Unidos em Adoração – Parte 3 – Como Devemos Adorar?

por: Pr. Luka T. Daniel

Nas escrituras não há fórmulas fixas ou rígidas – mas existem fortes indicações

“Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do Senhor, que nos criou. Ele é nosso Deus, e nós, povo do Seu pasto e ovelhas de Sua mão” (Salmos 95:6 e 7).

Neste solene convite feito pelo salmista há quatro importantes pontos a respeito da adoração: quem é a pessoa merecedora da adoração, quem deve adorar, por que e como. Nossa ênfase hoje é o último ponto: como adorar.

As Escrituras deixam claro que é importante o modo de adorarmos a Deus. Quando Caim ofereceu produto de sua fazenda em vez de um animal como sacrifício, descobriu que Deus era criterioso – seu sacrifício não foi aceito. Saulo, líder zeloso de um grupo que perseguia a igreja primitiva, achava que ele defendia a causa de Deus. Posteriormente, descobriu que sinceridade não era suficiente. E na parábola de Cristo do fariseu e do publicano que foram ao templo para orar, aprendemos que são aqueles que dão glória a Deus e não a si mesmos que saíram do culto justificados.

Modo de adorar – Alguns decidem celebrar “com júbilo ao Senhor” (Salmo 98:4). Outros buscam solenizar o culto optando pelo “cale-se toda carne diante do Senhor” (Zacarias 2:13). Textos como Salmo 46:10; 47:6 e 7; e Esdras 3:11 indicam que, dependendo das circunstâncias, existem lugar e tempo para os dois modos de adorar.

Curiosamente, no início da história dos adventistas houve casos isolados em que o culto incluía falar em línguas (1), gargalhadas (2) e gritos de alegria (3). No início do século passado, porém, Ellen G. White passou a chamar a atenção da igreja para a ordem, contra um culto caracterizado pela “balburdia” e envolvendo “gritos com tambores, música e dança (4)”. Durante uma semana de oração em 1901, ela advertiu: “Cuidadoso direcionamento em todos os pontos é necessário, para que não deslizemos nem para o fogo do fanatismo nem para o formalismo, que congela tanto a nossa alma como a alma dos outros (5).”

Parece que Davi introduziu uma ordem de culto para o Templo (ver II Crônicas 8:14). Paulo também parece indicar em Coríntios 14:26 que o serviço de culto na igreja em Corinto incluía “um salmo”, “um ensino”, “uma língua”, “uma revelação”, e “uma interpretação”. Isto soa como um típico programa adventista de sábado, abrangendo os momentos de louvor, a Escola Sabatina e o culto divino. No entanto, é óbvio que nem a ordem de adoração do Templo, nem a igreja de Corinto, foram estabelecidas para serem copiadas exatamente em todos os lugares e épocas. A falta de uma liturgia padronizada pela Bíblia dá espaço para flexibilidade e/ou variação. Não importando a forma que nosso culto assuma, é importante incluir nele os quatro seguintes ingredientes: adoração, aclamação, proclamação e aplicação.

Adoração – Para a devoção pessoal é sugestiva a prática regular e diária da “tarde, manhã e meio-dia” (Salmo 55:17). Adoração (particular ou pública) pode incluir inclinar-se e colocar-se ajoelhado como fazia Daniel (Daniel 6:10); (não ajoelhar sobre o hinário e a lição da Escola Sabatina, para não citar a Bíblia).

“Querido Deus”, escreveu Elliot, cinco anos atrás, “penso a Teu respeito mesmo quando não estou orando”. Sim, de fato! A Bíblia também nos aconselha a “orar sem cessar” (I Tessalonicenses 5:17), indicando que ajoelhar não é sempre possível ou necessário. Podemos orar em pé, como os fariseus e o publicano na parábola de Cristo (Lucas18:11-13), ou sentados como Elias (I Reis 19:4). Podemos também orar em silêncio, enquanto trabalhamos, caminhamos ou dirigimos. Desse modo, podemos manter comunhão ininterrupta com nosso Criador.

Especialmente na oração em público, precisamos nos resguardar contra a ostentação da eloqüência e das “vãs repetições” (Mateus 6:7). Apenas seres humanos, e não Deus, podem ficar impressionados com sua atitude na oração. A recompensa de tais orações termina no louvor e aplauso humanos.

Outra atitude a evitar são as orações longas em público. Os profetas de Baal no Monte Carmelo (I Reis 18) representam um exemplo do infrutífero esforço humano na oração. A oração de Elias (versos 36 e 37) foi curta e fervorosa.

