Os Cristãos e a Música – Parte 1.4

por: Carlyle Manous

Questões Finais Acerca de Escolhas

Deixem-me sugerir uma ilustração final que pode ajudar a esclarecer alguns problemas envolvidos na escolha de músicas. Imagine uma fileira de copos de água, que seja quase que infinitamente longa. Em uma ponta está um copo que contém água tão pura que só poderia ter vindo “do trono de Deus e do Cordeiro” (veja Apocalipse 22:1). Agora imagine que no copo seguinte nós acrescentamos àquela água pura uma poção mortalmente venenosa, na taxa de uma parte de veneno por um “gazilhão” de partes de água pura. Ao copo seguinte acrescentamos duas partes de veneno por um “gazilhão” de partes de água pura, e ao seguinte três partes de veneno por um “gazilhão” de partes de água pura – e assim por diante seguindo a fileira. Na metade desta fileira muito, muito longa de copos, a taxa de água pura para o veneno seria de meio a meio. Quanto mais prosseguirmos na fileira, mais a porcentagem de veneno aumentará, até que no final teremos um copo no qual o veneno substituiu completamente a água pura.

Agora, uma vez que os incrementos na mudança são tão pequenos, pode ser que existam centenas e centenas de copos que contém água que seja muito mais pura do que aquela que bebemos habitualmente, e como as mudanças na pureza da água são tão imperceptíveis entre os copos adjacentes, podemos precisar passar pela fileira por centenas de copos antes que possamos detectar mesmo a menor alteração. Mas se continuarmos seguindo a fileira, finalmente chegaremos a um ponto em que a água causará a algumas pessoas que a beberem uma dor de cabeça muito leve. Muito mais adiante na fileira, beber da água causará dores de cabeça a todos. Centenas de copos adiante na fileira, a água causará na maioria das pessoas uma leve dor de barriga. Se continuarmos o bastante seguindo a fileira, beber da água fará com que todos fiquem mortalmente doentes e finalmente, a água estará tão perigosa que qualquer pessoa que dela beber certamente morrerá.

Se estivermos com sede, de onde, nesta fileira, escolheremos beber? Não beberemos a água mais pura possível? Seria muito esperto de nossa parte ver quão longe podemos ir na fileira de copos, provando a água cuidadosamente, para que encontremos um lugar do qual beber, onde a água nos deixa apenas um pouco doentes? Não seria um princípio sólido bebermos a água mais pura que pudermos?

Quero aplicar esta ilustração à música, e imagine toda a música em uma grande variedade, indo do muito bom ao muito ruim, em incrementos infinitamente pequenos. Em um extremo está a música que é pura e sadia, música que vem como um dom de Deus, música que pode ser usada para elevar e enobrecer os seres humanos. E no outro extremo está a música que é equivalente a veneno puro, música cujo consumo causará morte espiritual.

Da mesma maneira que escolheríamos a água para beber, não deveríamos escolher a música que provêm da variedade musical, mas que seja claramente segura? E seria muito inteligente por parte de um cristão comprometido, ver quão perto do que é ligeiramente mau ele pode ir e ainda sobreviver espiritualmente?

Anteriormente neste artigo tentei mostrar que na guerra espiritual que chamamos de O Grande Conflito, Satanás usará qualquer coisa que possa para levar à ruína espiritual tantas pessoas quanto seja possível. Sendo ele o mestre do engano, se estivesse tentando passar adiante dinheiro falsificado (para mudarmos a metáfora) seria mais provável que ele tentasse comprar alguma coisa com uma nota de R$ 20,00 que seja perfeitamente impressa ou com uma nota de R$ 20,00 do jogo Banco Imobiliário? Não esperaríamos que um especialista como Satanás gastaria pouco tempo com falsificações grotescas, [mas se esforçaria para conseguir] reproduções brilhantes?

Sendo assim, como ele usaria a música para nos destruir? Considerando seu poder de engano, é lógico presumirmos que ele se aproximaria da maior parte dos cristãos com o veneno puro da pior música possível? Não é muito mais provável que ele venha a nós com uma música que pareça ser segura – mas que na realidade ainda tem veneno moral suficiente para nos destruir, caso seja usada de forma habitual?

