Considerações para a Avaliação da Música na Igreja: Uma Abordagem Bíblica

por: Vernon E. Andrews

Introdução

A ampliação do conhecimento tem sido impulsionado pelo instinto humano natural da curiosidade. A curiosidade começa, invariavelmente, com uma pergunta, que pode envolver um “por que”, “como”, “quando”, ou até mesmo, “por que não?”.

Neste movimento contínuo de expansão e exploração do conhecimento, o foco naturalmente se concentrará, em algum ponto, nas artes, sendo que uma de suas áreas é a música. Questões, as quais tem sido levantadas, tocam aspectos vitais e basilares do assunto. Algumas destas incluem: O que é música – uma definição? Qual é o propósito da música? Qual é o critério de avaliação? O cristão pergunta ainda: Existe algo chamado música cristã e, se sim, como ela pode ser determinada? Uma elaboração do assunto nos fornece questões adicionais: Existem músicas aceitáveis e inaceitáveis para o cristão? Que papel a cultura desempenha em tudo isto? De quais “armadilhas” devemos estar cientes quando nos envolvemos com estes assuntos? Que impacto e influência a música tem sobre o organismo humano? A maior parte, se não todas essas questões caem em uma área “cinzenta” de discordância entre as pessoas. A razão para esta situação reside no fato de que todos tem a liberdade de chegarem individualmente às suas próprias opiniões.

Quando consideramos a complexidade das questões envolvidas, podemos nos inclinar a adotar uma atitude e uma abordagem derrotista e fatalista. Esta, porém, não coincide com uma postura de honestidade intelectual ou crescimento acadêmico. Além disso, qualquer postura adotada deveria ser baseada em cuidadoso estudo, reflexão e contemplação. Este artigo busca, portanto, tratar do assunto das considerações para uma avaliação da música na igreja tendo como origem de sua fonte primária uma perspectiva bíblica. Também busca desenvolver uma conscientização de diversos fatores, os quais tem um impacto sobre nossas opiniões e posições musicais. Provavelmente seria muito confortador dizer que todas as questões poderiam ser resolvidas através de respostas muito definidas; contudo isto seria a antítese da criatividade, crescimento e desenvolvimento intelectual e espiritual.

Em uma exposição como esta, é essencial que sejam estabelecidas certas posturas básicas. Quando o cristão começa a olhar o mundo, deve invariavelmente voltar ao princípio – um princípio – o qual começa com o relato do Gênesis. Nos três primeiros sub-títulos poderão ser encontradas três posições fundamentais sobre as quais deve apoiar-se qualquer apreciação ou avaliação da vida ou qualquer de suas partes constituintes – inclusive as artes e a música. Estas três posições são: Criação, Queda e Redenção. Muitos autores que tratam o assunto do cristão e a música fazem referência a estas três posições, as quais nos fornecem uma base para análise. Além disso, e mais fundamentalmente, estas posições são básicas na moldagem da cosmovisão cristã.

Esta abordagem do assunto combina automaticamente as duas facetas: fé e aprendizado. Qualquer apelo à fonte bíblica é baseada na crença controladora da fé, a qual aceita a Bíblia como a vontade revelada de Deus e, também, o relato digno de confiança de Seus atos na História (Crença Fundamental nº 1). A aquisição e a aplicação do conhecimento é esclarecida pelas instruções e princípios que emanam da fonte da verdade – a Bíblia.

Criação

A Bíblia inicia com uma afirmação definitiva de origem, a qual diz: “No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia…” (Gênesis 1:1-2). A criação da terra por Deus “ex nihilo” em um padrão ordenado é evidência tanto de qualidade criativas quanto imaginativas. “Deus … quando Ele criou, não havia nada para replicar ou representar. Ao contrário, Ele imaginou o mais fascinante e extraordinário conjunto de criaturas, e as fez.” (Best, p. 403)

Um pouco mais à frente no relato do Gênesis encontramos repetições de três frases, as quais são pertinentes, “e disse Deus”, “… e assim foi” e “viu Deus que era bom”. Na culminação de Seus atos criativos, o relato diz, “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom.” (Gênesis 1:31). A primeira frase se refere à proclamação de Deus, a qual, por extensão, é a Sua palavra. Em outros lugares nas Escrituras, é feita referência à “Palavra” na criação. “Pela palavra do SENHOR foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca. … Porque falou, e foi feito; mandou, e logo apareceu.” (Salmos 33: 6, 9).

