O Jovem e a Música Gospel

por: Carlos Renato de Lima Brito

Acredito que a primeira vez que entrei em contato com a música gospel foi através de uma programação jovem que havia em Belém do Pará conhecida por Louvor Norte. [*] Lembro-me que fui convidado pela missionária da nossa Igreja que queria constatar se tudo aquilo que diziam da programação era verdade. Ela queria saber se havia mesmo dança, pulos, trenzinho e outras coisas mais. Ela queria poder falar acerca do evento sem ter ouvido apenas de terceiros daquilo que acontecia lá. Naquela época, no meio evangélico esse tipo de atitude ainda provocava muito escândalo e surpresa.

Nós fomos à programação e não conseguimos ficar por mais do que 15 min. O evento era promovido especialmente por uma rádio evangélica e trazia os nomes mais conhecidos da música gospel do cenário evangélico, além de dar oportunidade a algumas bandas locais e ministérios de louvor de se apresentarem.

Depois daquela ocasião, tive oportunidade de participar de outros eventos e programações de pessoas ligadas à música gospel. Uns foram bem mais pesados do que aquela programação. Vi certa vez um guitarrista dedilhar seu instrumento com a ponta do nariz numa performance. Outras programações foram bem menos acaloradas e, poderia dizer, bem equilibradas.

Gostaria de defender neste artigo que o cenário atual da música gospel no Brasil é nocivo para o jovem crente, porque tem promovido uma contextualização que não promove a glória de Deus, leva os cristãos a adequarem seus métodos a métodos mundanos desvirtuando a mensagem de Cristo e acostuma o ouvinte a uma qualidade musical e estética medíocre e descompromissada com a excelência artística.

Nosso estudo seguirá este roteiro: primeiro, vamos definir o que é música gospel; depois, traçaremos a relação entre a música gospel e a juventude evangélica brasileira; em terceiro lugar, vamos explicar por que consideramos a música gospel nociva para o jovem crente; e enfim, procuraremos dar uma resposta à pergunta: “se não posso ouvir música gospel, que música eu posso ouvir afinal?”.

I. Definição de Música Gospel

A. Definição da palavra

1) A palavra gospel é do inglês sem ter sido usada pelos americanos para designar o mesmo estilo de música. Ela significa literalmente evangelho, sendo um estrangeirismo trabalhado pelos próprios brasileiros dos anos de 1990, quando no Brasil aconteceu um fenômeno de crescimento dos evangélicos, que passaram de 9% em 1991 para 13% em 2001 (IBGE).

2) A expressão música gospel designa especialmente um estilo musical religioso, proveniente de artistas de fé evangélica, distinta de outros grupos e estilos musicais como pop rock, música sertaneja, música romântica, etc. Apesar disso, dentro da música gospel brasileira é possível achar todo tipo de estilo musical, com a diferença de que a letra dessas músicas em estilos variados possuem uma mensagem bíblica ou doutrinária.

B. O movimento

Deste modo, podemos afirmar que a música gospel é mais do que um estilo musical, mas é uma sub-cultura, uma tribo, um gueto social que tem seus símbolos, valores, heróis e História. Um grupo musical da linha gospel pode ter seu site, seu fã clube, suas camisetas, agendas, cadernos, seus CDs, DVDs, etc. O movimento gospel possui expressão em revistas, programas de TV, rádios, shows, prêmios, festivais, programas de calouros, etc.

C. Características da música gospel

Podemos assim alistar algumas características da música gospel:

1) Pressupõe que toda música é neutra e que somente a letra torna a música boa ou má.

2) Adota todos os métodos encontrados na música artística popular por não achá-los errados em si. Todo o uso de recursos de palco, de programação, de visual, de posicionamento, de luz, de apresentação é o mesmo de qualquer outro artista secular.

