Instrumentos de Percussão na Música Sacra

A Forma da Adoração 3 de julho de 2012 9:23 pm

por: Ozeas C. Moura

Como sabemos, a música é, hoje, assunto complexo, e facilmente se cai num ou noutro extremo. Essa complexidade se deve grandemente ao fato de a música fazer parte da cultura dos povos, sendo usada tanto em ocasiões festivas seculares quanto no âmbito religioso. Mas nos cumpre perguntar: O que vale para um ambiente secular seria também apropriado para uma ocasião de culto? A Bíblia tem parâmetros que podem responder a essa pergunta e nortear a escolha da música a ser usada no momento do culto, quando Deus é adorado.

Devido ao emprego cada vez maior de instrumentos de percussão nos cultos evangélicos e católicos, poderíamos perguntar: Quão apropriados são esses instrumentos na música sacra? Seria apenas questão de gosto ou uma questão bíblico-teológica?

Na música secular

Analisemos, primeiramente, a música fora do ambiente do templo, ou seja, música secular, de entretenimento ou de celebração por algum evento. Nesse tipo de música, praticamente todo tipo de instrumentos era usado, inclusive a dança. Um exemplo é o de Davi, em sua primeira tentativa de trazer a arca para Jerusalém. Em I Crônicas 13:8, é mencionado que esse rei conduziu o cortejo “com todo o seu empenho; em cânticos, com harpas, com alaúdes, com tamboris, com címbalos e com trombetas”. E II Samuel 6:14 informa que “Davi dançava com todas as suas forças diante do Senhor”. Essa dança nada tinha que ver com a dança moderna, nem era sensual, mas consistia em pulos de alegria (tipo da dança que ocorreu quando o filho pródigo voltou (cf. Lucas 15:25), e na ocasião em que os guerreiros egípcios se afogaram no mar Vermelho e Miriã conduziu um grupo de mulheres com “danças e tamborins” (ver Êxodo 15:20).

Na música secular ou de entretenimento, usavam-se instrumentos de percussão, como o tamborim, às vezes traduzido por “adufe” (no hebraico, toph – pequeno tambor de mão, ou pandeiro), usado para acompanhar, ritmadamente, a música e a dança, nas festividades e cortejos [1] (Gênesis 3:27; Êxodo 15:20; Juízes 11:34; I Samuel 10:5; 18:6; II Samuel 6:5; Salmos 149:3; 150:4, etc.).

Na música sacra

Em se tratando de música sacra, apresentada no culto em louvor a Deus, vê-se que tambores e tamborins (o mesmo que adufes) ficaram de fora da música sacra, apresentada no templo, uma vez que estavam associados ao culto pagão e por fazerem parte da música secular, de comemoração ou entretenimento [2]. Eles foram proibidos no templo, mas admitidos fora dele em festividades e encontros sociais. Isso indica que não eram maus em si mesmos, mas não eram tocados no templo justamente por sua associação com o entretenimento secular.

A ausência de instrumentos de percussão é vista na música sacra instituída pelo rei Davi, a qual era composta de música vocal (cantores) (I Crônicas 15:16, 19-22), instrumentos de cordas, como alaúdes e harpas (15:16, 20, 21) e instrumentos de sopro, como trombetas (15:24). A exceção fica por conta dos “címbalos” (metsiltayim) (15:16, 19) – dois pequenos pratos, usados pelo líder da música para marcar o fim de uma estrofe, e não para ritmar a música. O vocábulo Selah (pausa?), que aparece em muitos Salmos, pode indicar o momento em que eram tocados os címbalos [3].

A mesma preocupação em se deixar de fora tambores e tamborins pode ser vista no restabelecimento do culto a Deus, empreendido pelo rei Ezequias: “Também estabeleceu os levitas na Casa do Senhor com címbalos, alaúdes e harpas, segundo mandado de Davi e de Gade, o vidente do rei, e do profeta Natã; porque este mandado veio do Senhor, por intermédio de Seus profetas” (II Crônicas 29:25, itálicos acrescentados). Esse texto nos mostra que a proibição de instrumentos de percussão, como tambores e tamborins, na música sacra, não surgiu da cabeça de nenhum músico humano, mas do próprio Deus. O mesmo procedimento foi adotado no tempo de Esdras e Neemias (ver Esdras 3:10 e Neemias 12:27,36).