A autoridade, o poder e a soberania de Deus são vistos em ação e em resposta a natureza oferece implícita obediência, evidenciada por “… e assim foi”, e também pelo fato de a palavra não retornar vazia. Esta ação conjunta de ação de comando e resposta tem como conseqüência o refrão “viu Deus que era bom”. Conforme Deus se aproxima do ato culminante e o coroamento da criação, Ele diz, “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; … E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou…” (Gênesis 1:26-27).

A conclusão que pode ser depreendida do relato da criação, conforme ele se relaciona ao homem no contexto do assunto é este: Deus criou o homem à Sua própria imagem, ou seja, com poder para ser imaginativo e criativo, utilizando este poder para “pensar e fazer”. Isto é melhor expresso desta forma:

“O que Deus é infinitamente, os seres humanos são finitamente. Deus é o Criador não criado, um ser humano é o criador criado. A humanidade foi imaginada e feita, Deus não. … A humanidade é tanto inteiramente dependente quanto subordinada, mas criada para refletir neste estado tudo o que Deus é e faz. (p. 52).

A Queda

A “bondade” e “perfeição” da criação não continuou sem interrupção. Deus havia permitido a Adão e Eva que comessem de toda árvore do jardim, exceto da árvore do conhecimento do bem e do mal, “porque no dia em que dela comeres,” disse Deus, “certamente morrerás.” (Gênesis 2:16-17). Mas eles desobedeceram, e a mulher “tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.” (Gênesis 3:6). Este evento marcou a entrada do pecado no mundo e, finalmente, a morte.

A queda do homem afetou todos os aspectos da sua vida e do seu ser, e decadência e degeneração foram o resultado natural. Acerca dos antedeluvianos nos é dito que “viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente.” (Gênesis 6:5 – ênfase suprida). Torna-se óbvio que a criatividade humana, a qual, particularmente na área das artes é o outro lado da moeda da imaginação, não escapou aos efeitos da queda. Também é importante notar a metodologia empregada na tentação. O diabo usou a ferramenta do engano, com o propósito expresso de desacreditar o Criador. No conflito entre o bem e o mal que se seguiu, o qual já estava firmemente estabelecido e que continuou no tempo, note a evolução deste engano básico. Para cada boa coisa provida por Deus, Satanás tem uma contrafação. Sábado pelo Domingo ou outros dias; casamento – da monogamia para a bigamia, poligamia, casamentos em série; Adoração a uma única divindade, o verdadeiro Deus, para a idolatria.

É da mais alta importância conhecer e lembrar deste método de operação, uma vez que é crucial para a compreensão de muitos aspectos do assunto em discussão, que é a avaliação da música na igreja.

Redenção

A imagem de Deus no homem, embora manchada como resultado da queda, não foi completamente obliterada, como era o plano de Satanás. E. G. White diz: “No princípio Deus criou o homem à Sua semelhança. Dotou-o de nobres qualidades. … Mas a queda e seus efeitos perverteram estes dons. O pecado mareou e quase obliterou a imagem de Deus no homem.” (Patriarcas e Profetas p. 595). Contudo, juntamente com a declaração da conseqüência, houve a promessa da restauração e redenção. “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Gênesis 3:15).

Estas palavras resumem o plano da redenção, sendo que o propósito final deste é a completa restauração da imagem de Deus no homem. Esta restauração ocorre na consumação de todas as coisas quando “isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade.” (I Coríntios 15:53). Porém, o processo não é deixado completamente para o futuro.