Algumas orações podem ser acompanhadas pelo jejum – não para impressionar nosso Deus, sábio e conhecedor de todas as coisas, para que nos ouça ou mude Sua forma de pensar, mas para ajudar a nos manter concentrados nEle.

Aclamação – As Escrituras listam o hábito de não freqüentar a igreja como um dos sinais dos tempos (Hebreus 10:25). Os membros que não se congregam perdem a oportunidade de se ligar com outros para agradecer e louvar a Deus em laços de amor. Eles perdem o prazer e as bênçãos de devolver seus dízimos e doar ofertas conforme as recomendações de Deus (ver Malaquias 3:8-12). Copiosas bênçãos esperam aqueles que obedecem sem alarde.

Deve ser observado, no entanto, que Deus não pode ser subornado, considerando que Ele é quem nos dá forças e habilidades para prosperar. Ele simplesmente espera nossa demonstração de apreciação dentro da proporção daquilo que temos recebido (II Coríntios 8:12).

Cantar é outro importante aspecto da adoração a Deus. Alegra o coração e cura a alma. Para evitar monotonia ou excessos no culto, uma variedade de cânticos é recomendada em Colossenses 3:16. Podemos usar hinos para louvar a Deus e canções religiosas para compartilhar nossas experiências em batalhas espirituais enfrentadas e ganhas por meio de Cristo. Instrumentos musicais, usados habilmente, acrescentam doces melodias aos nossos cânticos. Leia II Crônicas 5:13 e 14 e veja como Deus apreciava a combinação de vozes e instrumentos nas reuniões do Templo. (Estou lembrando o que aconteceu no encerramento da sessão da Associação Geral de 1985, em Nova Orleans, Louisiana. Após a multidão de assistentes formar um coral e entoar “Aleluia” de Handel, acompanhada por uma orquestra, muitos de nós nos sentimos mais perto do Céu.)

Proclamação – Adoração também envolve estudar e ouvir a Palavra de Deus. Tanto no estudo da Bíblia como na apresentação do sermão é importante que o dirigente manuseie corretamente a “palavra da verdade” (II Timóteo 2:15). Devemos resistir à tentação de fazer do púlpito um lugar de mero entretenimento. Aqueles que vêm adorar devem receber uma mensagem espiritual e não uma massagem espiritual. Eles necessitam ouvir a Palavra de Deus apresentada de forma clara e não acariciar filosofias com eloqüência humana. Como João Batista, o orador deve ficar de lado e deixar que Cristo seja revelado o máximo possível.

As boas-novas do evangelho devem ser o foco em cada lição ou mensagem. E cada apresentação deve terminar com um claro e definido apelo para se tomar uma decisão.

Aplicação – O culto deve efetivar uma mudança no estilo de vida para melhor, e essa mudança deve começar no coração – a fonte de todas as nossas ações. Apenas Deus pode ler o que está registrado na “caixa preta” da alma. Felizmente, Ele tem Se oferecido para realizar uma cirurgia espiritual para remover nosso “coração de pedra” e transplantar um “coração de carne” (Ezequiel 11:19). Ele vai além: “Habito no alto e santo lugar” e acrescenta: “mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos” (Isaías 57:15). Que privilégio para nós como adoradores!

Em suma, no culto não é o volume da voz que cantamos ou pregamos, nem a duração de nossas orações ou jejuns, nem a quantidade daquilo que ofertamos que é importante. O que vale é nossa disposição de render o coração para uso exclusivo do Criador, a quem adoramos.

Como Isaías na maravilhosa presença de Deus (Isaías 6:1-8), devemos reconhecer a divina santidade em contraste com nossa pecaminosidade. Devemos nos arrepender para estarmos em condições de ser perdoados e transformados, e prontos para seguir as recomendações de Deus. Cada vez que temos uma oportunidade para adorar com o povo de Deus em Seu santuário, vamos decididos a participar do culto e sair para servir.


Perguntas para debate
1. Que evidência bíblica temos de que Deus está interessado em nosso modo de adorar?
2. Conforme o autor, que quatro pontos devem caracterizar nossos cultos?
3. Que aspectos do culto você considera mais significativos? Por que?


Notas:
1. Arthur L. White, Ellen G. White, vol. 1, pág. 197.
2. Ellen G. White, Manuscript Releases, vol. 5, pág. 239.
3. Ibidem, vol. 19, pág. 130.
4. White, Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 36.
5. White, Manuscript Releases, vol. 17, pág. 48.


Luka T. Daniel é presidente da Divisão África-Oceano Índico, com sede em Abidjan, Costa do Marfim.


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Fonte: Revista Adventista (Casa Publicadora Brasileira), Nº 10. Outubro, 2002. Ano 98. págs. 10-11.