Panorama Atual da Música Religiosa – Parte II

por: Dr. Harold Lickey [1]

Realmente existe algo na perfeita união entre texto e música que usava o poder das palavras a um nível completamente novo. (Faz com que as palavras alcancem um grau muito mais elevado).

Para as coisas comuns de cada dia Deus deu palavras ao homem e o ensinou a falar.
Deus fez poetas, criou a poesia,
Para os sentimentos mais profundos revelar.
Mas para as alturas e profundidades
Que as palavras não podem alcançar
Deus deu aos homens a música
E ensinou a alma a cantar. – (Música e Louvor – Batista, tradução p. 104).

É muito difícil tentar traduzir em palavras o poder especial que a musica exerce, afetando completamente a natureza do homem, mas a grande maioria de nós já experimentou esse poder.

No campo da música popular, sempre houve apresentações instrumentais eficientes para atingir os ouvidos e provocar reações com muito êxito. Um movimento rítmico insistente e repetitivo combinado com efeitos orquestrais cuidadosamente calculados pode realmente “excitar” o ouvinte. Será realmente possível que um músico sensível e talentoso possa declarar honestamente que a música não é boa nem má, mas que tudo depende apenas o propósito para o qual é usada?

Em certo sentido, [esta pergunta] nos leva à fase final deste tema. O cristão deve possuir uma sensibilidade altamente desenvolvida para distinguir entre o que é comum e o que é sagrado.

Estivemos considerando a responsabilidade do cristão em evitar os aspectos da música evidentemente vulgares e declaradamente maus.

Um mais alto grau de discernimento é necessário para evitar confundir as coisas comuns, que podem ter uso legítimo em sua própria esfera, mas que são totalmente impróprias para propósitos sagrados. Somos aconselhados que:

“Essa parte [a música] do culto deve ser cuidadosamente dirigida, pois ela é o louvor a Deus em cântico”. – Testimonies, vol. 9, p. 144. [2]

“Nas escolas dos profetas, a arte da melodia sagrada era diligentemente cultivada. Não se ouviam valsas frívolas ou canções levianas que elogiassem o homem e desviassem de Deus a atenção; ouviam-se porém, sagrados e solenes salmos de louvor ao Criador, que engrandeciam Seu nome e relatavam suas obras maravilhosas. Deste modo, fazia-se com que a música servisse a um santo propósito: erguer os pensamentos à aquilo que é puro, nobre e elevado, despertar na alma devoção e gratidão para com Deus”.- Fundamentos da Educação Cristã, pp. 97, 98. 

Observe a referência ao tipo de música, bem como à origem do texto. Será que podemos fugir a conclusão de que devemos ter grande cuidado para evitar um uso da música que seja incompatível com um texto sacro?

Examinemos um pouco mais este problema de compatibilidade. As tendências da música religiosa atual, geralmente não são combinações do comum (como mencionado acima) com o sagrado, mas principalmente do vulgar com o sagrado. Para alguém que aceita a posição dos que seguem estas tendências, qualquer estilo musical é aceitável num contexto religioso.

Por isso, encontramos música completamente identificada com a nossa sociedade secular, moderna, hedonística, sendo combinada com letra que certo escritor caracterizou como “leite teológico desnatado”. Esta combinação é então promovida como a resposta às necessidades atuais do evangelismo, reavivamento e da juventude.

Esta prática vai de encontro aos princípios apresentados pela inspiração. Note-se isto: “Em seus esforços por alcançar o povo, os mensageiros do Senhor não devem seguir os costumes do mundo”. – Testimonies, vol. 9, p.143. Há músicos em nosso meio usando os estilos desenvolvidos, pelo mundo com objetivos completamente opostos à razão da nossa existência, e os estão usado para alcançar [com que fim?] e para comunicar [o que?] com o povo. A música de discotèque (tipo de boate ou danceteria, muito em voga nas principais cidades brasileiras, destinadas à faixa jovem. Só entram casais e o som é altíssimo) tem-se tornado a música do santuário em nome da “comunicação”. Se um jovem está “ligado” aos sons de um conjunto rock numa discotèque hoje à noite, como pode razoavelmente, alguém esperar que ele reaja diferentemente aos mesmos sons, amanhã à noite num restaurante ou outro lugar qualquer? Mas a letra é diferente, pode ser a resposta. Será que as regras do comportamento humano são anuladas tão facilmente? Digo um enfático “NÃO”.