Esta restauração da imagem não é pretendida apenas para o futuro. Também é a realidade presente da nossa santificação, nosso crescimento à maturidade de Cristo. Uma vez que Cristo, a cabeça da igreja, é o nosso padrão e medida de estatura (Efésios 4:13), a tarefa de nossa imagem refletir o controle de Deus sobre nossas vidas é equivalente ao nosso crescimento à semelhança de Cristo. (Walsh & Middleton, p. 84).

O homem, portanto, conforme ele se submete e se entrega à influência modeladora de Cristo através da atuação de Seu Espírito, é capacitado a refletir, ainda que de forma imperfeita, a imagem do Criador. O Espírito de Deus também está ainda ao redor da terra, operando para contrapor o avanço das forças do mal.

Outras Considerações:

O Conflito do Bem Contra o Mal

Uma consideração muito importante é o fato de que as nossas atividades acontecem no contexto do conflito do bem contra o mal. A Bíblia relata várias experiências e declarações, a partir dos quais podemos fazer algumas observações pertinentes.

Citamos duas referências do Novo Testamento (Hebreus 11:25 e Mateus 7:13, 14), que dizem algo acerca da maldição das más ações. Em Hebreus é feita a menção ao “gozo do pecado”, e Mateus diz que “larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição”. Na senda que conduz à vida, as dimensões são opostas. Muitos encontram o caminho para a destruição e poucos acham o caminho para a vida. As implicações que podemos extrair daqui são as seguintes: Os nossos sentidos não podem ser a única base de julgamento, uma vez que o pecado é, normalmente, agradável (o inverso não é, necessariamente, verdadeiro – que fazer o que é certo é desagradável.), e a determinação do que é certo ou errado não está baseada em um voto da maioria.

As experiências de Aarão e os filhos de Israel acerca do bezerro de ouro de Calebe e Josué confrontando seus amigos espias apóiam a posição de que fazer o que é certo nem sempre é fácil nem popular. Em muitas ocasiões teremos que assumir uma posição ou reagirmos à aclamação “escolhei hoje a quem sirvais” (Josué 24:15).

Quando a serpente lançou seu argumento persuasivo sobre Eva no jardim, ela sutilmente velou e mascarou a real verdade. “Ali se encontrava a falsidade, tão oculta sob a capa da verdade aparente que Eva, absorta, lisonjeada, iludida, não percebeu o engano.” E. G. White, Educação, p. 24. Alguém pode dizer que houve uma racionalização parcial por parte de Eva. Séculos mais tarde, foram dadas a Saul instruções específicas a respeito da destruição dos amalequitas – destrua a tudo e a todos. Saul desobedeceu e forneceu uma racionalização para seus atos. A lição aqui é que os atos errados raramente se nos aparentam como em realidade são, sempre existe a apresentação de argumentos especiais e a insidiosa mistura da verdade com o erro.

Uma crença implícita, que permeia este estudo é que estamos lidando com um assunto que exige um discernimento espiritual, pois coisas espirituais devem ser discernidas espiritualmente. “As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais. Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.” (I Coríntios 2:13-14). Paulo, a epístola aos Romanos (capítulo 7), elabora acerca da tensão existente entre a carne e o espírito, a qual é evidente no problema da diferença entre saber e fazer (versos 14 – 20). O problema do pecado não está tanto em reconhecê-lo, mas em se afastar dele.