Meu apelo é para que, ao fazermos escolhas musicais, pensemos sobre este grande quadro [do Conflito] e as maneiras pelas quais Satanás opera. Sem dúvida, mesmo cristãos maduros poderão discordar sobre onde, exatamente, fica a linha além da qual nada é seguro. Esta deve ser uma decisão que cada pessoa deve tomar por si mesma com base e estudo cuidadoso, bom senso, conselho de outros cristãos maduros e, mais importante, oração. Mas parece claro para mim que o cristão prudente sempre desejará estar do lado seguro onde houver alguma dúvida – quer estejamos lidando com água ou com música.

Quanto a mim, decidi que devo traçar meus limites quando puder ouvir qualquer coisa, em uma peça de música, que seja característico do jazz, rock ou outras formas de música popular. O que isso quer dizer, especificamente, é: (a) linhas de improvisação típicas do jazz, (b) harmonias características do jazz, (c) ritmos que super-enfatizam a síncope, (d) ritmos que enfatizam o segundo e o quarto tempos [descritos pelos que apóiam a música rock como “ritmos sexuais simulados”], ou (e) movimentos musicais “distintivos”, tais como o baixo do “boogie-woogie” ou as “blue notes”, usadas melodicamente ou harmonicamente. (*)

Dificuldades ao Fazermos Escolhas

Ao concluirmos estes pensamentos sobre fazermos escolhas musicais, precisamos olhar outras facetas desta questão. Há muitos anos atrás o Espírito Santo inspirou Ellen White a fazer os seguintes comentários a respeito de fazer escolhas acerca daquilo que lemos. Poderiam os princípios sugeridos aqui aplicar-se às escolhas que fazemos acerca do que ouvimos?

“Alega-se muitas vezes que a fim de se desviar a juventude das leituras sensacionais e indignas, deveríamos proporcionar-lhes melhor espécie de leitura de ficção. Isso equivale a tentar a cura de um ébrio dando-lhe em lugar de uísque ou aguardente, os intoxicantes mais brandos, como vinho, cerveja ou cidra. O uso destes encorajaria continuamente o desejo dos estimulantes mais fortes. A única segurança para os bêbados, bem como para o homem temperante, é a total abstinência. A mesma regra se aplica ao amante de ficção. Sua única segurança é a total abstinência” (Ellen White,Conselhos aos Pais e Professores, pp. 383-384).

Quando usamos música que é somente “um pouco má” é possível que possamos na verdade estar criando um gosto pela música que é muito pior? O conselho dado acima sugere claramente que isto é verdade. Este princípio não deveria nos guiar ao considerarmos onde cada um de nós traça a sua linha na grande variedade de escolhas musicais?

Creio ser útil considerar, também, algumas das coisas que Jesus disse acerca da dificuldade de fazer boas escolhas, de realmente escolhermos fazer mudanças em nossas vidas.

“Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer? Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.” (João 3:3-5)

Jesus disse que o único caminho para a vida eterna é o caminho do novo nascimento. Exatamente qual imagem esta metáfora sugere? No mínimo, sugere dor e trauma. E, do ponto de vista de uma criança não nascida, também sugere que haverá uma grande ruptura no “estilo de vida” experimentado até o momento. Se lhe fosse permitido escolher, qual feto não preferiria o calor, o conforto e a segurança da permanecer exatamente onde está, ao invés de ser expulso para um mundo frio, barulhento e perturbador? Porém, a única alternativa segura envolve uma mudança radical, sem a qual a vida em breve terminaria. Para o não nascido, é ou mudar ou morrer; para o cristão, deve ser a mesma coisa.

“Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que vá todo o teu corpo para o inferno.” (Mateus 5:29-30)

Estes versos, embora claramente não devam ser tomados literalmente, ensinam a mais profunda lição. Parece claro que Jesus está tentando nos dizer que o problema do pecado é mais sério do que geralmente o consideramos. Ele quer que compreendamos que fazer escolhas espirituais envolve potencialmente o que pode parecer como um tipo de “mutilação” pessoal.

“Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me;” (Mateus 16:24)

Para os cristãos do século 21 a imagem da cruz é com freqüência um símbolo de conforto e paz; para os ouvintes de Jesus, no primeiro século, ela era uma imagem de grande sofrimento e uma morte lenta. Para apreciarmos o impacto que este texto tem em nosso processo de fazermos escolhas, devemos tentar nos colocar no passado, no tempo em que as crucifixões podiam ser vistas em todo o seu horror. Foi para pessoas que tinham uma experiência completa deste tipo de coisas que Jesus declarou que o discipulado requer a aceitação voluntária deste tipo de morte. O custo do discipulado ainda é o mesmo hoje, e fazermos boas escolhas pode freqüentemente ser visto como tão difícil quanto as exigências da crucifixão.