Somos aconselhados que “nunca devemos rebaixas o nível da verdade a fim de obter conversos, mas precisamos procurar elevar o pecados e corrupto à alta norma da lei de Deus”. – Evangelismo, p. 137.

Encontramos esta pergunta significativa em Jó 14:4 “Quem da imundícia poderá tirar cousa pura? Ninguém”, e do sábio em Provérbios 6:28, “Andará alguém sobre brasas sem que se queimem os seus pés?”

Devemos relembrar, por uns momentos, os métodos de “Satanás há de operar com seu poder enganador, para influenciar o coração e obscurecer o entendimento, a fim de fazer com que o mal pareça bem, e o bem, mal. – Obreiros Evangélicos, p. 264. Dispomos de numerosos conselhos semelhantes, mas usarei mais um sobre este ponto, uma descrição perfeita dos métodos do inimigo, em nosso contexto.

“Satanás não entra imediatamente com suas tentações a descoberto. Disfarça-as com um aspecto de bem. Aos divertimentos e extravagâncias, mistura algumas coisas proveitosas, e as almas iludidas apresentam como desculpa o grande bem delas derivado. Esta é unicamente a parte enganadora. São as infernais artes do inimigo sob máscara. A seduzida alma dá um passo, ficando então preparada para dar o seguinte”. Mensagens aos Jovens, p.83.

Considerando que um passo conduz a outro, recapitulemos o rápido desenvolvimento deste fenômeno entre nós. Alguns dos discos lançados recentemente, fazem a música, em estilo folclórico do Sul dos Estados Unidos na década de 60, parecer bastante branda. Vi a pouco tempo, parte do programa de Oral Roberts, na TV e não me surpreendi ao ver as elaboradas produções musicais copiadas diretamente na Brodway e outros “shows” musicais. A diferença estava apenas na linguagem e o vestuário mais modesto dos jovens envolvidos. Nós, adventistas, estamos apenas um passo das mesmas coisas. Talvez caiba aqui uma advertência muito oportuna.

“Nem um jota nem um til de qualquer coisa teatral deve aparecer em nossa obra. A causa de Deus deve ter molde sagrado de celestial. Fazei com que tudo quanto esteja em conexão com a apresentação da mensagem para este tempo tenha o sinete divino. Não permitais que haja coisa de natureza teatral, pois isto prejudicaria a santidade da obra”. – Evangelismo, p.138.

Como pode alguma coisa ser mais clara do que o fato de ser a teatralidade totalmente oposta à natureza de nossa obra? “Estamos lidando com assuntos que envolvem interesses eternos, e não devemos em coisa alguma imitar o mundo. Temos de seguir de perto os passos de Cristo”. – Idem, p. 140. Se nós estamos realmente seguindo o exemplo de Cristo, não imitaremos os piores aspectos do mundo.

Naturalmente, jamais devemos perder de vista o fato de que o pecador que não é alcançado – seja por testemunho pessoal ou por literatura – nunca poderá ser conduzido a Cristo. Assim, como Cristo, nós também devemos ir ao povo procurando desenvolver meios eficientes de alcançá-lo. Igualmente, devemos lembrar que Cristo “baixou até a nossa condição, a fim de poder elevar”. – Obreiros Evangélicos, p. 209. Concluímos que Ele não comprometeu princípios, ou usou qualquer meio de aproximação que mais tarde pudesse ser posto em dúvida.