3) É uma música comercial. Possui todo o processo de comercialização envolvido na música secular.

a) A banda tem um empresário que negocia com produtores de eventos o cachê do grupo para ir tocar em certo lugar. Os produtores farão a divulgação, decidirão quanto será o ingresso, providenciarão os equipamentos requeridos, a segurança e lucrarão com a apresentação da banda. Uma nota sobre isso: em muitos eventos, não são produtores evangélicos que estão promovendo os concertos de música gospel.

b) Um grupo pode ter um contrato com uma gravadora, que possui contrato com músicos seculares também, e este grupo terá que cumprir as exigências de contrato. Uma das exigências pode ser ter que tocar em eventos que não são necessariamente evangélicos e em lugares onde ocorrem shows de música secular.

c) Além disso, a música gospel é comercial no sentido de preocupar-se especialmente em ser vendável. A pergunta principal para escolha de uma faixa de um CD, do estilo musical de um grupo, do visual com que aquele grupo se apresenta, não é se esta música, estilo ou roupa edifica o corpo de Cristo, mas se aquelas decisões farão com que aquele projeto dê um bom retorno financeiro, fazendo com que a carreira daqueles músicos seja alavancada ou não.

d) Quando os músicos evangélicos mais ligados a esta filosofia da música gospel são questionados a respeito desse comercialismo na música cristã, a resposta é: “Digno é o trabalhador do seu salário! Sou músico e sou um profissional, preciso de sustento para viver. O que há de errado em ganhar dinheiro com aquilo que faço?”.

4) A música gospel possui um fervor evangelístico notório que se manifesta em duas vertentes:

a) A vertente que se utiliza da música característica de um grupo social para atingir aquele grupo social com o evangelho.

b) A vertente que entende ser uma conquista do reino de Deus quando um cantor evangélico começa a usar um estilo musical que antes era utilizado para mal, utilizando-o agora para edificar as vidas dos irmãos.

II. A música gospel tem uma relação muito estreita com os jovens evangélicos

A. É provável que as bases principais da música gospel da atualidade tenham sido lançadas na década de 1960 quando começaram a surgir as equipes jovens de música e evangelismo. Estas equipes, formadas de jovens de várias igrejas, começaram a utilizar uma linguagem e um estilo musical mais contemporâneo em suas apresentações com o objetivo de alcançar os jovens que estavam cada vez mais distantes dos templos e mais próximos do mundo.

B. O passo além foi a organização de programações de louvor reunindo vários grupos com a mesma formação da música popular que aqueles primeiros tinham num lugar mais neutro como num teatro ou ginásio de esportes, os chamados “louvorzões”. Surgem então as primeiras rádios evangélicas comerciais ou denominacionais que promovem aqueles grupos e artistas mais destacados dessas programações.

C. Até que aquela primeira centelha que começou com grupos jovens tornou-se o grande incêndio de grupos e de artistas solo profissionais que compõe esta crescente fatia do mercado fonográfico brasileiro. Hoje se destacam ministérios de louvor patrocinados por Igrejas que fizeram da adoração com música o ponto central do seu culto.

D. Apesar de certa distância entre o surgimento dos grupos musicais jovens e a música gospel atual notamos que ainda a música gospel está muito atrelada à juventude. A razão pode estar no fato de que o jovem tem acesso mais rápido e interesse pela novidade e a música gospel, como é essencialmente comercial, precisa sempre dinamizar sua oferta com novidades abaladoras.

III. Por que podemos afirmar que a música gospel é nociva para o jovem crente?

A. É um grande engano achar que a música é neutra. A música é capaz de produzir em nós efeitos físicos, emocionais e morais, a ponto de influenciar fortemente nossas decisões.

1) As Escrituras mostram esse poder que a música tem e afirma que o som possui em si um significado objetivo (I Samuel 16:23; I Coríntios 14:6-11).

2) Além disso, podemos dizer que a música tem condições de anular a mensagem que a letra possui, se a letra for numa direção de significado e a música for noutra direção.