Cultura

É virtualmente impossível levar a efeito um esforço como este sem uma referência à cultura e seu impacto sobre a prática musical. Harold Hannum afirma que “a seleção de música para cultos religiosos não é uma questão de certo ou errado. É uma questão de cultura e gosto. Os gostos variam e as culturas são diferentes. O objetivo é usar, tanto quanto possível, cânticos que sejam considerados os melhores na cultura na qual vivemos” (p. 91). Embora esta afirmação forneça uma base bastante útil para a determinação de um critério [musical genérico], não devemos perder de vista o fato de que o conflito entre o bem e o mal também exercem um impacto aqui. [Desta forma, a afirmação de Hannum de que este conceito aplica-se à música religiosa é falsa. Quando muito, poderia aplicar-se à música para entretenimento, quando se espera que gosto dos ouvintes seja satisfeito. Porém, para um cristão preocupado com seu crescimento na graça até a estatura de Cristo, mesmo a música de entretenimento deveria ser sujeita a filtros que levem em conta a vontade de Deus e os padrões bíblicos. Portanto, devido a esta tensão existente entre a cultura humana e os valores cristãos, é importante que reflitamos sobre a forma como a religião cristã deve interagir com a cultura na qual está imersa.]

Meddleton adaptou as idéias de Richard Niebuhr em seu livro Christ and Culture (Cristo e Cultura), e as apresentou em forma de uma tabela.

Cristo da Cultura Cristo Acima da Cultura Cristo e a Cultura Cristo Contra a Cultura Cristo Redireciona as Culturas

– Cristianismo identificado com o melhor da cultura humana

– Não há tensão entre o cristianismo e as culturas

– Capitula diante do mundo

– Cristianismo suplementa a cultura

– Ambos tem importância, mas o cristianismo é superior

– Compromete-se com o mundo

– Cristianismo e cultura em paradoxo

– O cristão vive no reino de Deus e no mundo caído da melhor forma que pode

– Não há resolução para o conflito

Rejeição ou separação da cultura humana

– Tensão ampliada

– Evangelho limitado à vida pessoal e o mundo de Deus deixado ao Diabo

– Cristianismo transforma e redireciona a cultura de acordo com os padrões de Deus

– O mal é enfrentado, porém a cultura é reafirmada

Cultura vista sem críticas como intrinsecamente boa A cultura é vista como basicamente boa (ou neutra), porém deficiente Cultura vista como relativamente má, porém necessária Cultura vista como intrinsecamente má, o domínio de Satanás Cultura vista como criação de Deus, caída, porém, passível de remissão

Pode ser tentada uma conclusão generalizada com respeito ao impacto da cultura. Na criação, o mundo estava sob controle total do Criador. Como resultado da queda, Satanás declarou-se como príncipe deste mundo. A intervenção do Calvário assegurou a restauração, a qual será consumada na destruição do pecado e dos pecadores. A cultura, “a qual engloba linguagem, hábitos, idéias, crenças, costumes, organização social, artefatos herdados, processos técnicos e valores” reflete a imagem do conflito entre o bem e o mal. A abordagem que nos parece mais segura é aquela que defende que Cristo redireciona a cultura.

Em íntimo relacionamento com a cultura, no que toca ao assunto da música, está a questão do gosto, já referido anteriormente, e a associação. O gosto pessoal de uma pessoa, o qual pode ser moldado como resultado de treinamento, ambiente, impressões precoces, apenas para listas alguns itens, definitivamente dá colorido e afeta as percepções desta pessoa. Dentro de um contexto cultural as pessoas estabelecem relacionamentos associativos de muitos tipos. Por causa disso, pensamos em música para a igreja, para recreação, dança e outros tipos de atividades. Via de regra, portanto, caso exista em “cruzamento errado” de tipos, a incompatibilidade seria aparente.

Permitam-me aventurar-me no mundo da música apenas por um momento, para ilustrar o aspecto do gosto pessoal. Uma pessoa dos trópicos desenvolve, de forma bastante natural, um gosto por frutos tropicais e, de forma similar, uma outra pessoa que more em regiões mais temperadas faz o mesmo. Isto não classifica as frutas como boas ou más, “certas” ou “erradas”, simplesmente com base em sua origem. Alguém pode[, incorretamente, tentar] transferir este argumento para os padrões de som, melodias e estruturas harmônicas na música oriental e ocidental; música de diferentes épocas históricas ou estilos nacionais. Todas essas contribuem para o gosto musical de uma pessoa. [Já vimos anteriormente que a questão do gosto pessoal não pode ser o padrão utilizado para a seleção de música para a igreja.] Deve-se, portanto, [em contextos que não envolvam a música para o culto,] esperar um alto grau de compreensão e tolerância, conforme nos relacionamos com outras pessoas cujos gostos musicais diferem do nosso[, já que para a seleção de música quotidiana, de entretenimento, o gosto musical terá relevância].

