando satisfazer a sede do coração de uma geração pós-moderna. Agora, mais do que nunca, a comunidade em adoração deve escancarar as portas para os solitários que buscam um senso de pertinência, e que ao dar vazão a seus anseios não estão mais do que obedecendo aos impulsos do Espírito de Deus em direção à família de Deus.

Não importa se abandonamos o lar, como o filho pródigo, ou se permanecemos em casa, como o irmão mais velho, todos nós precisamos desesperadamente do Pai e de Sua família. “Deus faz com que o solitário more em família”. E lá, em um pequeno grupo de oito pessoas, em uma congregação ativa de 100 ou uma poderosa comemoração de 3 mil pessoas – em adoração compartilhada, podemos experimentar a comunidade com o Pai e Sua família para a qual fomos criados e pela qual anseia nosso coração.

Mas a adoração corporativa é mais do que a alegria de encontrar uma comunidade e não estar sozinhos uma vez por semana. O escritor de Hebreus admoestou: “Consideremos uns aos outros para nos incentivarmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas procuremos encorajar-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia” (Hebreus 10:24 e 25, NVI). Quando me reúno com você em adoração, alguma coisa real e profunda é transmitida ao meu coração e vida pelo simples fato de estar com você e com Deus naquela hora de adoração compartilhada – algo de que preciso urgentemente e cuja negligência será perigosa se decidir prosseguir sozinho. O que é?

Dwight L. Moody, o grande evangelista americano, estava visitando certa noite o lar de um empresário que perguntou: “Não é suficiente adorar a Deus por conta própria cada dia? Por que então eu preciso interromper minha vida e freqüentar a igreja cada semana?” Moody ouviu sem um comentário. Finalmente, ele se inclinou para a frente, abriu a lareira, aproximou a mão das chamas crepitantes e apanhou um tição incandescente, deixando-o sobre o piso de pedra. Enquanto os dois observavam em silêncio, as brasas incandescentes, agora separadas do fogo, aos poucos começaram a perder o brilho, e as chamas começaram a diminuir – até que finalmente, em um último fio de fumaça, nada mais restava a não ser restos frios e chamuscados. A pergunta estava respondida.

“Consideremos uns aos outros para nos incentivarmos ao amor a ás boas obras [como ao fogo]. Não deixemos de reunir-nos como igreja [afastando-nos dos outros tições], segundo o costume de alguns; mas procuremos encorajar-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia”.
Calmas caminhadas junto à natureza e retiros de oração em particular – por mais benefícios que sejam a vida espiritual – nunca poderiam substituir o ardente contágio das reuniões de sábado a sábado em adoração da família diante do Pai.

Por que? Porque é na comunidade com outros que buscam a Deus que a fé vacilante é fortalecida, o zelo bruxuleante é aquecido, as esperanças particulares são inspiradas publicamente, a confiança em declínio é reforçada. O pronunciamento de Deus no Éden ainda é verdadeiro: “Não é bom que o homem [ou a mulher] esteja só” (Gênesis 2:18). Como observou Paul Tournier: “Existem duas coisas que não podemos fazer sozinhos – uma é casar-nos, e a outra é ser cristão (1)”. Nós fomos feitos uns para os outros, criados para busca-lO juntos, criados para a própria comunidade em adoração que Ele ainda chama de família, “Meu povo, que se chama pelo Meu nome”.

E sobre o coração flamejante dessa comunidade em adoração ergue-se a cruz de Cristo. “Vocês, que antes estavam longe, foram aproximados mediante o sangue de Cristo” (Efésios 2:13, NVI). “Antes vocês nem sequer eram povo, mas agora são povo de Deus; não haviam recebido misericórdia, mas agora a receberam. … Para isso vocês foram chamados, pois também Cristo sofreu no lugar de vocês. … Por Suas feridas vocês foram curados” (I Pedro 2:10, 21 e 24, NVI).

Por Suas feridas carmesim no Calvário, Deus curou uma variedade de candidatos improváveis à Sua família – vermelhos e amarelos, negros e brancos, homens e mulheres, pobres e ricos, educados e analfabetos, jovens e idosos. Quando nos reunimos cada sábado em toda a nossa disparidade, não é este próprio ato de adoração em comunidade um testemunho imperativo de nosso mundo quebrado e fragmentado? Pois se Deus, em Cristo, pode criar uma comunidade a partir de pecadores como você e eu, certamente Sua graça pode fazer o mesmo “a cada nação, e tribo, e língua, e povo” (apocalipse 14:6).

Não admira que Deus chame Sua comunidade em adoração para ser também uma comunidade em testemunho!

O que Deus está buscando – Philip Yancey conta que o compositor Igor Stravinsky certa vez compôs uma nova peça que continha uma passagem muito difícil para o violino. Depois de várias semanas ensaiando, o violinista procurou Stravinsky e disse que não era capaz de tocá-la. Ele havia feito seu melhor, mas achava o trecho muito difícil, impossível mesmo. Stravinsky respondeu: “Entendo. O que eu estou procurando é o som de alguém tentando tocar isso (2).”

Talvez seja isso o que Deus esteja buscando – uma comunidade e família na Terra que esteja humilde e fielmente “tentando” tocar a composição de Sua graça. “Fraca e defeituosa como possa parecer, a igreja é o único objeto sobre que Deus concede em sentido especial Sua suprema atenção. É o cenário de Sua graça, na qual Se deleita em revelar Seu poder de transformar corações (3).”

“O cenário da graça” – que inspirador retrato daquilo que Deus quer que seja Sua igreja. Deus não está procurando solos perfeitos nem acompanhamentos impecáveis. Seu mais profundo anseio é que Seu povo, que se chama pelo Seu nome, não apenas compartilhe o coração do Pai em adoração, mas também viva o amor do Pai em testemunho.

E como será nosso testemunho diário, nós que adoramos semanalmente na família de Deus? Três palavras são suficientes – Três palavras que são a linguagem universal da família, especialmente de famílias que, como Deus, têm filhos extraviados. Três palavras simples, um único convite: “Venha para casa”.

Não é por acaso que nossa Bíblia termina com elas (veja Apocalipse 22:17). Mas então, o que você deve esperar de um Pai expectante e de uma família em adoração que não quer ir sozinha para o lar?


Perguntas para debate
1. Em que aspectos o nosso comportamento em adoração algumas vezes se parece mais com o elefante da história?
2. Por que a adoração coletiva é importante? Como podemos levar esta mensagem aos que pretendem ser cristãos sozinhos?
3. O que a ilustração de Stravinsky significa para você pessoalmente? O que deve significar para nós, como família?


* As citações bíblicas deste artigo foram extraídas da Versão Almeida, Revista e Atualizada no Brasil, 2ª edição, com exceção dos testos assinalados com “NVI”, que foram extraídos da Nova Versão Internacional.


Notas:
1. Citado em Philip Yancey, Church, Why Bother? My Personal Pilgrimage, pág. 37.
2. Ibidem, pág, 99.
3. Ellen G. White, Atos dos Apóstolos, pág. 12.


Dwight Nelson é pastor titular da igreja Pioneer Memorial na Universidade Andrews, em Berrien Springs, EUA.


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Fonte: Revista Adventista (Casa Publicadora Brasileira). Nº 10. Outubro, 2002. Ano 98. págs. 14 a 16.