B. Quando adotamos os métodos do mundo para expressar o evangelho de Cristo, acabamos desvirtuando o evangelho de Cristo.

1) Determinar meus métodos mediante uma exigência cultural imperativa daquelas pessoas a quem eu estou evangelizando faz com que a fé das pessoas sejam embasadas na sabedoria humana e não no poder de Deus (I Coríntios 2:1-5).

2) Um dos problemas de utilizar os mesmos métodos dos artistas da música popular é produzir nas pessoas a mesma idolatria que é legada do fã para o seu ídolo na atitude que se vê no tratamento do adorador para com quem deveria ser considerado um simples ministro.

C. A música gospel, quando entra no ramo da música comercial, também se torna extremamente nociva para o jovem crente.

1) Ela tende a perder a qualidade artística. Ela deixa de ser criativa, inovadora, fruto de pesquisa e preparo, para seguir a onda do momento, o estilo musical que mais está sendo tocado no momento.

2) As obras que possuem maior qualidade artística tendem a não se apresentarem muito comerciais num primeiro momento. O tempo provará o seu valor e sua profundidade fará com que ela tenha substância para ser alvo de reflexão atenciosa e produtiva.

3) O comércio tende a criar a ilusão da grande solução, da extrema necessidade e da grande qualidade. O mais importante não é o que é, mas o que parece. Não há nada de errado alguém ser pago por um trabalho legítimo, mas um músico cristão não pode baixar sua dignidade para se tornar um simples produto que hoje vende muito, mas que amanhã será descartado por outra novidade. Um músico não pode descer ao nível de fazer versões de músicas e estilos seculares que veicularão entre os evangélicos, porque é isso que os clientes querem de acordo com os empresários do ramo.

4) Uma nota importante a ser feita é que o comercialismo não é nocivo apenas na música evangélica. O comercialismo é nocivo para toda a música e tem feito com que toda produção musical tenha se inclinado ao ídolo da imbecilidade.

D. A música gospel também é nociva ao jovem crente, porque ela não é uma conquista de terreno inimigo, mas uma adequação aos métodos do inimigo. Quando nos convertemos a Cristo, a nossa visão de mundo é transformada, o nosso estilo de vida muda e, conseqüentemente, a nossa expressão artística muda também (Salmo 40.1-3).

IV. Que música cristã podemos ouvir, afinal?

A. Abra sua mente para ouvir a música sacra produzida pelos compositores da música erudita. A maior parte dessas obras está disponível na internet, inclusive suas traduções e explicações sobre as obras. Pessoas como J. S. Bach, Handel, Haydn, Mozart, Beethoven, Brahms e Verdi escreveram obras sacras monumentais e belíssimas que todo o crente deveria ouvir e ser influenciado por elas.

B. Ouça grupos e pessoas do meio evangélico que não estão no centro de influência dessa música gospel que eu descrevi. Seja criterioso com todo o grupo, cantor e cantora evangélica. Nem todo o que se diz crente é de fato um servo do Senhor e digo que nem todo que afirma estar cantando uma música evangélica está, de fato, cantando uma música que reflete as verdades do evangelho. [**]

C. Mas onde eu posso encontrar essas pessoas e músicas?

1) Sei que é mais fácil encontrar música ruim do que boa, mas sei que se você foi capaz de achar outros grupos, tem condições de achar esses também.

2) A internet está aí para nos servir mais do que ir atrás de sites de relacionamento e sala de bate-papo.


Notas dos Editores do Música Sacra e Adoração:

[*] Sendo o autor membro da igreja Batista, é natural que fale no contexto daquela denominação. Porém, acreditamos que as lições e advertências desenvolvidas neste artigo aplicam-se as cristãos de todas as denominações. (voltar)

[**] Gostaríamos de lembrar neste ponto a advertência de Jesus em Mateus 7:21-23:

21 Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.
22 Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas?
23 E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.
(voltar)


Fonte: http://violabrito.blogspot.com