Sobre a questão da associação, posso pensar no uso de steeldand (tambores de petróleo transformados em instrumentos musicais) como um caso clássico para ilustrar o ponto de vista. Este instrumento musical foi desenvolvido no Caribe, particularmente em Trindade, no meio dos anos 1940. Permitam-me chegar ao ponto a partir do passado. Evidências históricas podem apoiar a afirmação de que a sociedade da igreja foi influenciada pela associação e por fatores do ambiente na determinação de propriedade ou impropriedade dos instrumentos musicais. Em apoio a isto, cito Clemente de Alexandria (c. 170 – c. 215 A. D.), um dos primeiros pais da igreja.

Não empregamos mais o antigo saltério, e a trombeta e o tamboril e a flauta, os quais os peritos em guerra e os desafeiçoados do temor de Deus também não deveriam fazer uso nos coros em suas assembléias festivas; para que por tais atos possam elevas suas mentes depravadas.

Russel N. Squire, em seu livro Church Music (Música na Igreja), resume a questão desta forma:

Há racionalidade na especulação de que a música instrumental foi evitada porque (1) as circunstâncias associativas adversas no paganismo; (2) a tradição da sinagoga; (3) a falta de proficiência instrumental dos primitivos cristãos; (4) seu sentimento de que a execução de música instrumental de qualquer escala elaborada seria impossível, de qualquer forma desnecessária e provavelmente por razões sociais, estaria em desacordo com o caráter cristão; e (5) a própria natureza do idioma musical da época, a qual tornou os instrumentos para o uso sacro praticável apenas para dar um tom ocasional ou estabelecer o ritmo.

Apesar de notável progresso, o qual foi feito nos últimos anos com o steelband, ainda existe uma forte associação com as festividades do carnaval, o calypso, e os festivais. Essas associações, de forma bastante natural, ainda existem em nossa sociedade e, portanto, não podem ser ignoradas. Temo que, em algumas circunstâncias, o emprego de steelband na igreja traria à tona algumas associações, as quais nós, como Adventistas do Sétimo Dia, deveríamos buscar desencorajar. Além disso, o uso de steelband em nossas igrejas irá afetar o funcionamento do corpo de Cristo na preparação para Sua segunda vinda, e temo que este preço seja muito alto. Talvez eu possa, sem prestar um desserviço, fazer uma paráfrase do apóstolo Paulo em Romanos 14:19-20: “Sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros. Não destruas por causa do steelband a obra de Deus.”

Adoração – Música – Cristianismo

Estas três áreas não são tratadas como entidades separadas, mas em íntimo relacionamento umas com as outras. Música e adoração estão inextricavelmente interligadas.

Adoração, o apelo indizível da alma, deve sempre ser acompanhada de música. Desde o tempo em que “as estrelas da alva juntamente cantavam” até que amanheça o dia no qual os homens estarão diante de Deis “cantando o cântico de Moisés e do Cordeiro”, adoração e música estão unidas. (Douglas C. Percy, p. 5.)

Winfred Douglas nos fornece uma declaração simples e abrangente acerca da adoração, “Adoração é a atividade primária e eterna da humanidade redimida”. Ele detalha um pouco mais, “toda a adoração deve brotar de um tal senso da presença de Deus e dos paradoxais mistérios, somente nos quais podemos compreendê-Lo … em meu coração, onde dois ou três estiverem reunidos em Seu nome, e Sua presença simultânea nos mais longínquos limites da mais remota nebulosa.” p. 4

Ellen White coloca isto de forma simples, mas dramática, “A melodia de louvor é a atmosfera do Céu; e, quando o Céu vem em contato com a Terra, há música e cântico – ‘ações de graças e voz de melodia’. (Isaías 51:3)” Educação p. 161. Em outra referência ela afirma, “Fazia-se com que a música servisse a um santo propósito, a fim de erguer os pensamentos àquilo que é puro, nobre e edificante, e despertar na alma devoção e gratidão para com Deus.” Patriarcas e Profetas p. 594.

