Shows Cristãos: Culto, Entretenimento ou Mundanismo?

por: Pr. Douglas Reis (*)

Nos anos de 2005, 2006 e 2007, grandes cidades brasileiras receberam inúmeros cantores de música gospel, patrocinados pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, inclusive com apoio da ADRA, a qual recebeu recebeu alimentos doados à entrada de cada apresentação. Além dos eventos realizados em ambientes seculares (como casas de espetáculos), a própria Igreja Adventista, em suas congregações, recebeu os mesmos artistas. Não seria um equívoco, portanto, afirmar que outros shows como estes certamente acontecerão em nossos arraiais.

Mas seria adequado para o cristão envolver-se com esse tipo de evento? Quão válidos são os shows de artistas cristãos do ponto de vista espiritual? São mero entretenimento?

Este artigo tece algumas observações sobre os aspectos dos shows cristãos de uma forma geral, sem se ater à análise de um cantor ou grupo em especial. O objetivo principal é abrir a discussão sobre um fenômeno que recentemente tem se tornado parte da vida social dos adventistas do sétimo dia; contudo, apesar do foco denominacional, acreditamos que a abordagem favoreça o debate no contexto de outros grupos cristãos evangélicos.

Considerações Culturais.

É bom definirmos que, por show, nos referimos a uma apresentação artística. É isso que entendemos significar a palavra para a maioria dos brasileiros. Sabemos que, em Inglês, show é um termo mais geral, que significa apresentação, não especificamente artística.

Cabe outra pergunta: em que os shows de cantores cristãos diferem do de intérpretes seculares, em questão de estilo musical, produção, figurino e ambiente? São vistas mais semelhanças ou contrastes no comparativo?

É notável que cantores cristãos se vestem e se apresentam de forma próxima aos padrões dos demais cantores pop. Como adventistas, acreditamos na orientação apostólica para não usarmos vestuário dispendioso e ornamento chamativo. (I Pedro 3:3). Como querer manter o princípio bíblico e passá-los aos jovens e adolescentes se os cantores cristãos que eles acompanham não seguem esses mesmos valores?

Também notamos que coreografias e danças fazem parte dos shows cristãos. Alguns cantores são acompanhados por bailarinos em suas apresentações. A maioria das igrejas protestantes não compartilha da admissão desse elemento em seus cultos. Alguns até poderiam argumentar que a bíblia menciona que Davi dançou diante da arca do Senhor e que isso seria válido em nossos dias. Notemos o que a escritora Ellen White afirma sobre o assunto:

“A dança de Davi em júbilo reverente, perante Deus, tem sido citada pelos amantes dos prazeres para justificarem as danças modernas da moda; mas não há base para tal argumento. Em nosso tempo a dança está associada com a extravagância e as orgias noturnas. A saúde e a moral são sacrificadas ao prazer. Para os que freqüentam os bailes, Deus não é objeto de meditação e reverência; sentir-se-ia estarem a oração e o cântico de louvor deslocados, na assembléia deles.

“Esta prova deve ser decisiva. Diversões que tendem a enfraquecer o amor pelas coisas sagradas e diminuir nossa alegria no serviço de Deus, não devem ser procuradas por cristãos. A música e dança, em jubiloso louvor a Deus, por ocasião da mudança da arca, não tinham a mais pálida semelhança com a dissipação da dança moderna. A primeira tendia à lembrança de Deus, e exaltava Seu santo nome. A última é um ardil de Satanás para fazer os homens se esquecerem de Deus e O desonrarem.” (Patriarcas e Profetas, pp.313 e 314).

Dada a diferença entre a espontânea e inocente coreografia do rei-salmista com a prática sensual em que se tornou a dança, não podemos torná-la uma prática livremente aceitável. [Para aprofundar-se neste assunto, leia o artigo: “Davi nos Aprova a Dança?“].

Para mim, o mais curioso é que as músicas de maioria de artistas cristãos poderia ser incluída dentro do gênero pop, ou seja, música altamente comercial do mesmo tipo que se ouve nas rádios seculares.

Mais impressionante ainda é que podemos facilmente encontrar parcerias de músicos Adventistas com aqueles são reconhecidamente seculares. Que estilo musical pode advir deste tipo de encontro? Penso que não podemos encontrar a pessoa de Jesus nessa relação entre o sagrado e o profano. É muito comum, nestas parcerias musicais, encontrarmos muito pouco de Jesus, mas muito sobre temas gerais, como o amor, ou a amizade, ou simplesmente letras muito parecidas com os livros de auto-ajuda encontrados aos montes em qualquer livraria secular. O que não deixa de ser óbvio, pois não se poderia esperar uma jóia espiritual proveniente de um compositor secular!