Discutindo tendências com amigos e colegas, ouço freqüentemente, algum deles dizer: “Sim, mas dá tanto resultado”, ou um pragmático, “isto funciona!” Chegamos agora ao último ponto desta exposição: A dificuldade de avaliar os resultados, e julgar o êxito aparente. Quando um programa, que parece estar em aberta violação de todas as normas, é tão popular, o que se pode dizer? Devo recorrer novamente ao conselho divino:

“Caso abaixeis a norma a fim de conseguir popularidade e aumento de algarismos, fazendo desse acréscimo o objeto de regozijo, mostrais com isto grande cegueira. Fossem os algarismos indício de êxito, Satanás poderia reclamar a preeminência; pois, neste mundo, os que o seguem constituem a grande maioria. É o grau de força moral de que o colégio se acha possuído, a prova de sua prosperidade. A virtude, a inteligência e a piedade do povo que compõe nossa igreja, não seu número, deveriam ser causa de alegria e gratidão”. – Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes, p. 83.

Todos nós temos a tendência de nos impressionar com o jogo dos números. Auditórios lotados impressionam muito. Freqüentemente as igrejas ficam superlotadas quando se apresenta algum conjunto vocal popular.

“Alguns pastores cometem o erro de pensar que o sucesso depende de arrastar uma grande congregação pelo aparato exterior, anunciando depois a mensagem da verdade em estilo teatral. Isso, porém, é empregar fogo comum, em lugar de fogo sagrado ateado por Deus. O Senhor não é glorificado por essa maneira de trabalhar. Não por meio de notícias sensacionais e dispendiosas exibições, há de Sua obra ser levada a cabo, mas seguindo os métodos de Cristo”. – Obreiros Evangélicos, p. 383.

Observe-se, pois, que esta não é a primeira vez em que os métodos de Cristo são contrastados com uma imitação pomposa do mundo.

Em última análise, Deus é o único capaz de julgar a qualidade da experiência espiritual, e sabemos que “Ele Se agradaria mais de ter seis pessoas realmente convertidas à verdade como resultado do trabalho deles, do que sessenta que fazem profissão de fé nominal, mas não se converteram de todo”. – Evangelismo, p. 320. Um conferencista de renome descobriu que quando começou a usar a música rock-folclórica em suas conferências, o número de conversões aumentou consideravelmente. Mais tarde descobriu que a porcentagem dos que completavam os estudos e permaneciam firmes decresceu de 20 para menos de um por cento.

Algum dos mais fortes testemunhos que temos contra música baseada em rock, vem de pessoas que foram músicos de rock e se tornaram cristãos. Eles deixam bem claro que não é possível qualquer compromisso com este tipo de música. Abstinência total é o único caminho, dizem eles. A natureza desse som é tão característica “da carne” e parte integrante “do mundo”, que ele deve ser eliminado da vida. [3

Apoiaremos nós aquilo que outros já comprovaram ser anti-espiritual?

À luz do conceito “mais elevado do que o pensamento humano pode atingir”, temos o dever, perante nós mesmos e nosso Pai Celestial, de reconsiderar este movimento crescente.

“Sem uma fé viva em Cristo como um Salvador pessoal, é impossível fazer sentir vossa fé a um mundo cético. Se quereis arrebatar pecadores da impetuosa corrente, vossos próprios pés não se devem achar em lugar escorregadio.

Precisamos constantemente de nova revelação de Cristo, uma experiência diária que esteja em harmonia com os Seus ensinos. Altas e santas realizações se acham ao nosso alcance. Um progresso contínuo em conhecimento e virtude, eis o desígnio de Deus a nosso respeito. Sua lei é o eco de Sua própria voz, a todos fazendo o convite: “Subi mais alto; sede santos, mais santos ainda”. – Obreiros Evangélicos, p. 274.


Notas:

[1]Agradecemos à Loide Simon por esta contribuição ao Música Sacra e Adoração.

[2] Esclarecemos aos leitores que todas as referências de obras sem a citação de autor, são de autoria de Ellen G. White.

[3] Para uma melhor descrição a este respeito, ver o capítulo 14 do livro “O Cristão e a Música Rock”

(notas dos editores do Música Sacra e Adoração).


Fonte: Revista Adventista, Maio de 1978, p. 39,40 e 41.