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me.” (Mateus 19:21)

O príncipe jovem e rico veio a Jesus perguntando sobre a vida eterna. Os discípulos, que teriam valorizado grandemente a comunhão de tal homem, devem ter ficado chocados além da conta quando ouviram as exigências que Jesus colocou. O texto deixa claro que isto era mais do que apenas uma sugestão quando o relato declara que o homem “retirou-se triste”. Ele ficou triste porque compreendeu que não havia outra opção se ele queria seguir a Jesus. Para o cristão moderno, algumas das escolhas que podemos precisar fazer também podem ser de tal ordem que seremos tentados a nos retirar tristes, quando compreendemos o que está realmente em jogo.

“Se alguém vier a mim, e não aborrecer a pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos e irmãs, e ainda também à própria vida, não pode ser meu discípulo.” (Lucas 14:26)

Neste texto Jesus usa mais uma vez a hipérbole. Este modo de expressão, este exagero, deve nos impressionar com a necessidade de fazermos escolhas que podem parecer nos custar a própria vida (temporal). Sem esta atitude, Jesus disse que “não podemos” ser Seus discípulos.

Ellen White nos deixou um testemunho pessoal sobre a dificuldade de fazer escolhas em sua vida. Não deveria ser difícil fazermos aplicações para a nossa própria vida, quando consideramos fazer escolhas musicais.

“Ao fazer essas mudanças em meu regime, recusava-me a ceder ao paladar, deixando que ele me governasse. … Eu era grande comedora de carne. Mas, quando desfalecida, punha os braços sobre o estômago, e dizia: “Não provarei um bocado. Hei de comer alimento simples, ou não comerei absolutamente.” O pão me era insípido. Mal podia comer um pedaço do tamanho de uma moeda de um dólar. Algumas coisas na reforma eu podia suportar muito bem; mas quando chegava ao pão, sentia-me especialmente antagônica. Ao fazer essas mudanças, tive combate especial a travar. As primeiras duas ou três refeições, não me foi possível comer. Disse a meu estômago: “Hás de esperar até que possas comer pão.” Dentro em breve pude comê-lo, e pão integral também” (Ellen White, Testemunhos Para a Igreja, Vol. 2, pp. 371-372).

É possível que os cristãos que querem seguir a Jesus mais do que qualquer coisa na vida possam necessitar “por os braços” contra seus ouvidos e declarar que não ouvirão música alguma até que possam ouvir àquela que Jesus lhes mostra ser segura?

Encerro com o relato de uma visão impressionante, dada há cerca de 100 anos atrás, que coloca as questões que levantei em uma luz mais significativa.

“As coisas eternas têm pouco peso para a juventude. Anjos de Deus choram quando registram palavras e atos de professos cristãos. Adejam anjos em torno de uma habitação além. Jovens estão ali reunidos, ouvem-se sons de música em canto e instrumentos. Cristãos acham-se reunidos nessa casa; mas que é que ouvis? Um cântico, uma frívola canção, própria para um salão de baile. Vede, os puros anjos recolhem para si a luz, e os que se acham naquela habitação são envolvidos pelas trevas. Os anjos afastam-se da cena. Têm a tristeza no semblante. Vede como choram! Isto vi eu repetidas vezes pelas fileiras dos observadores do sábado” (Ellen White, Testemunhos Para a Igreja, Vol. 1, p. 506).


Nota do Tradutor

(*) Temos que compreender que, ao citar em sua aplicação apenas elementos do jazz e do rock, o autor está falando de seu contexto cultural, na sociedade americana. Quando ele cita “ou outras formas de música popular”, podemos fazer a aplicação para o nosso contexto, traçando os nossos limites com relação às músicas tipicamente brasileiras como samba, forró, axé, pagode, entre outras. (voltar)


Parte 1.3 – Fazendo Escolhas   Parte 2 – Música de Adoração

Fonte: International Adventist Musicians AssociationMusic In WorshipChristians and Music

Traduzido por Levi de Paula Tavares em Novembro/2009