E se a pareceria entre músicos seculares não evidencia a figura de Jesus, quanto menos a execução de músicas seculares por grupos religiosos. Não se poderia esperar uma jóia espiritual de um concerto religioso no qual se executa músicas de grupos dedicados ao entretenimento vazio e corrompido da música secular. Como separar o sagrado do profano se intencionalmente se misturam esses elementos explosivos?

O maior perigo, no entanto, é que o show se centralize na pessoa do artista, ou em algum traço de sua pessoa, como carisma, técnica vocal, etc. Isto significa que o louvor está sendo dado a homens, e Deus vem a ser roubado de Sua glória. O Senhor não divide o palco com ninguém – ou Lhe damos todo o louvor ou Ele fica sem louvor nenhum!

Pelos aspectos que acabamos de ver, fica claro que shows cristãos, do ponto de vista cultural, não diferem de forma significativa de shows seculares e muito menos se pautam pelos padrões bíblicos de conduta ou adoração. Ainda assim, queremos analisar o assunto da adoração de forma separada.

Lenço na Mão e Próximo de Deus.

Uma amiga, após retornar de um desses shows de música gospel, relatou sua emoção e disse ter sido “tocada espiritualmente”. O gênero apreciado por ela no concerto foi desses atuais “Worships”, com músicas curtas, emocionais, de pobre construção musical em seus aspectos técnicos e com direitos a aleluias e palmas.

Sem percebermos, os shows de artistas evangélicos influenciam os nossos e, por tabela, a forma de nossos cantores se apresentarem dentro de nossas igrejas. Porém, temos nos esquecido de que a forma de adorar a Deus tem que ver com o entendimento que temos de Sua pessoa. Uma adoração emocional não reflete a santidade do Deus da Bíblia. Não quero dizer que a adoração tenha que ser “fria”, apenas racional; mas tem de haver respeito à Pessoa Divina. Sairmos emocionados de um show não implica em um encontro real com Deus. Nossas emoções nunca foram base segura para medir nossa comunhão com Deus (Jeremias 17:3, I João 3:20).

Ainda assim, alguns pensam que essa forma de programa possa servir para atrair não-cristãos para Deus. Será?

A “Isca” certa.

Se uma pessoa “curte” rock, axé, samba, tecno, pop, hip-hop, não seria mais lógico atraí-la para Cristo colocando uma letra cristã no gênero musical de sua preferência?

Por mais razoável que isso soe, trata-se, em verdade, de uma inversão de valores. Primeiro porque a música no culto tem a função principal de expressar nossa adoração a Deus, tendo, portanto, de estar fundamentada naquilo que agrada ao Senhor (expressando sentimentos como reverência, entrega, submissão, paz, etc). Qualquer influência de elementos seculares compromete a adoração e não pode servir para uma atuação ideal do Espírito (uso o adjetivo “ideal” porque muitas vezes o Espírito até pode usar algo que fuja do ideal para a Sua glória, sem que essa ressalva anule o princípio).

Note, porém, que quando a adoração é praticada de forma ideal os descrentes são, consequentemente influenciados:

Vi que todos devem cantar com o espírito e com o entendimento também. Deus não Se agrada de algaravia e dissonância. O correto é sempre mais agradável a Ele que o errado. E quanto mais perto o povo de Deus se puder aproximar do canto correto, harmonioso, tanto mais é Ele glorificado, a igreja beneficiada e os incrédulos favoravelmente impressionados.” (Evangelismo, p. 508, grifos meus).

Considerações Finais.

Em nenhum lugar da Bíblia ou do Espírito de Profecia os cristãos são proibidos de realizarem programas musicais fora do contexto de uma igreja local, como num anfiteatro ou ginásio, por exemplo; agora, tendo visto o que apresentamos acima, devem ser feitas as devidas considerações sobre o caráter do evento para que o nome de nosso Salvador não seja desonrado. Devemos igualmente julgar o ambiente, caráter e produção das apresentações ditas “gospel” antes de, inadvertidamente, comprarmos o ingresso. Temos de ter sabedoria, porque, a medida em que o tempo avança, mais Satanás trabalha para misturar sentimentos mundanas com as práticas do verdadeiro cristianismo.


(*) – O presente artigo foi adaptado pelos editores do Música Sacra e Adoração para publicação neste espaço. O original está disponível no blogo do autor, Questão de Confiança (voltar)