O Poder da Música

Deve ser notado que até este ponto, não foi feita qualquer definição de música, ou, mais particularmente, de música para a igreja. Embora uma definição da primeira seja bastante direta e exista pouca diferença de opinião entre os acadêmicos, o mesmo não pode ser dito da última. “O que é música de igreja? Embora muitas tentativas tenham sido feitas para responder a esta pergunta, a questão permanece tão pertinente hoje quanto era aos nossos antepassados há quinhentos anos atrás; pois nunca se chegou a um acordo acerca de uma definição satisfatória e qualificada para este termo.” (Etherington, p. 1). Harold Hannum, embora não defenda um ponto de vista de forma tão definida, fala de forma semelhante. “A igreja não tem utilizado um único tipo de música, mas tem feito uso de muitos estilos em seus cultos … nenhum tipo de música atende a todos os tipos de pessoas. De acordo com sua criação, cultura e treinamento, um indivíduo vai associar sentimentos religiosos particulares com tipos particulares de música.” (pp. 10, 11).

Quaisquer que sejam as diferenças de opinião, penso que a definição concisa de Oliver Beltz capta o âmago da verdade a respeito da música da igreja. “Essencialmente, a música da igreja é mais do que uma arte refinada. É o próprio Evangelho de Jesus Cristo em um som apropriado.” Em uma frase, podemos deduzir que a música de igreja é a serva da adoração, a qual, por sua vez, é uma oferta a Deus em resposta a uma revelação de Si mesmo. A musica torna-se um veículo de tamanha importância por causa de seu potencial para influenciar o ouvinte. “O poder da música possui uma dinâmica maior do que é normalmente compreendido. Ela pode divertir, controlar o humor, levar às lágrimas, a incitar à ação … A experiência de Saul e Davi aponta para o poder da música.” (Wohlgemuth, p. 16). A referência aqui é, essencialmente, à música sem palavras. Quando existe a combinação da letra com a música o impacto pode ser ainda mais revelador. E. G. White faz o comentário, “É um dos meios mais eficazes para impressionar o coração com as verdades espirituais.” Educação, p. 168.

A música é recebida tanto através dos receptores do intelecto quanto das emoções, a mente e o corpo. Então, a música é um pensamento e também uma experiência emocional. Devemos ter apreciação por ambas as dimensões, já que elas contribuem para o nosso bem estar geral e nosso desenvolvimento. O ouvinte que não pode ser levado ao êxtase por uma brilhante execução de “Every Time I Feel the Spirit” ou acalmado por um coral de Bach, está sendo carente em sua experiência musical.

Pode ser feita a pergunta, “O que causa as diferenças na resposta à música, já que toda música utiliza um meio comum – o som?” Sinteticamente, a resposta é esta: Embora o meio seja o mesmo, a mistura dos ingredientes é diferente, e isto é crucial. Os principais ingredientes de uma composição musical são: ritmo, melodia, harmonia, tempo, timbre e dinâmica. Da mesma forma que a variação na proporção ou a presença ou ausência dos diferentes ingredientes de um bolo afeta o produto final, o caso é semelhante com relação à composição musical. O compositor ou arranjador prepara a mistura de acordo com seu gosto ou intenção. Nossas respostas também são moderadas por fatores que se referem a experiências anteriores, musicais ou não, e também ao treinamento, criação, estado de espírito, gosto pessoal e associações.