Versos bíblicos e uso de tamborins

Os defensores do uso de bateria na igreja geralmente citam a Bíblia em apoio as suas idéias. Mas será que tais versos apóiam o emprego de instrumentos de percussão na igreja? Vejamos os principais:

1. Miriã e outras mulheres dançando com tamborins (Êxodo 15:20).

Como já foi mencionado, tamborins eram permitidos na música secular israelita, usados em ocasiões de alegria e entretenimento. Miriã e as demais mulheres não estavam fazendo um culto, mas cantando e dançando de alegria pela morte dos guerreiros egípcios, afogados no mar Vermelho.

2. Uso de tamborins por um grupo de profetas em Gibeá-Eloim (I Samuel 10:5)

Esse texto indica que tamborins eram usados na música sacra antes das diretrizes instituídas pelo rei Davi (ver outro exemplo no Salmo 68:24,25). A partir dessas diretrizes, tamborins não são mais permitidos nem mencionados na música sacra israelita, por causa de sua associação com ritos pagãos.

3. A menção aos tamborins na primeira tentativa de Davi em levar a arca para Jerusalém (I Crônicas 13:8).

Nessa ocasião, não se tratava de um culto a Deus, mas se celebrava o transporte da arca para Jerusalém. Era uma ocasião de alegria, celebrada com danças (pulos de contentamento) e músicas de uma banda instrumental, que incluía tamborins.

4. Teria Deus preparado tamborins e pífaros para Lúcifer? (Ezequiel 28:13).

“A obra dos teus tambores e dos teus pífaros estava em ti; no dia em que foste criado, foram preparados” (Ezequiel 28:13, na versão Almeida Revista e Corrigida).

Ezequiel 28:13, na versão bíblica Almeida Revista e Atualizada, diz que Deus preparou os “engastes” e “ornamentos” para Lúcifer. A palavra “engaste”, no hebraico é “toph” e tanto pode se referir a “tambor de mão”, “pandeiro”, quanto a “garra ou guarnição de metal que segura uma pedra preciosa”. Já “ornamentos” é tradução da palavra hebraica “néqeb“, que também tem dois significados: “pífaro/flauta”, mas também “cavidade”, na qual se fixa uma pedra preciosa.

Gramaticalmente, as duas palavras acima podem se referir tanto a instrumentos musicais quanto a obra de joalheria. Com duas possibilidades de tradução, seria melhor traduzi-las à luz do contexto, que não é o de instrumentos musicais, mas de enfeites com ouro e pedras preciosas (conforme os versos 13, 14, 16 indicam). A versão Almeida Revista e Atualizada fez bem em traduzi-las como “engastes” e “ornamentos”.

5. Menção a “adufes” (tamborins) nos Salmos 149 (v.3) e 150 (v.4).

É verdade que tamborins (ou adufes) são mencionados nesses Salmos. Mas, seria sua menção um indicativo de que devam ser usados na música sacra no culto divino? Deve-se notar que esses dois Salmos não constituem um manual indicador dos tipos de instrumentos que devem ou não fazer parte da música sacra. A finalidade deles pode ser sintetizada com o ultimo verso do salmo 150: “Todo ser que respira louve ao Senhor.” Ou seja, tudo e todos devem louvar o Criador. Se os encararmos como um manual, então a música sacra deveria ser apresentada nos “leitos” (149:5), com os músicos portando “espadas de dois gumes” (v. 6) e louvando ao Senhor “no firmamento” (150:1), lugar ao qual só os anjos têm acesso e de onde podem louvar o Criador.

Conclusão

Algumas lições podem ser tiradas do que foi exposto acima:

1. A partir das orientações divinas, dadas ao rei Davi, instrumentos de percussão (com exceção para os címbalos) foram proibidos na música sacra do templo, devido à associação deles com o culto pagão.

2. A música sacra era precipuamente vocal, sendo acompanhada por instrumentos de cordas e de sopro (por exemplo, trombetas). Os instrumentos deveriam apenas acompanhar a música cantada e não encobri-la.

3. A ausência de instrumentos de percussão e danças na música do templo indica uma distinção entre a música secular e a empregada no serviço da casa de Deus. Não havia música ritmada, pois o templo não era um clube ou um lugar de entretenimento social, mas um lugar de culto [4].

4. A música na igreja deve ser diferente da música secular, porque a igreja, como o antigo templo, é a casa de Deus e não um lugar de entretenimento. Instrumentos de percussão estimulam fisicamente e são inapropriados para a música na igreja hoje, como o foram para a música do templo no antigo Israel [5].

A propósito, a Sra. Ellen White teve uma visão sobre a condição do povo de Deus nos dias finais, e seria benéfico à nossa vida espiritual levar em consideração essa advertência da mensageira do Senhor:

“As coisas que descrevestes como ocorrendo em Indiana, o Senhor revelou-me que haviam de ocorrer imediatamente antes da terminação da graça. Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho. Haverá gritos com tambores, música e dança. Os sentidos dos seres racionais ficarão tão confundidos que não se pode confiar neles quanto a decisões retas. E isto será chamado operação do Espírito Santo. O Espírito Santo nunca Se revela por tais métodos, em tal confusão e ruído. Isso é uma invenção de Satanás para encobrir seus engenhosos métodos para anular o efeito da pura, sincera, elevadora, enobrecedora e santificadora verdade para este tempo. Teria sido melhor não misturar a adoração ao Senhor com música do que usar instrumentos musicais para fazer a obra que seria introduzida em nossas reuniões campais, como me foi apresentada em janeiro último. A verdade para este tempo não necessita disso para conseguir a conversão de pessoas.

Uma balbúrdia de barulho fere os sentidos e perverte aquilo que, se devidamente dirigido, seria uma benção. As forças dos agentes satânicos misturam-se com o alarido e barulho, para provocar um carnaval, e isso é chamado de ação do Espírito Santo. […]

“Nenhuma animação deve ser dada a tal espécie de culto. A mesma espécie de influência se introduziu depois da passagem do tempo em 1844. Fizeram-se as mesmas espécies de representações. Os homens ficaram exaltados, e eram movidos por um poder que pensavam ser o poder de Deus. […]

“Não entrarei em toda a triste história; e demasiado. Mas em janeiro ultimo o Senhor mostrou-me que seriam introduzidos em nossas reuniões campais teorias e métodos errôneos, e que a história do passado se repetiria. Senti-me grandemente aflita. Fui instruída a dizer que, nessas demonstrações, acham-se presentes demônios em forma de homens, trabalhando com todo o engenho que Satanás pode empregar para tornar a verdade desagradável as pessoas sensatas; que o inimigo estava procurando arranjar as coisas de maneira que as reuniões campais, que tem sido o meio de levar a verdade da terceira mensagem angélica perante as multidões, venham a perder sua força e influência.

“A mensagem do terceiro anjo deve ser dada em linhas direitas. Importa que seja conservada isenta de todo traço das vulgares, infelizes invenções das teorias humanas, preparadas pelo pai da mentira, e disfarçadas, como a serpente brilhante empregada por Satanás como meio de enganar a nossos primeiros pais. Assim busca Satanás por seu selo sobre a obra que Deus quer que se destaque em pureza.

O Espírito Santo nada tem que ver com tal confusão de ruído e multidão de sons como me foram apresentadas em janeiro último. Satanás opera entre a algazarra e a confusão de tal música, a qual, devidamente dirigida, seria um louvor e glória para Deus. Ele torna seu efeito qual venenoso aguilhão da serpente.

“Essas coisas que aconteceram no passado hão de ocorrer no futuro.Satanás fará da música um laço pela maneira por que é dirigida. Deus convida Seu povo, que tem a luz diante de si na Palavra e nos Testemunhos, a ler e considerar, e dar ouvidos. Instruções claras e definidas têm sido dadas a fim de todos entenderem. Mas a comichão do desejo de dar origem a algo de novo dá em resultado doutrinas estranhas, e destrói largamente a influência dos que seriam uma força para o bem, caso mantivessem firme o princípio de sua confiança na verdade que o Senhor lhes dera.” (Mensagens Escolhidas, v.2, p. 36-38, itálicos acrescentados).


Referências

1. Champlin, R. N.O Novo Testamento Interpretado, v. 7. São Paulo: Candeia, 2000, p. 4835. (voltar)

2. Bacchiocchi, Samuele, ed.The Christian & Rock Music, Berrien Springs: Biblical Perspectives, 2000, p. 207. (Nota dos editores do Música Sacra e Adoração: Este livro foi traduzido com a autorização expressa do autor pode ser encontrado em português clicando no nome acima.) (voltar)

3. lbid. (voltar)

4. Idem, p. 208. (voltar)

5. Idem, p.208, 2009. (voltar)


Ozeas C. Moura é doutor em Teologia Bíblica. Trabalha como editor na Casa Publicadora Brasileira, em Tatuí, SP.


Fonte: Revista Adventista, Dezembro de 2009, pp. 14-16

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