Uma das práticas mais danosas atualmente na área da música para a igreja se relaciona ao “casamento” do texto com a melodia. Parece haver um sentimento comum de que se as palavras são sacras ou fazem alusão a alguma coisa sacra, a melodia, qualquer que seja ela, se torna aceitável ou kosher [ou seja, de acordo com as leis judaicas de pureza]. O que está acontecendo como resultado é que lãs mais profanas alianças tem sido consumadas musicalmente com base nesta premissa. São feitas referências, às vezes, à pratica de Lutero, Wesley e Sankey, “que foram e tomaram suas música e letras do diabo”. Sob risco de fazer uma generalização abrangente, penso que é seguro dizer que, embora possa haver algumas similaridades na pratica aqui e ali, um estudo mais detalhado revelaria muitas diferenças importantes.

O esforço em buscar determinar considerações apropriadas para a música da igreja, é baseada no pressuposto de que existe um desejo duradouro de conhecer e uma disposição para aceitar e implementar mudanças quando a mudança é necessária. Este é um princípio fundamental de crescimento e desenvolvimento na vida e também na vida cristã. É este crescimento que nos capacita, por um lado, a apreciar o apelo textualmente e musicalmente simples de “What a Friend we have in Jesus” [ouça em http://www.cyberhymnal.org/htm/w/a/f/wafwhij.htm], de Scriven e ao mesmo tempo captar o significado histórico de “The Son of God Goes Forth to War” [ouça em http://www.cyberhymnal.org/htm/s/o/sonofgod.htm], de Heber, a beleza harmônica de “Jerusalem the Golden” [ouça em http://www.cyberhymnal.org/htm/j/t/jtgolden.htm ], de Ewing ou a linha melódica de “Duke Street” [ouça em http://www.cyberhymnal.org/htm/o/l/oltamgak.htm], de Hatton.

Conclusão

Quais são as considerações importantes? Como o professor cristão deve proceder no processo de integrar a fé e o aprendizado na área da música na igreja? Aqui está uma sinopse dos argumentos apresentados.

Deus, o Criador de todo bom e perfeito dom, criou o mundo e o homem, o qual foi criado à Sua imagem. A criação, conforme saiu das mãos do Criador, demonstrava que Ele é um amante da beleza e da estética. Sendo o homem feito á imagem de Deus, possuía a capacidade de pensar, imaginar e criar. O homem pecou e, como resultado, suas habilidades criativas foram afetadas. Pela redenção existe uma provisão de restauração. Mesmo agora o homem ainda pode criar e reproduzir na área das composições musicais, as quais, embora de forma imperfeita, refletem a imagem [de Deus]. A entrada do pecado tornou o discernimento entre o bem e o mal muito difícil, às vezes. Há uma mistura de argumentos de verdade e erro; a tendência da maioria é em direção ao erro, a predisposição da cultura, gostos pessoais e preconceitos. Todos estes são compostos pela dominância do mercantilismo em todas as áreas da vida, inclusive na música da igreja.

À luz do exposto acima, o cristão deve, em primeiro lugar, estar atento acerca de todos os fatores que têm impacto na área da música na igreja. Segundo, deve estar consciente do significado e propósito da adoração. Terceiro, deve ter um desejo sincero e ardente de conhecer o que é certo e o que é errado. Quarto, não dever permitir que seus pontos de vista ou sentimentos a respeito da música da igreja sejam tão exacerbados que, ao tratar com outras pessoas, ele seja intolerante, cruel e humilhante. Finalmente, “A capacidade de discernir entre o que é reto e o que não o é, podemos possuí-la unicamente pela confiança individual em Deus. Cada um deve aprender por si, com auxílio dEle, mediante a Sua Palavra. A nossa capacidade de raciocinar foi-nos dada para que a usássemos, e Deus quer que seja exercitada.” Educação. P. 231.


Bibliografia

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O presente artigo foi apresentado Institute for Christian Teaching, Union College, Nebraska por Vernon E. Andrews em Agosto de 1988 e está disponível em The Institute for Christian Teaching

Traduzido por Levi de Paula Tavares em Junho/2006

As expressões e frases entre colchetes [ ] não constam do original.